terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Guiné 61/74 - P16962: (Ex)citações (323): em 1963 já havia um jornal "Nô Pintcha", a stencil... Apanhámos vários exemplares, na Ponta do Inglês, em 28 de janeiro de 1964, com um título de caixa alta: "Os colonialistas também têm mercenários"... Numa foto, via-se um individuo de cabelo comprido, camisa com ramos de flores, calções escuros e sandálias havaianas, a montar uma armadilha... Esse indivíduo era eu (Alcídio Marinho, ex-fur mil at inf, MA, CCAÇ 412, Bafatá, 1963/65)


Guiné-Bissau > Bissau > 1975 > Cabeçalho do jornal trissemanário "Nô Pintcha",  ano I, nº 18,  6 de maio de 1975. É apresentado como "órgão do subcomissariado de Estado de Informação e Turismo" e, em princípio, com este formato, foi criado em 1975.  Em 27 de março de 2015 celebrou 40 anos, e é agora bissemanário.

(Imagem: Cortesia de Fundação Mário Soares > Casa Comum >Arquivos > Arquivo de Mário Pinto de Andrade).




1. Comentário do camarada, veteraníssimo, Alcídio [José Gonçalves] Marinho, ex-fur mil inf, CCAÇ 412 (Bafatá, 1963/65), ao poste P16943 (*)


No meu tempo, quando o 3º pelotão da CCAÇ 412 esteve no Xitole de junho a fim de agosto de 1963, um dia na região de Mina, numa tabanca encontrei umas folhas feitas em stencil de um pequeno jornal chamado e intitulado de No Pintcha [, leia-se: Avante, em crioulo].

Nesses panfletos davam noticias sobre a chamada luta de libertação. Mais tarde, depois de estarmos no Enxalé 28 de outubro de 1963 até 25 de janeiro de 1964, fizemos  a nível de Companhia uma operação à Ponta do Inglês, em 28 de janeiro (operação Ponta do Inglês), em que levámos 13 longas horas para chegar ao acampamento inimigo, sendo este depois destruído. 

Aí apareceram diversos desses jornais, onde me foi chamada a atenção por um camarada que a minha fotografia aparecia na 1ª página. O titulo era o seguinte: " Os colonialistas também têm mercenários "Via-se um individuo de cabelo comprido, camisa com ramos de flores, calções escuros e sandálias havaianas, a montar uma armadilha. O individuo da fotografia era eu. O cabelo  andava comprimido, porque eu tinha tido um problema no couro cabeludo e por indicação do nosso médico, dr. Jacinto Botas, e devido ao tratamento, não podia cortar o cabelo.

A minha camisa era azul com folhas e flores amarelas, comprada em Bissau. Os calções eram azuis e tinham sido feitos pelo cabo (alfaiate) Eurico Valpaços Alves.  A foto era, na época, a preto e branco, e foi tirada na zona do Enxalé. (**)

Alguns exemplares foram entregues no Batalhão [de Çaçadores] 506 que os fez chegar a Bissau, onde oficialmente se ficou a conhecer a minha actividade. Um militar sem curso de Minas e Armadilhas, fazia mais estragos que muitas unidades.

Portanto já em 1963 havia um jornal chamado Nô Pintcha

Alcidio Marinho
CCAÇ 412 (1963/65)

________________

Notas do editor:


(*) Vd. poste de 11 de janeiro de  2017 > Guiné 61/74 - P16943: Recortes de imprensa (84): Na morte de Fidel Castro, o apoio de Cuba ao PAIGC é relembrado por Fernando Delfim Silva e Oscar Oramas ("Nô Pintcha", Bissau, 1 de dezembro de 2016) - Parte II

5 comentários:

Tabanca Grande disse...

Alcídio, obrigado pelo teu comentário.

Já sabíamos que o PAIGC tinha "barracas" pelo menos na Mina/Fiofioli e na Ponta do Inglês, na margem direita do Rio Corubal, em 1963, com gente levada ou fugida de tabancas como Samba Silate e Poindom...

Quanto ao tal "Nô Pintcha", não encontrei nenhuma referência (ou cópia) a esse hipotético jornal no Arquivo Amílcar Cabral. Oficialmente, o trissemanário "Nô Pintcha", impresso em tipografia, começou a publicar-se em 1975, já deposi da independência e da morte do Amílcar Cabral.

Muito provavelmente os exemplares que vocês apanharam eram panfletos, avulsos, de propaganda. Como sabes, a expressão "Nô Pintcha", em crioulo, quer dizer "Avante", é usada na propaganda revolucionária (, dou como exemplo o título do jornal"Avante", órgão do Partico Comunista Português, que se começou a publicar, clandestinamente, logo em 1931)...

Foi pena não teres guardado um exemplar desse documento... Quanto a seres tu o indivíduo da da foto (que só podia ser de muito baixa resolução, sendo o documento reproduzido a stencil...), fica uma dúvida:

(i) como é que o "fotógrafo" do PAIGC te apanhou a montar uma armadilha ? Onde e quando ? (é de todo improvável esta hipótese);

(ii) por outro lado, se a foto foi tirada por alguém dos teus camaradas da CCAÇ 412, como é que ela foi parar à mãos do IN ?

Talvez saibas e possas explicar este aparente enigma... O mais provável é terem usado uma foto de algum branco, europeu ou americano, vestido à moda da época (T-shirt de flores, e havaianas...), podendo parecer-se contigo...

Vai continuando a falar das tuas memórias destes tempos e lugares, por onde eu também viria a andar (e a penar) seis anos depois... Um abração, Luís Graça

Tabanca Grande disse...

Outra coisa, Alcídio: o vosso médico (da companhia ou do batalhão ?) seria o dr. Francisco Jacinto Botas ? Frequentava o 4º da licenciatura de medicina da Faculdade de Medicina do Porto, no ano letivo de 1957/58, segundo o Anuário da Universidade do Porto...

Nunca mais soubeste nada dele ? Será que ainda é vivo ?



Manuel Bernardo disse...

Este jornal noticiava depois do golpe de Nino Vieira em 1980, a localização das valas comuns para onde tinham sido lançados os corpos dos "Comandos" fuzilados em 1975 pelo PAIGC. E foram bastantes...

Anónimo disse...

Caro Luis
Na época sabia-se que do lado do PAIGC, havia repórteres suecos bem como enfermeiras também suecas ou nórdicas.
Aliás, também no Xitole, Mina, dois militares nossos,num patrulhamento, viram distintamente, vários individuos entre os quais uma mulher branca de cabelos loiros, que perseguiram, mas quando reagiram já haviam desaparecido.
Também da Zona Sul já havia relatos de avistamentos de pessoas de raça branca e loiros.
Quanto à foto não fui só eu, que me reconheceu, mas todos os que comigo iam montar as armadilhas. Creio que a foto foi tirada com teleobjectiva.
Posso também dizer-te que a minha fama e a raiva do pessoal do PAIGC era tal que o próprio Nino Vieira, foi atacar-nos ao Enxalé., com cento e cinquenta guerrilheiros. Começou a deslocação às 9 da noite e só conseguiu chegar ao arame farpado cerca da 1 hora da manhã, depois de tentar todas as picadas, a estrada e a corta-mato. Só nessa noite explodiram perto de vinte armadilhas. Ao chegar ao arame farpado apenas deram um tiro de pistola. Com o morteiro e as granadas iluminantes viamos os turras a protegerem-se nas sombras e então entrou ao serviço a Metralhadora Breda e nós ouviamos os gritos dos feridos. Depois do tiro de pistola fez-se um silêncio de morte.
Sabemos, porque o nosso Alferes Cardoso Pires, depois do 25 de Abril, teve uma firma que exportava para Bissau e teve contactos com o Nino Vieira. O Nino quando soube que o Alferes esteve na Guiné, perguntou-lhe onde tinha estado, no tempo da guerra, tendo ele referido o Enxalé e Cantacunda. Nino Vieira, falou logo no gajo das armadilhas e acabou a relatar o episódio referido acima. Estava tão furioso que levou 150 homens e mulheres. Também relatou que o seu Comandante da zona de Cantacunda, tinha dificuldades de deslocação por causa das armadilhas, muitas vezes até mais de dez quilómetros do nosso aquartelamento.
Sim, o médico da Companhia era o Alferes-Médico mais tarde Tenente, Francisco Jacinto Botas. Sim, ainda é vivo, mora em Lisboa e foi médico da Companhia de Cervejas Sagres.

Tabanca Grande disse...

O comentário anterior não está assinado, mas é do do nosso camarada Alcídio Marinho,. que mora no Porto, e a quem agradecemos estas explicações. LG