segunda-feira, 22 de agosto de 2022

Guiné 61/74 - P23545: Memória dos lugares (443): Cacine e a "autoestrada" do rio Cacine que, na preia-mar, era um rio azul digno de um qualquer cartaz turístico daqueles locais chamados de sonho (Armindo Batata, ex-alf mil, cmdt do Pel Caç Nat 51, Guileje e Cufar, 1969/70)

 

Guiné > Região de Tombali > Cacine > CCAÇ 1620 > 1967>  O fur mil Manuel Cibrão Guimarães, frente à capela militar de Nª Sra. de Fátima, construída ao tempo da CART 496, em 13/5/1964 e provavelmente completada pela CCAÇ 799, um ano depois (10/6/1965)... O Cibrão Guimarães está vestida com uma "sabadora" (peça principal do traje masculino dos muçulmanos) e um gorro, fula, na cabeça... A peça do vestuário tem a particularidade de ser feita com sacos de farinha de panificação ("ofício" a que sempre esteve ligado: o pai era industrial de panificação; e ele daria continuidade ao negócio até se reformar; natural de Avintes, Vila Nova de Gaia, mora em Rio Tinto, Gondomar; é pai de duas filhas, a esposa, licenciada em farmácia e professsora do ensino secundário, também está reformada). (*)

Foto (e legenda): © Manuel Cibrão Guimarães (2018). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

Guiné > Região de Tombali > Rio Cacine > De Cacine, a caminho de Gadamael > c. 1970 > O alf mil médico Amaral Bernardo esteve na CCAÇ 2726, uma companhia independente, açoriana, que guarneceu Cacine (1970/72). Amaral Bernardo pertencia  à CCS/BCAÇ 2930 (Catió, 1970/72), e passou cerca de um ano (1971) em Bedanda (CCAÇ 6).(**)

Foto (e legenda): © Amaral Bernardo (2011) . Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

Guiné > Região de Tombali > Cacine > Pel Caç Nat 51 > Dezembro de 1969 > Local do nosso desembarque em Cacine, com LDM (à esquerda) e uma AML  à direita [Junto à AML, o alf mil Armindo Batata, comandante do Pel Caç Nat 51].

Guiné > Região de Tombali > Cacine  >   Pel Caç Nat 51 > Dezembro de 1969 >A ponte cais ao fundo e a messe e bar de sargentos à direita. A messe, bar e alojamentos dos oficiais era do lado opsto,  donde tirei a fotografia. O acesso à ponte cais, era uma agradável avenida ladeada de palmeiras.


Guiné > Região de Tombali > Cacine  > Pel Caç Nat 51 > Dezembro de 1969 >  Praia a jusante da ponte cais onde desembarcámos das LDM, durante a noite, vindos de Gadamael Porto, (***)

Foto (e legenda): © Armindo Batata (2007) . Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar:  Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

Guiné-Bisssau > Região de Tombali > Setor de Cacine > Cacine, na margem esquerda do Rio Cacine > 2 de Março de 2008 > Simpósio Internacional de Guileje (Bissau, 1-7 de Março de 2008) > Visita dos participantes ao sul > Por aqui passou a CART 1692... Esta tosca placa em cimento, delicioso vestígio arqueológico dos "tugas", diz-nos que em dois dias, de 16 (início) a 18 de Abril de 1968 (término), foi construído este abrigo, em tempo seguramente recorde, a avaliar pelas "60 bebedeiras neste priúdo (sic)... Trabalho Rápido". Estão também gravados dois topónimos portugueses, Nisa e Alenquer, afinal alcunhas de dois militares da CART 1692 que, nas horas vagas, eram trolhas, segundo informação do cor art ref António J. Pereira da Costa, que conheceu estas paragens como ninguém: esteve lá como ex-alf art,  CART 1692/BART 1914, Cacine, Sangonhá, Cameconde, 1968/69, antes de voltar ao CTIG como capitão ) em 1972/74) (***)

Guiné-Bissau > Região de Tombali > Cacine > 2 de março de 2008  >  Visita no âmbito do Simpósio Internacional de Guiledje (Bissau,  1-7 março de 2008) > O Silvério Lobo junto a uma "bunker", construído pelas NT em cimento armado (seguramente pelo BENG  447). (****)


Bissau > Região de Tombali > Cacine > 2 de Março de 2008 > Visita dos participantes do Simpósio Internacional de Guileje > Os tugas de volta a Cacine, outrora um importante baluarte no sistema de defesa do Rio Cacine contra as infiltrações e ataques do PAIGC. Foi sede do Destacamento de Fuzileiros Especiais 22.  

Cacine era, em 2008, uma terra com ar desolado e decadente. Tímhamos partido,  de Cananima, do outro lado do rio, num barco de pesca, depois de um belíssimo almoço onde não faltou o saboroso e fresquíssimo peixe local. Embarcados, éramos um grupo de 30 participantes do Simpósio. O Pepito, o nosso "capitão de mar-e-guerra",  ficou em terra a planear as eventuais operações de socorros a náufragos. Regresso ao barco, depois de uma duas horas em Cacine: em primeiro plano, o jornalista do Correia da Manhã, o único jornalista português presente no SimpósioInternacional de Guileje, José Marques Lopes, seguido da Júlia, esposa do coronel art ref Nuno Rubim , e da jornalista e cineasta Diana Andringa, os dois últimos, membros da nossa Tabanca Grande.(****)

Fotos (e legendas): © Luís Graça (2008) . Todos os direitos reservados [Edição:  Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

1. Sobre a sua curta estadia em Cacine, em dezembro de 1969 e janeiro de 1970, em trânsito para Cufar, escreveu o ex-alf mil Armindo Batata, comandante do Pel Caç Nat 51 (Guileje e Cufar, 1969/70) (tem 18 referências no nosso blogue):

(...) Os Pel Caç Nat 51 e 67, este de comando do alf mil Esteves, passaram por Cacine  (*****) em Dezembro 1969/Janeiro 1970, em trânsito para Cufar. O Pel Caç Nat 67 tinha guarnecido o destacamento do Mejo até à evacuação desta posição em janeiro de 1969.

O deslocamento de Guileje para Cufar teve um primeiro troço em coluna de Guileje para Gadamael Porto. Prosseguiu em LDM para Cacine onde aguardámos a formação de um comboio fluvial. Chegámos a Cacine já a noite tinha caído. Desembarcámos na praia,  a jusante da ponte cais, com 1 ou 2 AML a fazerem a segurança e iluminados por viaturas.

Os militares nativos "espalharam-se" com as familias e haveres pelas tabancas de acordo com as respectivas etnias. Nessa noite dormi num quarto com aspecto de quarto, que até tinha mesa de cabeceira e, paredes meias, uma casa de banho que, para meu grande espanto, tinha um autoclismo, daqueles de puxar uma corrente; que maravilha tecnológica!.

Ficámos uns dias, não me lembro quantos, mas deu para eu ir a Cameconde, numa das colunas que se efectuavam diariamente (?). Tenho de Cameconde a imagem de uma fortaleza em betão, daquelas fortalezas dos livros da escola, a que só faltavam as ameias. Quem por lá andou me corrija por favor esta imagem, se for caso disso.

Deu também para umas passeatas no rio Cacine. Mas só na preia-mar, quando era um rio azul digno de um qualquer cartaz turístico daqueles locais chamados de sonho. Depois vinha a baixa-mar e o cartaz turístico ficava cinzento. E naquele tempo era quase sempre baixa-mar.

Num fim de tarde, as marés a isso obrigaram, embarcámos nas LDM e ficámos fundeados a meio do rio Cacine em companhia do NRP Alvor, que nos iria comboiar até Catió. O 2º tenente da RN, comandante do NRP Alvor, convidou-nos, a mim e ao alferes Esteves, para bordo e entre umas (muitas) cervejas e não menos ostras, passámos a noite. A hospitalidade habitual da Marinha.

As embarcações suspenderam o ferro com o nascer do sol (exigências da maré) e lá seguimos para Catió. No último troço da viagem, já o rio era mais estreito, portanto já não era o Cacine, fomos acompanhados por T6 no ar e fuzileiros em zebros a vasculharem o rio, já que tinha havido, recentemente, um qualquer "conflito" entre uma embarcação e uma mina. Nada se passou, e o fogo de reconhecimento para as margens, a partir das LDM, não teve resposta.

Não houve incidente algum portanto, mas a viagem foi um bocado complicada, em termos logísticos. Um pelotão de nativos integra as familias dos militares, os seus haveres e animais domésticos. Família, haveres e animais domésticos que afinal eram o triplo ou quádruplo do inicialmente inventariado. Nos animais domésticos estão incluídos os porcos dos não islamizados, que terão que viajar separados dos islamizados. E a aguardente de cana. E o ... e a mulher do ... e o "alferes desculpa mas não pode ser". Em coluna auto lá se arranjam, mas em LDM não foi fácil. Valeu a paciência dos furrieis, um deles de nome Neves e do 2º sargento (...).

Catió tinha uma estação de correios com telefone para a metrópole, um restaurante daqueles em que se come e no fim se pede a conta e se paga. E pessoas brancas sem serem militares. Um espanto!

O plano inicial era os dois pelotões deslocarem-se por estrada de Catió para Cufar. Esse percurso já não era utilizado há bastante tempo (meses?) e foi considerado de risco muito elevado. Não me lembro dos argumentos avançados, mas acabámos por ir para Cufar por rio (LDM com desembarque em Impugueda no rio Cumbijã ou sintex/zebro com desembarque em Cantone? - não tenho a certeza, pode ser que alguém de mais fresca memória se lembre). (...)

Armindo Batata (Excerto) (****) 

[ Revisão / fixação de texto: LG ]


Guiné > Mapa da província (1961) > Escala 1/500 mil > Posição relativa de Mejo, Guileje, Gadamael Porto, Cacine, rio Cacine, rio Cumbijã, Catió e Cufar, na egião de Tombali, na parte sudeste da Guiné, que faz fronteira com a Guiné-Conacri. Foi este o percurso, por terra e rio, que fizeram em dezembro de 1960 e janeiro de 1970, os Pel Caç Nat 51 e 67. (Vd. texto acima, do Armindo Batata).

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2022).
___________

Notas do editor:



(***) Vd. poste de 27 de outubro de 2012 > Guiné 63/74 - P10582: Álbum fotográfico de Armindo Batata, ex-comandante do Pel Caç Nat 51 (Guileje e Cufar, 1969/70) (9): Ainda a curta estadia em  Cacine, a caminho de Cufar,  em dez 69 e jan 70


(*****) Último poste da série > 20 de agosto de 2022 > Guiné 61/74 - P23540: Memória dos lugares (442): Rio Cacine, Cafal, Cananima, ontem e hoje

9 comentários:

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Navegar nos rios do sul, Cacine e Cumbijã, devia ser uma pequena grande aventura, nesse tempo (finais de 69/ princípios de 70)...E para mais dois pelotões de caçadores nativos, com a "mobília às costas", vindos de Mejo e Guileje, a caminho de Cufar...

António J. P. Costa disse...

Olá Camaradas

Os dois "topónimos" inscritos na lápide no abrigo construído pela CArt 1692 são a alcunhas dos dois pedreiros que neles trabalharam: "Nisa" e "Alenquer". Dois homens do mesmo Gr. Comb. que. quando estavam no quartel trabalhavam na sua arte.
Na avenida central, junto ao cais havia e parece que ainda há grandes palmeiras. Para lá da porta-de-armas começavam os "mangueiros" que davam "mangos" de óptima qualidade.
Curiosa aquela imagem da AM Daimler, por alcunha popular, "Tartaruga".

Um Ab.
António J. P. Costa

Alberto Branquinho disse...


Porque o post se reporta a acontecimentos - também - de 1970, parece-me que deveriam ter sido assinalados no mapa GANDEMBEL e seu destacamento de PONTE BALANA (1968/69), que se situavam a norte de Guilege, no cruzamento da estrada com o Rio Balana.

Alberto Branquinho

António J. P. Costa disse...

Olá Camaradas

No mapa podemos assinalar Gandembel e Ponte do Balana que rapidamente desapareceram. Duraram cerca de 10 meses. Antes tinham desaparecido Sangonhá e Cacoca, ainda em 1968 assim como Ganturé. Mejo também não durou muito e depois, com um dispositivo tão rarefeito e sem entreajuda... bem, mas isso "já são outros factos, outras lendas e outros caminhos da História"...

Um Ab.
António J. P. Costa

Antº Rosinha disse...

De facto o termo autoestrada está bem aplicado aos rios Buba, Cumbijã e Cacine.

E como na Guiné há muita tradição naquele movimento fluvial, facilmente as canoas e pequenas embarcações suplantam as chamadas candongas, carrinhas a abarrotar de gente e cabritos e galinhas e arroz.

Cumprindo bem com os horários das marés aquilo funciona muito melhor que com as estradas.

Não há manutenção de valetas, pontes, asfalto com buracos, apenas manutenção de rampas como enxude, cais de acostamento como o de Cacine por exemplo e pouco mais coisas.

Tem que haver o cuidado com as marés que na Guiné têm uma amplitude enorme e na maré vazia é aquela lodo com dezenas ou centenas de metros para chegar ao firme.

E navegar com maré baixa é desagradável, naqueles canais que dão uma sensação de profundidade que até causa claustrofobia.

Consta que há ou houve uma companhia espanhola a querer pôr esses rios e os Bijagós a "navegar" a sério.

Antº Rosinha disse...

De facto o termo autoestrada está bem aplicado aos rios Buba, Cumbijã e Cacine.

E como na Guiné há muita tradição naquele movimento fluvial, facilmente as canoas e pequenas embarcações suplantam as chamadas candongas, carrinhas a abarrotar de gente e cabritos e galinhas e arroz.

Cumprindo bem com os horários das marés aquilo funciona muito melhor que com as estradas.

Não há manutenção de valetas, pontes, asfalto com buracos, apenas manutenção de rampas como enxude, cais de acostamento como o de Cacine por exemplo e pouco mais coisas.

Tem que haver o cuidado com as marés que na Guiné têm uma amplitude enorme e na maré vazia é aquela lodo com dezenas ou centenas de metros para chegar ao firme.

E navegar com maré baixa é desagradável, naqueles canais que dão uma sensação de profundidade que até causa claustrofobia.

Consta que há ou houve uma companhia espanhola a querer pôr esses rios e os Bijagós a "navegar" a sério.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Branquinho, Gandembel e Ponte Balana merecem todo o nosso respeito, são dois lugares que não podem ser riscados das nossas memórias da Guiné. Estive lá de resto em 1 de março de 2008, em simbólica homenagem aos que lá combateram e morreram, no ânbito do Simp+osio Internacional de Guile (Bissau, 29 de fevereiro - 7 de março de 2008).

https://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/2008/03/guin-6374-p2639-uma-semana-inolvidvel.html

Gandembel tem mais de 200 referências no nosso blogue..

https://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/search/label/Gandembel

A infografia a que te referes só sinaliza o percurso que fez o Armindo Batata e o seu Pel Caç Nat 51 (bem como o 67), em dezembro de 1969 e janeiro de 1970, com uma curta estadia em Cacine... Partiram de Mejo e Guilehe, com destino a Cufar.

Gandembel e Ponte Balana, como sabes, não chegaram aos nove meses de existência (abril de 1968 / janeiro de 1969).

Mas, tens razão, não podemos esquecer estes topónimos do teu/nosso martirológio.

Anónimo disse...

Pf alguém explique o que é uma «preia-mar»...

Carlos Vinhal disse...

Caro anónimo, a preia-mar ou praia-mar ou maré cheia ou maré alta, é o nível mais alto do mar, medido localmente já que não acontece à mesma hora nem na mesma amplitude ao longo da costa.
Por outro lado, o nível mais baixo da maré é conhecido por maré baixa ou maré vaza ou baixa mar.
Carlos Vinhal
Coeditor