terça-feira, 31 de outubro de 2017

Guiné 61/74 - P17920: (D)o outro lado do combate (14): a odisseia do português, da Murtosa, Rodrigo Rendeiro: uma viagem atribulada, de cerca de mil km, de 3 a 26 de setembro de 1963, de Porto Gole, onde tínha um estabelecimento comercial e era casado com uma senhora mandinga, de linhagem nobre, Auá Seidi, e tinha cinco filhos,até ao Senegal (Samine, Ziguinchor e Dacar), unindo ocasionalmente o seu detino ao do PAIGC... Relatório, assinado por ele, mas de autenticidade duvidosa...



Guiné > Região de Bafatá > Sector L1 > Bambadinca > CCS / BART 2917 (1970/72 > Vista (parcial) da tabanca de Bambadinca, com o  Rio Geba ao fundo, e a saída para leste (no sentido de Bafatá)... Em primeiro plano, lado nordese do quartel e um dos abrigos, sobranceiros à tabanca, e a morança do comerciante português Rodrigo Rendeiro, do outro lado do arame farpado... Ficava do lado direito, quando se subia, vundo de Bafaté e do rio Geba,  a famosa rampa de acesso ao quartel e posto administrativo de Bambadinca.

Foto: © Benjamim Durães (2010). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]




Portal Casa Comum > Instituição:Fundação Mário Soares

Pasta: 07075.147.042 [Clicar aqui para ampliar]

Título: Relatório sobre o ingresso de Rodrigo Rendeiro no PAIGC

Assunto: Relatório assinado por Rodrigo Rendeiro, remetido ao Secretário Geral do PAIGC, sobre a sua saída de Porto Gole até ao ingresso no PAIGC.

Data: Quinta, 26 de Setembro de 1963

Observações: Doc. incluído no dossier intitulado Relatórios XI 1961-1964.

Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral

Tipo Documental: Documentos

Direitos:
A publicação, total ou parcial, deste documento exige prévia autorização da entidade detentora.

Arquivo Amílcar Cabral > 04. PAI/PAIGC > Relatórios/Directivas


Citação:
(1963), "Relatório sobre o ingresso de Rodrigo Rendeiro no PAIGC", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_41411 (2017-10-30)


Transcrição:

Dacar, 26 de setembro de 1963

Relatório ao Exmo. Sr. Secretário do PAIGC sobre a minha saída de Porto Gole, até ao ingresso nas fileiras nacionalistas (PAIGC)

No dia 3 de setembro de 1963, cerca das 7 horas da tarde, chegou a Porto Gole para libertação desta pequena vila da Guiné, dita Portuguesa, uma força nacionalista comandada pelo camarada Caetano Semedo,  e que não encontrou resistência por parte da população civil, visto esta comungar da mesma ânsia de liberdade do jugo colonialista português comandado por Salazar.

Quando o camarada Semedo chegou à minha casa comercial, convidou-me para abrir a porta da residência, com palavras e gestos corteses, o que logo me cativou e mais ainda fez luz no meu espírito[:] que os nacionalistas combatem por, e com, um ideal elevado, ou seja, a independência da sua terra do jugo capitalista e opressão salazarista, e não são indivíduos de baixos instintos, como diz a propaganda imperialista.

O camarada Semedo sabia perfeitamente que eu tinha conhecimento da sua base em [Baradoulo e não Barradul, vd. mapa de Mamboncó], povoação biafada, a 10 km de Porto Gole, e que da minha loja partia[m] os abastecimentos para os seus camaradas de luta. O meu empregado José Duarte Pinto era o responsável dos civis militantes em Porto Gole, [e] a quem eu dizia sempre que estivesse tranquilo, que da minha parte jamais haveria traição alguma, não só por viver na Guiné, dita Portuguesa, onde labutava [h]á vinte anos, mas também por encontrar nessa Guiné a mulher, de raça mandinga, e os nossos  cinco filhos, que são a minha principal família.

O camarada entendeu, como eu estava colaborando com eles, e para não sofrer [represálias](*) da parte das autoridades portuguesas, levar-me para a base de[ Baradoulo, e não Barradul] e depois para lugar seguro. Assim começou a minha viagem até à fronteira do  Senegal, passando pelas bases de Mansodé [, a sudoeste de Mansabá] e Morés, onde estive 14 dias, sendo tratado com todos os pergaminhos (sic) de delicadesa por parte do camarada Osvaldo Máximo Vieira e de seus camaradas de luta.

Parti do Morés no dia 17 do corrente, pelas 4 horas da tarde, para a fronteira do Senegal, jantando na povoção de [Fajonquito, a sul do Olossato] (**), comandada pelo camarada Mamadu Indjai, pessoa de trato afável que me dispensou todas as atenções. Depois de jantar nesta base, partimos para a povoação de Lete [, ou melhor, Leto, a sudoeste do Tancroal], onde cheguei aproximadamente às 3 horas da madrugada do dia 18. Descansámos nesta povoação até cerca das 4 horas da tarde. Donde partimos para a travessia [do rio Cacheu e não do rio Farim...] que já se fez de noite, devido à vigilância duma vedeta colonialista. 

Cerca das duas horas da manhã [, do dia 19,] chegámos à povoação fronteiriça de Jiribã [e não Giribam], já [no] Senegal, onde descansámos até  às 7 horas da manhã. De seguida partimos para [Ierã, em português, e não Eran], onde o guia nos antecedeu, partindo para Samine [, a leste de Ziguinchor, capital de Casamansa, e não Zinguichor]. Devido a má interpretação deste guia, as autoridades senegalesas tomaram-nos {por] prisioneiros de guerra, pelo que fomos detidos e algemados. 

À nossa chegada, o camarada Lourenço [Gomes], responsável do Partido em Samine, protestou junto das autoridades senegalesas, fazendo-as ver que não éramos prisioneiros mas sim refugiados que vínhamos pedir asilo no seio do PAIGC. Então fomos desalgemados e conduzidos ao lar dos camaradas,  onde almoçámos. Após o almoço seguimos para Ziguinchor, ainda detidos,  onde o camarada Lourenço [Gomes] nos antecedeu para tratar da nossa [libertação](***). 

Mas em Ziguinchor,  ainda durante [os] 4 dias [em]  que lá estivemos, continuámos detidos,  devido a [má] comunicação, com a gendarmaria, de Samine [e de] Ziguinchor, como prisioneiros. Após estes 4 dias, saímos de Ziguinchor para Dacar no dia 23, onde chegámos somente por volta das 8 horas da noite do [dia] 25, devido a uma avaria na viatura que nos transportava.

Como os nossos camaradas de Dacar, que têm como responsável o camarada [Pedro] Pires, não soubessem da nossa chegada, tivemos que dormir na prisão até  ao dia seguinte.  Depois de termos contacto como o camarada [Pedro] Pires, este dirigiu-se ao ministério do Interior, tratou dos nossos interesses e fomos postos em liberdade. Dirigi-me para o lar dos camaradas, onde me encontro desde o dia 25 do corrente.

Com o vivo protesto de saudações para o nosso partido, e que a nossa luta contra os colonialistas portugueses alcance em breve o seu fim.

[Assinatura, legível] Rodrigo Rendeiro,


 Revisão, fixação de texto e notas: Luís Graça

*No original, repressões; **  No original, Feijão Quito; *** No original, liberdade.


Parte final do relatório, datilografado, de 2 páginas, com a assinatura do comerciante português Rodrigo Rendeiro, datado de Dacar, 26 de setembro de 1963... 


1. Das vezes (duas ou três, pouco mais) que estive na sua casa, em Bambadinca, convidado para os seus famosos almoços de frango de chabéu, em geral aos domingos ou feriados, entre julho de 1969 e março de 1971, ele nunca me falou desta "odisseia" nem muito menos do seu passado de eventual militante ou simpatizante do PAIGC. 

Nem poderia falar, obviamente,  estando na presença de militares portugueses, alferes e furriéis milicianos aquartelados em Bambadinca (CCAÇ 12, CCS/BCAÇ 2852, CCS/BART 2917...), com quem gostava de conversar, aproveitando para matar saudades de Portugual e da sua terra, Murtosa,  e, eventualmente, saber coisas da tropa e da guerra...

Só muito mais tarde, depois do 25 de Abril, é que alguns de nós viemos a saber que o Rendeiro tinha sido  "informador" da PIDE/DGS (*), e que inclusive teria tido problemas na terra da sua amada esposa, Auá Seidi, mandinga, de linhagem nobre, e dos seus queridos filhos. (Sou testemunha do amor que ele tinha aos filhos, embora ele nunca os tenha apresentado  a n+os, tal como nunca nos mostrou a esposa).

Dando como certo o relato destes acontecimentos, mas pondo em causa a "sinceridade" do Rendeiro que, de um dia para o outro, se vê "apanhado" pela teia do PAIGC, os dados biográficos a seu respeito batem certo com o que  dele conhecíamos:

(i) o seu nome completo era Rodrigo [José[ Fernandes Rendeiro, natural da Murtosa, onde de resto iria falecer, tendo o seu funeral ocorrido em 10/9/2011, conforme relato do nosso camarada Leopoldo Correia, de quem era amigo desde os tempos da Guiné (##);

(ii) em Bambadinca, tratávamo-lo simplesmente pelo apelido, Rendeiro; era um homem discreto, polido, magro de cara, moreno, que pouco falava de si; e eu da sua terra, só conhecia a ria de Aveiro e o ensopada de enguias, tinha lá ido de comboio em 1963, com 16 anos numas férias grandes;

(iii) em Banmbadinca era nosso vizinho e, de certo modo, nosso "protegido"; além disso, tinha negócios com a tropa (aluguer de viaturas para transporte de material);

(iv) em 1963, o Rendeiro já estava na Guiné há 20 anos, ou seja desde os seus 17 anos; deve ter emigrado, portanto, em plena II Guerra Mundial (c. 1942/1943), e pelas nossas contas deve ter nascido por volta de 1925/1926, e não em 1920, como eu supunha, teria portanto 44 anos quando eu conheci em Bambadinca;

(v) tal como consta do seu "depoimento" acima transcrito, casou com uma senhora, de etnia mandinga /(, de seu nome Auá Seidi), de que tinham 5 filhos (à data dos acontecimentos);

(vi) nesse ano de 1963 deve ter nascido o seu filho Rodrigo Fernandes que viria a morrer, aos 53 anos de idade,  em 24 de abril de 2016 (, conforme notícia necrológica que encontrámos na Net); residia em Pardelhas, Murtosa, e era "irmão de Maria Libânia, Joaquim Carlos, Joana Maria, Álvaro Henrique, João Herculano, Maria Paula e Hilário, todos com os apelidos Fernandes Rendeiro,  e de Ana Maria Fernandes Rendeiro Bernard, já falecida" [, licenciada em direito, procuradora da República, em Lisboa];

(vii) o comandante Caetano Semedo, aqui citado, devia ser da família de  Inácio Semedo (,conhecido agricultor de Bambadinca, velho nacionalista, de quem Amílcar Cabral foi padrinho de casamento,  e foi um dos históricos do PAIGC); é uma história a aprofundar, com mais tempo e vagar...

2. Tenho dúvidas sobre a "vontade sincera e espontânea" do Rendeiro em pedir a adesão ao PAIGC e ficar em Dakar. Ele terá sido "obrigado" pelas circunstâncias a "colaborar" com o o PAIGC... Era comerciante em Porto Gole, em 1963, e vivia das boas relações com a população indígena, mas também não podia dar-se ao luxo de entrar em rota de colisão com as autoridades portuguesas. Afinal, a Guiné era a sua segunda terra e era lá que ele queria criar os seus filhos e dar-lhes um futuro.  

Lendo com atenção o documento que  acima se transcreve, parece-nos que o comteúdo e a forma não poderiam ser da lavra do Rendeiro... Alguém quis (talvez o "camarada Caetano Semedo" pou talvez o Lourenço Gomes, que estava no Senegal) mostrar bom serviço ao secretário-geral do PAIGC. A "conquista" de Porto Gole  e a "adesão" de um comerciante branco à "luta de libertação" eram dois "grandes roncos", em meados de 1963, com seis meses de guerra...

O documento está escrito em bom português, com um erro ou outro de ortografia, que corrigimos, mas é seguramente muito melhor do que o português da maior parte dos comandantes operacionais do PAIGC.

O Rendeiro, casado com uma senhora mandinga, de linhagem nobre, devia ser pessoa considerada pelos militantes e simpatizantes do PAIGC, e pela população indígena em geral. No relatório é citado o famigerado Mamadu Indjai, mandinga, que irá pôr o setor L1 (Bambadinca) a ferro e fogo em meados de 1969... Acredito que, por razões de sobrevivência, o Rendeiro tenha sido obrigado a colaborar no abastecimento da guerrilha da base de Barradul, a 10 km a norte  de Porto Gole.

Só o seu amigo (e nosso camarada) Leopoldo Correia (##), a par dos seus filhos (que devem viver em Portugal, na Murtosa), pode esclarecer este período obscuro e dramático da vida do Rendeiro. Ele regressou a casa, mas não sabemos quando. E provavelmente nessa altura deve-se ter estabelecido em Bambadinca onde eu e outros camaradas o conhecemos em meados de 1969.

Enfim, mais um episódio para a série "(D)o outro lado do combate" (###). Pode ser que o Jorge Araújo, nosso colaborador permanente e conhecedor do Arquivo Amílcar Cabral,  queira e possa acrescentar ainda  novos dados sobre este caso. O Jorge teve ter tido oportunidade de conhecer o Rendeiro, em Bambadinca, nos anos em que esteve no Xime, Enxalé e depois Mansambo (entre 1972 e 1974).

Também a nossa amiga Maria Helena de Carvalho, filha do Pereira do Enxalé, é capaz de saber algo mais sobre esta história. O Rendeiro, em Porto Gole, e o Pereira,no Enxalé, eram amigos e talvez amigos... O Pereira fixou-se em Bissau, com a família, em 1962. O Reneiro ficou. Não haveria muitos mais brancos em redor, no início da década de 1960.


3. Tentando reconstituir (e estimar o tempo de) o percurso feito pelo  Rendeiro (e a sua escolta), calculamos que ele terá feito cerca de mil km, de Porto Gole (partida a 4/9/1963) a Dacar (chegada a 25/9/1963). É uma estimativa grosseira, com base nas estradas de hoje.

O Rendeiro fez pelo menos 160 km a pé, de Porto Gole até à fronteira senegalesa, entre Bigene e Guidaje:

(i) partiu de Porto Gole no dia 4 de setembro, possivelmente logo de manhã, passando pela base de Mansodé e chegando ao Morés possivelmente no dia seguinte;

(ii) aqui ficou 14 dias, partiu no dia 17, pelas 4 horas da tarde, a caminho da fronteira;

(iii) jantou na povoção de Fajonquito, a sul do Olossato;

(iv) depois do jantar, partiu para a povoação de Leto, a sudoeste do Tancroal, aonde chegou aproximadamente às 3 horas da madrugada do dia 18;

(v) descansa nesta povoação até cerca das 4 horas da tarde do dia 18,  partindo de seguido para a travessia do rio  Cacheu, o  que já se fez de noite, para ilkudir vigilância da marinha portuguesa;

(vi) cerca das duas horas da manhã  do dia 19, chegou à povoação fronteiriça de Giribam, já no Senegal; aqui descansou até  às 7 horas da manhã;

(vii) partiu depois, em viatura, para Ierã e Samine onde foi detido pela gendarmaria;

(viii) depois do almoço, seguiu para Ziguinchor, onde ficou mais 4 dias detido;ix)

(ix) esclarecida a sua situação e o seu novo estatuto, seguiu de Ziguinchor para Dacar no dia 23, aonde chegou somente por volta das 8 horas da noite do dia 25, devido a uma avaria na viatura que o transportava (, a ele e à sua escolta).

Em resumo, as forças do PAIGC levariam normalmente entre  4 a 5 dias, do centro da Guiné (Porto Gole, na margem direita do rio Geba) até à fronteira (,corredor de Sambuiá), fazendo uma média de 30/40 km por dia. Um ferido grave, levado para o hospital de Ziguinchor, morreria fatalmente pelo caminho,,,
____________


(...) Infelizmente já não está entre nós, pois foi sepultado na sua terra natal [, Murtosa,] em 10/09/2011, tendo eu assistido ao funeral e tido contacto com toda a " ínclita geração", os filhos de Fernandes Rendeiro / Auá Seide, da qual só tenho a dizer bem. A que estudava em Coimbra, era licenciada em direito e era magistrada: faleceu também há cerca de 5 anos. Era juíza do Ministério Público em Lisboa. (...)

/###) Último poste da série > 25 de outubro de  2017 > Guiné 61/74 - P17905: (D)o outro lado do combate (13): Jovens recrutas do PAIGC... (Jorge Araújo)

17 comentários:

Antº Rosinha disse...

No início da Guerra do Ultramar houve sempre uma enorme falta de diálogo entre quem chegava (tropa) e quem residia (brancos).

Nunca houve diálogo entre os "brancos" e "tropa", antes pelo contrário.

A mentalidade de quem chegava para combater os "turras", diziam os oficiais meilicianos e não só, que estavam ali por culpa dos brancos que trataram mal os pretos e estes revoltaram-se.

Testemunhei isto em Angola, ao vivo e a cores.

E insistia-se e ainda hoje se ilude muita gente, que os comerciantes (brancos) roubavam os pretos, quando na realidade, para quem viu por dentro, que os comerciantes eram os únicos brancos, se entendiam em várias línguas com o povo.

O comerciante que não tivesse uma afinidade e confiança total com o povo, (várias etnias)podia fazer as malas e ir a outra vida pois falia muito rapidamente.

Nem os missionários nem chefes de posto, (metropolitanos, indianos ou caboverdeanos)tinham o conhecimento e o relacionamento com os povos, igual aos comerciantes.

Foi esta gente o grosso dos "brancos" colonialistas, exploradores e futuros retornados que nem Spínola, nem Lobo Antunes, nem os alferes-de-coimbra, chegaram a compreender.

E gente como os estudantes do império, Pedro Pires, Cabral, Lúcio Lara etc. souberam explorar maravilhosamente esse desentendimento, tropaxbrancos.

Se em Angola, não na Guiné, a "vitória era certa" contra os "turras", uma das razões que ninguém menciona, era um entendimento mútuo dos comerciantes e mesmo capatazes de fazendas, poliglotas, e sua prole, com os povos, que formavam uma barreira onde o adversário era naturalmente repelido.

Claro que muitos comerciantes ficaram reféns como este Rendeiro, pois tinham família para cuidar.

Só falo do que vi.



Valdemar Silva disse...

António Rosinha, não percebo.
Queres dizer que os comerciantes não queriam saber quem 'mandava' no país?
Ou eram eles, comerciantes, que se sentiam donos do país?
Abraço
Valdemar Queiroz


(Por país, entenda-se: Guiné, Angola, Moçambique..)

Tabanca Grande disse...

Leopoldo Correia:

Eis uma história do arco da velha, que apanhei no Arquivo Amílcar Cabral. É a única que existe ao Rodrigo Rendeiro (sic), comnerciante em Porto Gole e casado com uma guineense, de etnia mandinga.

Vê se reconheces a assinatura do nosso amigo Rendeiro. A malta de Bambadinca (1969/71) conviveu com ele. Tu eras próximo dele e da família, creio que o conheceste dos teus tempos de Bafatá. Tens algum contacto dos filhos ? Gostava de tirar esta história a limpo. E só temos, até agora, uma versão...

Um grande abraço. Luís Graça

Antº Rosinha disse...

Amigo Valdemar, gosto de perguntas, perguntas bem peludas e embaraçosas.

E se te responder que a maioria dos comerciantes oriundos de Trás-os-Montes e Alto Douro, Minho e gradualmente por aí a baixo, com dezenas de anos de trópicos com famílias constituidas lá, brancas ou mestiças, tinham opinião bem mais formada do que qualquer Governador, com comissões de 4 anos, ou Generais e Intendentes de passagem como cão por vinha vindimada?

E que «antiguidade devia ser um posto?»

É que aquela gente sabia bem mais que qualquer PIDE, que mais que evidente, tiveram pouco sucesso, deviam ser aproveitados inteligentemente, como em muitos casos aconteceu em Angola, para na língua materna dos povos se fazer em directo, a tal luta da psico-social.

Falar os idiomas nativos, era sucesso garantido para aquela guerra, comprovadíssimo em Angola.

Só eles mesmo é que tinham esse trunfo nas colónias africanas, a tropa nunca entendeu completamente esse pormenor, e em Angola, só a partir de certa altura (1966 mais ou menos)é que aproveitou os imensos poliglotas que eram esses comerciantes e sua prole.

Atenção que se olharmos para o PAIGC, MPLA e FRELIMO, tinham na sua direcção, filhos ou netos dessa estirpe de gente, (brancos ou mestiços)e vejam quem ficou no "poleiro" em todas as colónias.

No entanto, havia muitos movimentos que ficaram todos a ver navios, eram os tribais.

Valdemar, e pessoal em geral, o "pau de dois bicos" dos comerciantes não era propriamente dar informações militares aos turras, até porque a maioria pouco saberiam do que se passava nos quarteis mais do que qualquer garoto que vivia à volta dos quarteis.

O pau de dois bicos constava em simplesmente em fazer aviados de mantimentos aos turras sem os denunciar, caso não pudessem evitar.

Eram casos conhecidos publicamente, caso de madeireiros em Angola.

E pelo que se deduzia na Guiné em conversas entre velhos comerciantes, após a luta,com Luís Cabral a mandar, aconteceria esse "fenómeno", era o desenrascanço.

Valdemar, os únicos que já não eram piriquitos, eram esses velhos comerciantes do mato, porque até os da cidade nunca chegaram a saber bem o que se passava no cabeça dos indígenas e dos brancos.

Ao fim de 30 anos nos trópicos, sou um piriquito, porque nunca falei com um indígena na sua língua.

Tabanca Grande disse...

Em Bambadinca, havia alguns europeus e cabo-verdianos, não sei ao cert quantos... Convivi comn pelo menos dois comerciantes, o Rendeiro e o Zé Maria (, frequentava o bar deste último, e fui almoçar algumas vezes a casa do primeiro)... Com o Zé Maria falei muito pouco ou nada, era apenas cliente dos seus "lagostins do rio Geba" que ele vendia a preço de ouro...

Todos sabíamos que tanto um como o outro deviam "jogar com um pau de dois bicos"... Ou seja, a tropa náo tinha confiança em nenhum...O que era "normal" numa guerra como aquela, de mútuas suspeições... Ambos eram comerciantes e a "gente do mato" ia, com a maior das naturalidades, abastecer-se em Bambadinca nas suas lojas, receber cuidados médicos e de enfemagem em Bambadinca, etc. A "gente do mato" tinha muitos parentes por ali, e nomeadamente em Nhabijões, Mero, Santa Helena, Bambadinca...

Em boa verdade, os dados foram lançados logo no início da guerra e, se Spínola marcou poucos face ao PAIGCm enter 1968 e 1973, não fez (nem ele nem todos nós...) o suficiente para inverter a situação....

Tabanca Grande disse...

Se o Rendeiro tivesse aderido ao PAIGC, ficaria sob a alçada da tropa portuguesa e da PIDE... O seu desaparecimento, em Porto Gole, deve ter sido imediatamente comunicado ao adinistrador de Mansoa... A capacicade de resposta da tropa, naquela altura (setembro de 1963) devia ser ainda muito limitada... Mas os 14 dias que ele ficou no Morés querem dizer alguma coisa: o PAIGC precisou de tempo para o pôr em segurança, na fronteira...

A declaração que ele faz ao secrário-geral do PAIGC, é a de um prisioneiro, para todos os efeitos... Ou melhor, de um refém. É possível que, mais tarde, não sabemos quando, o Amílcar Cabral tenha decidido que ele seria mais útil no interior da Guiné do que em Dacar... Na altura, teria já 37 ou 38 anos de idade, e não era homem com preparação militar. Não teria qualquer utilidade para o PAIGC... E depois havia um drama: uma família luso-guineense em aflição, a esposa e cinco filhos menores...

O Rendeiro terá tomado o caminho de regresso, mas deverá ter prestado declarações á PIDE e ficado debaixo de olho... Na guerra, é arriscado estar com um pé e no outro... O Mário Soares, de Pirada, também terá colaborado com os dois lados, segundo era voz corrente, eo inspector Fragoso Allas vem agora confirmar nas suas "memórias"...

Da fama de trabalhar para os dois lados, o Rendeiro também não se livrou... De qualquer modo terá também ido chatices depois do 25 de Abril, não sei pormenores, alguém me contou...

Também não sei quando é que ele regressou a Portugal, mas deve ter sido na altura da independência, devendo ter perdido, como muitos outros portugueses, o património adquirido com o seu trabalho ao longo de uma de 50 anos na Guiné...

Conforme norma do nosso blogue, não fazemos juízos de valor sobre o seu comportamento... Só nos interessam os factos, as histórias... E gostaríamos muito que um ou mais dos seus filhos nos ajudasse a esclarecer esta parte "obscura" da sua vida....Em suma, chegou a ingressar livremente nas fileiras do PAIGC ou foi apenas seu refém ? Podia inclusive ter sido raptado e depois libertado... Não o sabemos...

José Viegas disse...

Em Porto-Gole nos anos em que lá estive entre 66/68 havia a Casa Gouveia em que estava há frente um Cabo Verdiano que se chamava Albertino que vivia com a mãe. Em frente havia outra casa comercial de um tal João que me parece que era de Braga, esse sim jogava com o pau de dois bicos. Ainda cheguei a ter discussões com ele na altura da compra do arroz que ele pagava o preço do arroz limpo pelo mesmo preço do arroz com casca, além da pesagem que era sempre a enganar.
Se bem que raramente via pagamento em dinheiro era a troca por folha de tabaco e outros géneros que os Balantas necessitavam . Depois de sair de lá acho que a tropa o prendeu não voltei a ter mais informação

António José Pereira da Costa disse...

Olá Camaradas

Pelos vistos os comerciantes "oriundos de Trás-os-Montes e Alto Douro, Minho e gradualmente por aí a baixo, com dezenas de anos de trópicos com famílias constituídas lá, brancas ou mestiças, tinham opinião bem mais formada do que qualquer Governador, com comissões de 4 anos, ou Generais e Intendentes de passagem como cão por vinha vindimada".

Claro que o "pau de dois bicos dos comerciantes não era propriamente dar informações militares aos turras, até porque a maioria pouco saberiam do que se passava nos quartéis mais do que qualquer garoto que vivia à volta dos quartéis.
O pau de dois bicos constava em simplesmente em fazer aviados de mantimentos aos turras sem os denunciar, caso não pudessem evitar" o que temos que concordar que seria uma boa ajuda para os tais "turras". Em resumo: o dinheiro não tem cor e o que preciso é vender ou comprar a protecção de uma das partes, já que a outra está assegurada.
...era o desenrascanço. Por mi acho que é espantosa esta maneira de ver.

Não entendo bem porque é que "no início da Guerra do Ultramar houve sempre uma enorme falta de diálogo entre quem chegava (tropa) e quem residia (brancos)". Conviria determinar de que era a culpa. Não sei se seria dos alferes de Coimbra, que nunca tinham à África e não queriam lá ir ou de outra entidade qualquer, uma vez que dos residentes não era certamente...
A culpa deveria ser de quem chegava e tinha a "mentalidade de para combater os "turras", diziam os oficiais milicianos e não só, que estavam ali por culpa dos brancos que trataram mal os pretos e estes revoltaram-se".
"Toda a gente sabe que era precisamente o contrário".

Nunca testemunhei isto em Angola, nem ao vivo, nem a cores nem a P/B, mas tenho dúvidas que fosse assim.

Não discuto "que os comerciantes (brancos) roubavam os pretos, quando na realidade, para quem viu por dentro, que os comerciantes eram os únicos brancos, se entendiam em várias línguas com o povo e que comerciante que não tivesse uma afinidade e confiança total com o povo, (várias etnias)podia fazer as malas e ir a outra vida pois falia muito rapidamente.

Também aceito que "nem os missionários nem chefes de posto, (metropolitanos, indianos ou caboverdeanos)tinham o conhecimento e o relacionamento com os povos, igual aos comerciantes".

Admito que "foi esta gente o grosso dos "brancos" colonialistas, exploradores e futuros retornados que nem Spínola, nem Lobo Antunes, nem os alferes-de-Coimbra, chegaram a compreender".

E mais ainda que "gente como os estudantes do império, Pedro Pires, Cabral, Lúcio Lara etc. souberam explorar maravilhosamente esse desentendimento, tropaxbrancos".

Se em Angola, não na Guiné, a "vitória era certa" contra os "turras", uma das razões que ninguém menciona, era um entendimento mútuo dos comerciantes e mesmo capatazes de fazendas, poliglotas, e sua prole, com os povos, que formavam uma barreira onde o adversário era naturalmente repelido. Conclusão: em Angola ékera bom porque havia comerciantes poligolotas!
Tenho dúvidas, mas guardo-as para mim

Claro que muitos comerciantes ficaram reféns como este Rendeiro, pois tinham família para cuidar.

Não conheci o Rendeiro, mas no Xime costumava aparecer madeireiro de Bafatá (creio que ainda é vivo) que tinha um Austin 1275 GT e que conversava comigo, dizendo-me que ali "o problema era o problema do Balanta" No dia em que se compreendesse o Balanta a guerra estava ganha. Nunca conheci o tal Balanta, de modo que perdi a guerra.
Imagino o problema do tal Rendeiro ao ser raptado pelo PAIGC e ter ido fazer aquele safari pelas matas da Guiné. Não sei como voltou a Portogole/Bambadinca e seria giro saber como e de que modo chegou ali.

Um Ab.
António J. P. Costa

antonio graça de abreu disse...

Este Rendeiro é um caso de estudo. De simpatizante do PAIGC (obrigado pelo contexto da luta anti-colonial, obrigado pelos primeiros guerrilheiros a aderir à causa, preso logo a seguir) de simpatizante do PAIGC a informador da PIDE, vai um passo. É esse passo que merece a nossa reflexão, a nossa tentativa de entendimento. Porque se trata da evolução de um homem igual a nós, com 37 anos, já enraizado na Guiné, com mulher mandinga, e filhos, que passa a uma descrença total numa ideologia libertária e anticolonialista, e procura o aconchego, para si e para os seus, no verdadeiro e falso Portugal multissecular e eterno, com PIDE ou sem PIDE.
Saúdo o António Rosinha. Com toda a nossa gesta, heróica, à mistura com tanto episódio pouco edificante,o Rosinha
consegue explicar em três ou quatro frases (sabe do que fala, de "ver claramente visto")
quase tudo sobre as nossas guerras. Certeiro o tiro dirigido às patacuadas angolanas do excelente escritor, nosso camarada, António Lobo Antunes.

Abraço,

António Graça de Abreu

Antº Rosinha disse...

É natural que a maioria de militares que passaram pelas colónias, mesmo aqueles que tinham papéis de comando, quer a nível de pelotão ou de batalhão, poucos se teriam debruçado sobre o que era o "Comércio de permuta", que se praticava no interior, não nas cidades, no caso da Guiné, Bissau apenas.

Mesmo em Gabu e Bafatá, quer comerciantes fulas ou caboverdeanos que ficaram com as lojas dos europeus, retornados, alugadas ou usurpadas a estes, ainda praticavam em alguns casos , o comércio de permuta.

Isto em 1987, residi um ano em Gabu onde fui inquilino numa casa de um desses antigos portugueses.

Por exemplo uma simples bola de cera de mel de Canjadude, para ser negociada entre a família vendedora e o comerciante requeria um diálogo em que se discutia o que podia valer de coisas das prateleiras que podiam interessar aos elementos da família.

Desde oleo, sal, panos, chinelos chineses, arroz...e isto tudo usando argumentos em que na colheita anterior bola de cera idêntica, ainda estava na memória de todos, o que tinha rendido.

Quem diz uma bola de cera, diz um carneiro, uma vaca, o mesmo saco ou bacia ou balaio de arroz ou mancarra após cada safra.

Quando se diz que o comerciante "roubava na balança", ou no rol, isso era conversa de merceeiro das nossas velhas aldeias, ali essa da balança podia contar para o controle do próprio comerciante, mas não contava nada para o cliente, aliás, na permuta, eram clientes quem estava do lado de dentro ou de fora do balcão.

Quero com isto dizer que para ganhar dinheiro naquele tipo de negócio, era preciso uma especialização para quem saía das nossas terrinhas, algumas destas que arderam agora, nem com coimbra-e-tarimba se chegava lá.

Nem com comissões de dois ou quatro anos de função pública, e canudo universitário se chegava a entender o que era aquele trabalho.

Quando se fala em «piriquitos», esta gente seriam aqueles que na realidade não eram piriquitos.

E alguns desses comerciantes tinham uma particularidade que chegavam a dominar dois e mais idiomas tribais, porque era-lhes necessário, o que lhe granjeava o respeito muito particular entre os populares.

No caso da Guiné, todos os comerciantes que quiseram ficar, continuavam, após o 25 de Abril, e até com protecção mais ou menos garantida, embora fossem sapos que alguns dirigentes tiveram que engolir.

Só que com o regime comunista/cabralista instalado, já nada compensava insistir em tanta incongruência e desordem económica e a maioria foi saindo de vez.

Além de Spínola, eram os comerciantes aquilo que os guinenses tinham mais lembranças nos primórdios da libertação.

A independência tinha que ser, e o que tem que ser...!

Mas tenhamos mais respeito pela inteligência daqueles povos, já que os vencedores, alguns "Estudantes do Império", se esqueceram tanto desse mesmo povo.







Anónimo disse...

Camaradas,

Certamente que me cruzei com o Rendeiro, em Bambadinca, entre 1972 e 1974, mas nunca privei com ele.

Quanto ao solicitado pelo Luís, aqui vai o que consegui apurar nos «Arquivos», citando o seu conteúdo e referindo as respectivas fontes.

1. - Em texto assinado por Pedro Pires, dactilografado em impresso timbrado do PAIGC, datado de Outubro de 1963, refere-se que “Timóteo e Rendeiro – De facto foram à Gambia. O Rendeiro deve ter seguido para Bissau. O Timóteo voltou a Dakar. Tentou encontrar [-me?], às escondidas, no lar por duas vezes. Penso que ele continua em Dakar. Estou à procura de uma pequena informação [?] que falta para ir à “Sureté” [Segurança].
Eles devem ter tido contactos com os elementos da URGP [Union des Ressortissants de La Guinée Portugaise ou UNGP – União dos Nativos da Guiné Portuguesa]. Penso isso pelos panfletos que têm saído ultimamente.
Soube que o Timóteo disse à prima que não saiu de livre vontade. Que foi obrigado a sair”.

Fonte: hdl.handle.net/11002/fms_dc_36579

2. - No relatório manuscrito e assinado por Pedro Pires, datado de 26 de Outubro de 1963, é referido que “Timóteo e Rendeiro – tudo o que aconteceu foi devido a informações incompletas vindas do interior. Depois de algumas averiguações soube que tiveram contacto com 4 caboverdianos que trabalham pela [para a] PIDE e que estes foram ao Consulado da Suíça e conseguiram salvo-condutos para os dois e pagaram-lhes as passagens para a Gâmbia. Tenho o nome dos caboverdianos e do local onde se reuniam”.

Fonte: hdl.handle.net/11002/fms_dc_41413

Saúde e resto de bom feriado.

Abraços.

Jorge Araújo.

Tabanca Grande disse...

Obrigado, Jorge, afinal havia mais duas referências ao Rendeiro, no Arquivo Amílcar Cabral. O Rendeiro, agora considerado como "refugiado", mais um tal Timóteo, tornam-se um "estorvo" para o Lourenço Gomes, para o Pedro Pires e para os mais dirigentes do PAIGC em Dacar.

O nosso Rendeiro acaba por obter um salvo-conduto, chegar à Gâmbia e regressar a casa para os braços da sua princesa Auá Seidi... Gostava de conhececer mais pormenores desta pequena odisseia... Bem me queria parecer que a sua "confissão" fora obtida sob coação dos seus captores...

Tabanca Grande disse...

Seria interessante conhecermos mais histórias de comerciantes (europeus, cabo-verdianos, ou sírio-libaneses...) estabelecidos no interior da Guiné, e que foram apanhados pelo ínicio do conflito, logo em 1962 e depois nos primeiros de 1963....

A guerra, na realidade, não começoou em Tite em 23 de janeiro de 1963...Havia já fortes indícios da "subversão" no interior do território... Alguns comnerciantes terão sido mais "previdentes" do que o Rodrigo Rendeiro... Estou-me a lembra de dois ou três casos: (i) O Pereira do Enxalé, pai da nossa amiga e grã-tabanqueira Maria Helena Carvalho; (ii) o António Amante da Rosa, comerciante em Belim, Fulacunda, pai do a,migo e camarada Manuel Amante da Rosa, hoje embaixador de Cabo Verde em Itália; e (iii) Manuel Simões, o Simões da destilaria de Jugudul (estabelecido lá no pós-independência)...

O Amadeu Abrantes Pereira, natural de Seia, era um conhecido comerciante, o Pereira do Enxalé. Era dono de uma importante destilaria de aguardente de cana, bem como de outras instalações e casas, que ainda hoje estão de pé. A família era muito estimada pela população local.

A Maria Helena nasceu no Enxalé em 1950, se não erro. Saiu cedo de lá, creio que com sete ou oito anos, por volta de 1958, para ir estudar em Bissau e depois na Metrópole. Mas regressava nas férias grandes. As suas memórias de infância (e os seus amigos de infância) estão indelevelmente ligados a esse tempo e a esse lugar.

Os pais acabaram por sair do Enxalé, por razões de segurança, fixando-se em Bissau, em 1962. Já havia nuvens negras que prenunciavam a chegada da borrasca da guerra. A matéria-prima (a cana de açúcar) que abastecia a destilaria começou a escassear. Os caminhos tornavam-se perigosos. O PAIGC fazia o seu trabalho de sapa. Entretanto, a mãe morreu e a Maria Helena ficou definitivamente entregue aos cuidados dos padrinhos, que viviam nas Caldas da Rainha.

O património da família ainda lá está, no Enxalé, arruinado. Também tinham prédios em Bissau. Em 1989, a Maria Helena voltou aos lugares da sua infância. Ainda encontrou, no Enxalé, gente que trabalhara para o seu pai bem como amigos de infância. Ela ainda fala do Enxalé e da Guiné com emoção.

O António Amatante da Rosa mudou de ramo, e virou-se para o transporte marítimo e fluvial... O Manuel Simões também se fixou me Bissau, menos sorte teve o irmão Januário, que seria morto, em Empada, em 1962, por um grupo, possivelmente de balantas, a quem deu boleia...


(continua)

Tabanca Grande disse...

(Continuação)

Leia-se o que aqui escreveu o Manuel Amante da Rosa sobre o seu primo Manuel Simões (1941-2014):

(...) "O Manuel Simões, meu primo, nasceu em Bolama, em 17 de Maio de 1941 (...). O Pai, o velho Manuel Simoes, empresário conhecido de Bolama e do sul da Guiné, era originário de Moimenta da Serra, Portugal onde faleceu nos finais dos anos sessenta.

"O filho Manuel estudou alguns anos no Colégio Moderno, ao tempo do pai do Dr. Mário Soares, como interno, mais o irmão Januário, após o que retornaram à Guiné para ajudar o pai nas casas comerciais que tinha no sul da Guiné e Bijags (Darsalame, Empada, Bolama e Embana na ilha das Galinhas).

"Ambos os irmãos distinguiram-se no desporto, no futebol, tanto como jogadores como dirigentes desportivos.

"Com o início da guerra o Manuel Simõs, mais conhecido por Manelito, recolheu, como muitos, a Bissau e dedicou-se ao transporte fluvial. Cumpriu parte do serviço militar obrigatório. Fez parte do primeiro curso de Sargentos Milicianos, dado na Guiné, nos inícios de sessenta. Foi desmobilizado após o assassinato do irmão [, Januário Simões, em Empada, c. 1962].

"Foi dirigente do Ténis Clube de Bissau durante muitos anos. Seu clube de eleição. Enveredou pela indústria da destilaria da cana de açúcar, em Jugudul, após o fim da guerra.

"Era pessoa muito conhecida, de trato fácil e popular por toda a Guiné. Sempre generoso durante toda a sua vida. Ajudou muita gente sem nunca fazer disso nenhum alarde. A porta sempre aberta para amigos e carenciados.

"Amava a Guiné como ninguém e identificava-se plenamente com tudo o que dissesse respeito a os hábitos e costumes da sua terra amada.

"Conhecia bem toda a Guiné, especialmente a região e etnia Balanta. Região onde passou os últimos anos da sua vida e que sempre o acolheu com muito carinho." (...)


A história destes homens merecia ser melhor conhecida!... LG

Tabanca Grande disse...

Pode-s eperguntar por que é que o Rodrigo Fernandes Rendeiro ficou até tão tarde (setembro de 1963) em Porto Gole, quando o PAIGC já estava bem implantado na Região do Óio e em especial no Morés ?...

Nessa altura as nem a administração civil nem o exército estavam em condições de dar garantias de segurança aos comerciantes (europeus, cabo-verdianos, sírio-libaneses...) espalhados pelo mato... Os mais avisados mudaram de negócio ou estabeleceram-se em Bissau...

Será que o Rendeiro tinha algum acordo tácito com o PAIGC ? Ele, aparentemente, sabia que o o seu empregado José Duarte Pinto era militante ou simpatisante do PAIGC... Mas será que ele conhecia bem o PAIGC e os seus dirigentes ? Duvido muito...

O facto de ser casado com uma senhor mandinga e ter já 20 anos de vida e de trabalho na Guiné dar-lhe-ia alguma vantagem ? Será que a mulher tinha "parentes no mato" ? Tanto quanto me lembro, ele exprimia-se bem em crioulo, e devia dominar alguns dialetos locais...E em Bambadinca tinha uma casa afreguesada...

De qualquer modo a sua "aventura" com o PAIGC, de que ficou para todos os efeitos "refém", deve-o ter traumatizado. Nunca nos falou deste episódio doloroso da sua vida... Terá andado pelo menos dois meses (set/ou 1963) longe da mulher e dos filhos, até conseguir regressar... Este era um segredo bem guardado... Talvez isso explique o seu ar resevado e algo misterioso...Não sei como terá vivido, ele e a família, o ataque a Bambadinca, em 28 de maio de 1969... Talvez por pudor, eu nunca puxei a conversa para este episódio... Felizmente para a ele o ataque (ou flagelação) deu-se so lado da pista de aviação...

De qualquer modo, admito que, depois do seu regresso, ele tenha ficado "refém" da PIDE...

Antº Rosinha disse...

Luís, está gente podia abrir-se mas não creio que se abra com ex-militares, como este teu grande desejo.

Nem eles nem gente do povo que estava ao lado de "Spínola", se abrirão abertamente com furrieis e alferes, quer sejam milicianos ou sejam do quadro.

Eles sabem que nunca entenderam a tropa e sabem que a tropa nunca os entendeu, será uma razão para não aparecerem?

E vê só os anos que levamos aqui e exceptuando o nosso Cherno e mais um ou outro furriel caboverdeano, ninguém se aproxima, no entanto tens testemunhos de que somos lidos por muita gente e que pouca gente aparece.

E é pena que passe o tempo e não venha ninguém abrir-se para compreendermos qual será o pensamento deles sobre estas coisas que aqui debatemos.

E, pensando bem, não será melhor não aparecerem mesmo?

Admira que pelo menos, não apreçam mais ex-militares caboverdeanos e "berdeanos" da Guiné quando houve tantos a cumprir comissões em todas as frentes que ou eram filhos de comerciantes ou de funcionários.

Cumprimentos

António José Pereira da Costa disse...

Olá Camaradas

Afinal de que é que estamos a falar?
Se bem entendo, estamos a falar de um comerciante oriundo da metrópole (como então se dizia), casado com uma guineense. O PAIGC, vá lá saber-se porquê, raptou-o e fê-lo fazer uma viagem até à Gâmbia e Dakar. Com que objectivo nunca o saberemos. Se era para o fazer colaborar, não me parece que os resultados tenham sido brilhantes.
Nunca tive qualquer contacto com ele, em Bambadinca. Não sei, por isso, qual era o grau de colaboração com as NT ou com o In. Julgo que as NT não obrigavam ninguém a "colaborar". Quanto ao In... pelo menos era-lhe mais fácil tentar.
As razões para uma ou outra das formas de colaboração, provavelmente no campo das informações e dispensa de meios logísticos, compete aos próprios, sendo certo que é sempre difícil obter neutralidade ou equilíbrio na situação.
Hoje, mais de quarenta anos volvidos, é problemática a reconstituição da actuação deste tipo de pessoas. São poucos.
Penso que eram mais ou menos forçados à colaboração com o PAIGC.
Com as NT e especialmente com a PIDE não sei, mas creio que a colaboração não era voluntária, nem interessante para o sistema.

Um Ab.
António J. P. Costa