segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Guiné 63/74 - P15167: Notas de leitura (761): “Tratado breve dos rios de Guiné do Cabo-Verde”, de André Álvares d’Almada (1594) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 12 de Novembro de 2014:

Queridos amigos,
A nossa Guiné, na passado remoto, dava por vários nomes: Etiópia Menor, Terra dos Negros, Grande Senegâmbia, Guiné do Cabo Verde, entre outras designações.
Um euroafricano, o capitão André Álvares d’Almada percorre-a desde o rio Senegal até à Serra Leoa, fica este documento memorável, de rara beleza etnográfica que permite localizar onde estavam os povos que hoje ocupam a Guiné-Bissau e ver como há etnias, caso dos Beafadas e até dos Nalus que tinham muito mais importância do que na atualidade.
Esta versão foi editada pelo Ministério de Educação, merecia uma reedição e ampla divulgação na República da Guiné-Bissau, é um testemunho da aproximação dos povos, uma carta de amor sem rival.

Um abraço do
Mário


Uma importante edição de “Tratado breve dos rios de Guiné do Cabo-Verde”, de André Álvares d’Almada (1594)

Beja Santos

É uma edição cuja leitura se recomenda a todos aqueles a quem custa desbravar narrativas em português antigo. A capa desta edição é linda, traz um pormenor do mapa da Guiné publicado em Nuremberga, em 1743, A Vida na África Ocidental, segundo J. C. Reinsperger. O texto é modernizado por alguém que sabe da poda, António Luís Ferronha, tudo no âmbito do Ministério da Educação a propósito das comemorações dos Descobrimentos portugueses, 1994.

Ferronha recorda-nos que este precioso documento etnográfico só foi publicado em 1841. Se o bilhete de identidade da chegada dos portugueses à Guiné passa pela crónica de Gomes de Eanes de Azurara, seguir-se-ão duas obras fundamentais, o Tratado de André Álvares d’Almada, capitão crioulo natural de Santiago, Cabo Verde, e a Descrição da Serra Leoa e dos Rios de Guiné e Cabo Verde por André Donella, transcrição e anotação de Avelino Teixeira da Mota, Lisboa, 1977. Alguns estudiosos criticaram a narrativa Almada por conter episódios de intensa ferocidade, mostrado constantemente a cultura africana e as leis que banalizavam a escravatura. Acontece que quando os portugueses chegaram a África há muitos séculos que se praticava aqui a escravatura e Ferronha diz corretamente que “o comércio de escravos português só foi possível porque, de facto, existia essa escravatura, senão não poderia ter a amplitude que teve”.

No prólogo, André d’Almada recorda-nos a proliferação de reinos e de idiomas: “em cada espaço em menos de 20 léguas há duas e três nações, todas misturadas, e os reinos uns pequenos e outros grandes, sujeitos uns aos outros, e com as suas ceitas e costumes e as leis do seu governo”. Relembra-se ao leitor que esta Guiné aqui retratada nos finais do século XVI vai do rio Senegal até à Serra Leoa, era a chamada Terra dos Negros ou Grande Senegâmbia, André d’Almada por ali andou metido nos rios, “informei-me bem de todas as dúvidas, assim de nossos homens práticos nas ditas partes, como dos próprios negros, colhendo deles notícias das coisas acontecidas nas mesmas (…) o que disser, ainda que incompleto será na verdade”.


Fala em primeiro lugar dos negros jalofos, ainda no princípio do século XX se escrevia com a maior das naturalidades que no território que é hoje o Senegal viviam os jalofos, lembre-se que o capitão Teixeira Pinto recorreu dos préstimos de um bravo guerreiro, o jalofo Abdul Indjai, que receberá como prémio os regulados do Oio e do Cuor, mais tarde será severamente punido devido às suas práticas despóticas. Almada descreve detalhadamente o reino do Gran-Jalofo, narra barbaridades, atos de selvajaria, é muito cuidado no pormenor: “Estes negros andam vestidos com umas roupetas a que eles chamam camisas, de panos de algodão, pretos e brancos, da maneira que querem. As roupetas são degoladas dos mantéus, e as mangas chegam até aos cotovelos, e as camisas compridas que ficam dando um palmo por cima dos joelhos; e uma maneira de calças muito atufadas, digo calções muito avelutados, estreitos e justo por baixo nas pernas, os quais ficam dando por debaixo dos joelhos como os nossos; trazem as pernas nuas e nos pés umas alpercatas de couro cru…”. Ficamos a saber que havia cavalos, criação de gado vacum e cabrum e que os jalofos mandavam nos Fulas tratados por Fulos, “homens robustos bem-dispostos, a cor amulatada, os cabelos corredios, e ainda que algum tanto crespos trazem as barbas crescidas”. É neste território dos jalofos que Almada considera que está a terra mais sadia de toda a Guiné: “Correm nela muito bons ares. Há muito bons mantimentos, vacas, cabras, lebres, coelhos, gazelas, uns animais grandes como veados”.

Fala em elefantes, leões e onças. Nesse tempo já as perdizes eram conhecidas chocas. Como é pormenorizado fala na tinta que que se tingiam as roupas, dizendo que era a mesma com que se fazia o verdadeiro anil na Índia Oriental e descreve minuciosamente todo esse processo de fabrico. Ficamos igualmente a saber que da ponta de Cabo Verde (território continental) para baixo andam por ali ingleses e franceses adquirindo coiros, marfim, cera, âmbar e ouro entregando ferro e outras mercadorias que trazem de Inglaterra e França. A presença portuguesa desde esta ponta de Cabo Verde até ao rio da Gâmbia já era praticamente nula. No comércio feito por portugueses, entregavam-se cavalos, vinhos, bretanhas (tecidos finos de linho ou de algodão), contaria da Índia, entre outras mercadorias. A seguir ao reino dos jalofos vinham os Barbacins, aqui se entregavam cavalos para resgatar escravos, o principal rio da região é o rio da Gâmbia, Almada descreve o reino de Borçalo, fala da organização familiar, dos escravos e dos judeus: “Não sei de onde procederam. É gente formosa, principalmente as mulheres. Os homens são abastados de narizes”. Salta depois para o reino da Gâmbia, já estamos em território Mandinga, aqui faz-se resgate de ouro entregando-se manilhas de cobre. Acrescenta dados preciosos sobre os Mandingas que estarão presentes no Rio Grande e em S. Domingos. Vieram depois os Fulas e sujeitaram os Mandingas, como rolo compressor, com um exército espantoso, destruíram e assolaram tudo, “passando pela terra dos Mandingas, Cassangas, Banhuns e Buramos (Brames), que eram mais de 150 léguas, atravessando tudo até chegar ao Rio Grande, a terra dos Beafares (Beafadas) onde foram os Fulas rotos e vencidos”.

Descreve os hipopótamos a quem chama cavalos-marinhos: “têm a feição do corpo como de boi, e o corpo maior de um cavalo; e as mãos curtas, e tão curtas, que os negros nos seus arrozes, para que os não comam, fazem uns tapumes de madeira muito baixa, e não podem passar por cima dela por causa das mãos. E têm as unhas fendidas, repartidas em duas partes como as dos bois e a cabeça curta os dedos grandes, de palmo e mais, e menos tortos”. Ao tempo, os Mandingas tinham uma inegável importância política e territorial, Almada contextualiza a situação: “Este Reino dos Mandingas é muito grande, porque corre por este rio acima mais de 200 léguas; e está povoado todo de gente de uma banda e da outra. Pela banda do Norte se tem muitas léguas pelo Sertão até partir com os Jalofos, e quase que estão todos de mistura. E pela banda do Nordeste vai por cima dar na terra dos Beafares; e pela banda de Leste vai partir com os Cassangas e Banhuns”.

É a partir do capítulo sétimo do seu Tratado Breve que entramos propriamente na descrição do que é hoje a Guiné-Bissau: Felupes, reino do Casamansa, Brames, Bijagós, o Rio Grande (de Buba) terra de Beafares, os reinos dos Nalus, Bagas e Coquolins, e a partir do capítulo catorze já estamos no Cabo da Verga, no Reino dos Sapes, ou seja, entramos na Serra Leoa, na época ninguém tratava este território com qualquer associação ao que é hoje a Guiné Conacri.

Esta edição do Tratado Breve merecia uma reedição pela qualidade da modernização do texto e pelas notas elucidativas. É trabalho já feito pelas notas elucidativas pelo Ministério da Educação, é trabalho desbravado. Insista-se que é o bilhete de identidade da Guiné, um texto belíssimo, um esforço etnográfico meritório para quem não tinha ainda os ensinamentos teóricos operatórios de análise das sociedades. E quem escreveu este documento de importância irrefragável era um produto dos novos tempos, um euroafricano, alguém que vinha de Santiago e que se maravilhava com a espetacular Terra dos Negros.
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Nota do editor

Último poste da série de 25 de setembro de 2015 > Guiné 63/74 - P15154: Notas de leitura (760): "O colonialismo português", Coleção Estudos Africanos, Edições Húmus Lda., 2013 (Mário Beja Santos)

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