terça-feira, 13 de setembro de 2016

Guiné 63/74 - P16483: Efemérides (235): Nos 90 anos do "Major Elétrico", 2.º Comandante do BCAÇ 2852, festejados no passado dia 30 de Julho de 2016 (Mário Beja Santos)

I Encontro de BCAÇ 2852 realizado em Fão, onde estamos nós, o Ismael, o Vacas, o Carlão (suponho que era o dono do restaurante) entre outros e, em primeiro plano, os Majores Cunha Ribeiro e o Capitão Brito.
Foto e legenda: © Fernando Calado



1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 5 de Setembro de 2016:

Queridos amigos,
Como em muitos outros ofícios, estamos aqui para nos ajudarmos uns aos outros, e quando a amizade pesa como cimento mais razões de sobra para potenciarmos a solicitude. A gratidão que nutro pelo Coronel Cunha Ribeiro é tanta que quando um filho me veio dizer que a família fazia questão na minha presença dos 90 anos disse prontamente que sim, antes de saber o dia.
Tudo correu nos conformes e é com a maior satisfação que aqui vos deixo uma síntese desta amizade e das horas do nosso encontro.

Um abraço do
Mário


Nos 90 anos do "Major Elétrico", 2.º Comandante do BCAÇ 2852

Beja Santos

Quando cheguei a Bambadinca, na noite de 2 de Agosto de 1968, caminhava para o fim da sua comissão o BART 1904, em Setembro assumia plenamente as funções o BCAÇ 2852. Era seu Comandante o Tenente-Coronel Manuel Maria Pimentel Bastos, homem de agradabilíssima convivência, espirituoso e saltava à vista a sua atração por palcos mundanos. O 2.º Comandante era Manuel Bispo, acusava cansaço e percebia-se à légua que não era homem motivado para aquele tipo de responsabilidades. O Major de Operações era Viriato Amílcar Pires da Silva, de trato afável e inegavelmente trabalhador. Não ficaram muito tempo em Bambadinca. Hélio Felgas desdenhava de Pimentel Bastos, tudo fez para que este fosse irradiado por Spínola. Manuel Bispo, previdentemente deu baixa, deve ter-se apercebido do mau fim daquele Comando. E Pires da Silva foi punido, tal como o Comandante da CCS, Eugénio Batista Neves, na sequência do ataque a Bambadinca de 28 de Maio de 1969. Encurtando razões, veio novo Comando, em primeiro lugar o Tenente-Coronel Jovelino Corte-Real e depois os Majores, Ângelo Cunha Ribeiro e Herberto Sampaio, respetivamente Segundo-Comandante e Oficial de Operações. Também não foi uma troica feliz. Herberto Sampaio era glutão e vociferante, assisti a uma cena canalha num almoço de leitão, Sampaio devorava as peças sempre a olhar para a travessa e a estender a mão, um tenente, de nome Gilde fez-lhe um reparo severo, caiu o Carmo e a Trindade. Quando Cunha Ribeiro chegou a Bambadinca, Corte-Real foi buscá-lo à avioneta e disse-lhe durante a curta viagem de jipe até ao edifício dos oficiais que ia para férias na semana seguinte… Cunha Ribeiro ficou a apanhar bonés, sem saber muito bem o que tinha que fazer quanto ao reordenamento dos Nhabijões, ao aprovisionamento das tabancas em autodefesa, aos apoios que eram devidos ao Xime, a Mansambo, ao Xitole, ao Cuor, a Fá, às constantes chegadas e partidas de comboios, de navios ao porto de Bambadinca, todo o Leste recebia os seus fornecimentos neste porto antes de o do Xime estar em pleno funcionamento, em Novembro de 1969.

Cunha Ribeiro rapidamente se distinguiu pelo comentário sarcástico, pelo zelo desusado na melhoria da operacionalidade de Bambadinca. Muito nervoso, qualquer ruído o levava a exigir silêncio aos presentes, punha a orelha em concha numa tentativa de apurar a origem de eventuais rebentamentos. Passou a ser o "Major Elétrico".

Neste afã de procurar responder por tudo, um dia foi ao porto assistir a umas descargas, deu instruções, e regressou no seu jipe de toldo pela rampa de Bambadinca, foi neste local íngreme que ocorreu uma tragédia que lhe podia ter sido fatal: partiram-se os travões a uma camioneta cheia de cibes, a viatura veio descomandada sobre o jipe, os cibes entraram ali como setas, foram precisas mais de três horas para retirar dali o 2.º Comandante todo escavacado, cheio de fraturas expostas. Ali acabou a sua comissão, iniciava-se o calvário de operações e reabilitação.

Num dos meus livros registei o apreço por um ato de Cunha Ribeiro, para mim inesquecível. No entardecer em que cai numa mina anticarro, na região de Canturé, no Cuor, em Outubro de 1969, vim aos tombos até Bambadinca pedir auxílio, recebi provas eloquentes de uma alargada solidariedade. Quando entrei na messe de oficiais chamuscado e roto, explicando a assistência atónita o que tinha vivido, Cunha Ribeiro pegou-me pelo braço, levou-me ao seu quarto, deu-me uma toalha e sabão dizendo: “Arranje-se lá, vai ver que tudo lhe vai correr melhor”. Vendo-me a soluçar também me procurou mitigar a dor lembrando-me que fazia parte dos ossos do ofício os dias aziagos, as nossas irrevogáveis perdas. E abraçou-me antes de eu partir em socorro dos meus feridos, entregou-me uma sandes e uma cerveja aberta, com um comentário sadio: “Olhe, aproveite a travessia da bolanha e jante!”.

Visitei várias vezes no HM 241 o sinistrado, sempre loquaz e brejeiro. D.ª Maria Helena Spínola, a superintendente da Cruz Vermelha, visitou-o, perguntou-lhe em que podia ser útil, Cunha Ribeiro foi fulminante: “Minha senhora, se puder, ofereça-me a Enciclopédia Britânica, chegou o tempo de eu aprofundar a cultura geral”.

Encontrámo-nos todos em Fão, em 1994, Cunha Ribeiro veio com a mulher e tirou fotografias com malta da CCS do BCAÇ 2852, CCAÇ 12 e Pelotões Nativos. Mantivemos sempre correspondência, os telefonemas eram regulares. A amizade cresceu. Com o digital, tem sido mails para cá e para lá. Cunha Ribeiro voltou a ter dissabores, a saúde com altos e baixos, a visão muito difícil. Quando soube que eu tinha perdido uma filha, os telefonemas eram semanais. Aí no início de Julho deste ano, recebi um telefonema do filho mais novo, o arqueólogo João Pedro Cunha Ribeiro, a família fazia questão de me convidar para os 90 anos do 2.º Comandante, a acontecer a 30 de Julho. Disse prontamente que sim, pegaram em mim na Avenida dos Aliados, fomos almoçar como nos tivéssemos visto na véspera, dois parlapatões. E seguimos depois para as Antas, para casa do filho mais velho, onde houve festa. Naquela tarde foi contando a quem me abordava, entre croquetes e almofadas de salmão, a vida de Cunha Ribeiro em Bambadinca e como eu valorizava aquela amizade. Espero ter sido fiel nos meus relatos àquilo que era o nosso "Major Elétrico".

Ao anoitecer, o João Pedro deixou-me em Campanhã, tive mais de seis horas para pôr muitas recordações em dia. Foi um dia muito feliz, a Guiné não sai das nossas vidas, vidas que exaltaremos com camaradagem de ofício.
E ponto final.

Amena cavaqueira depois de uns bifinhos com pimenta e um bom Douro



O coronel Cunha Ribeiro e os seus três filhos, não esconde a emoção pelo dia grande
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Nota do editor

Último poste da série de 4 de setembro de 2016 > Guiné 63/74 - P16447: Efemérides (234): Cerimónia de imposição de Medalhas Comemorativas das Campanhas a Combatentes da Guerra do Ultramar, levada a efeito no passado dia 21 de Abril de 2016 no Regimento de Transmissões do Porto (José Firmino, ex-Soldaddo At da CCAÇ 2585)

3 comentários:

Tabanca Grande disse...

Muita saúde e, se possível, ainda com muitos anos com saúde, para o comandante Cunha Ribeiro a quem a malta chamava, na caserna, o "major elétrico", com muito humor e algum afeto... Todas as alcunhas sâo, de certo modo, uma homenagem... O Cunha Ribeiro transbordava de energia, que era uma coisa que faltava a outros oficiais superiores que conheci.. Foi essa energia que lhe foi fatal: foi vítima de grande infortúnio, um estúpido acidente, no meu tempo, que o levou a ser evacuado para o HM 241.

Nunca privei com ele, nem podia, dada a segregação socioespacial, o "appartheid" castrense, que vigorava no batalhão, em Bambadinca, no meu tempo (BCAÇ 2852 e depois BART 2917, a que esteve adida a minha CCAÇ 12, "a companhia africana"). Aqui, como em quase todo o lado, mandava o RDM, ou seja, "cada macaco no seu galho"...

Tive apenas um pequeno episódio, com ele, menos agradável, em Bambadinca... Mas, honra lhe seja feita, ele revelou-se na ocasião um homem de notável humor, qualidade que de certo modo elogiei num poema meu, "Esquecer a Guiné... por uma noite"

(...) A histeria do Major Eléctrico:
"Ah, se isto fosse uma fábrica,
Seus sacanas!...
Eu despedia-vos a todos,
Cambada de malandros!"...
(Referia-se ao meu grupo de nharros
Que abriam trincheiras
No perímetro do aquartelamento de Bambadinca.
De tronco nu.
Com cinquenta graus ao sol
E 100% de humidade! (...)

Encontrei-o, em convívios nossos, uma ou duas vezes e devemos ter trocado meia dúzia de palavras, se tanto. Esse simples facto, o de ele querer estar presente em convívios nossos, apesar de ser oficial superior, reform,ado, do exército, leva-me a estimá-lo, para além da lembrança dos tempos de Bambadinca.

Temos várias referências à sua pessoa, no nosso blogue, o que não deixa de ser uma homenagem a um militar que foi nosso superior hierárquico e merece por isso o nosso respeito e apreço:

https://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/search?q=%22Major+el%C3%A9ctrico%22

https://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/search/label/Cunha%20Ribeiro%20%28Maj%29


Por outro lado, já em tempos, há 10 anaos atrás, em 2006, eu tinha dito ao Beja Santos:

"Meu caro Mário: As minhas relações com o major Cunha Ribeiro foram estritamente hierárquicas, formais, episódicas... Terei falado com ele, em duas ou três ocasiões... Na nossa tertúlia, não funciona a hierarquia militar mas a lógica da camaradagem... O Cunha Ribeiro tem o mesmíssimo direito de cá estar do que tu e eu... Conheces as regras da casa. Podes apadrinhar a sua entrada... Sei que ele continua a frequentar as reuniões de convívio da malta de Bambadinca de 1968/71... Estivemos juntos, em Fão, em 1994... Não lhe falei, por que não houve oportundidade... Hoje gostaria de ouvir as suas estória, a sua versão dos acontecimentos... Por mim, será bem recebido... Se ele quiser, pode ser testemunha privilegiada dos tempos em que estivemos juntos em Bmbadinca, em posições diferentes, ele oficial superio, major, 2º comandante de um batalhão, e eu, ssimples furriel miliciano de uma companhia de nharros"...

https://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/2006/10/guin-6374-p1161-o-nosso-major-elctrico.html

Por qualquer razão, os "papéis nunca foram metidos" e o coronel Cunha Ribeiro não é hoje, "formalmente", nosso grã-tabanqueiro... Mas daqui até aos 100 anos ele ainda vai a tempo de o fazer... De resto, como o Beja Santos sabe, temos connosco diversos oficiais superiores dos 3 ramos das Forças Armadas... O Cunha Ribeiro pode ser o nosso grã-tabanqueiro nº 727, caso ele queira (e possa) partilhar connosco memórias (e afetos).

Um alfabravo para ele, para o Mário Beja Santos e para o Fernando Calado.

José Nascimento disse...

Bem me lembre do Major Eléctrico, o tal que dizia que o pessoal do Xime era todo maluco.

alma disse...

Nunca tive a menor simpatia pelo Major Eléctrico. Nem eu ,nem os meus Mamadús..Foi uma vez a Fá e resolveu passar revista às casas onde os meus Soldados viviam com as mulheres e os filhos...Até espreitou debaixo das camas...À despedida passou uma "piçada" colectiva e mandou-me cortar o bigode...Nessa noite os Soldados reuniram com o nosso feiticeiro Nanque. Desconheço o que combinaram, mas dois dias depois ele sofreu o gravíssimo acidente...Abraço J.Cabral