domingo, 11 de junho de 2017

Guiné 61/74 - P17454: (De) Caras (78): Também eu fiz parte dessa rede de "contrabando de ternura" que permitia, aos nossos familiares, fazer-nos chegar a Bissau e ao 'mato' as suas "encomendinhas"... (Hélder Sousa, ex-fur mil trms TSF, Piche e Bissau, 1970/72; criado em Vila Franca de Xira e a residir hoje Setúbal)

1. Comentário deixado no poste P17453 (*), pelo nosso colaborador permanente Hélder Valério de Sousa (ex-fur mil trms TSF, Piche e Bissau, 1970/72, ribatejano a viver em Setúbal, com página pessoal no Facebook)


Uma história deliciosa (não só por causa do bacalhau...) que demonstra bem a capacidade inventiva do 'português típico' que é capaz de descortinar uma saída qualquer para os 'milhentos' problemas com que muitas vezes se depara.

Essa cadeia de solidariedade, de boas vontades, funcionou. E funcionou bem.

Em Vila Franca de Xira, onde vivi até ir para a Guiné e ainda algum (pouco) tempo depois, havia (e ainda há) um rapaz do meu tempo (1 ou 2 anos mais velho),  o Orlando Levezinho, que julgo ser primo do Tony. Tocava num daqueles conjuntos que proliferavam na década de sessenta e acho que ainda hoje está ligado a actividades musicais.

Mas o que me levou a fazer este comentário foi o apelo do Luís para que aparecessem mais histórias de remessas de produtos que chegavam por diversas formas e meios.

É claro que para quem estava em Bissau as coisas eram muito mais facilitadas, mas no interior também chegavam coisas. Acontece é que para o Levezinho a cadeia de solidariedade era mais complexa mas, mesmo assim, não teve quebras...

Uma das formas como as coisas chegavam era pelo 'portador'.

Quando se regressava de férias lá havia umas 'lembranças', fosse em bacalhau, chouriços, queijos, etc.

Quando fui para a Guiné (já contei aquando da minha apresentação aqui) fui portador de um garrafão de água-pé, castanhas e outras coisas, pois calculava-se que chegaria lá a tempo para o S. Martinho e de facto assim aconteceu pois cheguei no dia 9 de Novembro.

Essa 'encomenda' foi para o meu conterrâneo José Augusto Gonçalves, colega de turma na EICVFXira [, Escola Industrial e Comercial de Vila Franca de Xira] que era Fur Mil no Pelotão de Transmissões (tratava da montagem dos rádios e assistência à aparelhagem),  cujo quarto (que ele partilhava com outros dois Fur Mil,  o Vítor Ferreira, também de Vila Franca e meu parceiro/competidor de bilhar na "Brasileira", e o já aqui várias vezes referido Pechincha, da CART 11) fui usufruir.

Mais tarde, também foi a minha vez de receber alguma coisa, desta vez por intermédio de um tripulante do T/T "Niassa". Era avisado por carta (ou aerograma) de que isso ia acontecer, estava atento à chegada dos navios, entrávamos em contacto e lá recebia a encomenda.

Também tinha a sorte de ter um primo (aí já em terceiro grau...) na Base Aérea [,BA 12, em Bissalanca], o Sargento Salgado Valério (acho que era Valério Salgado, não sei bem) e que também de vez em quando recebia coisas por via aérea e que me facultava parte quando calhava.

Mas a maior parte e mais interessante, eram as encomendas que o meu camarada das Transmissões e da Escuta, o Fur Mil Nelson Batalha,  recebia.

O seu pai era funcionário de um Despachante aqui de Setúbal, o Fernando Pedrosa, que foi dirigente do Vitória de Setúbal e também com responsabilidades federativas.

Algumas vezes foi possível enviar, já quando estávamos em Bissau, na Escuta, umas caixas isotérmicas em barcos que passavam por Setúbal, por exemplo o "Ana Mafalda". Nessas caixas iam imensas coisas variadas que o Nelson partilhava connosco. Fruta da época (lembro-me bem dos melões, que o pessoal nativo dizia ser "papaia da metrópole"), compotas, bolachas, enchidos, etc..

Havia também patês variados de coisas que não estava habituado, como veado, javali e outros (isso agora é corriqueiro mas na época o que havia eram os de sardinha e atum e de presunto) e também várias espécies de salsichas, da Baviera, suecas, etc, que provinham das amostras que os fornecedores deixavam na Alfândega e que,  pronto!,  lá seguiam até à Guiné.... para se fazer o teste e aprova de qualidade.

Quando estive no interior, no 'mato', em Piche, lembro-me que de vez em quando havia quem recebesse coisas da 'Metrópole' mas não me lembro qual o meio utilizado.

Abraços
Hélder Sousa

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Nota do editor:

Vd. poste de  10 de junho de 2017 > Guiné 61/74 - P17453: (De) Caras (77): O "contrabando" da... ternura ou como o "fiel amigo", o bacalhau, chegava à Bambadinca, ao Tony Levezinho, utilizando uma vasta rede de intermediários, do navio-tanque da Sacor à Casa Fialho - Parte II

3 comentários:

Juvenal Amado disse...

Não lembro de ter recebido alguma encomenda mas lembro-me de ter levado.
Em Outubro de 1972 vim de férias a casa e mal cheguei, a minha mãe passou a ser assediada por uma vizinha para quando eu regressasse, se levava uma encomenda para o namorado da filha que era furriel lá num sítio qualquer. Escusado será dizer que este tipo de "correio", retirava do saco da TAP já si pequeno para nós próprios, coisas que nós queríamos levar para para nosso consumo e dos amigos chegados . Era pois um favor prestado a quem não conhecíamos e com quem não tínhamos relação nenhuma, dado às diferenças sociais em que navegávamos na altura.
Mas pronto, o que se havia de fazer? Na data próxima ao meu regresso à Guiné, lá veio o embrulho que eu meti custo no meu saco. Chegado a Bissau, enviei-o para onde me tinham dito para o devia mandar e assim foi.
Mas não querendo correr o risco de que me acusassem de ter ficado com a encomenda, lá ia perguntado à minha mãe se o tal namorado da fulana tinha recebido o embrulho. A minha mãe pareceu-me a mim, que rodeava a pergunta e nada de concreto me dizia.
Entretanto ainda lá passei mais 17 meses e o caso perdeu o meu interesse.
Quando regresso ex que, ao passar no café Portugal vejo a jovem que me tinha feito acartar o embrulho e de quem nunca recebi o pequeno agradecimento, em alegre cavaqueira com várias amigas. Resolvi perguntar-lhe directamente e a cores, se o namorado tinha recebido ou não a encomenda. Ficaram todas com cara de caso a olhar para aquele desterrado a quem a cor de terra não sairia nos próximos meses, a quem nunca se tinham dignado a dirigir palavra. Ela um bocado atabalhoadamente como quem é apanhado em falso, que sim, que tinha recebido e muitos obrigados finalmente.
Entretanto fui para casa, contei à minha mãe o sucedido, ela fez um sorriso meio maroto e lá me contou finalmente o que se tinha passado.
"Olha filho ainda tu não tinhas lá chegado, descobriu-se que ela andava metida com outro e o namoro escangalhou-se"
Finalmente percebi o estranho silêncio de 17 meses, a atrapalhação da dita cuja e das amigas, quando eu me dirigi a ela em pleno café Portugal.

Tabanca Grande disse...

Obrigado, Hélder, por teres respondido ao meu desafio, Haveró por certo histórias parecidas com a tua... ou com as outras que contas. Mas só importa as que contamos, as que ficam no fundo da baú da memória não chegam ao blogue, à Tabanca Grande, aos camaradas e amigos da Guiné...

Tenho ideia que também havia a possibilidade de mandar encomendas pelos CTT...

Anónimo disse...

Quando vim de férias (Prémio Governador da Guiné)Novembro de 1963, também me foi pedido para levar uma encomenda para um soldado que estava em Fulacunda, Então ,mandei que a mãe do camarada, fosse a um latoeiro, mandar fazer uma lata e para colocar na mesma os salpicões, encher de azeite e depois o latoeiro devia soldar a tampa.
Assim a senhora procedeu e no regresso, já com o SPM, escrito num papel colado na lata, transportei a encomenda para Bissau. Como cheguei a Bissau e embarquei logo, num barco para Bafatá, não tive tempo para despachar a encomenda para Fulacunda.
No entanto, indaguei com o nosso Furriel de Transmissões, Rui Freitas Pereira(Madeirense), da possibilidade de saber se o referido soldado ainda se encontrava em Fulacunda, para ter a certeza que a encomenda chegava ao destino.
Atravês do Rádio, fiquei a saber que, infelizmente, o referido soldado tinha morrido numa emboscada.
Logo em seguida, recebi um aerograma de minha mãe, dizendo-me que abrisse a encomenda e comesse o seu conteúdo, como tinha indicado a mãe do referido camarada.
Assim, quando cheguei a Cantacunda, os furriéis e o alferes comemos os salpicões sem antes prestarmos um minuto de silêncio em homenagem do camarada falecido. Aproveitamos o azeite nos cozinhados
Como eram bons os salpicões!
Alcidio Marinho
C.Caç 412