quarta-feira, 24 de agosto de 2022

Guiné 61/74 - P23552: Meu pai, meu velho, meu camarada (68): Lembrando, no centenário do seu nascimento, a popular figura do lourinhanense Luís Henriques, o “Ti Luís Sapateiro” (1920-2012) - Parte VII

 

Cabo Verde > Ilha de São  Vicente > Mindelo > 9/11/2012 > 11h11 >  Baía do Porto Grande e Monte Cara, ao fundo.

Cabo  Verde > Ilha de São  Vicente > Mindelo > 9/11/2012 > 14h45 > Praia da Lajinha, porto e Ilhéu dos Pássaros, e a silhueta da Ilha de Santo Antão ao fundo.


Cabo  Verde > Ilha de São  Vicente > Mindelo > 9/11/2012 > 12h59 > O calçadão da Praia da Lajinha.

Cabo  Verde > Ilha de São  Vicente > Mindelo > 9/11/2012 > 12h11 >  Edifício da Câmara Municipal (trasnformado em hospital militar em 1941, com a chegada de tropas expedicionárias)

Cabo  Verde > Ilha de São  Vicente > Mindelo > 9/11/2012 > 16h45 > Rua típica, de traça colonial, com vendedeiras ambulantes.


Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Mindelo > 9 de novembro de 2012 >  Algumas das fotos do álbum de João Graça, que passou por aqui, e passeou pela "capital da morabeza", em trânsito para a Ilha de Santo Antão, com a sua banda, os Melech Mechaya, por ocasião do Festival Sete Sóis Sete Luas

Mindelo, cidade cosmopolita com uma arquitetura  de toque colonial que reflete a influência portuguesa e inglesa, é a capital cultural de Cabo Verde, a terra da Cesária Évora, B.leza, Bana, Luís Morais, Tito Paris,  Bau, e de outros grandes músicos e cantores, terra da morna, da coladera, do funaná, do festival da Baía das Gatas... Terra que faz parte do imaginário da minha infância e à qual nunca cheguei a ir... Foi lá o João por mim, e pelo avô... em 2012. Espero ainda lá poder  ir um dia, mesmo sem o meu pai que amou tanto aquela terra... (LG)


Fotos (e legendas): © João Graça (2012). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

Ao João, 
que foi visitar o avô Luís Henriques (1920-2012)
ao Mindelo,
em 9 de novembro de 2012,
seis meses depois da sua morte.


Ouço os passos do meu avô,
arrastando as botas cardadas
ao longo do calçadão da Praia da Lajinha.
E, mais atrás, vislumbro
a sombra frágil do seu impedido, o Joãozinho,
que há-de morrer, meses mais tarde,
por volta de junho de 1943.
De fome. Da grande fome.

Ouço a voz do dr. Baptista de Sousa,
diretor do hospital:
- Então, ó nosso cabo,
há quantos meses é que estás na ilha ?
- 26 meses, meu capitão.
- Eh!, pá, estás farto de engolir pó,
vou te já mandar p'ra casa!

Ouço o meu avô falar, em verso,
em certas noites de luar,
com o Monte Cara,
a Baía do Porto Grande,
e o Ilhéu dos Pássaros.

Ouço o meu avô perguntar
ao Fortunato Borda d'Água
enquanto lhe escreve mais uma das suas cartas
às suas namoradas:
- Ó Fortunato, afinal, de quem é que tu gostas mais ?
Da que ri ou da que chora ?

Vejo uma multidão de gente,
portugueses, africanos, ingleses,
erguer-se do Monte Verde,
abraçar a ilha
e cantar uma morna
à doce e mágica cidade do Mindelo.

Luís Graça

Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Mindelo > 1942 > "A antiga cãmara [municipal] de Mindelo que hoje é hospital de soldados. Julho de 1942. Luís Henriques". [É hoje de novo, o edifício da Câmara Municipal do Mindelo]

 

Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Mindelo > Hospital de São Vicente, fundado em 1899, no reinado do Rei Dom Carlos I (1889-1908). Foto do álbum do expedicionário, 1º Cabo Luís Henriques, nº 188/41. Foto; arquivo da família

Fotos (e legendas): © Luís Graça (2020). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Título de caixa alta do “Diário de Lisboa”, 3 de setembro de 1945.



7. Continuação da "história de vida" de Luís Henriques (Lourinhã, 18/8/1920 – Atalaia, Lourinhã, 8/4/2012), conhecido popularmente na sua terra natal como "ti Luís Sapateiro": 
“Morreu o Luís Sapateiro (1920-2012), uma figura muita popular e querida da nossa terra”, lia-se no jornal “Alvorada”, Lourinhã, nº 1103, 20 de abril de 2012, p. 26. 

Assinalando a efeméride do seu centenário, em 202o, o seu filho editou, em pdf,  uma brochura, de cerca de 100 páginas de que temos estado a publicar alguns excertos, ilustrando com maior detalhe  a sua passagem por Cabo Verde,  durante a II Guerra Mundiaçl: foi 1º cabo atirador de infantaria, 3ª Companhia do 1º Batalhão do RI5 (Caldas da Rainha), unidade mais tarde integrada no RI 23 (São Vicente, Cabo Verde), 1941/43) (**).  

De maio a agosto de 1943, esteve hospitalizado, no Mindelo, com problemas pulmonares. De regresso à Lourinhã, em setembro de 1943, vinha "afanado" e cheio de saudades… de comer uvas. 

Depois de passar à disponibilidade, fará sociedade, durante mais de 10 anos, com o seu irmão Domingos Inocêncio Severino.  Abriram a sua própria oficina de sapataria, na Rua Miguel Bombarda, no atual nº 40 (se não erro). Chegam a ter bastantes empregados. Na época ainda não havia produção industrial de calçado. 

Recorde-se que, aos 13 anos, por volta de 1933/34, o meu pai terá uma nova família de acolhimento, a do seu tio materno, Francisco José de Sousa Jr. (de alcunha, “Fofa”), industrial de sapataria e músico, membro da então Banda dos Bombeiros Voluntários da Lourinhã ( atual Banda da AMAL - Associação Musical e Artística Lourinhanense, cujo presidente da direção é um seu neto, Paulo José de Sousa Torres). E é na empresa do tio, na Rua Grande  (R  João Luís de Moura) que aprende o ofício de sapateiro, que era a sua profissão antes da tropa.

O seu pai, e meu avô, Domingos Henriques (que terá nascido na década de 1890), casara 3 vezes: do primeiro casamento, não teve filhos, do segundo teve o meu pai, Luis, e o meu tio (e padrinho) Domingos, do terceiro teve mais mais 11. Com uma família tão numerosa e com as dificudades da época (anos 20/30), tanto o meu pai como  o seu irmão germano acabaram por ser criados pela  família do lado materno (***).

Mas, no verão de 1945, ainda voltará  a ser “chamado para a tropa”, para se integrar no desfile das forças expedicionárias portugueses que se iriam juntar às brasileiras, em Lisboa, em 3 de setembro de 1945. (Não sabemos se chegou a participar nesse desfile, uma vez que entretanto  partiu uma costela quando estava no quartel.)

Recorde-se este episódio, documentado em filme da então SPAC –Sociedade Portuguesa de Actualidades Cinematográfcias, documento hoje guardadoCinemateca Nacional:

(...) No dia 2 de setembro de 1945, aporta ao estuário do Tejo o navio “Duque de Caxias”, levando a bordo um regimento composta 162 oficiais e 1.636 sargentos e soldados, parte da FEB (Força Expedicionária Brasileira) que lutara na Itália, integrada no exército dos Aliados,  na   segunda guerra mundial, vem  do porto de Nápoles com destino final ao Rio de Janeiro .  

No dia seguinte, 3 de setembro de 1945, o Exército Português recebe os bravos militares brasileiros  com um desfile que envolveu mais  de 14 mil  soldados, viaturas militares de diversos tipos,  das armas de  infantaria e cavalaria. A Força Aérea, voando sob  os céus de Lisboa, associou-se ao evento. Milhares de pessoas assistiram entusiasticamente ao desfile.

O regimento expedicionário  brasileiro desfilou igualmente, saindo do Terreiro do Paço,  passando pela Rua Augusta, Rossio, Praça dos Restauradores, e subindo a Avenida da Liberdade até chegar a Praça do Marques de Pombal. Aí o general António Óscar Fragoso Carmona, presidente da república portuguesa, condecorou a bandeira do batalhão de infantaria da FEB com a Medalha de Valor Militar em grau de Ouro, a mais alta condecoração portuguesa.

O “Diário Popular”, desse dia, referiu-se ao evento, em título de caixa alta como “uma epopeia jamais vista em terras lusitanas”. O “Diário de Lisboa”, por sua vez, sublinha que “as tropas brasileiras (…) causaram esplêndida impressão e foram muito aclamadas”.

À noite, houve jantar com fados para oficiais e sargentos,  portugueses e brasileiros, em locais diferentes. Na Feira popular, militares e civis se misturaram numa confraternização  raramente vista em terras lusitanas. (...)


Lourinhã, Praça Cor António Maria Batista > 2 de fevereiro de 1946 > “Just married”, Maria da Graça e Luís Henriques, ela com 23 anos, ele com 25. A boda foi em Peniche, onde o Luís Henriques tinha primos…  Um dos luxos foi a lagosta, que com a II Guerra Mundial e o afluxo de refugiados em Portugal, começava a estar na moda….O casal parece estar junto ao automóvel de aluguer que os levou ao restaurante, em Peniche. 

Foto: arquivo da família.

Luís Henriques casa, entretanto, em 2 de fevereiro de 1946 com a Maria da Graça, natural do Nadrupe,  criada de servir de senhores e senhoras de Lisboa, da Praia e da Lourinhã, desde tenra idade. Namoravam-se  há já uns anos, ainda antes da tropa.  [Foto à direita].

Ela era filha de Manuel Barbosa, natural do Nadrupe, e de Maria do Patrocínio, natural da Lourinhã.  O apelido Graça não é de família: ela nasceu no dia 6 de agosto, dia da festa da padroeira da terra, a N. Sra. da Graça… A última (ou uma das últimas senhoras) onde ela serviu, foi a dona Rosa Costa Pina, professora primária, oriunda das Beiras.


Lourinhã, jardim da Senhora dos Anjos, c. agosto / setembro de 1947: eu, aos 8 meses, ao colo da minha mãe, Maria da Graça (1922-2014) e ao lado do meu pai, Luis Henriques (1920-2012). 

Foto: arquivo da família.


A 29 de janeiro de 1947 nasci eu. E 18 meses depois, a Graciete (que riá casar com o Cristiano Sardinha Mendes Calado,  Alter do Chão, 19/1/1941- Lourinhã, 21/5/2021). 

Até 1964, haverá ainda mais duas raparigas: Maria do Rosário e Ana Isabel.

O Luís Henriques continuará (pelo menos até ao início da década de 1950) a jogar futebol, como atleta amador, e ao mesmo tempo a participar na vida associativa das diversas coletividades da sua terra, desde o SCL - Sporting Club Lourinhanense, até aos bombeiros, a banda de música e a misericórdia e a colegiada de N. Sra.dos Anjos. É mordomo de festas locais (como a da Sra dos Anjos e de São Sebastião).



Lourinhã > c. 1950> Os dois filhos mais velho, Luís Manuel e Graciete. 
O meu pai sempre me tratou do "Lis Manel"

Foto: arquivo da família.



Alcobaça > 2 de julho de 1977 > No casamento da filha Maria do Rosário 
com o Mário Anastácio, filho de Bernardino Anastácio (Toledo, Lourinhã, 28/11/1925 - Lourinhã, 23/8/2017), 
barbeiro, músico, acordeonista. Ao seu lado direito, a filha mais nova, 
Ana Isabel. Na outra ponta, ao lado do noivo, a Maria da Graça.
 Foto: arquivo de família.

(Continua)
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Notas do editor:


(***) Vd. poste de 20 de agosto de 2020 > Guiné 61/74 - P21272: Meu pai, meu velho, meu camarada (62): Lembrando, no centenário do seu nascimento, a popular figura do lourinhanense Luís Henriques, o “Ti Luís Sapateiro” (1920-2012) - Parte I

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