quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Guiné 63/73 - P15185: O nosso querido mês de férias (13): Os soldados não se podiam dar o luxo de ter férias (José Manuel Cancela, ex-sold ap metr, CCAÇ 2382, 1968/70) / Proporcionei a alguns soldados do meu grupo de combate umas modestas férias em Bolama (António Murta, ex-alf mil inf., 2.ª CCAÇ / BCAÇ 4513, 1973/74)

A. Comentários ao poste P15182 (*), a propósito do nosso inquérito sobre as férias na metrópole:


(i) José Manuel [Moreira] Cancela [, foto à esquerda, ex-Soldado Apontador de Metralhadora da CCAÇ 2382, BulaBuba, Aldeia Formosa, Contabane, Mampatá e Chamarra, 1968/70]
Amigo Luis:

Admiro-me, que fiques admirado pelo facto de, na resposta ao inqérito,  só um em cada cinco não terem tido férias (*). 

Sabes quanto ganhava um soldado? No meu e no teu tempo,  cerca de quatrocentos e cinquenta escudos. 

A viagem de avião custava entre 4 a 5 contos. Era esta a principal causa de não haver férias para uma grande parte, como foi o meu caso. Ainda tentei fazer férias em Bissau, mas na secretaria só davam férias a quem vinha cá, à metrópole...

Vou ficar por aqui, para não dizer tudo o que penso...

Um abração para ti. Muita saúde... E sobretudo, obrigado...


(ii) António Murta [ex-alf mil inf Minas e Armadilhas, 
2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (Aldeia Formosa, Nhala e Buba, 1973/74)] [, foto à direita]

Camarada e amigo Luís Graça.

Tem razão o camarada Cancela. Os soldados faziam parte dos contingentes militares em campanha, na minha opinião o elemento mais decisivo, pois os graduados eram uma minoria, e, está bem de ver, a esmagadora maioria deles nunca veio de férias à Metrópole.

Vou repetir um comentário que fiz há dias com o propósito de explicar, até com um exemplo, aquilo que o Zé Manel Cancela acaba agora de afirmar, mas não sei como procedi que o comentário voou. Já não estive para voltar ao princípio.

Para encurtar limito-me ao exemplo:

A determinada altura da minha comissão, o Comando do Batalhão ou Comando da minha Companhia, já não recordo, pediram para que os cmdt de pelotão indicarem  três (ou quatro?) nomes, entre os melhores, para serem contemplados com umas férias em Bolama. Também não recordo se com alguma comparticipação nas despesas. 

Juntei o pessoal do grupo e fez-se o apuramento dos nomes a indicar, por um método que também já não recordo nem vem ao caso. Todos de acordo, desfez-se a “assembleia” e comuniquei os nomes ao capitão. 

Não passou muito tempo até que fosse abordado pelos soldados escolhidos, explicando, consternados, que nenhum tinha meios de fazer aquelas férias. Podia tentar escolher outros, mas nunca o faria, por demais injusto. Com eles tentei orçamentar por alto umas férias modestas em Bolama, de modo a que se encaixasse nas suas possibilidades económicas. 

Negativo. Nada se encaixava. Disse-lhes que lhes daria do meu bolso a quantia a que tínhamos chegado, mas não queria que ficassem sem férias. Com a indicação de que, caso fosse insuficiente, desencadeassem o regresso sem dívidas, de modo a concluir as férias na Unidade. Ficaram contentes e concluíram todo o período de férias.

Não se tirem outras ilações desta inconfidência: só a faço para que se compreenda a verdadeira dificuldade da maioria dos soldados. 

Já não recordo se houve dificuldades semelhantes entre os soldados dos outros grupos de combate mas, quase jurava, não poderiam ser muito diferentes. (**)

Grande abraço a todos,
António Murta.

_______________

Notas do editor:

(*) Vd, poste de 30 de setembro de  2015 > Guiné 63/74 - P15182: Sondagem: Num total de 198 respostas, só 1 em cada 5 não teve férias... Um terço veio uma vez de férias, a meio da comissão... Outros mais sortudos e felizardos (40%) vieram mais do que uma vez, de férias, à metrópole

(...) Pois o nosso "inquérito de opinião" sobre as férias na metrópole, apontam para resultados que, de certo modo, me surpreenderam, a mim, pessoalmente:

(i) a baixa proporção dos que nem sequer tiveram férias (1 em cada 5);

(ii) a relativamente alta proporção dos que vieram à metrópole duas vezes (38,4%) e até três vezes (3,5%)...

(iii) eu que vim uma vez (tal como um 1/3 dos respondentes) já me considerava um sortudo e um felizardo por ter vindo a casa, a meio da comissão, mesmo não tendo felizes recordações por ali além dessas já longínquas férias... (Em boa verdade, fiz tudo para esquecê-las!). (...)

4 comentários:

ze manel cancela disse...

Caro Murta.Gostava de te conhecer pessoalmente,só para te dar um abraço.
O porquê, está á vista.....não me quero alongar mais neste tema.......
Embora virtual,um grande abraço.

Luís Graça disse...

Zé Manel:

Não entendo as tuas reticências e reservas, conhecendo-te como te conheço, um homem do norte, franco, aberto, que costuma dizer o que pensa...

A tropa já acabou, a guerra já acabou, a música agora é outra, e o nosso blogue serve para isso mesmo, para a gente dizer, contar, escrever, documentar, divulgar aquilo que vimos e vivemos, aquilo também que sentimos e tivemos de calar: por exemplo, muitas injustiças, do rancho às férias...

Infelizmente, os nossos camaradas que foram bravos soldados e que nunca vieram de férias à metropóle (, seguramente, 80 a 90 por cento...), estão aqui em minoria, no nosso blogue... São a "maioria silenciosa", que não vota, que não aparece, que não nos lê, que não nos escreve, que não comenta os nossos postes...

Temos que "espicaçar" esses nossos camaradas... Tu já deste o teu valioso contributo, tu e o camarada Murta (que é da Figueira da Foz)...

Abraço apertado. Luis

Anónimo disse...

eduardo francisco
29/09/2015

Bom dia Luis!

No tempo em que estivémos na Guiné a viagem custava 6 contos e tal. Lembro-me perfeitamente. Era o preço praticado no início de 1970.

Um fraterno abraço

Eduardo Estrela

António Murta disse...

Amigo José Cancela

Quem sabe se um dia destes nos encontramos por aí?
Para já, considero que recebi o teu abraço.
Aceita também o meu abraço com muita amizade.

A. Murta.