sábado, 2 de julho de 2016

Guiné 63/74 - P16259: Manuscritos(s) (Luís Graça) (86): O Relim Não é um Poema (à memoria do médico Joaquim Vidal Saraiva 1936-2015)


À memória de Joaquim Vidal Saraiva  (1936-2015), ex-alf mil médico (Guileje, Bambadinca e Bissau, 1969/71)


Foto: © Arlindo T. Roda (2010). Todos os direitos reservados . [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Extractos de: História da Unidade: BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/70). Bambadinca: Batalhão de Caçadores 2852. 1970. Cap. II. 145-146.

Op Tigre Vadio

Iniciada em 30 [de Março de 1970], às 7h00, com a duração de 2 dias, para fazer um patrulhamento conjugado com emboscadas e batida na região do Cuor/Madina. Tomaram parte na operação os seguintes destacamentos: (i) Dest A: CCAÇ 2636 a 2 Gr Comb, reforçada pelo Pel Caç Nat 52; (ii) Dest B: CCAÇ 12 a 3 Gr Comb; (iii) Dest C: Pel Caç Nat 54 + 1 Esq Mort 81 / Pel Mort 2106.

Relim:

Op Tigre Vadio terminou 1 [de Abril], 13h00. Regresso quartéis terminado 1, 16h30. Aproximação dificultada partir 31, 8h00 queimada linear feita IN. 31, 14h00, detectado acampamento região Belel (Mambonco 7I4-97) oito moranças com colmo sete adobo.

IN reagiu PPSH e RGPG-2 cerca de 2 minutos, sofrendo 15 (quinze) mortos confirmados, vestígios sangue 10 (dez) feridos graves. Verificado após incêndio acampamento 6 PPSH queimadas.

Destruídos meios vida. NT sofreram 2 feridos ligeiros. Batida Mort 81 mata (Mambonco 8H5- 17) ouvidos muitos gritos de dor. Fuga IN direcção (Mambonco 8G6 -32).

31 [de Março], 17h00 encontrada cadeira vigia e 2 granadas RPG-2 (Bambadinca 1A8-95). Gr[upo] IN estimado 6/8 elementos emboscou NT 2 LGFog, RPG-2 e PPSH cerca de 5 minutos.

IN fugiu reacção NT impossibilitadas perseguição virtude forte ataque abelhas causou diminuição física bastantes elementos. NT tiveram 1 ferido ligeiro e 1 ferido grave, 1 doente grave esgotamento.


Transcrição MSG 1404/C Com-Chefe (Oper): 

COMCHEFE MANIFESTA SEU AGRADO REALIZAÇÃO RESULTADOS OBTIDOS OP TIGRE VADIO.



2. O Relim não é um poema



por Luís Graça



[à memória do médico 
Joaquim António Vidal Saraiva, 1936-2015]




Participaste nesta operação,
a Operação Tigre Vadio,
que era pressuposto durar dois dias.

Um passeio a Madina/Belel, 
a sudeste de Sara / Sarauol,
um patrulhamento ofensivo,
a travessia de um rio,
uma excursão a um santuário da guerrilha,
uma visita de cortesia,
aos homens do mato,
ali tão perto,
para retribuição de outras visitas de cortesia
que eles nos faziam,
aos destacamentos de Missirá e de Finete,

Porto Gole e Enxalé,
e à navegação no Geba Estreito,

no Mato Cão.
Em boa verdade,
só te faltou o autocarro autopulman,
com ar condicionado 
e bar aberto.

Éramos só tropa-macaca,
como convinha,
sempre era mais seguro e barato:
pretos de primeira da tua CCAÇ 12
e dos Pel Caç Nat 52 e 54,
mais alguns brancos de segunda,
os açorianos
da CCAÇ Vinte e Seis Trinta e Seis

e um esquadrão de morteiro 81.
Levámos dois cantis de água por cabeça.

O que é um gajo pensa,

aos vinte três anos,
de Missirá a Salá 
e daqui até Sancorlá,
em bicha de pirilau,
escuro como breu,
a alma tensa,
o corpo lasso,
o capim mais alto
que as searas de trigo da tua terra,

lá na cabeça do império, 
a fustigar-te as trombas ?
Bendita chuva, ou chuvinha,
a primeira do ano,
que é um refrigério;
maldita a trovada,
ligada ao automático,
a disparar de rajada,
que te desperta os terrores mais antigos
da tua espécie.


Um gajo não pensa nada,

enquanto caminha toda a noite,
não tem tesão
para pensar,
apenas para sobreviver
a mais uma operação,

no final do tempo seco...
Era março, marçagão,
mas na tua terra não,
que em abril, sim, 
é que as águas são mil.


Era pressuposto haver um reabastecimento
no dia seguinte,
como manda o mais elementar bom senso
e a experiência operacional do passado
(ver Operação Lança Afiada
em que um em cada seis fora evacuado).


Caminhaste, caminhámos, 
penosamente,
toda noite,
Era pressuposto a guerra parar
às dez horas da manhã,
às dez em ponto,
para fazer o piquenique.
Porque o clima é quem mais ordena,
e não o relógio do comandante.

Cortaram-nos as voltas,
os gajos do PAIGC
(não te apetece dizer IN),
cercaram-nos pelo fogo.
E, quanto a Deus, Alá e os irãs,
mais as abelhas selvagens da Guiné,
a gente nunca sabia exatamente
de que lado é que estavam.

Temerariamente,
decidimos brincar ao gato e ao rato.
às catorze horas da tarde, 

no píncaro do dia,
com uma temperatura brutal
e os cantis vazios...


Havia ali uma dúzia de casas
de colmo e de adobe,
mesmo a jeito ou por azar,
para a gente despejar
as nossas granadas de bazuca
e de morteiro oitenta e um.

Pois que saia, e  forte,
a bazucada, a morteirada,
com o código da morte!

Nós, quem ?

O patrão da Dornier, do PCV,
da tropa-macaca,
a quem as moranças estragavam a vista
nos seus passeios matinais
pelo corredor do Oio,
com ciclovia e tudo,
uma autêntica autoestrada
para as "bikes" dos homens do mato,
oferta da Suécia com amor.
Ainda não havia os Strelas,
a temível arma dos arsenais
do inimigo,
que haveriam de pôr o tuga
em sentido, em terra,
ou a pau, quando voava...


Alguém puxou dos galões dourados
e decidiu fazer um golpe de mão,
ou melhor: mandar fazer,
que tu nunca viste nenhum cão grande,
de capitão para cima,
andar cá em baixo,
com a tropa-macaca,
com a puta da canhota nas mãos.

A escassas semanas de acabar a comissão,
p'ra ficar bem no álbum de fotografia do

batalhão,
e impressionar o Caco Baldé,
o homem grande de Bissau...


Um senhor da guerra qualquer,
do batalhão de Bambadinca,

que gostava de andar de Dornier, 
de cu tremido,
e que queria chegar a tenente-coronel,
e a coronel
e a general,
o que era perfeitamente normal
para quem escolhera a carreira das armas.

Quem ?
Quem é que manda nesta merda,
ó oinca,
que lavras a tua bolanha,
e que talhas com a tua catana
a piroga onde te afogas ?
Quem é que comanda esta tropa-macaca,
ó mandinga,
ó beafada
ó fula,
ó minha gente ?
É uma imensa cobra
que se desloca nas terras do Infali Soncó,
espantando os bichos e os irãs,
qual rolo compressor
destruindo tudo à sua passagem.
Não se lhe vê nem o rabo
nem a cabeça.


Entretanto, já alguém,
o nosso "tigre de Missirá",
tinha ido buscar, de heli,
o reabastecimento de água
a Bambadinca.
Alguém dos nossos (preto ou açoriano) terá,
intencional ou inadvertidamente,
disparado uma rajada que atingiu o heli
e estilhaçou um dos vidros laterais.
O heli foi para Bissau, para a oficina,
e o "tigre", que é vadio mas não voa,

ficou retido no Xime.


A verdade é esta, camaradas:
o PCV falhou, 

o plano de operações,
o heli falhou,
a cadeia de comando quebrou-se,
ou porventura alguém quis matar
o "tigre de Missirá",
afinal o elo mais fraco da cadeia.
O ataque de abelhas fez o resto,
enquanto o senhor comandante do PCV
foi dormir nessa noite na sua cama em Bambadinca.



No regresso ao Enxalé,
depois de uma segunda noite no mato,
sofremos brutalmente,
tu sofreste,
que a dor não dá
para partilhar,
sofreste brutalmente a desidratação,
o esgotamento físico.
a insolação,
as miragens,
o absurdo,
a desumanidade.

Tiveste miragens,
como no deserto do Sará,
bebeste o teu próprio mijo,
esgotado o soro,
mastigaste as ervas do orvalho,
esgotada a água,
desesperaste,
perdida a esperança,
bebeste sofregamente a água choca dos charcos,
amparaste os mais desgraçados do que tu,
transportaste os feridos.
consolaste os mais sofridos,
fizeste as tuas obras de misericórdia,
segundo o Evangelho de São Mateus

que aprendeste quando eras cristão e crente 
e temente a Deus 
e tinhas amor à Pátria.

Não deste nenhum tiro de misericórdia, 
mesmo cristãmente, 
aos moribundos que não chegaram a haver,
felizmente,
mas odiaste o PCV,
Bambadinca,
as fardas, 

os galões,
a tropa, 

a guerra,
Herr Spnínola,
a Guiné,

o Amílcar Cabral,
os senhores da guerra
e os seus títeres.
Odiaste até... 
o dia em que nasceste.

Um homem,
mesmo o cristão que tu és,
tem que odiar, saber odiar,
para sobreviver,

em qualquer guerra,
tem que odiar o inimigo
e tem que odiar o seu general.

Camarada
que fizeste comigo a Op Tigre Vadio,
depois de tantos anos,
releio o relim
e há qualquer coisa que mexe em mim:

o relim não é um poema,
um poema épico ou dramático,
é sim, tão apenas,
um esquema telegráfico
da guerra
para os senhores que estão em terra.


O relim faz economia
dos quilos de merda
que destilaste,
que destilámos,
das miríades de abelhas kamikazes
que arrancaste do cachaço,
que arrancámos do couro cabeludo,
dos gritos de dor
que ecoaram pelas matas de Madina/Belel,
dos teus gritos
e dos gritos dos desgraçados dos elementos pop
que morreram à hora da sua sesta,
carbonizados,
o relim faz economia de tudo que é acessório,
das paredes do estômago
coladas uma à outra pela fome,
a sede,
a lassidão do corpo,
a tensão da alma,
sem um colchão
para te estirares,
sem um ombro amigo
para chorares, de raiva.

Não, nunca mais iremos esquecer Madina/Belel.
tu, eu e mais 250 homens, combatentes
(oito grupos de combate),
fora um número indeterminado de civis, nativos,
contratados ou arrebanhados
como carregadores
(para transporte à cabeça,
como no tempo do Teixeira Pinto,
o "capitão diabo"
de granadas de morteiro,
de bazuca,
de jericãs de água).
E que largaram tudo,
ao primeiro ataque
do exército das abelhas do Cuor,
quiçá treinadas na China ou em Cuba.

Ah, esqueci-me de mencionar o médico
do batalhão,
o nosso médico,
Vidal Saraiva (tinha esquecido o teu nome,
valente alferes miliciano médico),
que o "tigre de Missirá"
deve ter conseguido aliciar
à última hora,
face aos casos graves de desidratação,
insolação,
intoxicação
e ferimentos em combate...

Pobre doutor
(ninguém tratava ninguém por doutor
lá no cu do mundo,
longe do Vietname)
ficaste em terra
(nunca te tratámos por tu, a não ser hoje),
perdeste a boleia do heli
e conheceste o inferno do Cuor,
com os teus trinta e três anos feitos.

Agora, que morreste,
lá no Olimpo,
ao lado do velho Hipócrates, teu mestre,
deves estar a sorrir,
com um sorriso bonacheirão,
benevolente,
ou com uma gargalhada desbragada,
destas peripécias cá na terra...

Meus senhores,
o Relim não é um poema,
é um exercício de economia,
um tratado
de estética,
um compêndio de gramática,
um fait-divers com que se brinca,
um escarro na cara do Zé Soldado,
entre duas partidas de bridge ou de king
na messe dos oficiais de Bambadinca.

Que nos valha, ao menos, o RDM,
o Regulamento de Disciplina Militar,
é mais grosso,
tem mais papel,
vê lá tu,
é coisa que se apalpa, outrossim,
e que em último caso serve,
bem melhor do que o capim,
para enxugar a pele,
para limpar... o cu.

Luís Graça

Bambadinca, abril de 1970 / Alfragide, junho de 2016
 _____________

Nota do editor:

Último poste da série > 4 de junho de 2016 > Guiné 63/74 - P16165: Manuscrito(s) (Luís Graça (85): Peço desculpa...

6 comentários:

José Botelho Colaço disse...

Alguém puxou dos galões dourados
e decidiu fazer um golpe de mão,
ou melhor: mandar fazer,
que tu nunca viste nenhum cão grande,
de capitão para cima,
andar cá em baixo,
com a tropa-macaca,
com a puta da canhota nas mãos.
Desculpa mas como não à regra sem excepção em Novembro de 1964 o então tenente coronel Fernando Cavaleiro comandante do batalhão Cav. 490 atravessou de canhota em punho à frente de um grupo de militares a Ilha do Como desde Cauane passando pela célebre mata do cassaca e mata do Cahil terminando a sua aventura no aquartelamento do Cachil onde proclamou o fim da operção tridente. Um abraço Colaço.

José Botelho Colaço disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
José Botelho Colaço disse...

Errata: Março de 1964 e não Novembro e também mata do Cachil e não mata do Cahil.

Tabanca Grande disse...

Zé, honra ao teu tenente coronel Fernando Cavaleiro, que já morreu... No meu tempo, só vi um tenente coronel,o Polidoro Monteiro, andar no mato, de G3 na mâo, a meu lado... Sem galões dourados... O resto eram comandantes de opereta... Como querias esta guerra ? Com soldadinhos de chumbo ? Ab. granmde

José Botelho Colaço disse...

Como se diz já era
Obrigado Luís
Uma andorinha não faz a Primavera.

Um forte quebra costas
Colaço.

Tabanca Grande disse...

Zé:

Não estamos a falar das "tropas especiais", que tinham bons comandantes operacionais...e no geral bons oficiais superiores... Referência, por exemplo, ao BCP 12, ao batalhão de comandos africanos...

Estou-me a referir às unidades (batalhões) do exército, com funções de quadrícula (e eu só conheci dois, o BCAÇ 2852 e BART 2917), sendo a minha companhia, a CCAÇ 12, adida, usada (e abusada) como unidade de intervenção...

O meu capitão, QP, tinha 38/39 anos, e estava à bica para ser promovido a major... Conhecendo a dureza do clima e do terreno da Guiné, bem como as caraterísticas da guerra de guerrilha e contra-guerrilha, não é esperado que um capitão QP,de 38/39 anos, ande no mato, a alinhar em todas as operações... Há(havia) sempre um oficial subalterno, miliciano, com mais jeitinho para "(co)mandar"...

Havia, de resto, um séri problema de "turnover" com os nossos comandantes operacionais... Houve companhias, com 3, 4, 5 e até mais capitães, que foram erros de "casting"... E batalhões, também, a nível de comando...

Não se ganham jogos de futebol com "treinadores de bancada", e muito menos guerras com comandantes que ficam na messe de oficiais a jogar ao bridge e ao king... Ou a "planear operações" com mapas, transparentes, canertas de feltro e "pioneses"

Em 22 meses de Guiné, nunca vi um oficial superior (major ou tenente coronel) a sair da sua "zona de conforto" e vir esperar os seus "homens" para lhe dar um palavra de louvor, encorajamento, incentivo, solidariedade... Eram muitos rápidos a puXAR da caneta e do papel e dar uma porrada ao zé sodlado ou ao pobre do miliciano que lhes defendia as costas...

Tens razão, Zé, uma andorinha nunca fez a primavera!... Da minha parte , não passar atestados de incompetência a ninguém, e muito menos generalizar... A minha experiência era muito limitada: afinal, a um setor, a uma companhia, 2 batalhões, 22 meses de Guiné...