
Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52
1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Abril de 2026:
Queridos amigos,
Desta feita vim até à mais conhecida residência real setecentista. Aqui impera o barroco e o rococó, há momentos em que parece que estamos a ver cenários de ópera, a carga decorativa é imensa, basta olhar para as balaustradas, com estátuas, no jardim superior, em frente ao Jardim de Neptuno, o lago perfila-se diante da fachada Robillon. Conhecer a história deste Palácio é entrar na vida de uma corte que a seguir ao terramoto de 1755 se prantou na Real Barraca da Ajuda, e houve sonhos de grandeza, daí a adesão a diferentes estilos, onde não falta a influência neoclássica. Quando se incendiou a Real Barraca, em 1794, Queluz passou a ser residência da Família Raal. As grandes obras de restauro começaram em 1933, houve um terrível incêndio em 1925 que consumiu a Sala dos Embaixadores, coube ao arquiteto Raul Lino dirigir as obras. Vinha com curiosidade de ver os trabalhos de restauro mais recentes, nunca me fora dado a visitar a capela, ainda há trabalhos em curso, mas é um espaço imponente, goste-se ou não dos barrocos ao gosto italiano. E satisfiz a minha gula em porcelanas e cerâmicas, como aqui vos conto.
Um abraço do
Mário
Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (115):
No Palácio Nacional de Queluz, para ver as obras de conservação e restauro - 1
Mário Beja Santos
Pelas minhas contas, o Palácio Nacional de Queluz tem aproximadamente 280 anos, se se tomar como referência a data de arranque das grandes obras iniciadas pelo Infante D. Pedro, em 1747. Partiu-se da residência da família Corte-Real, os seus bens tinham sido confiscados depois da Restauração e integrados no património da Casa do Infantado. O Palácio irá adquirir a dimensão de Palácio Real, as vicissitudes por que passou espelham as últimas décadas do absolutismo, o gosto do final do barroco e a sua exuberância rococó, os ricos investimentos em decoração, pintura, mobiliário, artes decorativas, com realce para a cerâmica. A partir da década de 1750, e até ao falecimento do rei consorte D. Pedro, ocorrida em 1786, seguida da morte prematura do príncipe herdeiro D. José, a Real Quinta de Queluz conhece um primeiro período de habitação real marcada por uma vivência lúdica e festiva. É o que se pode visitar na opulenta Sala do Trono, Sala dos Archeiros até à sala de música, sem me querer esquecer a Sala dos Embaixadores que viveu um incêndio devastador e conheceu a sua reabilitação acompanhada pelo arquiteto Raul Lino. Por aqui andou um dos grandes arquitetos, escultor e gravador do seu tempo, Jean-Baptiste Robillon.
Queluz ganhará o estatuto de residência permanente da Família Real após o incêndio em 1794 da Barraca Real da Ajuda, era habitação real desde que o terramoto de 1755 destruíra, daqui partiu D. Maria I e o regente D. João e mais membros da Família Real para o Brasil, em novembro de 1807. Junot levou daqui uma série de peças, e até sonhou instalar em Queluz o próprio Napoleão. Família Real regressa a Portugal em 1821, houve obras da recuperação do Palácio. Aqui faleceu em 1834 D. Pedro IV. D. Maria II e o seu marido, D. Fernando II, irão preferir Sintra e o Palácio da Pena. O rei consorte até aproveitou a oportunidade para deslocar algum recheio para os jardins do Palácio das Necessidades, Alfeite e Tapada da Ajuda. Só há notícia que D. Luís e D. Maria Pia passaram em Queluz o verão de 1874, e D. Carlos e D. Amélia fizeram visitas esporádicas e obras de beneficiação, caso da Sala de Jantar, Sala do Café e Sala de Fumo. Veio a República, por aqui andou uma escola agrícola e a partir de 1955 passou a ser residência oficial de Altos Dignatários e Chefes de Estado em visita oficial ao nosso país.
Começa a visita pela Sala do Trono, de que guardo as melhores memórias e conto porquê.
Dá gosto ver as benfeitorias, tudo bem dourado e estucado, até os tetos ganharam relevo, dá gosto olhar lá para cima. Tive o privilégio de aqui assistir a concertos memoráveis no âmbito do Festival de Música de Sintra. Vi e ouvi pianistas de grande craveira como Sequeira e Costa, Aldo Ciccolini, Maria João Pires, Andreas Staier, Vladimir Ashkenazy e Ivo Pogorelich. Não resisto a contar histórias destes dois últimos. As cadeiras eram douradinhas e com palhinha, um senhor que era vereador, bem pesado, dispunha desconfortavelmente da sua corpulência na cadeira elegante mas frágil; tocava Ashkenazy, uma conhecida sonata de Beethoven, quando se ouviu um estalo e caiu um dos pés da cadeira, o senhor, com ar muito encavacado, bem tentava manter o equilíbrio; Ashkenazy levantou-se, pôs o pé da cadeira ao pé de si e deu-lhe um lugar que é reservado a quem faz mudanças nas partituras, o vereador só olhava para o chão; fim do concerto e depois de vários extras, Ashkenazy pegou no pé da cadeira e mandou a assistência segui-lo, era hora de todos irmos para a cama.
Com Ivo Pogorelich foi mais dramático. Era uma noite quentíssima, quem financiava o recital era a EDP, vieram as senhoras dos diretores, bem encasacadas, à entrada ofereceram-lhes belos ramalhetes de rosas envolvidos numa película de celofane. Pouco antes de se iniciar o concerto, veio uma menina informar que o senhor que a seguir ia dar o concerto exigia que as portas fossem todas fechadas, não queria palmas, nada de interrupções enquanto ia tocar as suites inglesas de Bach, seguiam-se obras de Rachmaninoff, e depois uma catadupa de Scriabin. O que interessa é que algumas daquelas senhoras ficaram ofegantes dentro da estufa em que se tornou a Sala do Trono, uma delas teve o sacrilégio de começar a remexer no celofane, o genial pianista lançou-lhe um olhar terrível, eu estava em frente e vi como a senhora ficou intimidada, de mansinho pôs as rosas no chão, as senhoras iam fazendo manobras para tirar os casacos impróprios para aquela sauna. Mas estou felicíssimo agora com estes restauros, tudo brunido e luzidio, se por aqui aparecesse Luís XV seguramente ficaria enternecido.
A Sala de Música também teve beneficiações, lá ao fundo D. Maria I olha-nos atentamente, tenho a impressão de quando ela ouvia aqui o cravo bem temperado aqueles dois jarrões não existiam.
É a primeira vez que vejo a Capela Real de Queluz. É um deslumbramento de volumes, formas e conteúdo que não me enche a alma, mas reconheço que é um belíssimo restauro. A Capela foi projetada por Mateus Vicente de Oliveira, por volta de 1752. A cúpula da capela-mor tem uma cobertura exterior em forma de bolbo, revestida de cobre, ao gosto centro europeu. A talha dourada é de inspiração rococó e as paredes e teto são decorados com pintura de fingidos imitando mármore e lápis-lazúli. O retábulo do altar-mor representa Nossa Senhora da Conceição, que é o orago de Queluz e nos altares laterais temos S. Pedro, S. Paulo e S. Francisco de Paula. Leio na legenda que algumas das pinturas do altar-mor são da autoria das infantas, irmãs de D. Maria I.
Pormenor do teto
Saindo da capela-mor entramos numa sala ao gosto do Império, lá ao fundo D. João VI olha-nos com uma certa bonomia e a mesa vitrina está cheia de belos objetos.Travessa da Dinastia Qing, período Qianlong 1760-1780
Perdi-me na sala das cerâmicas, aqui não faltam peças fabulosas de porcelanas chinesa e europeia e faianças portuguesa e europeia, deixem-me fazer alguns comentários. O acervo da porcelana chinesa destaca peças riquíssimas, as Dinastias Ming e Qing estão representadas por pratos, cabaças, potes, jarras, gomis, há para ali deslumbrantes peças “chocolate” e “família rosa”, não faltam canudos e defumadores e frascos de chá, e, cereja no bolo, um incompleto serviço de jantar, chá, café e chocolate, parei a admirar uma travessa, daí a fotografia abaixo. A porcelana europeia é da mais rica do seu tempo, com destaque para porcelanas de Meissen, belas peças francesas e doutros países; a faiança portuguesa também está altamente representada, há objetos da Real Fábrica do Rato, de inegável qualidade e a puro estético; e temos cerâmicas da Holanda, Inglaterra e Espanha. Para quem gosta de porcelana e cerâmica tem aqui muito para contemplar.
As salas multiplicam-se, dou comigo a pensar como o viajante só tem a ganhar em preparar-se para a imensidade de património que lhe vai desafiar a atenção. Não me detive aqui ao acaso, quem decorou esta sala tem sapiência para decoração e ornamentação. Percorrer todas estas divisões, quartos de dormir, salas e aposentos, por onde andaram artistas portugueses, franceses e italianos, entalhadores, escultores e ourives, e depois de todas as voltas que deu este património encontrar uma solução que realce o bom gosto, tem méritos que apraz realçar.
Aqui se interrompe o passeio, temos aqui um pormenor da chamada escadaria Robillon, não faltam leões, este senhor sabia de arquitetura e de muitas mais coisas, entenda-se esta escadaria como uma ligação entre o jardim superior e aquele que leva a um imenso espaço lúdico à volta da Ribeira do Jamor, lá ao fundo há uma imensa cascata e diversas estufas, olhando esta imagem sinto-me feliz com património conservado, todo este trabalho deve custar uma fortuna, aqui, a curta distância está uma azulejaria riquíssima a pedir conservação, não sei se a degradação que vemos é fruto do céu aberto ou do vandalismo, quem visita o Palácio Nacional de Queluz tem tudo a ganhar em passear-se pelos belíssimos jardins.
(continua)
_____________
Nota do editor
Último post da série de 25 de Abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27953: Os nossos seres, saberes e lazeres (732): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (253): No Convento de Chelas, revivendo o passado na Guiné (Mário Beja Santos)










Sem comentários:
Enviar um comentário