terça-feira, 7 de março de 2017

Guiné 61/74 - P17111: Recordações da CART 2520 (Xime, Enxalé, Mansambo e Quinhamel, 1969/71) (José Nascimento) (11): Enxalé, a outra margem do Geba


José Nascimento, um olhar sobre o Geba


1. Mensagem do nosso camarada José Nascimento (ex-Fur Mil Art, CART 2520, Xime, Enxalé, Mansambo e Quinhamel, 1969/71) com data de 27 de Fevereiro de 2017:


ENXALÉ, A OUTRA MARGEM DO GEBA


O Enxalé começou a fazer parte da zona operacional do Xime e da CART 2520 em outubro de 1969. O rio Geba separava estes dois aquartelamentos, assim como uma bolanha intransponível na época das chuvas, portanto com um elevado grau de dificuldade para se estabelecer a ligação entre as duas unidades.

A travessia do Geba era uma completa aventura e dependia sempre da maré cheia, podia-se fazer esta cambança a bordo do  Sintex ou pelas pirogas manobradas por um indígena, cujo remo situado na sua popa servia de força propulsora e simultaneamente de leme.

Ao 3.º pelotão da CART 2520 também  coube a missão de permanência no Enxalé. No segundo dia após a nossa chegada, o alferes Lapa que foi em substituição do comandante de pelotão, o alferes Marques, regressou ao Xime, ficando o pelotão apenas com dois graduados, os furriéis Nascimento e  [Rentao] Monteiro, passando o comando para o mais "velho" destes elementos, que era eu.

Este destacamento era constituído por um aglomerado de antigas casas, pertença de um fazendeiro que se refugiou em Bissau com o eclodir da guerra. Este fazendeiro era possuidor de uma destilaria de cana de açúcar, que foi totalmente destruída, restando apenas alguma sucata [, o Pereira do Enxalé, pai da nossa amiga, grã-tabanqueira Maria Helena Carvalho]. Havia uma tabanca com seis centenas de moradores, composto maioritariamente por balantas e mandingas, cabendo a nós,   militares,  fazer a sua protecção de possíveis ataques do PAIGC, o que chegou a acontecer no dia 10 de Fevereiro de 1970, dia de Carnaval.

Quando se ouviram os primeiros disparos, já a noite havia caído, também eu disparo numa corrida a sete pés para o abrigo mais próximo, só que assim que saio dos meus aposentos ouço o rebentamento de uma granada de RPG7, num mergulho à peixe atiro-me ao chão entre uns bidões cheios de terra, que eventualmente nos protegiam dos projécteis do IN. Um dos estilhaços ainda em brasa, caprichosamente veio estacionar a um palmo do meu nariz. Enceto nova corrida até ao abrigo da Breda, penso ter batido o recorde mundial dos 30 metros. Já agarrado à Breda, chega o "Espanhol" e berra:
- Deixe isso comigo,  meu furriel, fazendo de seguida umas rajadas que ajudaram o IN a ir jogar ao Carnaval para um outro lado.

Resultou deste ataque: ferimentos com alguma gravidade na perna de uma habitante, outro elemento da população perdeu uma mão e um rapaz sofreu ferimentos ligeiros. Todos foram evacuados de héli para Bissau no dia seguinte. Arderam também várias tabancas.



Enxalé após o ataque


No dia anterior a este ataque, decorreu na outra margem do Geba, a operação Boga Destemida [, em 9 de fevereiro de 1970,] na qual as nossas tropas sofreram uma brutal emboscada na zona de Gandagué Beafada por parte do inimigo, sendo perfeitamente audível à distância em que nos encontrávamos, o matraquear das armas de fogo e o rebentamento de granadas.

Sabendo via rádio da gravidade da situação, solicito para ser transportado para a margem esquerda do rio, a fim de poder dar a minha ajuda no que fosse possível. Na enfermaria presto a minha colaboração ao furriel enfermeiro Augusto Costa, o ferido que mais me impressionou e que seria evacuado para Bissau, juntamente com outros elementos, foi o furriel Pestana, as suas costas estavam rasgadas por estilhaços de granada, numa das feridas cabia perfeitamente um dos meus punhos fechados. Este camarada jamais regressaria para a CART 2520, recuperou, mas as mazelas ficaram para sempre a marcar o seu corpo e o seu espírito.

Quando passava uma guia de livre trânsito para um dos habitantes da tabanca se deslocar a Bissau, o chefe de tabanca dos mandingas falou em francês, fiquei surpreendido e perante a minha pergunta porque falava naquela língua respondeu-me que tinha estudado no Senegal antes da guerra começar, mais perplexo ainda fiquei.

Com uma frequência quase diária, um puto da tabanca com cerca de 10 anos, de uma tez muito clara, vinha conversar connosco e fazer-nos alguma companhia, nós em troca demos-lhe a nossa amizade. Para ti,   Dingue, se ainda pertenceres ao número dos vivos, aqui vai um fraterno abraço.


Com o amigo Dingue


Era normal os nossos militares darem uns tirinhos à caça das rolas, quando o faziam na zona frontal ao destacamento virada para bolanha, não havia qualquer problema,  mas nas traseiras da tabanca isso representava algum perigo e foi o que aconteceu com o nosso apontador de metralhadora, de caçador ia sendo caçado. Valeu-lhe o seu sangue frio e coragem, que ao aperceber-se de que alguns guerrilheiros se preparavam para lhe deitar a luva, sacou de uma granada de mão e lá vai disto, escapando-se de imediato para o quartel e desta maneira o Martins deixou de ser um possível prisioneiro de guerra nas mãos do PAIGC e de fazer um passeio turístico até Conakri.

De vez em quando chegavam mensagens codificadas vindas do Xime, que eu decifrava através do Codoper, com ordens para montar uma emboscada ou fazer um patrulhamento a determinado local. Eu falava baixinho com os meus botões, capitão Maltez cá tem cabeça. Temos que assegurar a protecção do destacamento e da população, como é que vamos montar uma emboscada com meia dúzia de gatos pingados? Na volta do correio eu respondia: "montada" emboscada ou  patrulhamento "efectuado".

E assim se passaram dois meses com relativa tranquilidade, mas com muitas dificuldades. Matar a fome às nossas barriguinhas não foi tarefa fácil. Receber e enviar correspondência por vezes demorava mais de uma semana. O isolamento era enorme, os nossos contactos com o mundo exterior só eram possíveis através do Xime e com o Xime foi muito difícil e arriscado devido à travessia do rio. Cada vez que passava de uma margem para outra, pensava sempre que algum dia poderia servir de pequeno almoço a um qualquer jacaré se na eventualidade acontecesse algum incidente e a nossa embarcação nos mandasse a banhos.  Neste espaço de tempo só eu e mais dois ou três elementos do pelotão é que saímos do Enxalé até à sede da Companhia.



Enxalé

Fotos: © José Nascimento (2017). Todos os direitos reservados

Para todos os nossos camaradas de armas um grande abraço.
José Nascimento
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Nota do editor

Último poste da série de 19 de novembro de 2016 > Guiné 63/74 - P16737: Recordações da CART 2520 (Xime, Enxalé, Mansambo e Quinhamel, 1969/71) (José Nascimento) (10): A música das nossas vidas: "Isabelle Isabelle Isabelle Isabelle Isabelle Isabelle Isabelle, mon amour"... ou o braço de ferro entre o fur mil Renato Monteiro e o nosso primeiro Vaz, cuja amada esposa se chamava Isabel e vivia a 5 mil km de distância, em Vila Real, Portugal...

4 comentários:

António José Pereira da Costa disse...

Olá camaradas

O Enxalé do meu tempo e, pelos vistos já antes, era um equívoco para dizer pior.
Um Gr. Comb. a guarnecer aquela posição só poderia garantir a sua defesa e tinha que garantir e capacidade de comunicar e de ser reabastecido e apoiado. Claro que poderia colaborar na vigilância do Geba e na protecção da navegação do Geba estreito. No meu tempo estavam lá colocados dois Pel Mil.ª "Especial" (de corrida?) que teoricamente deveriam realizar patrulhamentos e acções ofensivas nas redondezas. Se o faziam ou não, não posso garantir. Da única vez que saímos com eles, demorámos quase duas horas a colocar 2 Gr. Comb. da Companhia do Xime, no Enxalé. E, como é óbvio, sem secretismo nenhum...
Claro que não aconteceu nada. O In(sidioso) estava em black-out como lhe tocava.
Durante aquele tempo o Enxalé foi atacado uma vez com 2 canhões. O ataque foi repelido pela artilharia do Xime e houve a lamentar a morte de um elemento da população. Houve também, uns dias antes, um elemento da pop. que accionou uma mina A/C que o pulverizou. Foi algo de estranho que não entendi... mas as relações que eu tinha com o BArt.ª não eram nada boas e era o Of Info/Op que pilotava estes processos. Por isso, ficámos por ali. Claro que eu tinha as minhas ideias, mas isso já são (seguramente outros mitos, outras lendas e) outros caminhos da História.

Um Ab.
António J. P. Costa

Tabanca Grande disse...

Enxalé / Inshallah / Oxalá!!!...

O que nós lá penámos, por essas terras do Enxalé e do Cuor e do Oio (Madina / Belel, Sara...)...

https://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/search/label/Op%20Tigre%20Vadio


Enxalé e Oxalá (e o espanhol Ojalá) vêm do árabe In šāʾ Allāh (em árabe: إن شاء الله, leia-se: ʃæʔ ʔɑlˤˈlˤɑːh)... Se Alá Quiser, ou Deus queira, ou se a sorte nos proteger...

O nosso deus não quis... Se calhar não era o mesmo... Ou fomos nós que não fomos suficientemente crentes... Ou confiámos demasuiado na sorte, eu sei lá!...

Pretexto para uma homenagem à Teresa Saklgueira e aos Madredeus (Álbum Antologia, 2000):


Oxalá

Oxalá, me passe a dôr de cabeça, oxalá

Oxalá, o passo não me esmoreça;

Oxalá, o Carnaval aconteça, oxalá,

Oxalá, o povo nonca se esqueça;

Oxalá, eu não ande sem cuidado,

Oxalá eu não passe um mau bocado;

Oxalá, eu não faça tudo à pressa,

Oxalá, meu Futuro aconteça.

Oxalá, que a vida me corra bem, oxalá

Oxalá, que a tua vida também;

Oxalá, o Carnaval aconteça, oxalá

Oxalá, o povo nunca se esqueça;

Oxalá, o tempo passe, hora a hora,

Oxalá, que ninguém se vá embora,

Oxalá, se aproxime o Carnaval,

Oxalá, tudo corra, menos mal.

https://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/search/label/Op%20Tigre%20Vadio

Tabanca Grande disse...

Bolas, o Renato Monteiro, o meu amigo de Contuboel, o homem da piroga (!), ali tão perto, contigo no Enxalé, e eu a levar a porrada, a gente a levar porrada, a tua CART 2520 e a minha CCAÇ 12 do outro lado do Geba!... Só vim a descobrir 40 anos depois!...

Com que então o Renato ainda estava contigo, no Enxalé, em fevereiro de 1970!... E se calhar em março de 1970, aquando da Op Tigre Vadio, quando fomos a Madina / Belel, já no Oio..Três dias, a mais dramática operação eu que fiz (,que não a mais trágica, essa foi a Op Abencerragem Candente)... Cjeguei, chegámos ao Enxalé, feitos em merda!... Devo ter perdido 4 a 5 quilos, na Op Tigre Vadio...

Op Boga Destemida!... 2ª feira de Carnaval, 9 de fevereiro de 1970!... Nunca a esquecerei, como de resto todas as outras em que eembrilhei, embrulhámos, forte e feio...

https://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/search/label/Op%20Boga%20Destemida

José Nascimento disse...

Luis, na Operação Tigre Vadio, o Renato Monteiro ainda estava no Enxalé e continuou com o pelotão que nos rendeu. Nessa altura é que ele fartou-se de trabalhar porque o furriel do 2º pelotão empurrava tudo para cima dele. Lembro-me de uma vez em que a CCAÇ 12 chegou ao Enxalé vinda de uma operação, estavam todos rebentados, principalmente o capitão Brito, ainda não tinha posto os pés no aquartelamento já estava a nos pedir água.
Um abraço.