segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Guiné 61/74 - P16958: Estórias cabralianas (94): 1º Cabo Monteiro, pedicure: "Ó meu alferes, olhe-me só essas unhas dos pés, essas enxadas! Venha cá!"... (Jorge Cabral)

1. Estórias cabralianas (94) > 1º Cabo Monteiro, pedicure...

por Jorge Cabral

[, ex-alf mil art. cmdt Pel Caç Nat 63, Fá Mandinga e Missirá, 1969-1971]

Já é a segunda vez que o nosso editor me pergunta o que faz um Comandante de Destacamento.
– Olha, não sei… Não comanda, aguenta. Aliás, já te disse, que não é a função que faz o Homem, mas o Homem que faz a função…

Entre os meus militares metropolitanos, há o homem mais habilidoso que conheci, o Monteiro. Foi ele que construiu o forno e desmontou e montou o gerador. Ora uma vez, ainda em Fá, olhando as minhas unhas dos pés, chamou-me
– Oh, Meu Alferes, olhe-me essas enxadas! Venha cá!

E munido de uma enorme tesoura da cozinha, cortou-me as unhas…tarefa que acumulou durante toda a comissão. Foi louvado, claro, embora eu tenha omitido aquele mérito…

Jorge Cabral

P.S. O Monteiro já morreu. Imagino-o no Céu, de tesoura na mão à minha espera:
– Venha cá,  Meu Alferes, não se apresente assim a São Pedro…
____________

Nota do editor:

Último poste ds série > 8 de janeiro de 2017 >Guiné 61/74 - P16930: Estórias cabralianas (93): Porra, meu Alferes, não sabia que os Turras também tinham Mãe!?! (Jorge Cabral)

(...) NI-OI, NI-OI, NI-OI… Continuamos Amigos e Cinéfilos, Dalila.Tu vês filmes, eu, entro neste, tragicomédia que nunca mais acaba…

Desta vez houve guerra, dois mortos em Salá, mesmo junto a um limoeiro. O milícia Demba pisou uma mina reforçada e desapareceu da cintura para baixo. Os gajos abriram fogo e o meu soldado Guiro de rajada lerpou um turra, de pistola à cinta.
- NI-OI, NI-OI,NI-OI… - berrava o turra. (...) 

3 comentários:

Tabanca Grande disse...

Meu caro alfero: ora aí está uma nobre função na tropa, alguém que trate dos nosso pés (e mãos): mas os termos franceses "pedicure" e "manicure" são um bocado para o ....efeminado. Não estou a ver o meu "alfero" a dizer, alto e bom som, em plena caserna, em Missirá: Hoje à tade, tenho marcação na/no manicure e na/no pedicure!...

Se o bom e jeitosinho do Monteiro (que descanse em paz!|) te tratatava dos pés e das mãos e respetivas unhas, podes-te considerar um sortudo... Eu não tive essa sorte, de resto era mais do género de roer as unhas das mãos...

Cá está uma ou duas profissões que não constam do cardápio da tropa, e que em tempo de guerra são também úteis á Nação: alguém tem de tratar da higiene corporal, incluindo os pés (e as mãos), dos "infantes"... Mas eu não me lembro de pedicures nem muito menos de manicures nos nossos aquartelamentos: as unhas das mãos, ainda já vá lá, uma gajo podia roê-las,á dentada, agoras a dos pés era bem mais difícil... E sobretudo depois de um operaçºão de três dias, os nossos pés vinham numa lástima!... Enfermeiro e barbeiro, lá se iam arranjando, mas pedicure, confesso, é primeira vez que oiço falar...,

Já agorea, fivas a saber que a expressão usada no Norte é: "vai-me cortar esses estadulhos!"... E cortar.lá no berço da Nação, é com a tesoura da... poda!

Os nossos dicionários da Língua Portuguesa são tão elitistas, sulistas e tendenciosos que ainda não grafaram o termo com este significado de "unhas dos pés, compridas", por analogia coim fueiro, pau aguçado...

estadulho | s. m.

es·ta·du·lho
(estado + -ulho)
substantivo masculino
1. Pau grosseiro. = CACETE
2. Pau que se coloca de lado no carro de bois ou em atrelado, para segurar a carga. = FUEIRO
Palavras relacionadas: fueiro, jarundo, estadão.

"estadulho", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/estadulho [consultado em 16-01-2017].


Anónimo disse...

Fiquei a saber que na Guiné também havia conquilhas

Anónimo disse...

Termos equivalentes para unhas dos pés dos "infantes" da Guiné: enxadas, estadulhos, gadanhas, conquilhas... Será que os quarteleiros também distribuíam corta-unhas à malta ?... LG