quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Guiné 63/74 - P16491: Manuscrito(s) (Luís Graça) (96): Em Bambadinca, à noite, íamos ao nimas e sonhávamos com gajas boas...



Guiné > Zona leste > Setor L1 > Bambadinca > BCAÇ 2852 (1968/70) / CCAÇ 12 (1969/71) > O autor, no bar e messe de sargentos.


Foto : © Luís Graca (2005). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Em Bambadinca,
à noite, 
íamos ao nimas 
e sonhávamos com gajas boas 



por Luís Graça



Quantas vezes, à noite, em Bambadinca,
fumando um cigarro,
depois de um duche com água que sabia a ferro,
e depois do jantar, 

com toalha, garfo, faca e tudo,
descontraídos,
à civil,
de copo de uísque na mão,
duas pedras de gelo
e água de Perrier,
nas traseiras do aquartelamento,
no conforto relativo do bar e messe de sargentos,
sobranceiro à grande bolanha, 
gozando o merecido repouso dos guerreiros, 
o mesmo é dizer, as delícias do sistema,
não assistimos ao "fogo de artifício",
ao longe,
ao mesmo tempo que tentávamos adivinhar,
em voz alta,
quase em disputa acalorada uns com os outros,
quem eram os "desgraçados",
qual era tabanca em autodefesa,
ou qual o destacamento ou aquartelamento,
dentro ou fora do setor L1,
que estavam a "embrulhar",
a levar "porrada",
o tipo de granadas que explodiam,
as armas pesadas, 

os calibres,
os bigrupos, 
os quilómetros que distavam da nossa posição, 
enfim, cronometrando o ataque ou a flagelação,
estimando prováveis baixas...
e esperando ansiosamente
que os nossos obuses respondessem,

e nos ajudassem a desfazer o nó na garganta...



Por vezes, os gajos do PAIGC 
usavam inclusive balas tracejantes,   
e as nossas tropas, "very lights", 
tornando ainda mais real, 
cinematográfico
e, ao mesmo tempo, fantasmagórico, 
o "espetáculo"  
que se desenrolava à nossa frente 
no écrã gigante da noite africana... 
E tudo isto, à distância, 
sem a gente nada fazer 
ou sem nada poder fazer... 



Nessas noites, em Bambadinca,
tínhamos pelo menos a certeza
de poder dormir numa cama com lençóis lavados,
na nossa cama,
de molas e colchão de espuma,
mesmo destilando por todos os poros...
Era dia (ou noite) de folgar as costas,
de poupar o "coirão",
e, se possível, sonhar com gajas boas...



Pois é, o nimas é ficção, 
é arte, 
é estética
e a guerra é a guerra...
e é pornográfica!
No final da fita, os atores "mortos" levantam-se, 
tomam um banho, 
perfumam-se 
e voltam para o "glamour" dos seus dias, 
os que são estrelas de cinema, 
que não os pobres diabos dos figurantes!... 
Na guerra, os mortos ficam lá, 
definitivamente, 
e não se levantam mais, 
e a nudez da morte 
é o mais insuportável dos espectáculos 
para os safados dos vivos... 




Não há "charme",
não há "glamour" na guerra,
caros cinéfilos...
É por isso que tu não gostas de ver filmes de guerra,
nem de ler romances de guerra...
Tinha razão o comandante do CISMI, de Tavira, 
a fábrica da guerra, em 1968,
quando te proibiu, a ti
e a mais camaradas instruendos,
que continuassem a montar uma exposição
(pretensa ou ingenuamente didática)
sobre a II Guerra Mundial...
Argumentava ele,
a bem da Nação
e do moral das nossas tropas,
para justificar a sua prepotência de censor:
- Senhores instruendos,
para guerra, já basta a nossa!

 
Ele tinha razão,
ou pelo menos tu achaste
que o senhor comandante do CISMI tinha toda a razão:
afinal, para guerra já bastava a nossa,
o sangue, o suor e as lágrimas
que estávamos a destilar nas salinas de Tavira,
nas bolanhas da Guiné,
nas chanas do leste de Angola
ou nas picadas do norte de Moçambique. (**)


__________________

Notas do editor:

2 comentários:

Abílio Duarte disse...

Boa recordação, Bambadinca, por aí passei imensas vezes, em operações e colunas ao Xime e ao Xitole. Almocei, petisquei e jantei e dormi, conforme o meu Colega e camarada. J.C. Lopes, me desenrascava.
Boa terra, nunca mais saiu da minha memória, a hora que lá passei pela primeira vez, quando vim de Bissau, para o Xime, e depois fizemos parte, do caminho até Bambadinca pela primeira vez, e as histórias que ouvi, sobre esse percurso, eu de Camuflado todo novo, arma nova, botas novas, e um cagaço do outro mundo.
Porque será que esses momentos não me largam?
Por vezes custa-me a acreditar que ainda estou vivo.
Um abraço, e continua.

Tabanca Grande disse...

... Nessas noites (, que não era muitas...) de "repouso do guerreiro", quantas vezes não pensávamos em vocês, no Xime, no Enxalé, em Missirá, em Mansambo, Dembataco, Moricanhe, Taibatá, Xitole, Salltinho, Galomaro... Aliás eramos nós que faziamos também a segurança a todas as colunas logísticas para Mansambo, Xitole, Saltinho, Galomaro / Dulombi, pelo menos a 2ª metade do ano de 1969, quando foi preciso reabrir a estrada (interdita) de Mansambo- Xitole- Saltinho...

E a picada Xime-Bambadinca metia respeitinho, em meados de 1969, ainda não tinham chegado as máquinas da TECNIL... Se vocês embrulhavam, no Xime ou no Enxalé, o que é que a gente à noite podia fazer ? Via-se o "filme" e rezávamos aos nossos irãs... para que a flagelação ou ataque não tivesse consequências graves...

Depois, no dia seguinte, lá íamos com a malta das unidades de quadrícula fazer um reconhecimento ou um patrulhamento ofensivo... E dias depois uma operação a nível de batalhão... com porrada pela certa.