sábado, 4 de novembro de 2017

Guiné 61/74 - P17935: Caderno de notas de um mais velho (Antº Rosinha) (53): Os "comerciantes" e os "outros"... Lá, em Angola, Guiné e Moçambique, muitas vezes mais valia um ano de tarimba do que dez de Coimbra...



Guiné > Região de Tombali > Catió > CCS / BART 1913 (1967/69) > Álbum fotográfico do Victor Condeço > Quartel > Foto 32 A > Pormenor; quatro funcionários dos correios (à esquerda), seguidos de quatro comerciantes, o libanês José Saad (e filha), o Mota, o Dantas (e filha) e o Barros.


 Foto (e legenda) do nosso saudoso Victor Condeço (1943/2010) / Edição e legendagem complementar:  © Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2007). Todos os direitos reservados.



I. Três comentários do nosso amigo e camarada António Rosinha, ao poste P17920 (*):


1. No início da Guerra do Ultramar houve sempre uma enorme falta de diálogo entre quem chegava ("tropa") e quem residia ("brancos").

Nunca houve diálogo entre os "brancos" e "tropa", antes pelo contrário. A mentalidade de quem chegava para combater os "turras", diziam os oficiais milicianos, e não só, que estavam ali por culpa dos "brancos" que trataram mal os "pretos" e estes revoltaram-se.

Testemunhei isto em Angola, ao vivo e a cores.

E insistia-se,  e ainda hoje se ilude muita gente, que os comerciantes ("brancos") roubavam os "pretos", quando na realidade, para quem viu por dentro,os comerciantes eram os únicos brancos que se entendiam em várias línguas com o povo.

O comerciante que não tivesse uma afinidade e confiança total com o povo, (várias etnias) podia fazer as malas e mudar de vida,  pois falia muito rapidamente

Nem os missionários nem chefes de posto, (metropolitanos, indianos ou cabo-verdianos) tinham o conhecimento e o relacionamento com os povos, igual ao dos comerciantes.

Foi esta gente o grosso dos "brancos", colonialistas, exploradores e futuros retornados,  que nem Spínola, nem Lobo Antunes, nem os alferes-de-coimbra, chegaram a compreender.

E gente como os estudantes do império, Pedro Pires, Amílcar Cabral, Lúcio Lara,  etc. souberam explorar maravilhosamente esse desentendimento, "tropa"  versus "brancos".

Se em Angola, não na Guiné, a "vitória era certa" contra os "turras", u ma das razões que ninguém menciona, era um entendimento mútuo dos comerciantes,  e mesmo capatazes de fazendas, poliglotas, e sua prole, com os povos, que formavam uma barreira onde o adversário era naturalmente repelido.

Claro que muitos comerciantes ficaram reféns, como este Rendeiro, pois tinham família para cuidar.
Só falo do que vi.

2. A maioria dos comerciantes oriundos de Trás-os-Montes e Alto Douro, Minho e gradualmente por aí abaixo, com dezenas de anos de trópicos, com famílias constituidas lá, brancas ou mestiças, tinham opinião bem mais formada do que qualquer Governador, com comissões de 4 anos, ou Generais e Intendentes de passagem como cão por vinha vindimada ?

E que «antiguidade" devia ser um posto?

É que aquela gente sabia bem mais que qualquer PIDE, que mais que evidente, tiveram pouco sucesso, deviam ser aproveitados inteligentemente, como em muitos casos aconteceu em Angola, para na língua materna dos povos se fazer em directo, a tal luta da psico-social.

Falar os idiomas nativos era sucesso garantido para aquela guerra, comprovadíssimo em Angola.

Só eles mesmo é que tinham esse trunfo nas colónias africanas, a tropa nunca entendeu completamente esse pormenor, e em Angola, só a partir de certa altura (1966 mais ou menos)é que aproveitou os imensos poliglotas que eram esses comerciantes e sua prole.

Atenção que, se olharmos para o PAIGC, MPLA e FRELIMO, tinham na sua direcção, filhos ou netos dessa estirpe de gente, (brancos ou mestiços)e vejam quem ficou no "poleiro" em todas as colónias.

No entanto, havia muitos movimentos que ficaram todos a ver navios, eram os tribais.

O  "pau de dois bicos" dos comerciantes não era propriamente dar informações militares aos "turras", até porque a maioria pouco saberiam do que se passava nos quarteis mais do que qualquer garoto que vivia à volta dos quarteis.

O pau de dois bicos constava em simplesmente em fazer aviados de mantimentos aos "turras" sem os denunciar, caso não pudessem evitar. Eram casos conhecidos publicamente, caso de madeireiros em Angola.

E pelo que se deduzia na Guiné em conversas entre velhos comerciantes, após a luta, com Luís Cabral a mandar, aconteceria esse "fenómeno", era o desenrascanço.

Os únicos que já não eram periquitos, eram esses velhos comerciantes do mato, porque até os da cidade nunca chegaram a saber bem o que se passava no cabeça dos indígenas e dos brancos.

Ao fim de 30 anos nos trópicos, sou um periquito, porque nunca falei com um indígena na sua língua.

3. É natural que da maioria dos militares que passaram pelas colónias, mesmo aqueles que tinham papéis de comando, a nível quer de pelotão ou companhia  ou quer a nível de  batalhão, só poucos se teriam debruçado sobre o que era o "comércio de permuta", que se praticava no interior, não nas cidades, no caso da Guiné, Bissau apenas.

Mesmo em Gabu e Bafatá, quer comerciantes fulas ou caboverdeanos que ficaram com as lojas dos europeus, retornados, alugadas ou usurpadas a estes, ainda praticavam em alguns casos , o comércio de permuta.

Isto em 1987, residi um ano em Gabu onde fui inquilino numa casa de um desses antigos portugueses.

Por exemplo uma simples bola de cera de mel de Canjadude, para ser negociada entre a família vendedora e o comerciante, requeria um diálogo em que se discutia o que podia valer de coisas das prateleiras que podiam interessar aos elementos da família.

Desde óleo, sal, panos, chinelos chineses, arroz...e isto tudo usando argumentos em que na colheita anterior bola de cera idêntica ainda estava na memória de todos, o que tinha rendido.

Quem diz uma bola de cera, diz um carneiro, uma vaca, ou o  mesmo saco ou bacia ou balaio de arroz ou mancarra após cada safra.

Quando se diz que o comerciante "roubava na balança", ou no rol, isso era conversa de merceeiro das nossas velhas aldeias, ali essa da balança podia contar para o controle do próprio comerciante, mas não contava nada para o cliente, aliás, na permuta, eram clientes quem estava do lado de dentro ou de fora do balcão.

Quero com isto dizer que para ganhar dinheiro naquele tipo de negócio, era preciso uma especialização para quem saía das nossas terrinhas, algumas destas que arderam agora, nem com coimbra-e-tarimba se chegava lá.

Nem com comissões de dois ou quatro anos de função pública, e canudo universitário se chegava a entender o que era aquele trabalho.

Quando se fala em «periquitos», esta gente seriam aqueles que na realidade não eram periquitos.

E alguns desses comerciantes tinham uma particularidade. é  que chegavam a dominar dois e mais idiomas tribais, porque era-lhes necessário, o que lhe granjeava o respeito muito particular entre os populares.

No caso da Guiné, todos os comerciantes que quiseram ficar, continuavam, após o 25 de Abril, e até com protecção mais ou menos garantida, embora fossem sapos que alguns dirigentes tiveram que engolir.

Só que com o regime comunista/cabralista instalado, já nada compensava insistir em tanta incongruência e desordem económica e a maioria foi saindo de vez.

Além de Spínola, eram os comerciantes aquilo que os guinenses tinham mais lembranças nos primórdios da libertação.

A independência tinha que ser, e o que tem que ser...!

Mas tenhamos mais respeito pela inteligência daqueles povos, já que os vencedores, alguns "Estudantes do Império", se esqueceram tanto desse mesmo povo.  (**)
____________

Notas do editor:

(*) Vd. poste de 31 de outubro de 017 > Guiné 61/74 - P17920: (D)o outro lado do combate (14): a odisseia do português, da Murtosa, Rodrigo Rendeiro: uma viagem atribulada, de cerca de mil km, de 3 a 26 de setembro de 1963, de Porto Gole, onde tínha um estabelecimento comercial e era casado com uma senhora mandinga, de linhagem nobre, Auá Seidi, e tinha cinco filhos,até ao Senegal (Samine, Ziguinchor e Dacar), unindo ocasionalmente o seu detino ao do PAIGC... Relatório, assinado por ele, mas de autenticidade duvidosa...

(**) Último poste da série > 15 de outubro de 2017 > Guiné 61/74 - P17862: Caderno de notas de um mais velho (Antº Rosinha) (52): Das pequenas recordações dos vários quartéis a mais artística que ficou lá a "apodrecer", foi o memorial na ponte de Caium

18 comentários:

Tabanca Grande disse...

A expressão (, aliás, o prov+erbio popular...) "Mais vale um ano de tarimba do que dez de Coimbra") tem de ser contextualizada e relativasada... Durante séculos, até pelo menos a a meados do séc. XVIII / séc. XIX, a generalidade dos médicos, cirurgiões e demais praticantes da arte de curar gozavam de escasso prestígio, pelo menos aos olhos do "povo"... Diversos provérbios e outros lugares comuns da língua portuguesa que nos chegaram até hoje, cristalizaram alguns dos estereótipos que então havia em relação aos praticantes da arte médica /médicos, cirurgiões, farmacêuticos, terapeutas, etc.):

"Com malvas e água fria faz-se um boticário num dia";

"Deus é que cura e o médico leva o dinheiro";

"Médico velho, cirurgião novo, boticário coxo".

O mesmo aliás se podia dizer da universidade europeia, em geral, e da portuguesa, em particular, devido à persistência, ao longo de séculos, do ensino arábico-galénico e escolástico (lei-se: teórico, sebenteiro, desligado da prática clínica e hospitalar)... Daí o teor cáustico de provérbios tais como:


"Mais vale um ano de tarimba do que dez de Coimbra";

"Salamanca a uns cura a outros manca";

"Médicos de Valência, muitas fraldas, pouca ciência"...

Com as devidas adaptações, também podíamos dizer o mesmo em relação à nossa administração colonial...sem esquecer o exército do tempo da guerra colonial... Da minha experiência, valeram-nos os nossos guias, picadores, milícias e militares do recrutamente local... Falo, obviamente, de uma experiência limitada, da da minha CCAÇ 12 (1969/71)... Não gosto de "generalizar"...

Tabanca Grande disse...

Achei piada às tuas metáforas, "os alferes de Coimbra" e os "estudantes do Império", dois grupos distintos mas cada um lendo pela sua cartilha... Como achei piada à tua expressão "coimbra-e-tarimba"... Ou seja, o conhecimento, o saber, a técnica, o saber-fazer, não chegam, é preciso em todas as situações da vida o "saber-ser" e o "saber-estar"...

O que os "estudantes do Império" perderam, quando passaram da guerrilha ao poder, foi a sabedoria africana, ou mais simplesmente, humana... Não entendera os seus povos, ou melhor, deixaram de os ouvir e sentir...

Amílcar Cabral não chegou a conhecer as delícias do poder... Mas será que seria mais sábio em Bissau do que em Conacri ? ... Uma pergunta que nunca poderá ter resposta...

Tabanca Grande disse...

Escreves, com aparente pertinência: "Atenção que, se olharmos para o PAIGC, MPLA e FRELIMO, tinham na sua direcção, filhos ou netos dessa estirpe de gente (, brancos ou mestiços,) e vejam quem ficou no "poleiro" em todas as colónias.... No entanto, havia muitos movimentos que ficaram todos a ver navios, eram os tribais."...

Querias referir, por exemplo, às RENAMOS, às UNITAS, às FNLA ?... Repara quem é que apostou na formação das suas elites (, nalguns casos, as confissões cristãs...). Mas eu não conheço bem a cpomposiçaõ sociodemográfica dos movimentos nacionalistas de Angola e Moçambique...

E quanto aos "estudantes do Império", não te esqueças que eram uma "verdadeira seleção nacional", ou melhor, do império... Vieram para Lisboa poucos e tardiamente, quando tínhamos a obrigação de criar um verdadeiro sistema educativo integrado (do ensino básico ao ensino superior politécnico e universitário) que só com a guerra começou a desenvolver-se... Mas, pensando na nossa geração, quem de nós, nascido nas "berças", podia ir estudar para Lisboa, Porto ou Coimbra, nos anos anos 50/60/70 ?

Estamos sempre a esquecer os "constrangimentos" do sistema político vigente... Teríamos feito melhor que os franceses da IV e V República, se Portugal tivesse feito o seu "25 de Abril" em 1944 ou 1945, como fizeram os franceses, os italianos, os holandeses... ? A nossa II República, que poderia ter sido a sucessora do Estado Novo em 1945, teria feito melhor que Salazar e Caetano ? Teríamos evitado a guerra colonial e a tragédia da descolonização ? E, tu, Rosinha, serias hoje um pacato cidadão angolano, com saúde e patacão para gastares na tuas bodas de ouro e teres dierito a uma velhice saudável e ativa, não a caçar leões mas a vê-los nas grandes "chanas" do leste de Angola ?

Feleiz ou infelizmente, não há o "se" na História... Mas podemos sempre dar asas à imaginação e à poesia...

Tabanca Grande disse...

... Em conclusão, gostaria de poder dizer, aos meus netos (quando e se os tiver) que vivi num país que deu, por duas vezes, novos mundos ao mundo, em quinhentos e depois em novecentos... Foi uma pena que o processo de transferência da soberania dos povos africanos (e asiáticos) "sob a nossa tutela ou administração", não se tenha feito de maneira pacífica, política, gradual, racional, negociada... Mas a História é assim, não é um cavalo, dócil, que se possa guiar com as rédeas na mão...

Antonio Rosinha disse...

Luís, eu não falo com saudosismo, nem penses tal coisa.

Apenas analiso a sangue frio aquilo que fizemos totalmente diferente da França, Inglaterra, Bélgica e Espanha, nas colónias africanas.

Um dia pelo menos, não fomos umas "maria vai com as outras"

Fizemos diferente dessas potências coloniais, e o estado em que ficaram todos esses países não estão melhor que as ex-colónias portuguesas, estas eram para simplesmente desaparecer, na I Grande Guerra, na II Grande Guerra, e se não fossem os 13 anos da Guerra do Ultramar, haveria ou não Palopes, hoje.

Então na Guiné não havia uma infinidade de tendências em que a mais notável seria a FLING, MLG etc? Tal como nos outros países, foram e sentem-se defraudados, pelos vencedores.

Só nós e depois os Boers é que tentámos enquanto se podia evitar a catátrofe que tem sido a maioria das independências artificiais e impróprias da África.

Eu penso que se podiam evitar guetos na França e Inglaterra, piores do que é a Cova da Moura, que ainda sobrou para nós.

Luís, ninguém negociou independências, nem nos Congos, nem na Nigéria nem na Costa Oriental de África...apadrinharam-se apenas uns ditadores.

Nós nunca podiamos apadrinhar ninguém, não tínhamos exércitos/mercenários para os "segurar" no poder.

Cinismo para tal também nós tínhamos, se pudessemos.

Não há saudosismo, chegaram 13 anos na Guiné para satisfazer a curiosidade.

O tempo dirá se valeu a pena, ainda é cedo para contar a história.








Valdemar Silva disse...

...ou, também, como diria Gorki 'a vida (neste caso a história) não é nenhum cavalo, não devemos chicoteá-la'.

Valdemar Queiroz

J.Sacôto disse...

Rosinha:
Tens toda a razão. Esse boato orqurestado intencionalmente por entidades estrangeiras de que os militares iam para o Ultramar por causa da forma como os brancos tratavam os indígenas, tinha um objectivo e foi a génese da descrença de como grande parte do povo português perdeu a esperança e passou a achar aquela guerra uma acção não de soberania, mas de injustiça e subordinação de povos pela força das armas.
Um abraço,
JS

António José Pereira da Costa disse...

Olá Camaradas
Se bem entendi esta sequência de textos, já publicada como comentários noutros post é a apologia de algo parecido com os "lançados", portugueses que se metiam Brasil a dentro comerciando com os Índios e que, a dada altura estavam a milhares de kilómetros da costa.
Os comerciantes portugueses que se fixavam na Guiné eram algo de parecido, mas não eram delegados do nacional-porreirismo que se sacrificavam no altar Pátria a desenvolver as inóspitas terras daquela portuguesíssima terra. Eram comerciantes e, portanto gente que queria ter no balanço saldo positivo. Se não, não seriam comerciantes...
Claro que eram detentores de um conhecimento empírico da psicologia dos naturais da terra com os quais negociavam.
Do ponto de vista sociológico e antropológico poderiam ser fontes de conhecimentos a considerar. Como todo o comerciante e industrial - que tem uma porta aberta - para comprar e vender estavam ali para ganhar dinheiro e num ambiente e de uma forma que não deixava de lhes agradar e que quanto mais a conheciam, tanto mais lhes agradava.
Não eram nenhuns sacrificados.
Começada a guerra ou fugiram - os mais espertos - ou procuraram equilibrar-se no fio da navalha. O PAIGC, se os hostilizou ao princípio, a curto prazo concluiu que poderiam ser, se bem tratados, uma fonte de informações e reabastecimentos, eles próprios ou os seus "fiéis empregados". No fundo, uma situação de saprofitismo em que poderiam negociar abertamente com as NT e não serem importunados pelo In,
O comércio é isso mesmo e se se conseguir atingir este estado de vivência está tudo bem.
Creio que uma boa percentagem de culpa da guerra, lhes cabe. No fundo, eles é que estão "no terreno" e é do seu comportamento que poderão sair os motivos para a "luta de libertação".
Terminada a guerra sobreviverão como qualquer comerciante em África. Com a instabilidade que por lá se vive, umas vezes as coisas correm bem, ou eles colaboram com que é necessário para que corram, ou correm mal e às vezes nem se sabe bem porquê.
Mas isso, já são outras questões que não me preocupam

Um Ab e um bom Dia-do Senhor para todos
António J. P. Costa

António José Pereira da Costa disse...

Oh Luís

Aquela dos novos mundos ao mundo e ainda por cima "por duas vezes", [...] em quinhentos e depois em novecentos...
Pois claro que "foi uma pena que o processo de transferência da soberania dos povos africanos (e asiáticos) "sob a nossa tutela ou administração", não se tenha feito de maneira pacífica, política, gradual, racional, negociada"...
Mas a História é assim. Não se rebobina e nela não há "ses..."

Cada vez aceito menos aquela "dos novos mundo ao mundo". Não sou vaidoso e ainda não sei o que é que fez com que os Portugueses atirarem-se p'ró mar. E terão sido assim tantos ou, se calhar uma pequena percentagem? Se calhar era a miséria e a fome ou também pensas que era a grande vontade de "evangelizar os gentios", "dilatar a fá e Império" etc. etc. etc. e mais etc.?

Um Ab.
António J. P. Costa

António José Pereira da Costa disse...

Olá Camaradas

Claro que "aquilo que fizemos foi totalmente diferente da França, Inglaterra, Bélgica e Espanha, nas colónias africanas". É um bocado lapaliciano...
Cada caso é um caso e mesmo nas três colónias onde houve guerra as coisas foram diferentes.
E mesmo naquelas onde não houve guerra: Índia, Timor, S. Tomé ou Cabo Verde, a colonização teve características específicas e algumas bem nos envergonham, mesmo à luz dos critérios daquele tempo.

Por isso fizemos "diferente dessas potências coloniais, e o estado em que ficaram todos esses países não estão melhor que as ex-colónias portuguesas" o que é mundialmente reconhecido e houve, na altura quem o previsse e anunciasse. Mas não era politicamente correcto. Hoje temos que tocar a bola p'rá frente e pronto.
Se calhar, se "estas (as colónias) eram para simplesmente desaparecer, na I Grande Guerra, na II Grande Guerra(?), e se não fossem os 13 anos da Guerra do Ultramar, haveria ou não Palopes.
Há alguma vantagem em haver PALOP? Qual e para quem? Por mim ainda não dei por nada, antes pelo contrário. O funcionamento da CPLP é uma vergonha, ou não é?
Se hoje "tal como nos outros países, foram e sentem-se defraudados, pelos vencedores" é um problema que não me toca, onde não quero envolver-me e, melhor, não posso nem devo.

Os Boers eram colonialistas/comerciantes/agricultores (holandeses) como os outros. Tiveram o azar de enfrentar os ingleses, enquanto nós lá demos a volta ao texto... com mais habilidade.
Nós é que tentámos enquanto se podia evitar a catástrofe que tem sido a maioria das independências artificiais e impróprias da África. E depois?
Se calhar "podiam-se evitar guetos na França e Inglaterra, piores do que é a Cova da Moura, que ainda sobrou para nós". (Curiosa esta expressão) Mas é lógico que as pessoa tentem melhorar as suas vidas.

Talvez "ninguém tenha negociado independências, nem nos Congos, nem na Nigéria nem na Costa Oriental de África...apadrinharam-se apenas uns ditadores". Mas o politicamente correcto era aquele e o "orgulhosamente sós" deu o mau resultado que os que foram e vieram ainda se lembram. Se não não havia blog do Luis Graça...

"Nós nunca podíamos apadrinhar ninguém, não tínhamos exércitos/mercenários para os "segurar" no poder". Boa e irrefutável constatação! E eu acrescento: e "estávamos fartos deles!" (Frase muito comum naquele tempo ou já se esqueceram?)

Se "não há saudosismo" então donde vem esta ânsia de justificação?

O tempo disse que não valeu a pena e é isso que mais nos deve irritar. Foi tudo inútil!

Um Ab.
António J. P. Costa

Tabanca Grande disse...

Meu caro To Zé: também não gosto, porque é que é "redondo e vazio como um balão", esse slogan de "dilatar a fé e o império"... É ideologia, pura e simples... Mas não desgosto dessa outra frase feita "dar novos mundos ao mundo"... Não é ideologia, é poesia... É Lusíadas, é Camões, Canto II, 45:

"Que se o facundo Ulisses escapou
De ser na Ogígia ilha eterno escravo,
E se Antenor os seios penetrou
Ilíricos e a fonte de Timavo;
E se o piedoso Eneias navegou
De Cila e de Caríbdis o mar bravo,
Os vossos, mores cousas atentando,
Novos mundos ao mundo irão mostrando."

...Em sentido literal e figurado, é pura e simplesmente, no meu entender, querer dizer, sem "cangança", que foram os portugueses de quinhentos ls primeiros a abriu "autoestrada da globalização", ao ligaram o Atlântico ao Índico e depois ao Pacífico...

António José Pereira da Costa disse...

Olá Camarada

Como sabes, melhor que eu, a poesia é uma coisa e a realidade é outra.
É quase crime tomar à letra a poesia e pior do que isso usá-la com fins ideologicamente lucrativos. É um abuso!
O Camões é uma coisa (boa, julgo eu) e o António Ferro (foi com ele que tudo começou) é outra.
Devemos abandonar, em nome da verdade, uma série de lugares comuns, frases feitas e conceitos que nos foram implantados e que ou não correspondem a nada ou resultam de leituras deturpadas e intelectualmente desonestas.

Um Ab.
António J. P. Costa

Tabanca Grande disse...

António Ferro... o único ministro de Salazar que não era... doutor!... Um génio do "marketing político"...Muito provavelmente sem ele, Salazar não teria, não direi existido, mas "resistido" até tão tarde... Para mais era um homem culto, amigo de escritores e artistas...

António José Pereira da Costa disse...

Oh Luís!

"Para mais era um homem culto, amigo de escritores e artistas?..."
Isto é um aplauso?
Ou seriam eles que não tinham outra opção de sobrevivência senão ser amigos dele.
Promovia o Salazar e o fascismo, mas, tirando isso, era um gajo porreiro. Acrescenta: e um bom "chefe da família" (quando havia essa figura) muito dedicado à esposa e aos filhos, um cidadão exemplar. Ah e amigo do seu amigo (o que é regra normal de comportamento).
Afinal temos de o desculpar e até compreender. Um "bom profissional" (neste caso da propaganda e marketing) é sempre de louvar.

Um ab. e um bom dia de serviço
António J. P. Costa

Tabanca Grande disse...

Tó Zé:

Se me conheces, sabes bem que não estou a (nem tenho que) "desculpar" ninguém, muito menos o Salazar e o seu ministro da propaganda António Ferro...

Como sabes, as "famosas entrevistas" que ele fez no "Diário de Notícias" em 1932 ao Salazar foram depois reunidas em livro em 1933, com uma tiragem de 120 mil exemplares, o que era "brutal" para a época...("Salazar, o Homem e a Obra", Lisboa, Empresa Nacional de Publicidade, 1933)...

Daí ao SNP - Secretariado Nacional de Propaganda foi um passo... É nesse sentido que falo em "génio do marketing político"... Se quiseres, substituiu "génio" por "pioneiro"...

Tabanca Grande disse...

... Claro que o homem, o António Ferro (1895-1956) ainda não tinha a RTP, mas soube levar a água ao seu moinho com a "Emissora Nacional"... E em 1944, a censura passou para a alçada do SNP - Secretariado Nacional de Propaganda, logo a seguir, com a queda dos fascismos (alemão, italinao, nipónico...), rebatisada como SNI - Secretariado Nacional de Informação... Acima do Ferro, estava sempre o Salazar, como é óbvio...

Antonio Rosinha disse...

Não foi apenas António Ferro, o principal obreiro da figura de Salazar, aliás Salazar seleccionava os melhores enquanto serviam a sua política.

Também após o 25 de Abril me tenho dedicado a tentar compreender a "eternidade" de Salazar, quando tantos esperávamos que se fosse embora, o mais cedo possível.

Ferro era mais para quem sabia ler, e mais nas pequenas cidades, porque nas grandes aldeias, onde havia mais gente, Ferro dizia pouco.

Não podemos esquecer Henrique Galvão e exposição do Mundo Português, Humberto Delgado e a sua TAP, moderníssima para o tempo, Duarte Pacheco e as estradinhas de paralelepípedos que substituiram os caminhos de Portugal em macdame mais as escolas no mundo rural, onde em 800 anos nunca se tinha visto tal coisa.

Almada Negreiros e vários arquitectos...sempre fieis até mesmo depois das eleições sabotadas do opositor Norton de Matos.

Quando este General se candidatou nos anos 40, eu já na escola, lembro-me dos velhotes de chapeu domingueiro irem depositar o papelinho, dizia-se que estava na hora de o Salazar se afastar.

Mais tarde verifiquei que Norton de Matos representava na perfeição a 1ª república, com um sentido colonialista tal, que deixava o Estado Novo parecer anti-colonialista.

Quando se diz, ainda hoje, que Salazar devia sair por essa altura, aqueles republicanos preconizavam povoar as colónias com colonos brancos às resmas, e os muitos milhares de famílias que emigraram para o Brasil, estariam a engrossar indefinidamente, o número de retornados em 1974.

Sabe-se lá se o Homem dificultava a ida, com carta de chamada, passagens a 3 contos em porões, registo criminal, vacinas...em que era (e ainda é) mais simples ir para a França, Inglaterra e Alemanha, adivinhando o filme na perfeição.

Já devo várias romarias anuais a Santa Comba, lembrei-me disso ultimamente, vivamente, quando arderam os eucaliptos, que penso que ele não chegou a conhecer tal árvore.

Ando a estudar o Salazar, à compita com Fernando Rosas, só que eu acordei tarde.

Lá chegarei!

Cumprimentos



António José Pereira da Costa disse...

Pois é Camarada

Não à como imbrulhar tudo no mesmo pakotinho (feito com fio do Norte pra ir pó arquivo) e declarar que não à rapazes naus, perdão maus...
É tudo boa gente. Uké pecizo é agente compriender-los...
Çemos todos boa gente.
Infim, tamãe ção criaturas dedeus...
Azeitêmezios como ção. Quem çomos noz pós julgar. Çó Deus ék çabe de todos.


Um Ab.
António J. P. Costa