terça-feira, 13 de setembro de 2016

Guiné 63/74 - P16485: Memórias de um médico em campanha (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547) (7): Guiné - Irkutsk

© Adão Cruz


1. Mais uma memória do nosso camarada Adão Cruz, Médico Cardiologista, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547/BCAÇ 1887, (Canquelifá e Bigene, 1966/68).


MEMÓRIAS DE UM MÉDICO EM CAMPANHA

7 - GUINÉ - IRKUTSK

Não chovia, mas o céu ameaçava desfazer-se em água. Era plúmbeo, presumivelmente a oeste, e carregado de negro do lado oposto. Uma faixa mais clara nascia por cima de Irkutsk e desfibrava-se ao longo do rio Angorá. Mais parecia um quadro de Fiódor Vasiliev ou de Ivan Aivasovsky. Como a vida tem tantas formas de circularidade, sentei-me num banco de jardim à beira do rio, e dei ordens à memória para me buscar aquele rapaz soviético que, há muitos anos, num ardente dia de sol, as nossas tropas aprisionaram no norte da Guiné. Era de Kiev, mas tinha nascido em Irkutsk, na Sibéria.
Técnico de máquinas automáticas, oferecera-se, como voluntário e internacionalista, para ajudar os guerrilheiros do PAIGC a combater as tropas colonialistas.

Na pequena sala onde funcionava a secretaria do nosso aquartelamento, estava o prisioneiro como que pregado a uma cadeira. Tinha na sua frente o capitão da nossa Companhia, o capitão da Companhia de intervenção que o capturou, dois ou três sargentos e outros tantos alferes, e eu.

Os lábios do jovem soviético nascido em Irkutsk estavam gretados de sede e de sol. Um sorriso feito de água, terra, fogo e ar, iluminado por um sol negro de melancolia, denunciava um grande medo dos homens que tinha na sua frente.

O capitão foi buscar um copo de água e entornou-o lentamente a uma mão travessa da boca do rapaz. Os olhos quase saltaram das órbitas. Pedi ao capitão que me desse o copo, enchi-o de água e raiva, e dei-o a beber ao prisioneiro. Valeu-me a firmeza com que o fiz e o facto de ser médico.

Se algum dia a minha vida pudesse ser música!…

Desconfiado, levou o copo à boca…

Ainda hoje eu não sei falar de tudo o que treme nas mãos de uma criança!

O céu arrependeu-se de chover. Seguimos para o lago Baikal, a maior reserva de água doce do mundo. Segundo os cálculos, daria para matar a sede à humanidade durante oitocentos anos. Quando senti nas mãos a água fria das margens, lembrei-me de um copo de água lá nos confins da Guiné.

Eu não sou capaz de crescer para as palavras, mas dava tudo para cruzar os tempos que ainda são tempo, e mostrar ao mundo a dimensão que o homem é, e a pequenez que usa por força da fraqueza.
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Nota do editor

Último poste da série de 6 de setembro de 2016 > Guiné 63/74 - P16453: Memórias de um médico em campanha (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547) (6): Pequenas Grandes Verdades

3 comentários:

Tabanca Grande disse...

Meu caro Adão Cruz, sublime, um texto curto, de antologia, e revelador da tua grande humanidade... Além disso, és um mestre da língua, escreves como poucos...

Nunca tinha ouvido falar em "prisioneiros" russos ou "soviéticos" no TO da Guiné, entre 1961 e 1974... De resto, como "não estávamos em guerra", não podia haver, "oficialmente", prisioneiros...

Como é que as autoridades militares lidaram com este caso ? O homem foi interrogado... Por quem ? Em que língua ?... E depois entregue à PIDE... Era o percurso normal... O exército e a PIDE articulavam-se, mais ou menos bem...

Intriga-me esta história: qual terá sido o destino do prisioneiro que, em princípio, seria um "civil" ?... Terá sido entregue à Cruz Vermelha Internacional ? Terá sido enviado para Lisboa ? Terá sido então julgado e condenado como aconteceria, mais tarde, com o capitão cubano Peralta ?

Um abraço grande, LG

Antº Rosinha disse...

Os rapazes de Quiev e arredores continuaram nos quartéis de Bissau por vários anos.
Está a ser escrita e bem escrita a nossa guerra do Ultramar.
Este é mais um poste exemplar.
Difícil é escrever a Guerra de Libertação da Guiné.
É que os rapazes de Quiev e redondezas (às centenas) continuaram na Guiné-Bissau até 1986/88.
Por "coincidência" foi quando acabou a "guerra do Cuito-Canavale", na fronteira de Angola/Africa do Sul.
Foi uma carga muito grande sobre os ombros da Guiné.
Amílcar sabia bem o que fazia, também era co-fundador do MPLA, antes de definir o PAIGC.

Adao Cruz disse...

Não me lembro de mais nada, rigorosamente mais nada sobre o assunto. Um caso em que a minha presença foi meramente esporádica. Deve ter seguido, porventura, com a companhia de intervenção. Um abraço