quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Guiné 63/74 - P16726: (De)Caras (61): Um bravo do meu pelotão, o 1.º cabo apontador Manuel Lucas dos Santos: evocando aqui uma delicada escolta a uma coluna que, em 16 de maio de 1973, foi do Pelundo a Jolmete resgatar 6 cadáveres (Francisco Gamelas, ex-alf mil cav, Pel Rec Daimler 3089, Teixeira Pinto, 1971/73)



Lisboa > Cais da Rocha Conde dfe Óbidos > 11 de outubro de 1973 > Regresso no T/T Niassa > Alguns dos  bravos do Pel Rec Daimler 3089 (Teixeira Pinto, 1971/73) > Da esquerda para a direita, (i) José Eduardo Alves, (ii) Gonçalo Garcia Pedroso (condutor da viatura Daimler, aqui referida nesta crónica), (ii)  David da Silva Miranda (1º cabo mecânico, de óculos escuros), (iv) Lino Pereira Barradas, (v) Manuel Lucas dos Santos (1º cabo, assinalado com um retângulo a verde, o protagonista da história que se conta a seguir, natural de Açor, Góis), e (vi) José Gabriel Caloira.


Lisboa > Cais da Rocha Conde dfe Óbidos > 11 de outubro de 1973 > Regresso no T/T Niassa > O resto dos bravos do pelotão, que acompanharam o seu comandante no regresso a casa: da esquerda para a direita, Manuel Teque da Silva, Ademar Peres Marques, Luís Soares da Silva e Fernando Cândido Silva.


Guiné  > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > Janeiro de 1972 >  A “oficina” do Pelotão Rec Daimler 3089.  É visível o 1º cabo mecânico David Miranda que fazia o "milagre" de manter as viaturas sempre operacionais. O pelotão chegou  a ter duas ou três Daimlers, vindas da sucata de Bissau, para "canibalizar". Ao trabalho do Miranda muito ficou a dever o sucesso do Pelotão. O pelotão conseguia ter as cinco viaturas operacionais, do princípio ao fim da comissão, foi um ponto de honra para o seu comandante. Estavam equipadas com a metralhadora MG 42, e circulavam sem a torre giratória. O problema das Daimlers não era o motor mas o sistema de transmissão... A boa conservação das viaturas e das MG 42 era fundamental para a sua operacionalidade e fiabilidade...


Guiné  > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > Fevereiro de 1973 > O 1º cabo apontador Manuel Lucas dos Santos, no regresso de uma viagm a Caió


Francisco Gamelas, ex-alf mil cav, cmdt do Pel Rec Daimler 3089 (Teixeira Pinto, 1971/73)

Fotos (e legendas): © Francisco Gamelas (2016). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Esta crónica chegou-nos à caixa do correio em 6 de junho passado. Faz sentido publicá-la agora,  depois da edição do último poste relativo ao álbum fotográfico do autor, Francisco Gamelas, ex-alf mil cav, cmdt do Pel Rec Daimler 3089 (Teixeira Pinto, 1971/73), adido ao BCAÇ 3863 (1971/73). 

É um texto inédito, escrito a pensar no nosso blogue, a partir da reconstituição de memórias do ex-1º cabo cav, Manuel Lucas dos Santos. Datado de junho de 2016, não faz parte dos textos (poemas e crónicas) do  livro recente do Francisco Gamelas:  "Outro olhar - Guiné 1971-1973" (Aveiro, 2016, ed. de autor, 127 pp.+ ilust; preço de capa 12,50 €). (*).

Entenda-se também este texto como uma homenagem a todos os camaradas da arma de cavalaria (Pel Rec, EREC...) que alinhavam com os infantes em  colunas  como esta, a seguir descrita, delicada, não isenta de riscos e com momentos de grande tensão (**).

Nesta crónica há uma referência ao condutor Pedroso, o Gonçalo Garcia Pedroso (vd. foto acima), outro dos bravos do Pel Rec Daimler 3089. Iam duas Daimlers na coluna, uma à frente e outra atrás.

Segundo esclarecimento adicional do autor da crónica, e depois de voltar a falar com o Manuel Lucas dos Santos, ele confirmou a data e acrescentou o seguinte:
(i) estas seis mortes (civis ou na maior parte civis), foram contados um a um por ele;
(ii) resultaram de um ataque do PAIGC ao aquartelamento no momento em que população e militares assistiam a uma sessão de cinema ao ar livre;
(iii)  o capitão da companhia de Jolmete foi depois transferido para a companhia africana (, a  CCAÇ 16, ) que estava em Bachile...

O Manuel Lucas dos Santos, há uns largos anos, encontrou-se com o antigo capitão de Jolmete, num casamento, e tiveram ocasião de recordar estes tristes acontecimentos. Acresce ainda dizer que o troço Pelundo-Jolmete era "picada", não era alcatroado, e estava-se já no início da época das chuvas...

Nessa altura estava no Pelundo o BART 6521/72:
(i) mobilizado pelo RAL 5 (Penafiel);
(ii) partiu em 22/9/1972 para o TO da Guiné;
(iii) regressou em 27/8/1974;
(iv) esteve sediado  no Pelundo;
(v) cmdt: ten-cor art Luís Filipe de Albuquerque Campos Ferreira.

Em Jolmete esteve a 3ª C /BART 6521/72 (de 27/9/19721 a 27/8/1974). Teve 2 cmdts: cap mil art Luís Carlos Queiroz da Silva Fonseca; e  cap mil inf  Edmundo Graça de Freitas Gonçalves. Na Tabanca Grande, temos poucos camaradas deste batalhão.

Desconhece-se, por outro lado, as razões que terá levado comandante de batalhão a integrar a coluna a Jolmete e pedir o apoio do Pel Rec Daimler 3089, que estava adido a outro batalhão, o BCAÇ 3863 (Teixeira Pinto, 1971/73). (LG)


2. Sob o signo do medo

por Francisco Gamelas (com Manuel Lucas dos Santos)

Cedo, por volta das oito da manhã, acabados de regressar do pequeno almoço, depois de já termos feito a escolta da coluna que seguia para Bissau até ao Pelundo, entrou na caserna um mensageiro com uma convocação: o nosso Comandante [, do BCAÇ 3863,] requer a presença do 1º Cabo que substitui o Alferes Gamelas. 

Corria o dia 16 de maio de 1973. O nosso Alferes estava em Bissau à procura de peças para as Daimlers, no cemitério de viaturas semidestruídas que ali havia. Depois da saída do mensageiro, olhei os meus camaradas e comentei: quem é que andou a fazer merda ontem à noite? Ninguém se acusou. 

Respirei fundo, agarrei coragem e lá fui para o covil, como rês a caminho do matadouro. Boa coisa não seria. À porta semiaberta do gabinete, enquanto fazia a continência, pronunciei a fórmula da praxe: dá-me licença meu Comandante? O Tenente Coronel já se encontrava sentado à secretária, de semblante pensativo e preocupado. Não parecia zangado, apenas apreensivo, respondendo em voz baixa, como era seu timbre, mas de forma suave: entre nosso Cabo. Fique à vontade. 

Por detrás das lentes dos óculos os seus olhos miúdos começaram por me sondar durante alguns segundos. Deveria ser visível a minha inquietação e o Comandante ponderava as suas palavras. Ontem, no Jolmete, sede duma companhia do Batalhão do Pelundo, deu-se uma flagelação muito forte do inimigo. Houve vários mortos cujos corpos é preciso resgatar para seguirem para Bissau. 

Com uma breve pausa avaliou o efeito das suas palavras. Não sei o que viu no meu semblante, mas, depois da surpresa, uma inquietação, filha do medo, ia tomando conta do meu espírito. O Comandante continuou. O Senhor Comandante do Pelundo solicitou-me ajuda para ir ao Jolmete resgatar os cadáveres. Perguntou se haveria possibilidade das Daimlers poderem fazer parte da escolta. Pareceu-me bastante preocupado, nosso Cabo

A preocupação dele era visível. Fez outra pausa para me olhar bem nos olhos espreitando uma reacção. Desde quando estes gajos gastavam tanto latim para darem as suas ordens? Nosso Cabo, tenha prontas duas Daimlers para integrarem a escolta ao Jolmete dentro de vinte minutos, seria tudo quanto era necessário para que a ordem se cumprisse sem mais delongas. 

Estas falinhas mansas eram como facas afiadas a penetrarem de mansinho pelo ventre da minha inquietação. Permaneci calado. O nosso Cabo não acha que os devemos ajudar? Perguntou, sem parar de me fitar. Desta vez, o tom já foi mais incisivo, ainda que permanecesse dentro do cordial, mesmo com uma certa dose de intimidade, o que me desconcertava. O Comandante estava a fazer de mim alguém suficientemente importante para ter voto na matéria, o que me inquietava porque nunca tal tinha acontecido, nem seria normal acontecer. Não era este o ADN do relacionamento comando versus subordinados. 

O cerco apertava-se e não tinha como fugir a dar uma resposta. Quem sou eu, meu Comandante, para fazer avaliações. O Pelotão Daimler fará o que o meu Comandante determinar. Um muito leve sorriso acompanhou uma pequena, mas visível descompressão do seu semblante. Estava satisfeito com o evoluir da situação, o mesmo será dizer, que estava satisfeito com os resultados da sua estratégia de abordagem. O Senhor Comandante do Pelundo [, BART 6521/72,]  pode então contar com a ajuda das Daimlers na deslocação ao Jolmete? 

Foi uma pergunta a meio caminho duma afirmação. Limitei-me a articular o óbvio: o meu Comandante sabe que o Pelotão Daimler só está ao serviço deste Batalhão. Contudo, se o meu Comandante entender prestar uma ajuda solidária ao nosso Comandante do Pelundo, o Pelotão Daimler está pronto para cumprir a sua parte.

Desta vez o sorriso foi franco e a descompressão evidente. Óptimo, nosso Cabo. Vou então dizer ao Senhor Comandante do Pelundo que pode contar com duas esquadras dentro de uma hora no Pelundo - e levantou-se para dar por terminada a conversa. 

Ainda arranjei coragem para articular: o meu Comandante desculpe, mas gostaria de fazer um pedido... E ele: Diga lá nosso Cabo. O tom permanecia cordial.  Pretendia que o Senhor Comandante do Pelundo nos garantisse um rebenta-minas a abrir a coluna. Ser uma Daimler a fazer esse papel não seria justo e era um desperdício de uma metralhadora, em caso de problemas. O Comandante, já de pé, olhou-me como que admirado e retorquiu: Compreendo. Tem toda a razão. O nosso Cabo pode contar com a viatura rebenta-minas. 

Fiz a continência, e, de novo, articulei a fórmula aplicável: o meu Comandante dá-me licença que me retire? Resposta:  Dentro de uma hora esteja pronto para partir para o Pelundo, nosso Cabo. Por instruções do nosso Capitão das Informações, que teve a “gentileza” de me informar que era provável haver contacto com o inimigo, a Daimler da frente – a minha - foi reforçada com uma segunda metralhadora e respectivas fitas de munições, para além de mais umas quantas granadas. Que não fosse por falta de fruta que perdêssemos a contra-dança. 

Chegámos ao Pelundo cerca das dez e trinta, onde já nos esperava, no meio da parada, o Tenente Coronel Comandante do Batalhão, que imediatamente se acercou de nós. Obrigado por terem vindo nosso Cabo. E a estupefacção continuava. Este comportamento não era nada normal. Já almoçaram? Perguntou o Comandante. Às dez e meia da manhã ainda ninguém almoçou, pelo que, meio a sorrir respondi: não meu Comandante, viemos com ração de combate. Retorquiu: Vou já mandar preparar um bom almoço para vocês,

E assim foi. Dentro de umas dezenas de minutos, estávamos todos a almoçar, como raramente tivemos oportunidade de o fazer ao longo de toda a comissão. Contudo, a inquietação era mais que muita. Todos os sinais indicavam que a deslocação iria ser bastante perigosa. Se tivermos que morrer, morreremos de bandulho cheio, comentei sarcástico. 

Cerca do meio dia, começámos a organizar a coluna. Ao deparar com o Comandante, perguntei-lhe pela viatura rebenta-minas, que, essa sim, era a minha grande preocupação. O Comandante, apontando com o braço, disse sorridente: olhe ali nosso Cabo. Lá estava uma Berliet atulhada de sacos de areia até acima. Até aqui tudo bem. Siga a marinha e alma até Almeida. Percebi que o Comandante também iria integrar a coluna, o que, por não ser comum, somava alguns pontos a seu favor. 

Pusemo-nos em marcha pelas doze e trinta. Connosco, seguiam na coluna mais seis unimogs com soldados armados. Entre eles seguia o Comandante do Pelundo. A ligação ao Jolmete fazia-se por uma sequência de picadas, em alguns percursos apenas visíveis nos trilhos das rodas das viaturas, onde o vermelho da terra se deixava ver. Nesses trilhos elas seguiam sozinhas, sem necessitar do volante. O resto era vegetação, com capim da altura de um homem a roçar nas laterais. Digamos que poderíamos ser “pescados à mão”. Pedroso, deixa a Berliet afastar-se um bocado, disse para o camarada condutor quando iniciámos a marcha - a nossa Daimler seguia em segundo lugar na coluna. Se houver merda, teremos, assim, mais algumas hipóteses de reagir. 

O trajecto era de cerca de vinte e cinco quilómetros, que foi percorrido debaixo de uma enorme tensão, a baixa velocidade. O que nos corria nas veias era pura adrenalina. Sem qualquer peripécia no percurso, lá chegámos ao nosso destino em pouco mais de uma hora.

O cenário que encontrámos era desolador: destruição e caos, com semblantes fantasmáticos a espreitar pelos cantos. Os seis corpos já estavam alinhados nas macas à nossa espera. Vim a concluir que a Berliet, afinal, não carregava só sacos de areia, também trazia as "salgadeiras" para os cadáveres. Mau sinal. Não iríamos ter rebenta-minas no regresso, quase de certeza. Não seria lógico que a viatura com os corpos voltasse a fazer de rebenta-minas. Foi o que aconteceu. 

Depois dos caixões fechados e do Comandante ter terminado a observação do local e falado com os seus oficiais, regressámos ao Pelundo. Desta feita já não vai haver viatura rebenta-minas, nosso Cabo, teve a “gentileza” de me informar o Comandante. Pedroso, sempre a abrir. Quem quiser que nos siga. Apesar do repto, demorámos a chegar quase o mesmo tempo que tínhamos gasto na ida. A Berliet não poderia acompanhar um ritmo mais enérgico. 

Por volta das cinco e meia estávamos em Teixeira Pinto, sãos e salvos, já depois do grosso da coluna ter ficado no Pelundo. Agora, era só esperar que os níveis de adrenalina descessem, que a serenidade possível recuperasse os seus níveis normais. Entretanto, no que respeita ao horrendo observado no Jolmete, não houve borracha eficaz que o apagasse. Até hoje.

Quanto aos “estranhos” comportamentos dos Comandantes, continuam a fazer-me cócegas nos neurónios. Digamos que, com o medo à mistura, comum a todos nós, a alma humana tem destes comportamentos desalinhados.

Aveiro, junho de 2016
Francisco Gamelas
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Comentário do autor

Este episódio foi-me contado pelo então 1º Cabo do meu Pelotão Daimler Manuel Lucas dos Santos – o narrador da crónica - que, na minha ausência, assumia o seu comando (o meu 1º Sargento estava destacado no Cacheu com duas esquadras do pelotão). 

Durante estes últimos anos, em que, quase sempre, nos nossos almoços anuais este episódio vinha à baila, comecei a dar-lhe alguma importância, mas, sem verdadeiramente compreender as motivações do comando para os seus tão incomuns comportamentos. Até que parei para reflectir.

Será que as Daimlers seriam solicitadas se o Tenente Coronel do Pelundo  [BART 6521/72] não integrasse a coluna?  Obviamente que não: nunca o foram, assim como a enormidade de seis unimogs com tropa armada. Nas minhas colunas para o Cacheu e para Bissau, iam dois.

 E a atitude do Tenente Coronel de Teixeira Pinto [BCAÇ 3863], como se explica? No caso de existirem sarilhos graves com as Daimlers e os seus ocupantes, eles teriam que constar no relatório da acção e alguém em Bissau [leia-se: o gen Spínola] iria perguntar o que é que as Daimlers estavam lá a fazer. Não acredito que fosse a decisão favorável de um 1º Cabo em participar na escolta que ilibasse o Comandante de sérias responsabilidades.

Visto deste prisma, o episódio passa a ter algum interesse, pelo que aqui to deixo à tua apreciação para eventual publicação no teu blogue. (**)
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Notas do editor:

9 comentários:

Tabanca Grande disse...

Tabanca Grande
16 nov 2016 12:45


Francisco: a crónica saiu só agora... É uma magnífica reconstituição.. Preciso, todavia, que me confirmes a data da coluna: 16/5/1973...

Sabes algo mais sobre estes 6 mortos de Jolmete ? Estarão relacionadas com colunas a Guidaje ?

O BART 6521/72 era então a unidade que estava no Pelundo. Cmdt: ten-cor art Luís
Filipe de Albuquerque Campos Ferreira. Seriam mortos deste batalhão ou
de subunidades adidas ?

O Manuel Lucas dos Santos, onde vive ? Tentei ligar.te. Abraço grande. Luis

PS - Se tiveres mais "material" paar publicar, manda... incluindo fotos.

Anónimo disse...

Ao ler este post mais me convenço que assim não se podia ganhar a guerra.Este cabo devia ter sido louvado e quiçá promovido ou graduado em Sargento/furriel.Com este relato fica patente a qualidade técnica e não só dos comandantes da época.Desmembrar um pelotão supostamente de reconhecimento não se faz.Se o Cmdt Pel estava ausente onde estavam os outros sargentos/furriéis? Depois faz-se uma coluna com seis unimogs (2 GC?),uma Berliet Tramagal e duas Daimler.Quem comandava esta força? Era o TCor? Qual a cadeia de comando? E não previram no regresso a falta duma viatura rebenta minas? Parece-me amadorismo a mais.Era o que tínhamos. Fica para a História.
C.Martins Pereira

Tabanca Grande disse...

No TO da Guiné, as autometralhadoras Daimler e Fox, do tempo da II Guerra Mundial, tinham graves problemas de operacionalidade e de adaptação ao terreno. Impensável, por exemplo, meterem-na maior parte das picadas, no tempo das chuvas, esburacadas. minadas, opu tramsformadas em leitos de rio...

Casos como o Pel Rec Daimler 3089 em que os mecânicos faziam milagres e o comdante andava pelo ferro velho de Bissau à procura de peças, deviam fazer parte do anedotário nacional... E no entanto é uma prova fantastástica da nossa capacidade de improviso e desentascanço... Temos, de resto, dado sobejas provas, ao longo, da história, da nossa capacidade, como povo, de fazer das tripas coração...

A história que aqui hoje é contada, é uma história "edificante"... com mural/moral ao fundo (como eu gosto de dizer). Afinal, aquele "pedaço de lata", vunerável à canhoada e à roquetada, sempre dava algum "conforto psicólogico" à rapaziada quando tinha que sair da caserna para o mato... Mas não só: também quando os nossos comandantes lá tinham que dar o "exemplo", integrando-se em colunas ou em operações (o que era coisa rara, diga-se de passagem...).

Antº Rosinha disse...

Talvez tenha havido muitas promoções e muitos louvores, alguns a título póstumo, por valor demonstrado, enquanto durou a Guerra do Ultramar.
Talvez esta praça tenha recebido algum louvor, não creio que tenha chegado a sargento, como achava justo C. Martins Pereira.
A Guerra do Ultramar manteve durante os 13 anos os quadros de sargentos e oficiais, muitas vezes substituídos por milicianos e até por praças para preencher «desenfianços», «aguenta, que já volto».
Mas houve de certeza muitas promoções, várias promoções, de sargento a oficial, de Tenentes a tenentes Coronéis, em várias armas e várias especialidades, entre Abril de 1974 e anos 90, sem qualquer guerra nem soldados para comandar, e sem desenfianços.
Ou a guerra continuou por força do hábito durante mais 20 anos?
Sem milicianos e sem praças deve ter sido complicado fazer esta última guerra.

Anónimo disse...

Fui pelo menos uma vez, que me lembre, por terra a Jolmete, nos meus "passeios turísticos" que o Nosso Governo de então me proporcionou, durante a minha estadia em Teixeira Pinto, actual Cachungo.
Não foi na época das Chuvas e a picada seca, apresentava-se mais "aberta" de vegetação, mas de qualquer modo desenvolvia-se numa "zona quente", sujeita a "maus encontros", principalmente depois de se virar para a direita em Changalana, seguindo numa orientação mais ou menos NNE até Jolmete.
Avaliei bem o que custava aquele trajecto e não sei se fui ou não protegido pelas Daimlers do CAOP-1, antes do Pel Rec do Francisco Gamelas. Nem sei se durante o curto período em que afinal coincidimos em TPinto, o meu vizinho Francisco Gamelas me proporcionou alguma protecção.
Luís, Jolmete não tem nada a ver com Guidage. Ficam em zonas bem diferentes e muito distantes.

Abraços
JPicado

Tabanca Grande disse...

No fundo, o que o senhor tenente coronel do Pelundo poderia ter razões para temer era um "par de patins" (como a gente então dizia), a trazer, de helicóptero, por um gen Spínola que não pactuava com a "incompetência" de alguns dos comandantes de batalhão: isso aconteceu, por exemplo, com dois batalhões que eu conheci, em Bambadinca, o BCAÇ 2852 (1968/70) e o BART 2917 (1970/72).

Ele tinha pressa em ganhar a guerra e a paz, mas nunca conseguiria esse objetivo com os "burocratas" castrenses que estavam à frente das suas tropas no mato...

Tabanca Grande disse...

Jorge, grande capitão, obrigado pelo teu esclarecimento... Nunca andei por esses lados, Teixeira Pinto, Pelundo, Jolmete, "chão manjaco"...

Não sabia a razão de tantos mortos (seis), em Jolmete, em 16 de mnaio de 1973: ora nessa data, só encontrei um morto, um 1º cabo, que não consegui apurar a que subunidade pertencia...Na véspera, tinha morrido em Guidaje, um militar guineense, Martinho Cá... Isto, pela consulta do portal da Liga dos Combatentes... Guidaje parecia-me uam pista, mas é evidente que estamos longe...

Fico agora a sabner que os mortos terão sido todos (ou quase todos civis), na sequência do ataque ao quartel de Jolmete a 15 ou 16 de maio de 1973...Terá havido possivelmente uma falha de segurança... O capitão de Jolmete é transferido pelo Bachile... O ten coronel do Pelundo sente-se na obrigação de ir, pessoalmente, a Jolmete, o que não seria "normal"...

Manuel Carvalho disse...

Não conhecia este episódio, mas pela forma como tudo isto é narrado estou convicto que há aqui a mãozinha do General Spínola e o nosso camarada Manuel Lucas sentiu isso, almoço especial tudo,não era todos os dias que um Sr. Ten. Coronel andava nas picadas. Em Jolmete depois de 68 que eu saiba ´não houveram muitos ataques, houve um no nosso tempo em Jan/69 e eles levaram que contar retiraram com tanta pressa que deixaram pedaços de corpos e oito ou dez granadas de canhão e mais umas coisas. Depois a comp. seguinte a 2585 durante cerca de vinte meses não tiveram nenhum e a 3306 julgo que teve um mas bastante forte.Esta comp. de que estamos a falar foi a última e não sei quantos ataques teve.No meu tempo 68/69 nas colunas iam sempre três Panhards e quando foi da nossa retirada foram dois T 6 porque se dizia que eles iam aproveitar a coluna mas se vingarem, mas não aconteceu nada.Em Nov,/68 tivemos um morto nessa estrada em que eles com duas roquetadas imobilizaram a panhard da frente que ficou sem poder de fogo com os camaradas feridos e o nosso bazuqueiro ao tentar defende-los morreu.As estradas para o Cacheu e para Có levaram alcatrão e foram desmatadas e a de Jolmete ficou sempre em picada.Muito interessante o comentário do nosso camarada Rosinha em poucas palavras diz muita coisa.
Um abraço

Manuel Carvalho

Anónimo disse...

boa noite camaradas sou ANTONIO FANECO ex.1 cabo da 1 cart-bart 6521/72 nesta data encontava-me em JEMBEREM apesar de pertencer ao pelundo.esta historia e verdade mas há algo que me deixa a pensar.primeiro o CAMPOS FERREIRA era um cinico para com os militares nunca se preocupou com o que comia-mos e oferecer um almoço de lorde da que pensar.fazer a coluna esperar quase 4 horas para iniciar a marcha levou todos unimogues que havia na ccs e companhia operacional seis viaturas esta picada fazia-se em 40 minutos para cada lado cheguei a fazelo todos os meses no reabestecimento mensal e nunca levamos as daimlers sobre as mortes realmente morreram dois militares tiveram seis feridos graves e dessaseis feridos ligeiros houve três mortos na população. o ataque deu-se em PELUNDO9g2-69cerca de (cerca de 70 metros do arame farpado um abraço a todos ANTONIO FANECO