sexta-feira, 21 de julho de 2017

Guiné 61/74 - P17609: Historiografia da presença portuguesa em África (82): o caso de Abdul Injai: "Roma não paga a traidores" (António J. Pereira da Costa).... "mas Lisboa e Paris também não" (Cherno Baldé)... Ainda comentários de Hélder Sousa, Mário Beja Santos e Nuno Rubim



Foto de Abdul Injai em 1915, herói das "campanhas de pacificação",  no auge da sua glória, tenente de 2ª linha, régulo do Óio e do Cuor



1. O nosso editor LG mandou um email a alguns dos nossos amigos e camaradas que se interessam mais por temas de história, que se reproduz a seguir, seguir dos comentários recebidos (*)

Assunto - Abdul Injai: quem foi afinal ? Herói ou vilão ? Nacionalista ou mercenário ? Cabo de guerra ou bandido ?...

Amigos e camaradas:

Lembrei-me dos nomes de alguns de vocês porque se interessam pela história da Guiné-Bissau e de Portugal e pelas "pontes" que temos vindo a construír juntos...

Infelizmente não temos muitos "interlocutores" na Guiné-Bissau e em Cabo Verde, nem sequer muitos amigos e camaradas, na Tabanca Grande, que se interessam pela historiografia da presença portuguesa em África...

Estes são temas "maçudos", para muitos dos nossos leitores, que obrigam a ler e a refletir, e que não são compagináveis com o formato Facebook, Reader's Digest, Correio da Manhã e similiares...

Ficamos gratos, os editores do blogue, àqueles de vocês que quiserem e puderem acrescentar algo mais (nem que seja duas linhas...) ao nosso limitado conhecimento sobre esta figura, "tão lendária quanto controversa", que foi o Abdul Injai, "companheiro de armas" do capitão Teixeira Pinto, tenente de 2ª linha, régulo do Oío e do Cuor, e que acabará por morrer no desterro...

Todos os heróis, santos e similares são controversos, por que são "mais do que homens e menos do que deuses"...

Seguindo a linha editorial do blogue, não diabolizamos nem santificamos ninguém, do Teixeira Pinto ao Amílcar Cabral, do Alpoim Calvão ao 'Nino' Vieira...São figuras históricas que fazem parte da nossa galeria de referências e memórias...

Um abraço e boas férias, se for caso disso. Mantenhas. Luís Graça

18 de julho de 2017 às 14:30


2. Comentário de Mário Beja Santos

Luís,

 Vale sempre a pena retomar a análise de personalidades históricas face às quais não existe o crivo da imparcialidade, como é o caso do régulo e chefe da guerra Abdul Indjai. 

Quem vai mais longe no seu estudo é Armando Tavares da Silva em "A Presença Portuguesa na Guiné, História Política e Militar, 1878-1926" (Caminhos Romanos, 2016). Vale a pena ler o que o investigador refere deste herói caído em desgraça. Logo em 1906 Abdul Indjai, por ordem do governador Almeida Pessanha vê dissolvido o seu bando de homens armados, Abdul é preso e deportado para S. Tomé.

 Por ocasião da visita do príncipe real D. Luiz Filipe a S. Tomé em Julho de 1907, Abdul terá obtido do príncipe permissão para regressar à Guiné. Será figura cimeira ao lado de Oliveira Muzanty nas campanhas de Badora e Cuor, Infali Soncó procurara uma sublevação com outros régulos, tornou mesmo o Geba intransitável, o que obrigou as autoridades de Lisboa a autorizarem uma impressionante mobilização de topas europeias, moçambicanas e muitíssimos auxiliares guineenses. Nunca se vira no Geba tantos brancos tantas lanchas, tantos canhões, tantos animais de tiro. Infali deixou uma imagem desgraçada no Cuor, anda sempre cercado pela sua tropa de choque, expolia, sequestra, reduz à servidão, é um tiranete.

 Calvet de Magalhães, administrador de Bafatá, vê nele [, Abdul Injai,] o homem certo para apoiar Teixeira Pinto. Abdul Indjai ganha uma fama terrível, no que permite matar e destruir e roubar. O poder, enquanto régulo do Oio, ter-lhe-á chegado à cabeça, desrespeita as autoridades administrativas, preparou um brutal confronto que o levará ao desterro, irá morrer em Cabo Verde, sem antes, porém, ter procurado levar por diante um processo que conduzisse ao seu julgamento. 

A minha opinião, Abdul Indjai pertence ao rol de figuras que atingiram um certo pico de glória ou fama, como Marques Geraldes ou Graça Falcão e que tiveram depois a faculdade de se atirar para o abismo. Dir-se-á sem hesitação que foi a figura fulcral nas campanhas de Teixeira Pinto e que o seu rasto de prepotências, extorsões, violências sem controlo o precipitaram na desgraça, tornou-se no antigo herói de comportamento intolerável que importava deixar ao abandono.

19 de julho de 2017 às 11:00


 3. Comentário de António J. Pereira da Costa

Olá,  Camaradas

Há quem diga que "Roma não paga a traidores" e eu acrescento "e não consta que o venha a fazer brevemente", mas isto sou a pensar...

19 de julho de 2017 às 12:13

["Roma não paga a traidores" é uma expressão que a voz do povo, ou seja, o mito, a lenda, atribui ao general romano Quinto Servílio Cipião, vencedor dos Lusiatanos (139 a. C.), aos carrascos de Viriato, seus companheiros, quando vieram reclamar o prémio prometido pelos conquistadores romanos. (LG)]


4. Comentário de Hèler Sousa

Olá

O António José tem razão.... mas pode acontecer que os "traidores" não o cheguem a ser.... podem ser dedicados cúmplices!

19 de julho de 2017 às 14:46



5. Comentário de Cherno Baldé


Caros Amigos,

O Abdul Indjai foi homem da sua época, época de uso da força pela forçaa, da prepotência, da violência extrema para dominar e sujeitar o homem à razão do mais forte.

Pedir ou exigir ao Homem (Abdul Indjai=desenraizado-guerreiro-aventureiro++) que fosse razoável e correcto no exercício das funções da Regência de populações civis, que em África, apesar de selvagens e primitivos, era uma função hereditária e de longa e metódica preparação, a semelhança do que se passava no "Velho Continente", era confundir o Deus com o Diabo.

O que aconteceu ao Abdul Indjai já tinha acontecido ao Alfa Iaia, Chefe do Labé (Futa-Djalon) em finais do Sec. XIX. Os Franceses para conquistarem o território do Futa-Djalon (cobiçado por Franceses, Ingleses e Portugueses), precisavam de uma aliança interna para conquistarem o poder e foi o Alfa Iaia que foi habilmente utilizado,  para depois o afastarem com um pretexto idêntico ao usado pelos Portugueses para afastar o Abdul Indjai.

Sim,  senhora. "Roma não paga a traidores", também Lisboa e Paris, idem, aspas...  Da mesma forma que não se pode esperar que o Lobo seja um excelente pastor de ovelhas.

Como se não bastasse, a história voltaria repetir-se com o não menos famoso caso do gen. Brik-Brak, aliás Ansumane Mané, quem é que não se lembra?

Um abraço amigo,

Cherno AB

6. Comentário de Nuno Rubim:

Caro Luís Graça

Este é um dos casos em que julgo que cada um deve tirar as sua próprias conclusões depois de consultar obras sobre o assunto.

No acervo do AHM [Arquivo Histórico Militar]  que te envio, a obra de Teixeira Pinto é fundamental, mas Pélissier constitui para mim a obra mais objectiva e isenta.

- A Ocupação Militar da Guiné, Lisboa: Agencia Geral das Colónias, 1936

- História da Guiné, René Pélissier,  trad. Franco de Sousa, Lisboa: Estampa, 2001, 2 v

21 de julho de 2017 às 08:03


____________

Nota do editor:

(*) Vd. último poste de 18 de julho de  2017 > Guiné 61/74 - P17596: Historiografia da presença portuguesa em África (81): quem foi Abdul Injai, companheiro de armas do capitão Teixeira Pinto, nas 'campanhas de pacificação' de 1913-1915, e por ele promovido a tenente de 2ª linha, régulo do Oio e do Cuor ?... Herói ou vilão ? Mercenário ou nacionalista ? Aliado ou inimigo ? Cabo de guerra ou bandido ?

4 comentários:

Tabanca Grande disse...

Em boa verdade, em todas as épocas e culturas os seres homens são mais implacáveis com os falsos amigos e traidores do que com os inimigos...

António José Pereira da Costa disse...

Olá Camaradas
Tinha uma vaga ideia deste Injai. O meu alferes Serras e o Cap. Cmd Miquelina Simões (grande numismata)andaram pelos arredores de Mansabá à procura de moedas antigas e, se possível do local de enterro do cavalo do Injai. Foi giro!
Quanto ao Injai propriamente dito, estamos perante um colaborador da República Portuguesa e do "Pacificador" mas que, por razões pouco, claras (apesar de tudo) caiu em desgraça.
Só posso dizer como Feenando Pessoa: "Malhas que o(s) Império(s) tece(m) e continuam a tecer...

Um Ab. e bom fds
António J. P. Costa

Anónimo disse...

Nem Roma nem Paris LISBOA nem Bissau, nem Luanda nem Lourenço Marques pagaram nem a Flechas, nem a Comandos nem a GEs, não há nada para ninguém.

Mesmo Luís Cabral e Amílcar também marcharam em grande velocidade.

E mesmo Agostinho Neto e Samora não se sabem bem como foi.mercenários para as terras do herói

Agora estamos, nós Tugas a mandar mercenários para as terras francófonas do Napoleão africano Bokassa.

Quem deve contar a história de África vão ser um dia os africanos, mas os "malandros" continuam mudos e quedos.

BS faz o que pode , obrigado

Antº Rosinha



António José Pereira da Costa disse...

Olá Camarada
Quem é o BS?

Amílcar marchou em grande velocidade despachado pelos seus.
Luís Cabral não sei mas nada tem que ver com o assunto de que falamos.
O mesmo direi do Agostinho Neto e Samora se foi mandado pelos vizinhos.
O caso do Injai também não tem que ver com isto.
Já esclareci que não sou Tuga.
Sou Português (com tudo o que isso tem de bom ou de mau) e não acho graça a estas trocas de terminologias.
Quanto ao mandar mercenários para as terras francófonas do Napoleão africano Bokassa, parece-me abusiva a generalização e a relação com o caso em apreço.
É abusiva a confusão contida no primeiro parágrafo e não entendo que "Quem deve contar a história de África vão ser um dia os africanos, mas os "malandros" continuam mudos e quedos".
Um Ab.

António J. P. Costa