terça-feira, 13 de setembro de 2016

Guiné 63/74 - P16486: Álbum fotográfico de Francisco Gamelas, ex-alf mil cav, cmdt do Pel Rec Daimler 3089, ao tempo do BCAÇ 3863 (Teixeira Pinto, 1971/73) - Parte XI: A jangada de João Landim, no Rio Mansoa...



Foto nº 51A


Foto nº 51B

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Foto nº 51 > Junho de 1973 > O rio Mansoa em João Landim e a  jangada que fazia a sua travessia. Primeiro entravam as viaturas, depois as pessoas. Bissau ficava a cerca de quinze quilómetros e  para a "peluda",  o fim da comissão, faltavam, ainda quatro longos meses. A Helena regressaria mais cedo a casa,  o Francisco só chegará a Lisboa a 11/10/1973, no T/T Niassa, com os seus rapazes do Pel Rec Daimler 3089.


Foto nº 52 >  Rio Mansoa, João Landim > Junho de 1973 > Veículo da segurança ao local, pertencente à CCAV 3420 (Bula, 1971/73, que era comandada pelo cap cav Salgueiro Maia.


Guiné > Região do Cacheu > Junho de 1973  > A famosa jangada de João Landim que "de há séculos" atravessava o Rio Mansoa, levando durante a guerra colonial milhares de homens, armas e  viaturas, da "ilha de Bissau"  para o o centro, para o norte e para o nordeste,  para a região do Cacheu e para região do Oio, e vice-versa,,, Era um ponto estratégico, razão por que havia lá um  destacamento das NT.

Finalmente, e já nos finais do séc. XX e princípios do séc. XXI, foi construída uma ponte, com financiamento e tecnologia da União Europeia...  Tendo arrancado em 1998, só  foi inaugurada em 2003 devido às vicissitudes da guerra civil de 1998/99. Com  780 metros de comprimento, era então o maior empreendimento realizado na Guiné-Bissau. (LG).

Fotos (e legendas): © Francisco Gamelas (2016). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Continuação da publicação do álbum fotográfico do Francisco Gamelas, ex-alf mil cav, cmdt do Pel Rec Daimler 3089 (Teixeira Pinto, 1971/73), adido ao BCAÇ 3863 (1971/73) (*).

Francisco Gamelas, que é engenheiro eletrotécnico de formação, quadro superior da PT Inovação,  reformado, vive em Aveiro, e publicou recentemente "Outro olhar - Guiné 1971-1973" (Aveiro, 2016, ed. de autor, 127 pp. + ilust; preço de capa 12,50 €).

Os interessados podem encomendá-lo ao autor através do seu email pessoal :
franciscogamelas@sapo.pt.

O design é da arquiteta Beatriz Ribau Pimenta, a partir da foto. nº 29. Tiragem: 150 exemplares. Impressão e acabamento: Grafigamelas, Lda, Esgueira, Aveiro.


A jangada do Mansoa

por Francisco Gamelas

De repente, o rio.
Largo.
A jangada,
já atracada,
a nossa espera. Amargo
o teu sorriso. Também sorrio.
Escoltaram-nos até aqui
as panhards do Salgueiro Maia, 
ali de Bula.
Estranha, a chula
que se ensaia
no balanço da jangada em frenesi.
Do outro lado,
quase Bissau.
Já não é precisa a escolta.
O meu amor vai e já não volta,
o que não é mau.
Fico, assim, mais sossegado.
Leva no ventre
o nosso primeiro fruto
a crescer.
Vai-nos doer,
mas não é caso de luto.
Entre 
o agora e o meu regresso
apenas quatro meses
de suplício,
que mais parece um vício,
às vezes
que lhe tento fugir, sem sucesso.

João Landim,
local de passagem 
sobre as águas do Mansoa,
Não é à toa
que as pessoas em viagem
vacilem até ao fim.
Jangada velha, gingona.
corrente forte,
dependente do tempo e da maré.
Mas a vida é como é.
Para tudo é preciso sorte,
até a jangada se manter à tona.

Maio de 2015

In: Francisco Gamelas - Outro olhar: Guiné, 1971-1973. Aveiro, 2016, ed. de autor, pp. 120-121 (Com a devida vénia...)




Guiné > Região do Cacheu > Mapa de Bula (1953) >  Escala 1/50 mil >  Pormenor: Rio Mansoa e passagem em João Landim (**)

14 de novembro de 2012 > Guiné 63/74 - P10667: Álbum fotográfico de Leonel Olhero (2): Bula (Fernando Súcio / Leonel Olhero)

12 de novembro de 2012 > Guiné 63/74 - P10656: Álbum fotográfico de Leonel Olhero (1): Bula (Fernando Súcio / Leonel Olhero)

7 de novembro de 2012 > Guiné 63/74 - P10629: Furriel enfermeiro, ribatejano e fadista (Armando Pires) (3): Enquanto não chegar a evacuação, ao meu lado ninguém morre! ... Promessa cumprida! (Parte II)

12 de novembro de 2011 > Guiné 63/74 - P9032: Viagem à volta das minhas memórias (Luís Faria) (45): Destacamentos - Pedaços

12 de julho de 2009 > Guiné 63/74 - P4674: O mundo é pequeno e a nossa Tabanca... é grande (16): O alvoroço dos (re)encontros: obrigado, malta da CCAÇ 2790 (António Matos)

9 comentários:

José Nascimento disse...

João Landim - Aqui permaneci Junho e Julho de 1970 com uma secção, depois de ter dixado o Xime. De vez em quando desenfiava-me e ia até Bissau. Apesar de algumas dificuldades, acredite quem quizer, tenho saudades.

Tabanca Grande disse...

Zé: O destacamento era guarnecido a nivel de secção ou de pelotão ? Tinha instalações fixas ? Eram más, razoáveis, boas ?... Ab. do LG

Tabanca Grande disse...

Francisco:

Olá, mais um poste da tua série.... Estamos a chegar ao fim, tenho material para mais uns dois...

Há aqui um pequeno conflito de datas: na tua legendagem, vem abril de 1973; mas no teu livro,vem junho de 1973... Acho que esta última faz mais sentido: a tua Lena terá
regressado 4 meses antes de ti... É isso ?.. Tu vieste em outubro, ela terá, portanto, vindo em junho...

Se houver erro, corrige-se. Ab. forte...

Gostei muito do teu poema de tal modo que o reproduzi sem te pedir previamente licença...

Ab. forte. Luis

PS - Como era o teu tempo o destacamento de João Landim ? Era na margem direita ou esquerda ? Uma secção ou um pelotão ? Nunca "embrulhou" ? O PAIGC nunca andou por aqui ? Faria todo o sentido... atacar ou flagelar João Landim, minar a jangada, etc.

Tabanca Grande disse...

Malta que esteve em João Landim, que passou por João Landim, que tem histórias e fotos e memórias da janganda, POR FAVOR escrevam-nos!... É preciso alimentar o blogue todos os dias... Não há maior glutão!... Camaradas, não deixem que o Alzheimer passe para o pelotão da frente... Ab. LG

José Nascimento disse...

João Landim era constituído por um barracão em madeira e que era gerido em conjunto pela Marinha, tinha uma jangada e pela Engenharia, que tinha outra jangada. A outra parte era um barracão em alvenaria, se a memória não me falha, era dividido em duas partes. As condições não eram as melhores, havia uma latrina feita em madeira construída sobre o lodaçal da margem do rio Mansoa. Havia uns bidons com um chuveiro onde podíamos tomar banho, muitas vezes tinhamos que esperar que nos touxessem água de Safim e era de lá que esperávamos que viessem as nossas refeições e que quase sempre chegavam tarde e a más horas. Felizmente havia um gerador que fornecia energia eléctrica, mas estavam tão perto de nós que ainda hoje parece que ouço o roncar do seu trabalhar. A guarnição era constituída por uma secção e quando o alferes Marques, ainda em Safim me disse, vais para lá tu Nascimento, só aceitei ir com voluntários. A maioria do pelotão ficou em Safim. Com algum receio dos jacarés ainda dei uns mergulhos no rio Mansoa e também vivi alguns episódios curiosos.João Landim ficava na margem direita do rio e mal de nós se nos quisessem fazer algum mal, penso que não havia interesse por parte do PAIGC, porque João Landim era um ponto de transição entre a zona de guerra e a dita ilha de Bissau e os guerrilheiros podiam perfeitamente passar entre a população. Quem é que sabia? Quando tiver oportunidade coloco umas fotos. Recebe um grande abraço Luis Graça.

Anónimo disse...

Quando chegou o mês de Abril de 1965, o meu pelotão (3º)estava destacado, desde Março, ma povoação de Geba, fomos avisados que iriamos ser rendidos pela Companhia 557 ? (José Botelho).
Chegou o fim do dito mês de Abril e rumamos a Bissau, ficando a pertencer ao Batalhão 600.
Em Bissau fazíamos patrulhamentos nocturnos e destacamentos semanais em João Landim,
a nível de secção reforçada, cerca de vinte homens.
Então, colocou-se o problema, qual dos sargentos vai comandar o destacamento?
Ofereci-me, para ir.
Levei o pessoal da minha secção e mais uns voluntários, incluindo um cozinheiro.
Na aquela altura, as instalações eram apenas um barraco e cada um desenrascava-se.
Levamos géneros e viveres para uma semana, quando era preciso, eramos reabastecidos
No fim da primeira semana, do pessoal os que quiseram regressar a Bissau, foram substituídos por outros voluntários. Ali não havia o problema do serviço como havia em Bissau, cada um andava de calções e á vontade.
Estive duas semanas seguidas no principio de Maio.
Mais tarde na última semana na Guiné, voltei e dali partimos na ante-véspera do embarque (Uíge), para Lisboa (27/5/1965).
Foram umas férias bem merecidas.
A jangada era em madeira, tinha um cabo que atravessava o rio, e que passava numas roldanas que com umas manivelas fazia a travessia do rio.
A população civil era controlada à entrada de um lado e do outro.
As unidades militares eram apenas controladas pelas ordens de serviço e também era controlado o peso e o numero das viaturas para não sobrecarregar a jangada.
O pessoal que manobrava a jangada eram nativos comandados por um cabo, creio que era papel (raça).
Durante o dia, quatro militares estavam no controle em terra, de cada lado do rio.
Na jangada circulavam dois e às vezes três. A outra malta estava estacionada do lado de Bissau.
Por vezes eramos visitados por colunas da Companhia e às vezes até aparecia o Comandante da Companhia, o Sr. Tenente Azevedo
Um dia, deixaram passar um individuo com uma malinha. Ele já estava na jangada
e eu mandei que saísse para revistar a mala. Dentro tinha ligaduras e outro material
médico.
Mandei um rádio para Bissau e vieram buscá-lo, já não passou dali.
Foram umas semanas bem passadas. Quando queríamos peixe, lá vai uma granada ofensiva para o rio e recolhíamos o peixe, que distribuíamos pelos nativos que apareciam por ali.
Assim conheci João Landim, não estava sujeito aos salamaleques da tropa macaca de Bissau
Abraços
Alcidio Marinho
C.Caç 412

Anónimo disse...

franciscogamelas@sapo.pt
14 set 2016 10:52

Viva Luís, muito bom dia.

Sobre as datas das fotografias decidiste correctamente. De autorizações, elas estão dadas desde o início. É uma questão de bom senso e confiança, coisas que não faltam na nossa relação.

Sobre João Landim, tanto quanto recordo, não existiria no local qualquer destacamento. Era a malta de Bula que fazia a protecção, sempre que a jangada era utilizada. Creio mesmo que era malta de Bula que operava a jangada. Isto do lado Norte. Do lado de Bissau nunca me recordo ali existir qualquer tipo de protecção, nem recordo ter ali existido qualquer conflito com a população. As viaturas circulavam livremente. Ataques do PAIGC à jangada, no meu tempo, nunca ouvi falar.

Um grande abraço.

FG

Anónimo disse...

leonel olhero
14 set 2016 11:20
.
Bom dia a todos

A protecção às jangadas em João Landim era feita pela malta do Esquadrão de Bula. As jangadas eram operadas pela Marinha que estava aquartelada do lado de lá, na outra margem, num destacamento de barracas feito de latas.

Todavia, ao fim da minha comissão 1973 (embarquei 4/10/73) João Landim já tinha instalações condígnas feitas em cimento e "até" bonitas.

Fui furriel das Panhards e fiz escoltas a João Landim, três vezes ao dia e sem conta. Nunca aquelas colunas foram atacadas.

Abraços

José Nascimento disse...

Quero corrigir que João Landim ficava na margem esquerda do rio Mansoa e não na margem direita, a sua água era salgada e sofria a influência das marés (cheia/vazia) e por vezes chegava quase ás paredes do nosso barracão. Nunca me senti muito seguro neste destacamento com pouco mais do 6 gatos pingados, sendo que durante a noite estava sempre um elemento de sentinela e como é evidente o meu sistema de alarme estava sempre em alerta.