quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Guiné 63/74 - P7259: Notas de leitura (168): Crónica da Libertação, de Luís Cabral (5) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem de Mário Beja Santos* (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 5 de Novembro de 2010:

Queridos amigos,
As memórias do Luís Cabral chegaram ao fim.
Passo agora para a crónica dos feitos dos fuzileiros.
Até 17, não desarmo. Depois, lembrem-se de mim enquanto percorro os itinerários por onde andei. Vou falar com a lavadeira do Jaime Machado, procurar os amigos do Torcato, comprar uma morança em Finete para o Jorge Cabral (mais dama de companhia e duas meninas para ir às compras), levo roupa para bebés, o Humberto Reis já me anunciou que tem vários quilos de esferográficas e lápis para a escola de Bambadinca. É bom sentir que estamos vivos e enternecidos. Contem comigo se houver encomendas pequenas. Ninguém pode viajar com mais de 23 kg e um saco de mão (neste levo todos os livros que pretendo oferecer), não se esqueçam.

Um abraço do
Mário


“Crónica da Libertação” (5), por Luís Cabral

Beja Santos

Do ataque a Conacri ao assassinato de Amílcar Cabral

A nova realidade a partir de 1970 eram os foguetões, o jato do povo. Mansoa, a cerca de 60 quilómetros de Bissau, foi o primeiro aquartelamento a experimentar a nova arma. Os comandantes eram Manecas e Baro, originários de Cabo Verde. Por essa época, tinha-se ganho a consciência de que o PAIGC adquirira uma grande capacidade de lutar e vencer. Por isso, os militares do Estado-Maior, em Bissau, planearam uma destruição do PAIGC dentro da República da Guiné. Escreve Luís Cabral: “Esta aventura sem precedentes na história africana contemporânea foi cuidadosamente preparada por Spínola. Apoiados por representantes em Conacri de outros países da Europa Ocidental interessados na queda do regime de Sekou Touré, este plano, que seria executado com a cumplicidade de altas personalidades do Governo e do Exército guineense, não tinha, segundo a opinião dos seus organizadores, qualquer hipótese de falhar”. São hoje sobejamente conhecidas as fases do ataque e a orgânica do seu planeamento. Houve desaires inesperados, resistência, desencontros e deserções. Tudo conjugado, a situação internacional ainda se tornou mais hostil com o regime de Lisboa.

Depois de descrever os redobrados ataques ao Morés e um grave acidente em que se afundou um barco do PAIGC no porto de Boké, o autor refere o novo encontro de Amílcar com os dirigentes do partido, a seguir ao ataque a Conacri. Era crucial mexer nas estruturas, alterar os estatutos do partido, encontrar novas orientações para o Partido-Estado. Para Amílcar, a situação tinha carácter temporário, na devida altura haveria uma separação entre funções partidárias e funções estatais. Foi criado o Conselho Superior da Luta, de onde se elegeria o Comité Executivo da Luta e este órgão incluiria os Membros do Conselho de Guerra, o Secretário-Geral, os Comités Nacionais das Regiões Libertadas do Norte e do Sul e os Comandos das três Frentes. Houve referências muito directas à vida pessoal dos quadros e dirigentes do partido e a certa altura terá ido directo ao assunto: “Ninguém dorme à noite como bom militante e se levanta de manhã disposto a trair, disse o Secretário-Geral. As condições muitas vezes subjectivas que levam o quadro à traição vão-se acumulando pouco a pouco sem que ele tenha sequer consciência disso. Até que um belo dia sente que tem todas as razões para ser contra o partido ou contra a sua direcção”. Amílcar mostrava-se muito crítico sobre o comportamento de alguns dirigentes e justificou algumas desorientações pelas características da luta: grandes distâncias, carências de meios de comunicação, sérias dificuldades numa verdadeira coordenação das forças ao nível nacional.

Nas páginas seguintes, Luís Cabral dá conta da vida organizativa do PAIGC a partir do Senegal. Mais adiante, refere os acontecimentos de 20 de Abril de 1970, em que, em pleno chão manjaco morreram três majores, um alferes e alguns acompanhantes. Para Cabral tinha sido urdido um plano para levar uma parte significativa das forças do PAIGC na região entregar-se às autoridades portuguesas. André Gomes, o dirigente local, limitara-se a dirigir fogo sobre os oficiais. Como se sabe, esta versão é uma descarada mentira, os oficiais foram pura e simplesmente chacinados, não ofereceram qualquer resistência, vinham parlamentar e foram retalhados com armas brancas.

Os relatos seguintes prendem-se a acontecimentos vividos por Luís Cabral na região de Zinguichor. Depois relata a vinda a territórios libertados de uma missão especial da Comissão de Descolonização da ONU. Não deixa de aludir à passagem por Zinguichor de dirigentes fugidos da colónia como Momo Turé e Aristides Barbosa, que faziam parte do grupo de Rafael Barbosa. Para Luís Cabral, Momo era conhecido pelas suas actividades contra o partido (que tipo de actividades e com que práticas de sabotagem, nunca ficamos a saber).

Iniciou-se um processo eleitoral para seleccionar os candidatos a conselheiros regionais, e Cabral considera que todo este processo deu alento à consulta popular que veio a desaguar na declaração unilateral de independência, em 1973. De 1972 para 1973, aumentou a projecção internacional de Amílcar Cabral, presente em conferências em três continentes. A ONU, através de uma resolução adoptada pelo Conselho de Segurança, consagrou o reconhecimento do PAIGC como representante legítimo da Guiné e Cabo Verde. Em Moscovo, Amílcar Cabral obteve armamento susceptível de destruir a Força Aérea, os mísseis denominados Strella. No regresso, Amílcar encontra-se com Luís e confessa-lhe que há problemas graves nas fileiras do partido. Na noite de 31 de Dezembro, Cabral dirigiu a tradicional mensagem de Ano Novo aos combatentes. Referiu-se às eleições para Assembleia Nacional Popular e à necessidade de proceder a modificações na estrutura da direcção do partido com o fim de dar a um certo número de camaradas a possibilidade de se dedicarem inteiramente ao desenvolvimento da luta das ilhas de Cabo Verde.

No fim da tarde de 21 de Janeiro de 1973, Luís Cabral chegou a Dakar, vindo de Zinguichor. É aí que recebeu a notícia do assassinato de Amílcar, na véspera. Em estado de choque, recebe pêsames de representantes do Governo, dos seus familiares, dos colaboradores mais íntimos. Recordou a sua infância e juventude e tudo quanto devia ao irmão, não lhe saia da mente aquela inteligência viva, a sua infatigável capacidade de trabalho, a sua alegria de viver. São páginas de saudade incontida, é impossível lê-las a não ser com profundo respeito e aceitar a sinceridade da dedicação. Por exemplo: “Era espantoso como conseguia fixar os nomes dos seus camaradas. Podia passar meses sem ver um combatente, mas ao reencontrá-lo na sua base ou na fronteira, chamava-o quase sempre pelo seu nome. Se tratasse de alguém que vira doente ou ferido, num hospital, queria logo saber da sua saúde com o sincero interesse que consagrava à vida de cada militante do partido, de cada elemento da nossa população”.

Luís Cabral parte para Conacri, não sem antes ter feito uma declaração dizendo que o crime não poderia parar o avanço da luta que ia continuar vitoriosamente. E termina: “Fui surpreendido pelas minhas próprias palavras. E compreendi que não podia haver dúvidas de que o partido de Amílcar Cabral seria capaz de ultrapassar a maior prova da sua história. Nós, seus companheiros, tínhamos de encontrar forças para serrar fileiras, e, no caminho por ele traçado, levar o partido e os nossos povos para as vitórias por ele tantas vezes anunciadas”.

É um livro muito importante, não se pode descurar este entusiasmo e esta devoção a Amílcar Cabral. O PAIGC, goste-se ou não, foi edificado à semelhança da imagem que lhe deu Amílcar Cabral. Foi esta a sua grandeza, foi esta a contingência de tanta ambiguidade e das roturas que chegaram, não muito tempo depois.
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 8 de Novembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7241: Notas de leitura (167): Crónica da Libertação, de Luís Cabral (4) (Mário Beja Santos)

1 comentário:

Torcato disse...

E aos costumes disse nada.Fixação comeste livro. Fizeste bem em falar e escrever sobre ele.

Meu Caro Mário B.S. vais partir para a semana!? Que os Irãs te protejam.

Cuida-te Amigo e de certeza que encontrarás gente amiga á tua espera.

Não mais voltei. Tu já lá estiveste.

Abraço-te e abraça os nossos antigos Camaradas. Emociona. Deixa lá.
Tudo decorrerá bem.
Abraço fraterno do Torcato