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quinta-feira, 30 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27971: Caderno de notas de um mais velho (António Rosinha) (60): Os refratários na retraite

1. Mensagem de 27 de Abril de 2026 do nosso mais velho António Rosinha, que foi Fur Mil em Angola, 1961/1962; topógrafo em Angola; emigrante no Brasil, e mais tarde na Guiné-Bissau, onde trabalhou, de 1978 a 1993, na empresa TECNIL:


Foram muitos milhares ao longo do interior beirão e transmontano que despovoaram grandes aldeias a caminho da França, para evitar o recrutamento para a tropa durante a guerra do Ultramar.

Já havia antes dessa guerra, iniciada em 1961, nessas regiões, mais junto da fronteira espanhola, a tradição de ir para a França de "a salto" através de passadores, mas nunca sem antes cumprir o seu serviço militar obrigatório, o que seria um dia vantajoso, pois abriam-se portas para o seu futuro, como seguir a carreira militar, ir para polícia, guarda republicana, guarda fiscal e outros, até ser pide, por exemplo.

Já tinham sido dessas regiões, a que juntamos o Minho, que mais tinham partido para a "colonização" à portuguesa, de tamancos, das colónias africanas e de todas as esquinas de Rio de Janeiro e São Paulo, com botecos, tabernas, padarias e comes e bebes.

Mas partir para "a França e em força" foi apenas a partir de 1961, com a idade de 16, 17, 18, e 19 anos, e que hoje septuagenários estão todos aposentados com reformas à francesa e que com as remessas durante todos os anos, salvaram aquelas regiões muito pobres por esquecimento eterno desde Dom Afonso Henriques.

E que hoje, graças a muitos desses refratários, e graças ao SNS, que veio depois do 25 de Abril, aquelas regiões são um paraíso.

E que sem os filhos já franceses que não permanecem nas férias nessas benditas terras, preferem o apartamento nas praias do oeste e algarve, que os velhos lhe põem à disposição, aqueles paraísos aguentar-se-ão, pelo menos se de septuagenários chegarem a centenários, esses refratários com suas reformas à francesa.

E prefiram os lares de idosos das suas "terrinhas" e quando morrerem poupam dinheiro que não precisam de vir com os pés para a frente, o que é uma maçada.

Nesta altura do ano já se começa a ver a circulação mais assídua de matrículas francesas com 100 cavalos de potência, pelos caminhos das antigas carroças com apenas um cavalo.

Os filhos dos velhos refratários nem se apercebem, nem querem saber o que se passou naqueles cus de judas, terras dos seus pais e avós.

De lamentar, mas pouco, que os netos dos velhos refratários "esqueceram" o idioma do avô e da avó.

Também a avó, relembremos, muitas também foram de "a salto" e não eram refratárias.

Alguns desses refratários, passaram tanto ao lado da história da guerra do Ultramar, que perguntam, "o que tem a ver o 25 de Abril com as colónias"?

Tudo passou!

Cumprimentos
Antº Rosinha

Porto de Leixões > Cais do Marégrafo ou do "Relógio", onde embarcaram milhares de portugeses em pequenos botes que os levariam aos "vapores" fundeados ao largo, cujo destino era, principalmente, o Brasil.

A devida vénia a Imagens Antigas do Concelho de Matosinhos

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Nota do editor

Último post da série de 16 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27827: Caderno de notas de um mais velho (António Rosinha) (59): A terapia dos almoços da tropa

1 comentário:

Eduardo Estrela disse...

Li o teu texto António. Afigura-se-me que há no mesmo algumas contradições. Mas registo a parte final por considerar a mesma o essencial do corpo do teu post.
" O que tem o 25 de abril de 1974 a ver com as colónias "
Digo eu: TEM TUDO
Abraço
Eduardo Estrela