Pesquisar neste blogue

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28143: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (9): porque é que o PAIGC nunca afundou nenhuma embarcação no rio Geba Estreito (São Belchior e Mato Cão) - Parte I

Guiné > Região de Bafatá  > Sector L1 > Bambadinca > Mato Cão > c. novembro/dezembro de 1971 >O ten cor Polidoro Monteiro, último comandante do BART 2917, já falecido; o alf mil médico António Rodrigues Marques Vilar  (hoje psiquiatra, com consultório em Aveiro); e o alf mil Paulo Santiago, cmdt do Pel Caç Nat 53 (Saltinho) e depois instrutor de milícias (no CIM de Bambadinca), hoje engenheiro técnico agrícola reformado (Águeda). O grupo posa para a fotografia com um crocodilo juvenil  do rio Geba, abatido pelo alf mil Vilar... 

Foto tirada em novembro ou dezembro de 1971 no Mato Cão, após ocupação da zona com vista à construção de um destacamento, encarregue de proteger a navegação no Geba Estreito e impedir as infiltrações na guerrilha no reordenamento de Nhabijões, um enorme conjunto de tabancas de população balanta e mandinga tradicionalmente "sob duplo controlo".

Foto (e legenda): © Paulo Santiago (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar; Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].


Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Sector L1 (Bambadinca) > Mato Cão >  c. 1973/74 > Pel Caç Nat 52 (1973 /74) >   Vista do Rio Geba e bolanha de Nhabijões, a partir do "planalto" do Mato Cão.  Foto do álbum do último cmdt do Pelotão, alf mil  Luís Mourato Oliveira.

Foto (e legenda): © Luís Mourato Oliveira (2016). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar; Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].




1. A mítica LDM 302 tem pelo menos 16 referências do nosso blogue... A sua "vida e morte" davam um filme...Mas neste país a guerra nunca foi "cinéfila" ou melhor o cinema é que não gosta de guerra. Muito menos da guerra da Guiné que nos coube na rifa.  



Ludgero Henriques 
de Oliveira
(1947-2012),


A referência à LDM 302, afundada duas vezes no Cacheu (*), trouxe-me de imediato, à lembrança, um dos seus tripulantes,  maquinista fogueiro que foi meu conterrâneo, vizinho, colega de escola e amigo, Ludgero Henriques de Oliveira, natural da Lourinhã, e que a morte levou, precoce e injustamente, aos 64 anos, em 2012 (era então sargento-chefe na situação de reforma).

Já aqui, no nosso blogue, foi homenageado, mais de uma vez;  foi agora também lembrado pelos nossos camaradas do portal UTW - Dos Veteranos da Guerra do Ultramar, um sítio igualmente incontornável do nosso repositório de memórias: faz este ano 20 anos de existência na Web; daqui vai um alfabravo para a equipa do portal UTW, com votos de boa continuação da caminhada pelos trilhos da nossa memória histórica.

Mas voltando ao Mato Cão (**)...Eu que lá fui bastante vezes, em patrulhamentos ofensivos, com montagem de emboscadas na margem direita do rio Geba Estreito (Xaianga), noutra encarnação (CCAÇ 2590 / CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71), nunca percebi por que razão o PAIGC  
nunca conseguiu meter a pique uma embarcação, civil ou militar, naquele troço... Passsaram lá LDG (!) e seguramente LDP e LDM da Marinha. Passaram lá "barcos turras", civis,  ao serviço da Intendência Militar, mas também das casas comerciais "colonialistas" como a Casa Gouveia ou a Sociedade Ultramarina... Chegavam inclusive a Bafatá...Com a maré-cheia, claro...

A embarcação afundada (e às vezes iam em comboio, com batelões...) iria bloquear a navegação fluvial entre o Xime e Bambadinca, durante semanas, senão meses...E o impacto no abastecimento de toda a zona leste, far-se-ia sentir de imediato,  com consequências visíveis do ponto de vista logístico,  psicológico,  propagandístico, etc... 

Os portos fluviais do Xime e de Bambadinca eram as duas únicas entradas (por rio e terra) na Zona Leste (regiões de Bafatá e de Gabu, que iam da Foz do Rio Corubal, a oeste, à fronteira com a Guiné Conacri, a leste), e de norte (Senegal) a sul (Guiné-Conacri). Era a maior zona da Guiné e a mais povoada: mais de 15 mil quilómetros quadrados, com uma  população (fulas e mandingas, sobretudo) de 180 a 200 mil habitantes (por volta de 1970): mais de 40% do território, mais de 35% da população (que no total não chegava a meio milhão).

Terá sido uma questão de "cálculo político" ou pura "incompetência operacional" ? Tentaremos responder a essa questão em próximo poste desta série ("Nomadizações de um marginal-secante") (**).No rio Cacheu, na clareira do Tancroal, o IN meteu a fundo, duas vezes, a nossa gloriosa LDM 302... Por que raio é que os gajos do PAIGC não haveriam de acertar, em cheio, com uma simples canhoada, num bocado de madeira flutuante como era um "barco turra" (onde também viajei, pelo menos umas quatro vezes, no percurso Bambadinca-Xime-Bissau e vice-versa) (além de 2 viagens de LDG, no princípio e fim da comissão).

Infelizmente a Guiné-Bissau deixou assorear os seus rios... Já nem cenários temos para um simples documentário, quanto mais um filme de ficção.

Por certo, já não se passa hoje no Tancroal (Rio Cacheu), ou no Mato Cão (Rio Geba Estreito)... Em 2008, ainda atravessei o Rio Cacine de um lado a outro,. numa canoa nhominca... Mas o Cacine não é um rio, é um braço de mar...segunda-feira, 29 de junho de 2026 às 14:27:00 WEST



2. Enfim, apetecei-me recapitular algumas situações relaci0nadas com a navegação no rio Geba Estreito e a instalação do destacamento do Mato Cão (que já não é do meu tempo: saí da Guiné em março de 1971). 

O PAIGC, no 2º semestre de 1971, vai "reagir mal" à ocupação, pelas NT, do Mato Cão (Op Tareco  Vilão I, 2-7, nov 71).

Ao Mato Cão,  durante aqueles anos todos da guerra, só lá se ia em patrulhamento ofensivo, para montar segurança aos barcos, essencialmente civis, que navegavam no Geba Estreito.  As LDG também chegavam a Bambadinca, até finais de 1968/princípios de 1969, mas já não era no meu tempo; em 2 de junho de 1969, já desembarquei (ou melhor "abiquei") no Xime (porto fluvial, a par do de Bambadinca).

Em 1 de julho de 1971, ao tempo do BART 2917 (Bambadinca, junho 1970/maio 1972), era a seguinte dispositivo das NT no Sector L1 (Zona Leste), no que diz respeito aos Pel Caç Nat 52, 54 e 63 (que vão depois guarnecer o novo destacamento do Mato Cão, "à vez"):

Pel Caç Nat 52 > Fá Mandinga;
Pel Caç Nat 54 > Bambadinca;
Pel Caç Nat 63 > Missirá (reforçado por 1 Pel Mil 202 / CMil 1) e a seguir Mato Cão


Maio 71, 4 e 5 >  Op Triângulo Vermelho 

Na região de Enxalé-Cuor, sector L1, foi feito um patrulhamento por forças de 3 GComb/CArt 2715 (Xime), CCaç 12 (Bambadinca), CCP 123 / BCP 12 (BA 12, Bissalanca) e 1 Pel Caç 54 (Bambadinca).

O lN flagelou as NT, causando 2 mortos e 9 feridos e sofrendo 4 mortos.

Destruídas 20 moranças e meios de vida (dpois cleiros com meia tonelada de arroz). Capturado 1 elemento armado com esp "Mauser" e documentos diversos.

Agosto 71, 28 > Flagelação ao barco "Manuel Barbosa"


Um grupo IN estimado em cerca de 10 elementos flagelou com RPG-2 e Armas automáticas ligeiras,  de Mato Cão, o barco “Manuel Barbosa” causando 8 feridos graves, e 9 feridos ligeiros.

Pelas 14,50 horas uma secção do Pel Caç Nat 52 iniciou a progressão em meio auto com destino a Finete onde se juntaria uma secção do Pel Mil 201.

Às 15,10 horas, em [BAMBADINCA 4C2-84], a viatura Unimog 411,de matrícula ME-18-93,  accionou uma mina A/P reforçada, com a roda da frente do lado direito, ficando completamente destruída e provocando ferimentos na quase totalidade dos elementos das NT que nela seguiam, nomeadamente no 2º cabo atirador Nhaga Maque (Pel Caç Nat 52) que veio mais tarde a falecer em Bambadinca como consequência dos ferimentos recebidos.

Após o accionamento da mina o sold cond Manuel Castro Ribeiro Silva,    da CCS/BART 2917 (que estava destacado no Pel Caç Nat 52), assumiu o comando da secção, instalando os seus companheiros e montando um dispositivo de segurança à viatura com os elementos mais válidos após o que se deslocou a Bambadinca, transportando aos ombros um dos feridos, a fim de avisar as NT sedeadas neste aquartelamento (CCS/BART 2917, CCAÇ 12...).

Imediatamente se deslocou de Bambadinca uma secção da CCAÇ 12 (acompanhada de um enfermeiro e macas) que se encarregou do transporte dos feridos de Finete, para onde as milícias desta tabanca, que imediatamente acorreram ao local do acionamento da mina os tinham já transportado, para Bambadinca.

Num reconhecimento feito posteriormente não foi detectada a colocação de mais qualquer engenho explosivo, tendo-se no entanto detectado em [BAMBADINCA 4C7-74], vestígios de instalação em emboscada de um Grupo IN estimado em cerca de 10 elementos, o que vem confirmar declarações de milícias em Finete que dizem ter ouvido alguns tiros.

Novembro 71, 2-7 > Op Tareco Vilão I


 No dia 2 de novembro pelas 8,30 horas os 2 Gr Comb da CCAÇ 12 (Bambadinca) deslocaram-se em meios auto de Bambadinca para o Porto (fluvial) de Bambadinca de onde em meios fluviais [barco sintex], prosseguiram para Mato Cão, onde chegaram cerca das 21h00.

Substituíram então, no local, os Gr Comb da CCAÇ 12 empenhados na Op Tudo Vale , montando uma rede de emboscadas nos trilhos de acesso mais provável do IN ao Destacamento de Mato Cão, garantindo a segurança com a colaboração do Pel Caç Nat 63, do pessoal que procedia à instalação daquele Destacamento.

No dia 3 pelas 13,30 horas, um Grupo IN estimado em cerca de 40 elementos flagelou com RPG-2 e Arm Aut Lig de [BAMBADINCA 1H97-61], apoiados por RPG-7 e Mort 82, o estacionamento de Mato Cão, causando 2 feridos graves e 8 ligeiros.

As NT reagiram imediatamente obrigando o IN a retirar, com baixas prováveis.

Feito reconhecimento à área de instalação IN, detectaram-se vestígios de IN se ter aproximado e retirado na direcção de Chicri, tendo-se encontrado vários vestígios de sangue.

No dia 6 pelas 16h55, um Grupo IN não estimado flagelou da direcção de Chicri o estacionamento de Mato Cão e as forças de segurança ao mesmo, durante 5 minutos com Mort 82 e LRock.

As NT reagiram prontamente pelo fogo de Mort 81 obrigando o IN a retirar. Posteriormente o 20º Pel Art (Xime) bateu os trilhos prováveis de retirada.

Não foi feita uma conveniente batida imediata por, após os tiros de artilharia, ter anoitecido sendo a visibilidade muito fraca.

No dia 7 pelas 6h45, quando o Pel Caç Nat 63 explorava o contacto havido ao anoitecer do dia 6 reconhecendo a mata a Norte de arame farpado, detectaram.  a cerca de 600 metros do mesmo, numeroso Grupo IN estimado em 50 elementos que ali se encontrava emboscado.

As NT imediatamente abriram fogo, tendo o IN, ao sentir-se descoberto, reagido com RPG-2, RPG-7, Mort 60 e Arm Aut Lig ao mesmo tempo que um outro Grupo IN localizado mais para Norte e a uns 500 metros do primeiro, começou a flagelar o estacionamento de Mato Cão com Mort 82 e RPG-7.

As NT imediatamente exploraram o contacto manobrando pelo fogo e movimento obrigando o IN a retirar.

Apesar da pronta e enérgica reacção do Pel Caç Nat 63, o IN conseguiu ao fim de cerca de um minuto quebrar o contacto em virtude do Pelotão ter esgotado as munições de Mort 60 e dilagrama que transportava consigo, cujo consumo foi maior do que seria de prever num contacto deste tipo em virtude do LGFog 8,9 cm não ter funcionado.

Remuniciado, o Pel Caç Nat 63 prosseguiu na batida tendo encontrado abandonado no terreno um morto, armado de pistola Ceska Zbrojovka m/1927, de origem checa, identificado por documentos que possuía como sendo Mário Campos, e uma granada de RPG-7.

Foram ainda detectados vestígios e vistos elementos IN arrastando mais cinco corpos de elementos feridos ou mortos pelas NT.

Entretanto, primeiro, os Mort 81 do Destacamento e posteriormente o 20º Pel Art /BAC 7 (10,5 cm) (Xime) batiam os itinerários previsíveis de retirada,  tendo o Pel Caç Nat 63 verificado que alguns dos impactos de artilharia se situavam sobre o trilho seguido pelo IN e nas suas imediações encontrava-se muito sangue.

Neste contacto as NT sofreram 3 feridos graves e 9 (um civil) ligeiros sendo um ferido grave e 3 ligeiros proveniente do contacto directo com o IN e os restantes como consequência da flagelação ao estacionamento.

No dia 7/11/71 pelas 14h30, os 2 Gr Comb da CCAÇ 12, após serem substituídos no local pelas NT empenhadas na Op Tareco Vilão II e II, iniciaram progressão em meios fluviais [Barco Girassol] para Bambadinca, permanecendo o Pel Caç Nat 63 e uma secção do Pel Mil 202 em Mato Cão, onde chegaram cerca das 16h00.

Fonte: Adapt de História do BART 2917, de 15nov1969 a 27mar1972, mimeog, 182 pp. (Cópia, em formo digital, gentilmente cedida por Benjamim Durães)



Guiné > Região de Bafatá > Carta de Bambadinca (1955) > Escala de 1/50 mil > Detalhes: posição relativa de Bambadinca, na maregm esquerda (sul), do rioGeba Estreito, regulado de Badora;

(i) a  sudoeste: Nhabijões,  Sambassilate, São Belchior e o regulado do Xime;

(ii) a noroeste; Mato Cão, Finete, Salá e regulado do Cuor;

(iii) a norte/nordeste: Mero, Fá Mandinga, Missirá e regulados de  Óio, Mansomine e Joladu; 

O PAIGC só mandava (alguma coisa), a partir de Salá... tendo "barracas", maiss a noroeste, na zona de Madina / Belel. Já no Óio havia a "base central" de Sara Sarauol... 

O destacamento, mais a norte de Bambadinca, no setor L1, era Missirá, guarnecido por um Pel Caç Nat (52 ou 63, em diferentes períodos) e um pelotão de milícias e uma esquadra de morteir0 81... 

 A Madina/ Belel , muito para lá de Salá (e que por isso que já não vem nesta carta) ia-se uma vez por ano, na época seca...para "dar e levar porrada".

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)


Sem comentários: