Guiné > > Região do Cacheu > Bigene > c. 1966/67 > O alf mil médico Adáo Cruz ( CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887, Canquelifá e Bigene, 1966/68), com uma jovem mãe, e o seu filho a quem pôs o nome de "Adão Doutor", em gestor de gratidão para com o médico, "tuga", que a assistiu no porto.
Foto (e legenda): © Adão Cruz (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
1. Comentários ao poste P27970 (*):
(i) Cherno Baldé
Cada época tem sua marca, sua imagem própria que nunca se confunde com outras de épocas diferentes. Anos 60, no território da Guiné (dita portuguesa) as imagens têm a marca da originalidade, de sofrimento agarrado a alma de gente simples, humilde, de gente que não controla o destino, de gente sujeita a violência e imprevisibilidade da guerra, uma guerra escondida em cada esquina, em cada árvore, em cada baga-baga.
A mulher na imagem é igualzinha à minha mãe, no tamanho, nas feições rudes e vincadas de uma mulher camponesa da Guiné dos anos 50/60. Os pés, duros e escarpados não sabiam o que era usar chinelas ou sandálias que, mesmo o que tivessem, para não atrapalhar no caminho da bolanha, preferiam colocá-los na cesta das roupas, equilibrada encima da cabeça... Na verdade, eram mais para mostrar ao branco do que proteger os pés calejados de tanto morder a areia quente dos trilhos do mato.
A adornar o peito, aí estão os colares tradicionais feitos de sementes e raízes de aroma da maternidade africana que nenhuma mulher dispensava na época e que tinha o efeito benéfico de afastar o cheiro do leite com mistura do suor da criança colada ao seu corpo de forma quase permanente.
Quanto ao nome dado a criança, era sobretudo a vontade e a firma decisão da mãe, pois era um direito que ninguém podia questionar, mas na realidade o nome oficial e que seria válido dentro da comunidade, era sempre um direito do pai que, como mandam as regras, devia obedecer aos critérios da tradição do grupo étnico.

Foto (e legenda): © Cherno Baldé (2011). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
(ii) José Teixeira
Como já contei no blogue, eu tratei uma bebé com alguns meses de uma crise de paludismo. O seu estado de saúde era muito grave, com elevada temperatura, muitos vómitos. Estava tão débil que nem no peito da mãe pegava. Abusivamente, cometi um ato médico que lhe salvou a vida. Ao fim de duas horas, começou a baixar a temperatura. Pouco tempo depois, mamou um pouco. Foi uma tarde inteira de luta e sofrimento para mim e para a mãe, mas valeu a pena.
À noite, ficavam as duas à porta da casa, a aguardar a minha passagem para o abrigo para partir mantenhas.
Fui cerca de dois meses para a Chamarra. Duas vezes por semana ia a Mampatá em serviço de apoio ao enfermeiro africano que me substitui. Procurava a minha menina para lhe fazer festinhas. No regresso definitivo para Buba, passei por Mampatá. Para minha grande alegria e grande sofrimento, lá estava a mãe com a minha mulher ao colo: "Pega minina. Leva tua mulher contigo!"
Este momento continua gravado na memória, pelo sofrimento que me causou, pela recusa que tive de dar.
Cada época tem sua marca, sua imagem própria que nunca se confunde com outras de épocas diferentes. Anos 60, no território da Guiné (dita portuguesa) as imagens têm a marca da originalidade, de sofrimento agarrado a alma de gente simples, humilde, de gente que não controla o destino, de gente sujeita a violência e imprevisibilidade da guerra, uma guerra escondida em cada esquina, em cada árvore, em cada baga-baga.
A mulher na imagem é igualzinha à minha mãe, no tamanho, nas feições rudes e vincadas de uma mulher camponesa da Guiné dos anos 50/60. Os pés, duros e escarpados não sabiam o que era usar chinelas ou sandálias que, mesmo o que tivessem, para não atrapalhar no caminho da bolanha, preferiam colocá-los na cesta das roupas, equilibrada encima da cabeça... Na verdade, eram mais para mostrar ao branco do que proteger os pés calejados de tanto morder a areia quente dos trilhos do mato.
A adornar o peito, aí estão os colares tradicionais feitos de sementes e raízes de aroma da maternidade africana que nenhuma mulher dispensava na época e que tinha o efeito benéfico de afastar o cheiro do leite com mistura do suor da criança colada ao seu corpo de forma quase permanente.
Quanto ao nome dado a criança, era sobretudo a vontade e a firma decisão da mãe, pois era um direito que ninguém podia questionar, mas na realidade o nome oficial e que seria válido dentro da comunidade, era sempre um direito do pai que, como mandam as regras, devia obedecer aos critérios da tradição do grupo étnico.
Todavia, para a mãe e as crianças do núcleo familiar, em respeito à dor e sofrimento que constituem o dificil processo do parto, ela será sempre o "Adão Doutor" da sua querida e sofrida mãe.
quinta-feira, 30 de abril de 2026 às 19:48:00 WEST
quinta-feira, 30 de abril de 2026 às 19:48:00 WEST
Guiné- Bissau > Bissau > Maio de 1997 > "Eu e a minha mãe"
(ii) José Teixeira
Como já contei no blogue, eu tratei uma bebé com alguns meses de uma crise de paludismo. O seu estado de saúde era muito grave, com elevada temperatura, muitos vómitos. Estava tão débil que nem no peito da mãe pegava. Abusivamente, cometi um ato médico que lhe salvou a vida. Ao fim de duas horas, começou a baixar a temperatura. Pouco tempo depois, mamou um pouco. Foi uma tarde inteira de luta e sofrimento para mim e para a mãe, mas valeu a pena.
No dia seguinte, a mãe veio trazer-me a menina, logo de manhã, como combinado e trazia também um cacho de bananas. A primeira frase dela foi: "Fermero, tua mulher parte banana". A partir dessa data, ficou a ser minha mulher. Todos os dias de manhã, enquanto estive em Mampatá elas (mãe e filha) vinham visitar-me: "Tua mulher parte mantenhas". Trazia quase sempre fruta ou uma caneca de água fresquinha que ia buscar à fonte de Iroel para mim.
À noite, ficavam as duas à porta da casa, a aguardar a minha passagem para o abrigo para partir mantenhas.
Fui cerca de dois meses para a Chamarra. Duas vezes por semana ia a Mampatá em serviço de apoio ao enfermeiro africano que me substitui. Procurava a minha menina para lhe fazer festinhas. No regresso definitivo para Buba, passei por Mampatá. Para minha grande alegria e grande sofrimento, lá estava a mãe com a minha mulher ao colo: "Pega minina. Leva tua mulher contigo!"
Este momento continua gravado na memória, pelo sofrimento que me causou, pela recusa que tive de dar.
Foto (e legenda): © José Teixeira (2005). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
Revisão / fixação de texto, título: LG)
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Nota do editor LG:
(*) Vd. poste de 30 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27970: Fotos à procura... de uma legenda (203): Um "mininu" chamado Adão Doutor


4 comentários:
Sim, Cherno, podia ser a tua mãezinha, podia ser a minha mãe... Sei que sempre tiveste um amor incondicional por ela. Como todos os filhos, seja em África, seja na Europa...
Sim, Zé, podia ser a tua irmãzinha, a minha mana...A minha mãe ainda teve uma filha aos quarentas e quatro, tinha eu 18...
Zé, ainda me lembrava da tua Maimuna, fui "redescobri-la" nos primeiros postes do nosso blogue, vinte e um anos depois... Que destino foi o dela ? Ainda será viva ? Será uma feliz avó ?
Caros amigos, ainda sobre o colar da mulher que chamei de maternidade africana, colar típico com odor especial que, na época, todas as mulheres usavam durante os 2 anos da criança, também era um sinal de livre trânsito, de proteção da mulher parida diante da predação sexual incontida dos homens dentro e fora das comunidades, uma forma de proteger o gestante, pelo menos, nos 2 primeiros anos, num contexto em que o uso de outras formas de protecção contra a gravidez indesejada não existiam.
Cherno Baldé
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