domingo, 7 de fevereiro de 2010

Guiné 63/74 - P5778: Efemérides (45): O desastre do Cheche, visto por quem esteve lá e perdeu 11 homens do seu grupo de combate (Rui Felício, Alf Mil, CCAÇ 2405, Galomaro, 1968/70)

Guiné > Zona Leste > Região do Boé > Cheche > 6 de Fevereiro de 1969 > A jangada, de reserva, com sobreviventes da tragédia de Cheche, no Rio Corubal, na retirada de Madina do Boé (*)

Foto: © Paulo Raposo (2006). Direitos reservados

Guiné > Zona Leste > Subsector de Galomaro > CCAÇ 2405 > 1969 > Dulombi > Na messe, os alferes milicianos Raposo (à direita) e Rijo (à esquerda); de costas, os furriéis milicianos Cândido e Magno. Os Alf Mil Paulo Raposo e Jorge Rijo estavam, em Cheche, no dia de 6 de Fevereiro de 1969.

Foto: © Paulo Raposo (1997). Direitos reservados

Jantar a bordo do Uíge, a caminho da Guiné > Finais de Julho/princípios de Agosto de 1968 > Os quatros alferes milicianos da CCAÇ 2405: David e Raposo, do lado esquerdo; Felício e Rijo, do lado direito.

Foto: © Paulo Raposo (2006). Direitos reservados


 Guiné > Zona Leste > Sector L5 > Galomaro > Dulombi > CCAÇ 2405 (1968/70) > Embora pertencente ao BCAÇ 2852 - cujo comando e CCS estavam sedeados em Bambadinca -, a CCAÇ 2405 não teve grandes contactos com o pessoal da CCAÇ 12 (a quem eu pertenci: Contuboel e Bambadinca,Maio de 1969/Março de 1971).  Daí que só no I Encontro Nacional do nosso blogue, na Ameira, Montemor-O-Novo (organizado pelo Paulo Raposo e pelo Carlos Marques dos Santos), em 14 de Outubro de 2006, é que eu tive o prazer de conhecer pessoalmente o Rui Felício, a par de outros dois baixinhos de Dulombi, o Paulo Raposo e o Vitor David.

Esta foto do Rui, sentado num abrigo - em princípio, de uma  tabancas em autodefesa do sector L5, em 1969 - , foi-nos enviada pelo Victor David, seu camarada, outro alferes da companhia e nosso tertuliano, que também terá servido de fotógrafo de ocasião, segundo presumo. Não tenho informações precisas sobre a data nem o local. (LG)

Foto: © Victor David (2006). Direitos reservados. 


1. Reprodução do poste, da I Série, de 12 Fevereiro 2006 > Guiné 63/74 - DXXVI: O desastre do Cheche: a verdade a que os mortos e os vivos têm direito (Rui Felício, CCAÇ 2405)

Texto do Rui Felício (ex-Alf Mil da CCAÇ 2405, Galomaro, 1968/70) (**). (Vd. poste anterior desta série  Efemérides ***.).

1. Comentário a propósito do post escrito pelo camarada José Martins sobre o desastre na travessia do Rio Corubal em 6 de Fevereiro de 1969 (1)

Preâmbulo

Acabei de ler um texto escrito pelo camarada José Martins onde relata a sua experiência na zona de Madina do Boé.

Embora tenha reconhecido que não assistiu directamente ao que se passou no célebre e lamentável desastre do Cheche, ocorrido no fatídico dia 6 de Fevereiro de 1969, o José Martins conheceu bem o local e a região e desenvolveu a sua descrição socorrendo-se de relatos e documentos alusivos ao sucedido.

E nota-se pelo seu relato que sofreu muito, e que ainda hoje sente as marcas do desastre, passados 37 anos sobre a sua ocorrência.

Ninguém, bem formado e sensível, poderia nunca, de resto, ficar indiferente a semelhante tragédia, ainda que, como o narrador José Martins, não tenha dela sido testemunha ocular.

Imagine-se então a ferida profunda que aquele desastre deixou a quem, como eu e muitos outros, foi não só testemunha ocular mas também, e principalmente, interveniente e vítima do colapso da artesanal jangada que servia de transporte aos militares e equipamentos que participaram na complexa, perigosa e cansativa operação de resgate da Companhia de Caçadores que se evacuou do célebre aquartelamento de Madina do Boé.

Desastre onde pereceram, segundo as estatísticas oficiais, 47 militares, onze dos quais, do pelotão que eu comandava… Permito-me destacar dois deles pelas relações especiais de amizade e de confiança que neles depositava, sem esquecer obviamente a dor causada pela morte de todos os outros:

(i) um, o furriel Gregório Rebelo, açoriano de sotaque cerrado e quase ininteligível que assumia as funções, embora não protocolares, de meu substituto em todas as circunstâncias, no comando do pelotão, e que mantinha a orgânica disciplinar e operacional da pequena unidade militar;

(ii) o outro, o soldado Octávio Barreira, transmontano de gema, homem rude, de uma só palavra, de têmpera sã, de antes quebrar que torcer, mas capaz de morrer para salvar a vida do seu amigo, e a quem eu atribuira as funções, também não protocolares, de meu guarda-costas.

Quem passou pela guerra colonial sabe que a escolha do guarda-costas recaía invariavelmente no soldado em que o alferes depositava maior confiança e amizade.

Aliás, como também é sabido, a designação de guarda-costas não tem a mínima conotação com a ideia que na vida civil se faz de alguém com este titulo ou funções. O guarda-costas era, acima de tudo, o soldado às ordens, o confidente, o amigo…. E muito menos, ou quase nada, o protector da integridade fisica do alferes, ao contrário do que se possa pensar.

A perda destes treze homens, que recordo com saudade e dor, sempre que a memória da Guiné me vem à lambrança, e que ajudei a formar para a guerra, em Abrantes e Santa Margarida, após oito meses de convivência próxima nas diversas tabancas onde o pelotão esteve destacado, foi um choque tremendo, inolvidável, cuja lembrança ainda hoje me faz arrepiar a alma e assomar as lágrimas.

Sobre o desastre do Corubal

Feito o preâmbulo, entro de imediato no motivo que me levou a servir-me do espaço disponibilizado pelo camarada Luis Graça a quem, sem o conhecer pessoalmente [, conhecemo-nos deopois no nosso I Encontro Nacionala, na Ameira], desde já transmito o meu aplauso pela feliz e dinâmica iniciativa da criação deste blogue.

É que é importante que seja a nossa geração, aquela que interveio, por obrigação ou por convicção ou por ambas as coisas, na guerra da Guiné, que tem que dar testemunho o mais exacto possível daquilo que por lá se passou.

Se assim não fôr, corremos o risco de a história ser deturpada, porque feita com base em documentos ou relatos nem sempre seguros, nem sempre fiéis… É por isso que, correndo o risco de desencadear alguma polémica, que não pretendo, achei que devia esclarecer alguns pontos do relato feito pelo José Martins a que atrás aludi.

Deduz-se daquele relato, publicado no blogue, que o desastre teria acontecido essencialmente devido a três factores:

(i) Os militares descomprimiram e tentaram encher os cantis com água do rio, o que terá provocado, depreende-se, o desiquilíbrio da estabilidade da jangada;

(ii) Teria sido ouvido um som abafado, semelhante a uma morteirada, que teria provocado agitação entre os militares e, em consequência, desiquilibrado a jangada;

(iii) Que, após o acidente, a água do Rio Corubal terá tomado um tom avermelhado, querendo com isso dizer-se que os crocodilos que habitavam as águas do rio, teriam consumado a morte dos militares que cairam à água.

A versão dos acontecimentos, veiculada pelo José Martins, assenta, como já se disse, em relatos e documentos sobre os factos, dado que este camarada, como ele próprio confirma, não assistiu ao que se passou. Mas, não obstante a presumível credibilidade das fontes a que recorreu, posso garantir que não foi exactamente assim que as coisas se passaram.

E digo isto com a mais profunda convicção e a mais inabalável certeza de alguém que estava na jangada, caiu à água, nadou durante uns cinco minutos e a ela retornou após a mesma se ter de novo equilibrado.

São factos que não se apagarão jamais da minha memória, por mais anos que viva, e apesar de não estar de posse de documentos que os comprovem...


2. O fime da SIC sobre o desastre do Rio Corubal

O mais curioso é que no filme, da autoria de José Saraiva, realizado por Manuel Tomás, que foi visto há uns anos atrás, por muitos milhares de portugueses através da sua transmissão pela SIC e pela distribuição de um vídeo feita na mesma altura pelo Diário de Notícias, são apresentadas aquelas mesmas razões como causas imediatas do desastre.

Já nessa altura contestei as conclusões do filme, e fi-lo por escrito e em reunião pessoal com o Director de Informação da SIC, Dr. Alcides Vieira, estando presente o realizador Manuel Tomás, que dirigiu a realização do filme.

Refiro que a carta entregue na SIC foi subscrita não só por mim mas por dezenas de ex-militares da CCAÇ 2405 que, por coincidência nessa mesma altura, no almoço de confraternização anual, a leram e assinaram.

A contestação dos factos descritos no filme foi feita nessa reunião na SIC, com a prévia concordância do Comandante da Operação, Brigadeiro Hélio Felgas, e estando presentes, além de mim próprio, o Capitão Miliciano José Miguel Novais Jerónimo e o Alferes Miliciano Paulo Enes Lage Raposo [ ambos da CCAÇ 2405].

E ela foi por nós solicitada à SIC em virtude do impacto que a exibição do filme teve nos ex-militares que a ele assistiram e que tinham estado presentes na jangada naquele dia do desastre. Com efeito, no próprio dia da exibição do filme comecei a receber telefonemas de antigos camaradas, um tanto decepcionados e alguns até revoltados, pela inexactidão dos pormenores que ali eram descritos.

Todos nós três, presentes na dita reunião, participámos na operação de evacuação de Madina do Boé, e todos estavamos presentes no local do acidente no Cheche naquele dia 6 de Fevereiro de 1969.

O Capitão Jerónimo, comandante da CCAÇ 2405, e eu próprio, estávamos na jangada no momento do acidente, onde se encontrava também o Alferes Miliciano Jorge Rijo, oficial da CCAÇ 2405, com o seu pelotão.

O Alferes Miliciano Paulo Raposo, também oficial da CCAÇ 2405, já tinha feito a travessia do rio na viagem anterior, e encontrava-se na margem norte do Corubal com o seu pelotão, observando a tragédia.

Na referida reunião da SIC, o realizador Manuel Tomás argumentou que o filme fora realizado com fundamento em entrevistas e em documentos oficiais militares a que tinha tido acesso, pelo que considerava o filme suficientemente documentado.

E disse que esses documentos atestavam as razões acima referidas, isto é, que a jangada se virou porque, no essencial, teria havido disparos de morteiro que, supostamente vindos do IN, teriam criado o pânico nos militares, os quais, ao agitarem-se, teriam provocado o desiquilíbrio da jangada.

Perante a irredutível posição da SIC em manter a versão veiculada pelo filme, nada mais nos restou do que desistirmos do pedido que lhe fizémos para que fosse proporcionado esclarecimento público sobre as conclusões desse filme.

Foi dito, nessa reunião, ao Dr. Alcides Vieira e ao Sr. Manuel Tomás,  que, por muito credíveis que pudessem parecer os documentos militares em que fundamentaram a versão filmada, nenhum deles jamais desmentiria ou apagaria da minha memória e dos meus camaradas o que realmente se passou.

Mais importante que os documentos preparados no silêncio dos gabinetes militares, sabe-se lá com que inconfessados motivos, era a indesmentível memória daqueles que tinham sido protagonistas e vítimas do desastre.

É com o mesmo espírito de esclarecimento da verdade dos factos que volto hoje ao assunto, desta vez no ambiente mais acolhedor de um blogue criado e gerido por alguém como o Luis Graça que, tendo estado na Guiné, sabe melhor que ninguém que não queremos honrarias, distinções ou protagonismo público.

Queremos tão só que a história seja o mais verdadeira e exacta possivel... Esse é o legado que queremos deixar aos vindouros, para que jamais seja ignorado o sacrificio de uma geração inteira, retirada à sua despreocupada juventude para fazer uma guerra em longínquas terras, em nome dos seus deveres e obrigações para com a sua Pátria.


3. A verdade do que sucedeu

Mas então, o que se passou realmente naquela manhã de 6 de Fevereiro [de 1969]?

A CCAÇ 2405, comandada pelo Cap Mil Inf Novais Jerónimo, integrava a coluna militar que tinha partido na manhã do dia anterior de Madina do Boé, rumo ao Cheche, e tinha como missão escoltar a Companhia de Caçadores [1790] evacuada daquele aquartelamento e que era comandada pelo Cap Inf Aparício (que, após o 25 de Abril, veio a assumir a função de Comandante Geral da PSP de Lisboa).

Ao fim desse dia a coluna chegou às imediações do rio Corubal, junto ao local de cambança para o Cheche. E durante toda a noite a jangada fez contínuas viagens transportando pessoal de apoio e, sobretudo, equipamentos militares e de transporte.

Ao amanhecer, as viagens de transporte entre as duas margens continuaram consecutivamente, até que chegou o momento em que na margem sul do rio Corubal já só restavam quatro grupos de combate, todos eles comandados pelos respectivos alferes, bem como os capitães Aparício e Novais Jerónimo. Além destes, encontrava-se o 2º Comandante da Operação [Mabecos Bravios], um major cujo nome já não recordo.

Segundo a rotina estabelecida e as instruções recebidas pelo responsável pela condução da travessia (Alf Mil Diniz), esperávamos na margem do rio que este responsável mandasse entrar metade do pessoal ainda ali estacionado, ou seja, dois dos quatro pelotões acima referidos.

É que a jangada, segundo bem explicou o alferes Diniz, tinha uma lotação de segurança de um máximo de 60 homens (2 pelotões). E o alferes Diniz assim fez, à semelhança do que tinha já feito dezenas de vezes ao longo da noite, zelando para que a carga da jangada não excedesse os limites de segurança estabelecidos.

Mandou entrar o meu pelotão e o do Alferes Rijo, ficando na margem para a viagem seguinte, os dois pelotões da Companhia do Capitão Aparício. Subitamente porém, assisti a uma conversa entre o 2º Comandante da Operação e o Alferes Diniz, em que este foi intimado pelo referido 2º Comandante a mandar embarcar os dois pelotões restantes, dado que não se podia atrasar mais a operação.

Apesar dos argumentos do Alf Diniz, tentando que em vez dos 4 pelotões embarcassem apenas dois, prevaleceu a autoridade da patente militar mais alta e assim acabaram por embarcar os 4 pelotões, para a derradeira viagem da jangada...


E foi de facto a sua derradeira e trágica viagem... Ainda não estavam percorridos 10 metros e já a jangada submergia e, de seguida, se virava projectando para a água quantos nela seguiam... E não me recordo de ter ouvido qualquer disparo de morteiro, antes do desastre... E não me lembro de ter detectado antes qualquer sinal de pânico entre os soldados... Aliás, a sua experiência operacional no teatro de guerra era já apreciável e não entrariam em pânico por um simples disparo de morteiro que estou seguro que não existiu.

Houve alguns disparos de morteiro, é verdade, mas após o desastre e feitos pelas NT, no intuito de prevenir qualquer aproveitamento do IN que eventualmente estivesse emboscado nas imediações.

Exceptuando os militares que infelizmente pereceram afogados no Corubal, passados poucos minutos, todos restantes retornavam à jangada que, pouco depois, se reequilibrou e retomou a sua viagem para a margem norte do rio. E eu fui um deles... Depois de me ter libertado da espingarda, das cartucheiras, das botas e das granadas, cujo peso me puxava inexoravelmente para o fundo...

Em nenhum momento descortinei qualquer tipo de pânico quando regressei à jangada e, talvez nervosos ainda do desastre, todos sorriamos e aceitávamos o banho forçado como uma dádiva divina depois de vários dias de sede e calor.

Ninguém se apercebeu de nenhum camarada em aflição ou pedindo socorro. Ninguém sequer sonhou que a tragédia tivesse atingido as proporções que tomou. Só na margem norte do rio, quando mandei formar o meu pelotão e o vi reduzido a quase metade é que tive consciência da desgraça que tinha acontecido.

E foi então que, algo descontrolado, me dirigi à margem do rio que engolira os meus soldados na esperança de ainda ver alguém... Mas a tragédia estava consumada de forma silenciosa, definitiva e rápida.

Em resumo e concluindo:

(i) O desastre do Cheche ficou a dever-se, em minha opinião, ao excesso de peso entrado na jangada;

(ii) E ela é corroborada por todos aqueles que, como eu, viajavam na jangada e que em conversas a seguir ao desastre manifestaram a mesma opinião;

(iii) Note-se que a mesma jangada tinha já feito dezenas de travessias sob as ordens directas do Alf Diniz sem nunca se ter detectado qualquer problema;

(iv) Esse problema surgiu de forma trágica na última travessia, ou seja, naquela em que o responsável Alf Diniz não pôde efectivamente proceder segundo o que estava estabelecido, deixando entrar na jangada o dobro da sua capacidade, por ordem do 2º Comandante da Operação a que, pela natureza da hierarquia militar, não poderia opor-se;

(v) Mas fê-lo, e disso dei testemunho no âmbito do inquérito que se seguiu, advertindo previamente o seu superior hierárquico para o facto de estar a infringir as determinações que tinha sobre a forma de fazer a travessia do rio e da lotação definida para a embarcação;

(vi) E estou convencido que a rapidez do desaparecimento das vítimas nas águas calmas, escuras e profundas do Corubal, se ficou a dever ao facto de todos transportarem consigo pesado equipamento de guerra que lhes tolheu os movimentos e os conduziu para o fundo do rio, de forma tão rápida, com a agravante de que a maior parte deles não sabia nadar;

(vii) Finalmente, não posso deixar de fazer referência ao que o José Martins diz ter ouvido de "alguém que esteve no centro do acontecimento" de que as águas tomaram um tom avermelhado.

(viii) Sei da existência de crocodilos naquele troço do rio Corubal.

(ix) Sei que alguns dos corpos de soldados encontrados dias mais tarde, apresentavam sinais de terem sido dilacerados por crocodilos.

(x) Mas sei também que as águas, naquele dia, e após o acidente, apenas apresentavam o tom natural verde escuro de um rio calmo e profundo e tenho dúvidas que os crocodilos tivessem estado presentes naqueles momentos, com o ruído de helicópteros sobrevoando as águas a baixa altitude, na tentativa de encontrar e socorrer algum soldado em dificuldades.

(xi) Não devemos dramatizar mais o que só por si já foi suficientemente dramático (2)...


4. Breves dados sobre a CCAÇ 2405 (1968/70)

Composição da CCAÇ 2405:

A CCAÇ 2405, à data dos acontecimentos, tinha a sua sede em Galomaro (3).

Comandante: Cap. Mil. José Miguel Novais Jerónimo

1º Grupo de Combate – Alf Mil Jorge Lopes Maia Rijo
2º Grupo de Combate – Alf Mil Vitor Fernando Franco David
3º Grupo de Combate – Alf Mil Rui Manuel da Silva Felício
4º Grupo de Combate – Alf Mil Paulo Enes Lage Raposo


O 2º Grupo de Combate, comandado pelo Alf Mil Vitor David, não integrou a Companhia na operação de evacuação de Madina do Boé, ficando na sede da Companhia em Galomaro, onde porém a acompanhou através dos meios rádio.

As baixas resultantes do desastre do Cheche foram sofridas pelos 1º e 3º Grupos de Combate, que viajavam na jangada na altura do acidente.


Rui Felício
(Ex-alf mil inf CCAÇ 2405

[ Fixação / revisão de texto / bold a cores / título: L.G.]
_________

Notas de L.G.

(1) Vd. post do José Martins > 6 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - D: Madina do Boé, 37 anos depois

(2) Vd os posts anteriores sobre este tópico:

17 de Julho de 2005 > Guiné 69/71 - CIX: Antologia (7): Os bravos de Madina do Boé (CCAÇ 1790)

(...) "Apresentação do livro de Gustavo Pimenta, sairómeM - Guerra Colonial (Palimage Editores, 1999), no Porto, Cooperativa Árvore, em 10 de Dezembro de 1999. Autor do texto: José Manuel Saraiva, jornalista do Expresso" (...)

2 de Agosto de 2005 > Guiné 63/74 - CXXXIII: O desastre do Cheche, na retirada de Madina ...

(...) "Este documento, que me chegou às mãos através do Humberto Reis, relata a dramática operação em que participou a CCAÇ 2405, sedeada em Galomaro, e pertencente ao BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/70), operação essa que tinha em vista operação essa que tinha em vista retirar as NT da posição insustentável de Madina do Boé, cercada pelo PAIGC"(...)

8 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDXXX: A retirada de Madina do Boé (José Martins)

(...) "O mês de Fevereiro de 1969 tivera inicio há poucos dias quando passou, no aquartelamento de Canjadude, uma coluna cuja missão era retirar a Companhia de Caçadores nº 1790 do seu destacamento de Madina do Boé. Paralelamente a guarnição do posto do Cheche, pertencente à Companhia de Caçadores nº 5, também retiraria e juntar-se-ia à nossa companhia em Canjadude" (...)

8 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDXXXI: Comentário de Afonso Sousa ao texto sobre a retirada de Madina do Boé

(...) "Emociona este seu testemunho. Eu só faço uma pequena ideia do sofrimento de todos vocês, naquele momento trágico, nas horas e nos dias seguintes - em terras de solidão, em paragens dos confins da Guiné" (...).

(3) Em Fevereiro de 1969, a CCAÇ 2405 era a unidade de quadrícula de Galomaro, pertencendo ao Sector L1, e estando afecta por isso ao comando do BCAÇ 2852, sediado em Bambadinca.
__________

12 comentários:

Anónimo disse...

Camarada Rui,ao ler o teu relato
veio-me á memória aquilo que constou em Bissau nessa data,só que não constava que tinham sido obrigados a embarcar os quatro grupos de combate,de facto dizia-se que tinha sido por excesso de lotação,e sei que pouco tempo atraz um homem de Engenharia tinha estado no Cheche,a reparar a jangada,a Verdade descrita por quêm viveu momentos tão dramáticos.
José Nunes
Beng 447
Brá 68/70

Anónimo disse...

O relato, do Rui Felício, está de acordo com aquilo que me foi transmitido, no dia 13/06/69, por camaradas que foram testemunhas oculares da tragédia. O que eu registei :
Queriam que fosse a última jangada a fazer a travessia , que estava a ficar tarde, que havia o compromisso de terminar a acção nesse dia, e posto isto o comandante, da operação, deu ordem para passar tudo.
Eu estive no Cheche, em 15/06/69, (já mandei artigo para o blogue) pelos meus cálculos, a largura do rio, de margem a margem, pouco deve ultrapassar os 100m. Logo, não compreendo, pelo que me foi transmitido, que cada travessia de jangada demorava cerca de uma hora. Seria ½ hora de margem a margem?
Também me foi dito, que o General Spínola, juntamente com o Brigadeiro Almeida Bruno, aterraram na DO em Canjadude, onde soube do acontecido. O General, incrédulo, pediu logo um heli. a Nova Lamego e deslocou-se ao Cheche, vindo posteriormente a Canjadude para descolar na Do. Que havia em Canjadude, um banquete preparado, os meus camaradas enfatizaram, que até tinha bolos e doces. Isto foi-me transmitido.
Um abraço para todos
José Corceiro

Luís Graça disse...

Recorde-se aqui umm excerto do depoimento "A retirada de Madina do Boé" pelo Brigadeiro Hélio Felgas, publicado em 25 de Julho de 2008:


(...( "No Gabu (então Nova Lamego) construiu-se uma nova jangada que depois foi levada para o Cheche onde a que lá estava foi devidamente reforçada.

"Estas jangadas eram constituídas por um forte estrado dotado de vedações laterais e assente em bidões vazios e em três 'barcos' formados por grandes troncos de árvores escavados. Estrutura esta que, com a jangada descarregada, colocava o estrado a cerca de um metro da água.

"As jangadas eram consideradas muito seguras e incapazes de se voltarem ou afundarem, desde que não fossem excessivamente carregadas. Calculava-se que aguentariam um peso de dez toneladas. Mas para maior segurança a Ordem de Operações [referência à Op Mabecos Bravios] proibia que fossem transportados mais de 50 homens de cada vez." (...)".

Quem foi este major que contrariou as ordens de segurança ? É estranho, ninguém sabe (ou quer mencionar) o nome dele...

http://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/2007/09/guin-6374-p2982-depoimentos-1-retirada.html

Jorge Narciso disse...

Cheguei à Guiné nos finais de Abril de 1969, logo quase 3 meses depois desta tragédia.
Ela era, no entanto, recordada e transmitida com pesar pelos meus camaradas dos helis que acompanharam essa operação, nomeadamente nas infrutiferas buscas por eventuais sobreviventes.

O motivo deste comentário não é pois sobre algo directamente associado ao acidente, antes a transmissão de duas recordações associadas que este (e o anterior) Post me despertaram:

(1) Algumas vezes sobrevoei a zona de Madina do Boé (em voos de reconhecimento) e lembro-me que numa dessas viagens o Piloto recordou ter participado, nas atrás citadas, buscas apontando o troço do Corubal onde o desastre ocorreu.

(2) Recordo-me perfeitamente do aqui citado Capitão Jerónimo (que se não estou errado seria de ascendencia africana), pessoa simpatiquissima e que sempre nos recebia com extrema afabilidade em Galomaro, que julgo comandava.

Jorge Narciso

Luís Graça disse...

No seguimento da publicação do poste do Rui Felício, em 12 de Fevereiro de 2006, na I Série do nosso blogue, eu próprio publiquei um poste, em jeito de comentário, com um título que hoeja não assinaria:

Guiné 63/74 - DXXVIII: A verdade sobre o desastre de Cheche: a culpa não pode morrer solteira

Não assinaria por um razão simples: o nosso blogue não apura nem julga a "culpa" de ninguém... Em todo o caso o resto do texto mantem-se basicamente actual:

"O nosso blogue orgulha-se de acabar de publicar o depoimento do Rui Felício, que foi alferes miliciano da CCAÇ 2405, e que perdeu 11 dos homens do seu grupo de combate no dia 6 de Fevereiro de 1969.

"Ele foi vítima e ao mesmo tempo testemunha dos acontecimentos. Passados 37 anos, ainda há factos, controversos (e graves), por esclarecer: um deles é a ordem do 2º Comandante da Operação Mabecos Bravios (um major de que o Rui não se lembra o nome) e que terá obrigado o oficial que comandava a travessia do rio em jangada (Alf Diniz), a embarcar não dois mas quatro pelotões, infringindo assim as normas de segurança (a lotação da jangada era de 60 pessoas)...

Os tipos da SIC passaram há anos um filme sobre o desastre de Cheche mas, ao que parece, desvalorizaram a versão dos nossos camaradas da CCAÇ 2405...

"Será que alguém quis (e continua a querer) branquear a história e alijar a carga da responsabilidade ?

"Os camaradas da CCAÇ 2405 – e todos nós, os mortos e os vivos! – temos o direito à verdade, por muito que nos doa…

"Este blogue não é nenhum tribunal, mas nenhum de nós quer que a culpa morra solteira, como é habitual neste país... Podemos e devemos fazer um juízo moral sobre a (in)competência dos nossos comandantes militares… Temos esse direito, ganhámos esse direito...

"Eu, pessoalmente, gostaria de saber: (i) quem era o dito major;
(ii) a que companhia pertencia o Alf Dinis (CCAÇ 1790 ?); (iii) se a ordem do major ficou registada por escrito; (iv) se o Alf Diniz ainda está vivo e mantém essa versão…

"A verdade é que alguém deu ordens (!) para meter 120 homens armados até aos dentes numa jangada cuja lotação era só para metade…

"Saúdo o Rui Felíico, com respeito, admiração e solidariedade!" (...)

Luís Graça disse...

Jorge:

Se não me engano, o Cap Mil Jerónimo era natural de Angola (ou seria de Moçambique?)... Da Metrópole, não era... Há 4 anos vivia em Lisboa...

Em Novembro de 2006 o Paulo Raposo, Alf Mil da CCAÇ 2405, escrevia o seguinte:

"O nosso médico de Galomaro era o Carlos Pereira Alves, hoje cirurgião famoso e Director do Hospital dos Capuchos. São ambos da corda, são grande e bons amigos nossos (da família da CCAÇ 2405).

"O Jerónimo Cap 1000 - Miguel Novais Jerónimo -, mora em Lisboa, em Benfica, na Rua Cláudio Nunes. Está velhote. Foi operado à vista nos Capuchos, com a protecção do Carlos" (...)

Luís Graça disse...

A frase completa, do Paulo Raposo, é a seguinte


"O Cmdt do Cop 7 era o Major Parquedista Pardal, que mora em Cascais. O nosso médico de Galomaro era o Carlos Pereira Alves, hoje cirurgião famoso e Director do Hospital dos Capuchos. São ambos da corda, são grande e bons amigos nossos (da família da CCAÇ 2405).

"O Jerónimo Cap 1000 - Miguel Novais Jerónimo -, mora em Lisboa, em Benfica, na Rua Cláudio Nunes. Está velhote. Foi operado à vista nos Capuchos, com a protecção do Carlos" (...)

http://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/2006/11/guin-6374-p1257-fotos-falantes-torcato.html

Anónimo disse...

Assim fica tudo dito.
Abraço do coração ao Rui Felicio.
Parabéns Luis por pores o Rui novamente a escrever.
Narciso, este testemunho do Rui era imprescindivel.
Abraço a todos
Jorge Félix

Torcato disse...

O Alferes Dinis pertencia á CART2338

Não queria escrever nada. Mas a pergunta do Luís Graça obriga-me a isso.
Camarada e Amigo L.Graça: o Dinis tirou a especialidade comigo. Ele pertencia, como o Alferes Carvalho que já aqui falei-este da minha equipa- á 2338 e nós á 2339. Formamos as Companhia em Évora e juntos fomos para a Guiné.
O Dinis era do Sul de Angola e nunca mais nos encontramos. Tenho uma foto, pelo menos onde ele está.
Eu estava de férias em Portugal quando esse terrivel desastre aconteceu.
Posteriormente falei com alguém da minha Companhia que lá esteve,com um Capitão que estava em Nova Lamego.Falamos.Era mau demais.Em Julho de 69 fui destacado para Galomaro (nesse tempo havia o COP7).Não sei se as gentes da 2405 se recordam de mim. Creio nunca ter falado no desastre do Cheche.Era mau demais para falar a alguém de uma Companhia de óptima gente. Sabia do Dinis...e se lhe fossem imputadas responsabilidades? ...o mexilhão.
Meu caro Luís Graça isto é mau demais para eu falar. Digamos que recordo muito mal.
Abraço de forma sentida e amiga todos os militares da 2405, o Dinis e, mesmo tanto tempo depois respeito a forma como o Rui Felicio descreve o que aconteceu.
Mais não digo estou adoentado e sinto-me mais triste a recordar certos acontecimentos. Ainda bem que o Dinis, está escrito e bem pelo Rui,cumpriu a ordem mas tentou dizer que era uma violação...

Abraços fraternos a todos do, Torcato

Jorge Narciso disse...

Caro Felix

Vou oportuniscamente aproveitar a boleia deste Post ( o autor e Editores vão concerteza perdoar)para te cumprimentar.

Mas já agora: O piloto que refiro no comentário anterior até podes ter sido tu (viveste seguramente de perto este infausto acontecimento) sinceramente não me recordo e no entanto (interrogo-me porquê)... tão nitida a recordação do Cap. Jeronimo, aliás comprovada pelo pormenor da sua ascendencia que o Luis confirmou, !!!

Voltando a ti fico contente que aqui estejas a dar sinal de vida, já estava a ficar preocupado depois da tua não reacção aos apelos do Portojo e do meu próprio acerca de um Post sobre o Peralta (cubano).
Para despedida, é possivel que nesta semana que entra (ou na outra) tenha que ir dormir ao Porto, se assim for apito

Abração

Jorge Narciso

Luís Graça disse...

Um excerto do Paulo Raposo, outro Alf Mil da CCAÇ 2405, que esteva na Op Mabecos Bravios (retirada e Madina do Boé):

(...) "Estacionámos na margem sul do rio Corubal, nós e a companhia de Madina [CCAÇ 1790], durante toda a noite para protecção.

"Durante a noite a jangada foi transportando para a outra margem todas as viaturas. Já de madrugada [ do dia 6 de Fevereiro de 1969] e passados todos os carros, foi a nossa vez de atravessar o rio. Como tínhamos por hábito rodar as nossas posições assim que parávamos, a nossa companhia passou para a frente da de Madina e o meu grupo de combate, por sua vez, passou para a frente da minha companhia.

"Com o meu grupo de combate na frente, a companhia dirigiu-se para a jangada para fazer a travessia. A jangada já estava praticamente cheia e só coube o meu grupo. Para trás ficaram dois grupos da minha companhia [CCAÇ 2405]e toda a companhia de Madina [CCAÇ 1790].

"Durante a travessia aproveitámos para nos lavarmos um pouco e encher o cantil de água. Uma vez terminada a travessia, a jangada regressou para ir buscar o resto do pessoal. Como ninguém quis ficar para trás, entre os que estavam do outro lado do rio, entraram juntos na jangada, para a última travessia.

"Aqui facilitou-se. Eu estava do outro lado e assisti a tudo. A jangada, ainda a poucos metros da margem, adornou para um dos lados (nascente) e atirou à água vários rapazes. Por falta de peso de um dos lados, a jangada adornou de repente para o outro lado, atirando outros tantos rapazes à água.

"Depois disto a jangada ficou meio submersa. A meu lado estava um Major que deitou as mãos à cabeça e disse: - Deus meu!.

"Como não vi ninguém a gritar ou a esbracejar, pensei para mim que talvez se tivessem afogado um ou dois rapazes. A jangada que estava de reserva, foi por duas vezes buscar o pessoal. No Cheche estavam no chão dois helis que levantaram vôo, nada podiam fazer ou ajudar.

"Uma vez formadas as companhias, é que demos conta da extensão da tragédia: 45 [46 + 1 civil] homens afogados de ambas as companhias. Com as botas, o peso da cartucheira, das granadas e ainda a responsabilidade de não perder as armas, aqueles rapazes à medida que iam entrando na água, iam logo para o fundo, agarrando-se uns aos outros.

"Pelo menos um dos rapazes da nossa companhia estava em França a trabalhar e regressara a Portugal só para cumprir o seu dever. Ali ficou.

"A minha mãe assim que soube da notícia associou com o meu aerograma e ficou muito aflita. Telefonei-lhe de Nova Lamego para a descansar.

"Acabada esta operação, quiseram responsabilizar pelo sucedido o Capitão Aparício [, da CCAÇ 1790,] e o Alferes Dinis [, da CART 2338]. Quem lá estivesse, tinha feito o mesmo. Só quem está metido nelas é que sabe da sua vida". (...)

Pergunta de L.G.: Quem seria este major que estava na margem direita do rio, junto com o Paulo Raposo ? Seria o mesmo que havia pressionado o Alf Mil Diniz a violar as normas de segurança, levando o dobro (100/120 homens) na jangada, quando o limite de segurança era 50/60 ?

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http://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/2006/06/guin-6374-p853-o-meu-testemunho-paulo.html

Luís Graça disse...

O relatório da Op Mabecos Bravios, presumivelmente escrita pelo Cap Mil Jerónimo (comandante da CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852), está disponível na I Série do nosso blogue,
2 de Agosto de 2005
Guiné 63/74 - CXXXIII: O desastre de Cheche, na retirada de Madina do Boé (5 de Fevereiro de 1969)

http://blogueforanada.blogspot.com/2005/08/guin-6374-cxxxiii-o-desastre-de-cheche.html


Esvrevi na altura, à laia de introdução, o seguinte:

"Curiosamente, o autor do relatório da Op Mabecos [Bravios], o comandante da CCAÇ 2405, não apresenta quais quer razões, técnicas, militares ou outras, para o afundamento da jangada, limitando-se a descrever, de maneira sucinta e factual, o desastre, como mandava o livro de estilo dos operacionais, nunca deixando que os seus sentimentos ou emoções interferissem com a capacidade de identificar e descrever os acontecimentos mais relevantes ocorridos durante uma operação.

"No entatanto, o autor do relatório usa um advérbio de modo ('espectacularmente') que me parece deslocado e que até pode chocar o leitor de hoje. O episódio é descrito assim, sucintamente, a seco, sem emoção, sem mais explicações.

"Por outro lado, neste relatório nada se diz sobre o que ocorreu com os outros destacamentos (já que houve mais baixas, de outras unidades, que iam na jangada): 'Durante a transposição do Corubal a jangada em que seguiam 4 Gr Comb, respectivos comandos e tripulação afundou-se espectacularmente (sic), acerca de um terço da largura do rio, provocando o desaparecimento de 17 militares do Dest F e grandes quantidades de material perdido'.

"Era assim a linguagem de pau dos nossos relatórios de operações. No desastre do Corubal, em Cheche, morreram 47 militares portugueses (...). A imprensa da Metrópole, na época, deu grande destaque a essa notícia, não obstante a existência de censura (ou, como então se dizia, eufemisticamente, exame prévio).

(...) "O impacto negativo do desastre de Cheche no moral das nossas tropas foi enorme (É curioso que ainda hoje não se fala em Cheche, mas sim em Madina do Boé... Ora o desastre ocorreu justamente em Cheche, na travessia do Rio Corubal, com Madina já para trás...).

"Lembro-me, quando ainda periquito, em Contuboel, ouvir os dramáticas relatos de camaradas mais velhos que participaram nesta complexa e vasta operação, a nível de agrupamento. No meu 'Diário de um Tuga', eu costumava comparar Madina do Boé a Dien Bien Phu, comandada pelo célebre general Giap, onde os franceses perderam a guerra do Vietname.

"A comparação era um evidente exagero. Mas é um facto que em Madina do Boé, em 6 de Fevereiro de 1969, começava provavelmente o fim da guerra colonial na Guiné e do nosso império" (...).