quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Guiné 63/74 - P15182: Inqérito online: Num total de 198 respostas, só 1 em cada 5 não teve férias... Um terço veio uma vez de férias, a meio da comissão... Outros mais sortudos e felizardos (40%) vieram mais do que uma vez, de férias, à metrópole

A. INQUÉRITO ONLINE: "DURANTE A COMISSÃO, NUNCA VIM DE FÉRIAS À METRÓPOLE"

Resultados finais (n=198)

1. Vim uma vez  > 64 (32,3%)

2. Vim duas vezes  > 76 (38,4%)

3. Vim três vezes  > 7 (3,5%)

4. Fiz férias em Bissau  > 7 (3,5%)

5. Fiz férias nos Bijagós  > 1 (0,5%)

6. Fiz férias no interior  > 1 (0,5%)

7. Nunca tive férias  > 42 (21,2%)

Votos apurados: 198

Sondagem fechada, 28/9/2015, 14h05

B. Comentário do editor L.G.:

[, Luís Graça, foto à esquerda, ex-fur mil AP inf, CCAÇ 12, Bambadinca, c. finais de 1969/princípios de 1970; veio de férias uma vez, a meio da comissão, em meados de 1970]


Quase 200 respostas é uma boa marca, tendo em conta que os camaradas da Guiné, pelo menos alguns deles, já nos aturam há quase uma dúzia de anos, e até há quem pense que está tudo dito sobre a nossa guerra da Guiné.  Enfim, há quem não entenda esta teimosia, esta persistência, esta "militância" em manter o blogue...

Mais: há quem pense que estamos a aqui discutir o "sexo dos anjos", numa altura em que o mundo, a Europa e a nossa pequena pátria enfrentam tantos e tão graves problemas...  Que futuro nos espera, individual e coletivamente ?... A nós, e aos nossos filhos, netos e bisnetos ?

A verdade que às vezes dá vontade de desitir... Mas também é verdade que ao longo da vida, a nossa geração, já viu, viveu e testemunhou muita coisa...  Por exemplo, já fez uma guerra, o que está longe de ser um "privilégio", já sobreviveu a várias crises ou momentos críticos... Falo em termos individuais e coletivos...Em boa verdade, somos uma geração "resiliente", se calhar até demasiado "ressiliente", resistente e flexível ao memso tempo, a geração do "ai! aguenta, aguenta!"...

A "resiliência" é uma palavrão da física, que usamos para designar a elasticidade ou a propriedade que têm certos corpos de retomar a forma original, depois de submetidos a uma grande pressão ou deformação... Em sentido figurado, é a capacidade de uma pessoa recobrar ou recuperar com relativamente facilidade, ou de saber lidar com as circunstâncias adversas, a má sorte, a desgraça, o infortúnio, enfim, os "acontecimentos de vida" stressantes (como a morte,o luto, a doença, o desemprego, a mobilização)...

Mas vamos aos resultados do "inquérito de opinião", termo que é mais apropriado do que "sondagem"... Como já temos ocasião de o dizer e repetir, a "sondagem" é uma técnica de pesquisa que permite a previsão, dentro de certos pressupostos metodológicos que não vamos agora analisar e discutir ...

Pois o nosso "inquérito de opinião" sobre as férias na metrópole, apontam para resultados que, de certo modo, me surpreenderam, a mim,, pessoalmente:

(i) a baixa proporção dos que nem sequer tiveram férias (1 em cada 5);

(ii) a relativamente alta proporção dos que vieram à metrópole duas vezes (38,4%) e até três vezes (3,5%)...

(iii) eu que vim uma vez (tal como um 1/3 dos respondentes) já me considerava um sortudo e um felizardo por ter vindo a casa, a meio da comissão, mesmo não tendo felizes recordações por ali além dessas já longínquas férias... (Em boa verdade, fiz tudo para esquecê-las!).

Mais uma vez obrigado pela vossa sincera e empenhada participação neste pequeno trabalho de pesquisa "on line" que não pode nem ser deve ser tomado como uma verdadeira "sondagem" no sentido técnico do termo. LG

________________

Nota do editor:

Vd, poste anterior:

26 de setembro de  2015 > Guiné 63/74 - P15161: Sondagem: "Durante a comissão, nunca vim de férias à metrópole"... Votação (direta, "on line", no canto superior esquerdo) termina 2ª feira, 28, às 14h05


4 comentários:

ze manel cancela disse...

Amigo Luis.Admiro-me, que fiques admirado, pelo facto de um em cada cinco
terem tido férias.Sabes quanto ganhava um soldado?No meu e no teu tempo cerca de quatrocentos e cinquenta escudos.A viagem de avião,entre 4 a 5 contos.Era esta a principal causa de não haver férias para uma grande parte,que foi o meu caso.Ainda tentei férias em Bissau,mas na secretaria só davam férias a quem vinha cá......
Vou ficar por aqui,para não dizer tudo o que pensso.....

Um abração para ti......Muita saúde.........E sobretudo.....Obrigado....

António Murta disse...

Camarada e amigo Luís Graça.

Tem razão o camarada Cancela. Os soldados faziam parte dos contingentes militares em campanha, na minha opinião o elemento mais decisivo, pois os graduados eram uma minoria, e , está bem de ver, a esmagadora maioria deles nunca veio de férias à Metrópole.
Vou repetir um comentário que fiz há dias com o propósito de explicar, até com um exemplo, aquilo que o Zé Manel Cancela acaba agora de afirmar, mas não sei como procedi que o comentário voou. Já não estive para voltar ao princípio.

Para encurtar limito-me ao exemplo. A determinada altura da minha comissão, o Comando do Batalhão ou Comando da minha Companhia, já não recordo, pediram para que os cmdt de pelotão indicassem três (ou quatro?) nomes entre os melhores, para serem contemplados com umas férias em Bolama. Também não recordo se com alguma comparticipação nas despesas. Juntei o pessoal do grupo e fez-se o apuramento dos nomes a indicar, por um método que também já não recordo nem vem ao caso. Todos de acordo, desfez-se a “assembleia” e comuniquei os nomes ao capitão. Não passou muito tempo até que fosse abordado pelos soldados escolhidos, explicando, consternados, que nenhum tinha meios de fazer aquelas férias. Podia tentar escolher outros, mas nunca o faria, por demais injusto. Com eles tentei orçamentar por alto umas férias modestas em Bolama, de modo a que se encaixasse nas suas possibilidades económicas. Negativo. Nada se encaixava. Disse-lhes que lhes daria do meu bolso a quantia a que tínhamos chegado, mas não queria que ficassem sem férias. Com a indicação de que, caso fosse insuficiente, desencadeassem o regresso sem dívidas, de modo a concluir as férias na Unidade. Ficaram contentes e concluíram todo o período de férias.

Não se tirem outras ilações desta inconfidência: só a faço para que se compreenda a verdadeira dificuldade da maioria dos soldados. Já não recordo se houve dificuldades semelhantes entre os soldados dos outros grupos de combate mas, quase jurava, não poderiam ser muito diferentes.

Grande abraço a todos,
António Murta.

Hélder Valério disse...

É isso!

Não é (não foi) uma "sondagem" (não podia ser) mas sim um "inquérito limitado".
Dá para concluir tudo o que já foi dito.
Que, dos que vieram de férias, a esmagadora maioria eram Oficiais e Sargentos.
Que as viagens, sendo mais baratas que de Angola ou Moçambique, ainda assim não estavam ao alcance das bolsas dos Soldados.
Que, por essa razão, não seria possível que estes últimos se pronunciassem (para além de possíveis e naturais limitações, ainda hoje, no acesso a estes meios informáticos) e, sendo assim, os resultados obtidos nas respostas do "inquérito" não podem ser generalizados, ou seja, não podem ser extrapolados para o universo dos militares que estiveram na Guiné.
Que, apesar de tudo, valeu a pena fazer este esforço para o pessoal se lembrar das férias, inclusive das que "não foram gozadas".
E que, por via disso, se abrem mais janelas para fazer relembrar esses tempos vividos, sendo certo também que todos, e cada um, ainda podem relatar-nos como foram os seus tempos de férias, cá e/ou lá.

Abraço
Hélder S.

Anónimo disse...

Férias só para alguns - para aqueles que tinham dinheiro para o avião. Quanto aos outros, aqueles que não tinham dinheiro, eram castigados duplamente porque, para além de não terem culpa de não receberem o justo salário, era-lhes ainda negado o direito de gozarem as férias no próprio local onde cumpriam o seu dever. E ainda há quem elogie o velho regime! As palavras do Cancela são pertinentes e eu (tal como ele) fico-me por aqui.

Um abraço
Carvalho de Mampatá