terça-feira, 18 de julho de 2017

Guiné 61/74 - P17597: Agenda cultural (575): Leiria, Biblioteca Municipal, sarau literário, comemorativo dos 100 anos do nascimento do capitão e escritor Manuel Ferreira (1917-1992)


O convite chegou-nos pela mão do nosso camarada, amigo e colaborador permanente, com raízes familiares em Leiria, o José Marcelino Martins. Faz anos cem anos que nasceu o capitão e escritor Manuel Ferreira (1917-1992) (*) , autor de "Morna" (1948), "Hora di Bai" (1962) (**).


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Notas  do editor:


(**) Vd. poste de 12 de julho de 2017 > Guiné 61/74 - P17571: Agenda cultural (572): Exposição "Manuel Ferreira, capitão de longo curso", Museu Malhoa, Caldas da Rainha. Convite para a inauguração, no próximo dia 22 de julho, sábado, às 15h00 (João B. Serra, comissário)

7 comentários:

José Marcelino Martins disse...

Não só raízes familiares, mas também de nascimento!

Tabanca Grande disse...

O Zé, desculpa lá, estava a roubar-te a tua terra natal, Leiria, onde tenho amigos... Não sei porquê, fiquei com a ideia de que tinhas acabado por nascer em...Vila Nova de Gaia!... Onde é que eu fui buscar esta informação ?... Troca de cassetes, princípio de Alzheimer (de que Deus, Alá e os bons irãs nos livrem!)...

Sábado, 22, vou às Caldas, assistir à inauguração da exposição sobre o Manuel Ferreira que seguirá depois, em meados de Setembro, para a tua terra e terra do Manuel Ferreira. Terei muito gosto em a+resentar-te o João B. Serra. Levo o meu amigo Jaime Bonifácio Marques da Silva, bravo alferes paraquedista do BCP 21 que combateu nas chanas do leste de Angola e tem cruz de guerra... Levamos as nossas "Marias"... Aparece...

Um Alfabravo, Luís

Tabanca Grande disse...

Sobre António Munes (1917-1951) e o seu "visionário"... "poema de Aamnhã" (antevisão de independência de Cabo Verde, a 30 anos de distância), vd. aqui, no blogue "Esquina do Temnpo":

Mamãi!
sonho que, um dia,
em vez dos campos sem nada,
do êxodo das gentes nos anos de estiagem
deixando terras, deixando enxadas, deixando tudo,
das casas de pedra solta fumegando do alto,
dos meninos espantalhos atirando fundas,
das lágrimas vertidas por aqueles que partem
e dos sonhos, aflorando, quando um barco passa,
dos gritos e maldições, dos ódios e vinganças,
dos braços musculados que se quedam inertes,
dos que estendem as mãos,
dos que olham sem esperança o dia que há-de vir

– Mamãi!
sonho que, um dia,
estas leiras de terra que se estendem,
quer sejam Mato Engenho, Dacabalaio ou Santana,
filhas do nosso esforço, frutos do nosso suor,
serão nossas.

E, então,
o barulho das máquinas cortando,
águas correndo por levadas enormes,
plantas a apontar,
trapiches pilando
cheiro de melaço estonteando, quente,
revigorando os sonhos e remoçando as ânsias
novas seivas brotarão da terra dura e seca,
vivificando os sonhos, vivificando as ânsias, vivificando a Vida!...


O "Poema de amanhã” foi originalmente publicado na revista "Certeza" (nº 2, 1944), de que o Manuel Ferreira foi um dos mentores... quando aluno do liceu do Mindelo, onde teve como colega... o Amílcar Cabral. Mas, ao que parece, a poesia de Cabral não tinha qualidade suficiente para ser publicada pela revista... "Certeza", de estética neo-realista.


http://brito-semedo.blogs.sapo.cv/a-poesia-visionaria-de-antonio-nunes-500190

Tabanca Grande disse...

Poema "Girassol" (1960), de Corsino Fortes (n. 1933) (que foi embaixador de Cabo Verde em Portugal):


Girassol
Rasga a tua indecisão
E liberta-te.

Vem colar
O teu destino
Ao suspiro
Deste hirto jasmim
Que foge ao vento
Como
Pensamento perdido.

Aderido
Aos teus flancos
Singram navios.

Navios sem mares
Sem rumos
De velas rotas.

Amanheceu!

Orça o teu leme
E entra em mim
Antes que o Sol
Te desoriente
Girassol!

http://www.escritas.org/pt/t/13345/girassol

Tabanca Grande disse...

Corsino Fortes
Nasceu a 1933
(Mindelo, S. Vicente, Cabo Verde)

Corsino António Fortes é um escritor e político cabo-verdiano. É licenciado em Direito, pela Universidade de Lisboa. Integrou vários governos na república de Cabo Verde, país de que foi Embaixador em Portugal.

Pecado Original [, poema de 1960]


Passo pelos dias
E deixo-os negros
Mais negros
Do que a noute brumosa.

Olho para as coisas
E torno-as velhas
Tão velhas
A cair de carunchos.

Só charcos imundos
Atestam no solo
As pegadas do meu pisar
E fica sempre rubro vermelho
Todo o rio por onde me lavo.

E não poder fugir
Não poder fugir nunca
A este destino
De dinamitar rochas
Dentro do peito...


http://www.escritas.org/pt/t/13346/pecado-original

Tabanca Grande disse...


OSVALDO ALCÂNTARA
(1907-1989)

Osvaldo Alcântara, pseudónimo poético de Baltazar Lopes da Silva, nasceu na Ilha de São Nicolau, Cabo Verde, em 1907. Advogado e filósofo. Professor, Doutor Honoris Causa pela Universidade de Lisboa. Um dos fundadores da revista "Claridade", marco da literatura cabo-verdiana. Foi professor de liceu (e mestre) do escritor Manuel Ferreira.

Publicou: Chiquinho (romance), São Vicente, 1947; O Dialeto crioulo de Cabo Verde, Lisboa, 1957; Cabo Verde visto por Gilberto Freire, Praia, Cabo Verde, 1956; Antologia da ficção cabo-verdiana contemporânea, Praia, Cabo Vrde, 1960.


FILHO [1958]

Nicolau, menino, entra.
Onde estiveste, Nicolau,
que trazes a arrastar
o teu brinquedo morto?

Nicolau, menino, entra.
Vem dizer-me onde foi que tu estiveste
e a estrela fugiu das tuas mãos.

Tens comigo o teu catre de lona velha.
Deita-te, Nicolau, o fantasma ficou lá' longe.

Dorme sem medo
Porão, roça, medos imediatos,
tudo ficou lá longe.

Quando acordares a jornada será' mais longa.
Nicolau, menino,
onde foi que deixaste
o corpo que te conheci?
Deus há-de querer que o sono te venha depressa
no meu catre.

http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_africana/cabo_verde/osvaldo_alcantara.html

Tabanca Grande disse...

RESSACA [1961], de Osvaldo Alcântara, pseudónimo poético de Baltazar Lopes da Silva (1907-1989):

Venham todas as vozes, todos os ruídos e todos os gritos
venham os silêncios compadecidos e também os silêncios satisfeitos;
venham todas as coisas que não consigo ver na superfície da sociedade dos homens;
venham todas as areias, lodos, fragmentos de rocha
que a sonda recolhe nos oceanos navegáveis;
venham os sermões daqueles que não têm medo do destino das suas palavras;
venha a resposta captada por aqueles que dispõem de aparelhos detetores apropriados;
volte tudo ao ponto de partida,
e venham as odes dos poetas,
casem-se os poetas com a respiração do mundo;
venham todos de braço dado na ronda dos pecadores,
que as criaturas se façam criadores;
venha tudo o que sinto que é verdade
além do círculo embaciado da vidraça...
Eu estarei de mãos postas, à espera do tesouro que me vem na onda do mar...
A minha principal certeza é o chão em que se amachucam os meus joelhos doloridos,
mas todos os que vierem me encontrarão agitando a minha lanterna de todas as cores
na linha de todas as batalhas.

http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_africana/cabo_verde/osvaldo_alcantara.html