segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Guiné 63/74 - P15013: Notas de leitura (748): “Do Colonialismo como Nosso Impensado", Organização e Prefácio de Margarida Calafate Ribeiro e Roberto Vecchi, Gradiva Publicações, 2014 (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 1 de Setembro de 2014:

Queridos amigos,
Eduardo Lourenço é seguramente dos pensadores portugueses aquele que mais perduravelmente refletiu sobre os mitos que acompanharam a matriz colonial e as ficções do Império. De 1960 em diante, opositor ao salazarismo, crítico profundo da política ultramarina adotada por Salazar, Eduardo Lourenço foi uma voz persistente na descolonização, deixou páginas culturais luminosas sobre Camões, a historiografia de Alcobaça, a mitologia do MFA convertido milagrosamente em movimento de libertação.
Rijo e contundente, falando de Camões e da aventura dos Descobrimentos, devemos-lhe uma das frases mais incómodas para o nosso caráter, de vários comentários obrigatórios: “Sempre habitámos um espaço maior que nós e por isso mesmo sem sujeito, parte da verdade da nossa imperial ficção”.

Um abraço do
Mário


A mitologia do colonialismo segundo Eduardo Lourenço

Beja Santos

Figura proeminente do pensamento português, Eduardo Lourenço levou décadas a refletir sobre o colonialismo português e foi uma presença constante em todo o tempo da descolonização, foi uma das vozes que nunca esmoreceu em período tão crítico. Desse trabalho incessante, contundente, dessa agudeza em artigos e papéis que ficaram no baú vem em boa hora a público o livro “Do Colonialismo como Nosso Impensado", Organização e Prefácio de Margarida Calafate Ribeiro e Roberto Vecchi, Gradiva Publicações, 2014.

A palavra mito e tudo quanto a ela está inerente é uma constante na escrita de Eduardo Lourenço e a sua leitura de Portugal. Como ele escreve logo na nota prévia, a propósito da complexidade do colonialismo português: “As mitologias sobre as quais o colonialismo se articulou mostram algo de nosso e muito profundo: a identidade de um país que pela maior parte da sua história se construiu por fora, evitando assumir o seu olhar interior, o que ele era por dentro”. Logo a propósito das comemorações henriquinas de 1960 desmonta as falsidades e os equívocos da mestiçagem e denuncia Salazar como um explorador da mitologia histórico-sentimental dos portugueses e diz abertamente: “Salazar utiliza o sentimentalismo, o anacronismo épico do seu povo com a sem-cerimónia com que um professor de música se serve do piano velho dos alunos”. Denuncia o paradoxo brutal de um regime apologético do multirracial e que apoiava, com os ademanes do oportunismo mais rasca, o apartheid sul-africano. Denuncia igualmente a pobreza de ideias de oposição democrática, o contraste entre a mitologia colonialista e a realidade colonial e dá como exemplo uma tirada do coronel Viana Rebelo em que num texto intitulado “Perder Angola”, alertava deste modo caso se perdesse a colónia: “implicaria as consequências seguintes: vinte mil Brancos e alguns milhares de Negros, desejosos de permanecer portugueses, viriam estabelecer-se na Metrópole; oitenta milhões de litros de vinho deixariam de ser exportados para Angola; trezentos e oitenta mil contos de tecidos fabricados pelas nossas fábricas; não teria mercado assegurado, etc. A perda de Angola, iria criar uma crise de emprego na Metrópole, uma redução do crédito internacional, a desaparição de um grande consumidor dos produtos portugueses”. Era a visão das colónias como mercado seguro para a produção portuguesa.

Mitologia da farronca, e Eduardo Lourenço cita das Novelas Ejemplares, de Cervantes, o seguinte: “Andámos engañando al mundo com el oropel de sus greguescos rotos y sus latines falsos, como hacen los portugueses com los negros de Guinea”. E comenta: “A alienação colonial é a mais tenebrosa e desenraizável de todas pois lisonjeia o natural amor-próprio que os povos a si mesmo se votam, embora não seja filha da nação inteira mas tão-só de uma certa classe nela interessada”. Põe a nu o caricatural de uma presença portuguesa que não foi mais do que uma presença intermitente e na generalidade dos casos bem recente. Invoca os Lusíadas, o canto da desproporção entre a pequena casa lusitana e os mares abertos, a desproporção grandiosa entre o agente e ação. Ao pôr em revista a história trágico-marítima, a historiografia de Alcobaça, a exaltação de um Brasil como país-irmão, iludindo a sua independência, Eduardo Lourenço desvia as suas reflexões para o que se vai passar em torno do 25 de Abril, no labirinto dos epitáfios imperiais: a teimosia em insistir em autodeterminação quando era irrevogável o sentido da independência. E escreve em 1976: “Desse Império mais de sonho compensador do que de verdade, com o seu cortejo centenário de violências visíveis ou invisíveis, não devem os portugueses guardar nenhuma nostalgia malsã”. Apelo curioso para quem em 2014, e a propósito do Império e da descolonização irá escrever: “Na sociedade portuguesa o trabalho de luto, em todas as suas dimensões psicanalíticas e coletivas, não foi completado, até só parcialmente começou”. Premonitoriamente, escrevera em Março de 1990: “A verdadeira descolonização deixámo-la em herança aos colonizados. E como toda a gente sabe essa ainda mal começou”.

Não sei que outro ensaísta aprofundou mais o estudo sobre a ficção do Império e a nossa desmesura que Eduardo Lourenço, lembrando-nos cruamente que sempre habitámos um espaço maior do que nós e por isso mesmo sem sujeito. Daí, para os portugueses de todas as idades, a importância fundamental em ler cronologicamente “Do Colonialismo como Nosso Impensado”.
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Nota do editor

Último poste da série de 14 de agosto de 2015 > Guiné 63/74 - P15003: Notas de leitura (747): “A Epopeia da LDM 302”, por A. Vassalo, em BD, Edições Culturais da Marinha, 2011 (Mário Beja Santos)

7 comentários:

J. Gabriel Sacôto M. Fernandes (Ex ALF. MIL. Guiné 64/66) disse...

O nosso primeiro Rei D. Afonso Henriques, devia ter ficado muito sossegadinho no Condado Portucalense em vez de ter iniciado a grande aventura que veio, ao longo dos séculos a ser PORTUGAL.
Um abraço,
JS

Antº Rosinha disse...

Penso que Eduardo Lourenço hoje não repetiria certas ideias nem confundiria Salazarismo/colonialismo, como escreveu a partir de 1960.

Após o refluxo dos colonizados afro-asiáticos ao regaço dos impérios coloniais, concerteza Eduardo Lourenço terá mais outros motivos para se exprimir.

A propósito, estão a ir para Angola, uns tantos hectolitros a menos, queixam-se os viticultores, senhor Eduardo Lourenço.

Foi Portugal que fez história, não foi apenas Salazar, mas foi este que tentou abrir os olhos a muitos políticos europeus, senhor Eduardo Lourenço.

BS obrigado, mas para quando conseguirás ter acesso e esmiuçar os discursos mensais na ONU durante 13 anos?

J. Gabriel Sacôto M. Fernandes (Ex ALF. MIL. Guiné 64/66) disse...

Caro Rosinha:
GOSTEI do teu comentário e assino.
Um abraço,
JS

Anónimo disse...

Afonso Henriques será sempre referênca segura quanto a grandes aventuras.

Mas,e no decorrer das mesmas, continuará o pano das bandeiras onde patrioteiramente nos embrulhamos a ser pago pelos empréstimos desde Bruxelas?

Jacinto Frio

Anónimo disse...



Sempre apreciei muito os textos ou comentários do António Rosinha e muitas vezes concordei com eles. Desta vez tenho que manifestar a minha discordância. Essa de fazer de Salazar um iluminado e um grande professor dos povos europeus, não consigo engolir. Salazar, quando o conheci, já era um velho avarento, que teimava em guardar todo o ouro possível nos cofres do Estado, enquanto o "povo ordeiro" pela autoridade e repressão, era mantido na fome e na ignorância.
Um abraço . Francisco Baptista

J. Gabriel Sacôto M. Fernandes (Ex ALF. MIL. Guiné 64/66) disse...

Eu bem vi que o caixão dele ia a transbordar de barras de ouro.
JS

JD disse...

Camaradas,
A leitura e interpretação do texto em presença, da autoria de Eduardo Lourenço, não é fácil, antes passível de choques interpretativos, se vacilar a atenção à densidade e alternâncias dos assuntos tratados e sujeitos de várias circunstâncias.
Permitam-me a citação: «Por mais que custe às nobres e aparentemente lógicas coordenadas de uma exigência política digna no plano moral subjectivo, a vida dos povos, como a vida em geral, contém uma dose, digamos, normal, de conveniência, cálculo, arranjo, hipocrisia e não pouco cinismo. Sobretudo, é um xadrez complexo de interesses precisos e relações de força, arma e armadilhas simultâneas do homem político» - pag.26. Desta maneira chama-nos a atenção para as circunstâncias, as que nos conduzem por caminhos ínvios e opostos, susceptiveis de pôr em causa a coerência de qualquer um, como é tão frequente na política.
A posição de resistência à pretensão de anexação dos territórios portugueses pela União Indiana, passou a estribar-se pela sentença do Tribunal da Haia que reconheceu os direitos portugueses. Todavia, as diferentes potências nada fizeram aquando das invasões. A Grã-Bretanha mantinha múltiplos interesses relativamente à ex-colónia. O Brasil temperava as decisões em conformidade com o pêndulo político internacional. A América parecia satisfeita com a influência regional exercida pelos indianos, e antevia um largo espectro de influência naquelas latitudes e longitudes. Entretanto, os EUA do democrata Kennedy apoiavam o terrorismo em Angola, através do treino, da logística, e do recrutamento de congoleses que exerceram as primeiras chacinas. Kennedy tinha um secretário de estado preto, que era grande entusiasta das independências africanas, e devia achar natural todas as malfeitorias praticadas com juros sobre as comunidades brancas tomadas por junto. Salazar dançava conforme a música. Ele, que não era flor de cheiro, também não revelou sensibilidade para dialogar e incluir as élites de estudantes no desenvolvimento das colónias. Arrogante, também não admitiu considerar a auto-determinação nos termos da carta das Nações Unidas. Mas com o inicio da guerra em Angola, assistiu-se ao franco e espontâneo desenvolvimento económico e social das duas maiores colónias e, por arrasto, da metrópole. Poucos anos depois, após a visita do embaixador em Lisboa, de vários assessores da administração americana, e das informações do consul em Luanda, alterou-se a posição dos americanos, que passaram a condescender e apoiar o governo português. Provavelmente receosos do eventual destino das matérias-primas e do potencial daqueles territórios.
Regresso à transição dos anos cinquenta para sessenta, quando as oposições exerciam pressões no exterior, prometendo instalar o regime democrático logo que acedessem ao poder em Portugal. Se insistentemente o prometeram, logo o esqueceram quando tiveram a oportunidade. O seu compromisso era demagogia e manipulação.
Refere o autor na pag.35 em tom de balanço: «Mas chegou o tempo da maturidade africana e do nosso despertar. nenhum sofisma, nenhuma "Comemoração Henriquina" em escala mundial, nenhum sociólogo da mestiçagem como Gilberto Freyre e suas burlescas invenções de erotismo serôdio, nenhum sorriso-Kubitchek podem tirar dos ombros do português, tranquilamente paternalista e fanfarrão, o dever de despertar para os deveres e seus atrasos. Cumpre-nos a nós, democratas, salvar o que deve ser salvo, os portugueses da África que os perde e os africanos dos portugueses que perdem a África que julgam salvar».
(tem continuação)
Abraços fraternos
JD