quinta-feira, 20 de julho de 2017

Guiné 61/74 - P17605: Pré-publicação: O livro de Mário Vicente [Mário Fitas], "Do Alentejo à Guiné: putos, gandulos e guerra" (2.ª versão, 2010, 99 pp.) - XXIII Parte: Cap XIV - Regresso à guerra, depois de um mês no HM 241...Lembranças do "amor de perdição", a Maria do Céu, MiMê, a jovem de Lamego, que esteve quase a transformar o "ranger" em desertor...



Guiné > Região de Tombali > Cufar > CCAÇ 763 (1965/67) >  Tânia (*), Maria do Céu (**), Miriam (***)... algumas das mulheres do "Calças de Palanco", aliás, "Vagabundo", aliás  "Ranger", aliás "Mamadu"... Umas cuidavam das feridas do corpo, outras as das feridas da alma...


Foto: © Mário Fitas (2016). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Capa do livro (inédito) "Do Alentejo à Guiné: putos, gandulos e guerra", da autoria de Mário Vicente [Fitas Ralhete], mais conhecido por Mário Fitas, ex-fur mil inf op esp, CCAÇ 763, "Os Lassas", Cufar, 1965/67. Do mesmo autor já aqui publicámos, em 2008, em dez postes, o seu fascinante livro "Pami N Dondo, a guerrilheira", ed. de autor, Estoril, 2005, 112 pp. (****)



Mário Fitas foi cofundador e é "homem grande" da Magnífica Tabanca da Linha, escritor, artesão, artista, além de nosso grã-tabanqueiro da primeira hora, alentejano de Vila Fernando, concelho de Elvas, reformado da TAP, pai de duas filhas e avô. Foto em baixo, à direita, Tabanca da Linha, Oitavos, Guincho, Cascais, março de 2016]



Do Alentejo à Guiné: putos, gandulos e guerra > XXIII Parte > Cap XIV  (pp. 81-83)

por Mário Vicente

Sinopse:

(i) faz a instrução militar em Tavira (CISMI) e Elvas (BC 8),

(ii) tira o curso de "ranger" em Lamego;

(iii) é mobilizado para a Guiné;

(iv) unidade mobilizadora: RI 1, Amadora, Oeiras. Companhia: CCÇ 763 ("Nobres na Paz e na
Guerra");

(v) parte para Bissau no T/T Timor, em 11 de fevereiro de 1965, no Cais da Rocha Conde de Óbidos, em Lisboa.;

(vi) chegada a Bissau a 17:

(vii) partida para Cufar, no sul, na região de Tombali, em 2 de março de 1965;

(viii) experiência, inédita, com cães de guerra;

(ix) início da atividade, o primeiro prisioneiro;

(x) primeira grande operação: 15 de maio de 1965: conquista de Cufar Nalu (Op Razia):

(xi) a malta da CCAÇ 763 passa a ser conhecida por "Lassas", alcunha pejorativa dada pelo IN;

(xii) aos quatro meses a CCAÇ 763 é louvada pelo brigadeiro, comandante militar, pelo "ronco" da Op Saturno;

(xiii) chega a Cufar o "periquito" fur mil Reis, que é devidamente praxado;

(xiv) as primeiras minas, as operações Satan, Trovão e Vindima; recordações do avô materno;

(xv) "Vagabundo" passa a ser conhecido por "Mamadu"; primeira baixa mortal dos Lassas, o sold at inf Marinho: um T6 é atingido por fogo IN, na op Retormo, em setembro de 1965;

(xvi) a lavadeira Miriam, fula, uma das mulheres do srgt de milícias, quer fazer "conversa giro" com o "Vagabundo" e ter um filho dele;

(xvii) depois de umas férias (... em Bissau), Mamadu regressa a Cufar e á atividade operacional: tem em Catió, um inesperado encontro com o carismático capelão Monteiro Gama...

(xviii) Op Tesoura: dezembro de 1965, tomada de assalto a tabanca de Cadique, cujas moranças são depois destruídas com granadas incendiárias.

(xix) Cecília Supico Pinto e outras senhoras do MNF visitam Cufar no início do ano de 1966 e Mamadu é internado no HM 241 (Bissau).

(xx) um mês depois, regresso a Cufar, regresso à guerra. Põe o correio em dia. Lê e relê a carta de Maria de Deus [MiMê],  uma paixão escaldante dos tempos de "ranger" em Lamego e por quem estava quase para desertar, antes da data de embarque para a Guiné; a jovem morrerá prematuarmente, em França, aos 24 anos.




Pré-publicação: O livro de Mário Vicente [Mário Fitas], "Do Alentejo à Guiné: putos, gandulos e guerra" (2.ª versão, 2010, 99 pp.) - XXIII Parte: Cap XIV:  Regresso à guerra (1) (pp. 81-83)



XIV Regresso à Guerra [1]


Passado um mês, e aí está Mamadu, embora sem forças e mais magro que um cão, com cinquenta e cinco quilos apenas, na sua bela Cufar para entrar na má vida. Aos poucos, com os caldos de galinha de Miriam, vai recuperando e passados quin­ze dias, é dado como operacional.

Tinha correio para ler para mais de um mês, pois Maria de Deus continuava a escrever todos os dias, mandando poesias e dando sugestões pelas recebidas. Foi tempo de pôr a escrita em dia. Seus pais andavam alarmados pela não recepção de notícias, mas não lhes iria contar o que acontecera. Como o António de Salzedas, com ele tudo estava bem, tinha sido só uma distracção, coincidente com problemas de correios pela época Natalícia.

Mas, no mato há sempre a tentação do retorno a pensa­mentos anteriores. Salta da cama, vai à mala e retira uma carta daquelas que se lêem muitas vezes, e, estendendo-se novamente sobre a cama, relê:


................ 


"2 Fevereiro de 1966

"My love:

Espero encontrar-te completamente restabelecido fisicamente, e que psiquicamente te mantenhas forte.

Meu Bem!

Esperava que a tua fuga em frente se desse em breve mas, de facto, não tão rapidamente. Piamente reconheço, teres absoluta razão.

Seria neste momento ideal a metamorfose da envolvente existência dos nautas desta caravela. Mas é impossível pois, eu não posso metamorfosear-me em Tânia, nem tu em Jorge ou vi­ce-versa.

Somos a peculiar expressão da vontade de alguém supe­rior, que nos exige expiação pecaminosa, na própria existência neste vale de lágrimas. Continuo no Colégio. Há pouco, à saída da missa mati­nal, falei sobre tudo isto com a nossa Comadre. Enquanto não temos a primeira aula, vim para o quarto falar um pouco con­tigo.

Sim, não há dúvida que estás certo. A tua deserção e a concomitante minha menoridade, ir-nos-ia levantar sérios pro­blemas.

Ainda bem que a corrente em que Tânia te envolveu é inexpugnável.
Enquanto orava na missa, ia pensando em nós e cada vez mais confirmo que cometemos e estamos cometendo adultério. Mais grave! Considero incestuosa a nossa ligação. Como tu dizes, é verdade que estamos no fim da picada.

Meu bem, fomos amantes, somos e seremos eternamente amigos, mas mais que tudo isso, é real existir entre nós um rela­cionamento como irmãos.

Eu reconheço que voltaria na minha vulnerável forma de ser, a pecar de novo. Adúltera assumo, novamente adoraria abrir-te a camisa, e repousar a cabeça na almofada do teu pei­to, sentindo o teu coração bater e as tuas mãos em doce "cha­mego" acariciarem a minha cabeça.

É adorável recordar! Fragilizada, choraria de novo no teu peito. Está retida como se neste momento fosse a tua calma e suave voz, depois de me enxugares os olhos com os teus melí­fluos lábios: "MiMê! Como é? Tens o mar nos olhos? São cris­tais de sal as tuas lágrimas!?"

Como foste doce e meigo, meu irmão! Não consigo compreen­der! Como consegues homem para a guerra, transformares-te em doação total?

Meu bem, estás com o pensamento noutro local?

Não! ... Não ... tenho ciúmes de Tânia, assim como sei que não tens ciúmes de Jorge.

Só que ... Pronto! Esqueçamos, meu bem!

A vida pregou-nos esta partida, mas a culpa é totalmente minha, fui eu, reconheço-o perfeitamente, e reafirmo eu!

Pratiquei incesto em espírito! Que Deus me perdoe, por­que tu, meu querido irmão, sempre me tens perdoado. Não for­çaste nada, apenas eu me doei!

Querias ser missionário, não era? Estou portanto em confissão! Segredo!

Brincadeira... não ligues, como poderia um missionário transformar-se em guerreiro? Não é? Mas é dúvida onde ainda não cheguei.

Tenho de terminar por agora. O sino tocou para as aulas. Logo continuo ...

Cá estou de novo. Agora, já noite, posso estar contigo o tempo que quiser.

Levei todo o dia a pensar nas tuas últimas cartas e vou rebatê-las com uma certa dureza. Não penses que são ciúmes, é a pura verdade. Palavra de MiMê!

Meu querido, se Tânia gostasse de ti, meu tonto, já te tinha dado um sinal! Não sejas ingénuo, meu bem. Perdes a inteligência com Tânia? Agora que temos as coisas bem defini­das e que para mim és mais que tudo um irmão, ouve o que em momento puro de loucura tenho para te dizer:

A única forma de saíres da quadratura em que estamos envolvidos, é fazeres a guerra, meu amigo! A guerra, meu irmão!

Já viste?! ...

Se morreres aí, ainda que no caixão venha um preto em substituição, por tu teres ficado feito em picado, ninguém dá por isso. E será maravilhoso! Ficas um herói. A dor do teu pobre pai será exposta ao mundo Português no Terreiro do Paço rece­bendo a Cruz de Guerra a título póstumo. Terás o nome inscri­to numa rua da tua terra na tua planície. Os teus amigos e con­terrâneos acompanhar-te-ão até à última morada, onde terás honras militares com descargas e tudo. E porque não a própria banda dos excluídos que dizes existir na Escola de Reeducação onde trabalhaste, não te acompanhará, tocando marchas fúne­bres!?

E quem sabe? A própria Tânia se vestirá de preto e esta­rá presente, depositando uma rosa branca sobre a bandeira na­cional que cobrirá o teu féretro?! ... Já viste coisa tão linda, poé­tica e sentimental?

Para ti é que seria o pior, partirias. Se morreres ... apagou-se! Meu irmão e amigo.

Desculpa a morbidez! Mas também hoje não sou eu!

Estou completamente fragilizada, extenuada! Como deves repa­rar pelos borrões na carta, estou a chorar.

Quereria fazê-lo no teu peito. Amei-te, doei-me total e incondicionalmente a ti, ho­mem transformado em ídolo.

ln this moment, I need you, my friend, my brother. Forever yours,

MiMê! 
Finalmente Maria de Deus terá compreendido!

Embora preocupado com a forma louca como escreveu tudo isto, Mamadu não teve dúvidas em que continuariam bons amigos. MiMê, quem seria Mamadu para não te perdoar, ou para te jogar a primeira pedra? São reconhecidas as tentativas de fuga às encruzilhadas tecidas, na teia da vida. Mas um ser superior traçou estes percursos. Mesmo descalços, coração sangrando, percorram-se esses destinados caminhos. O odor do corpo de Mimê, voltou como loucura às narinas do furriel. 

Regredindo, voltou aos momentos de volúpia e de total entrega entre dois seres na alvorada da vida, fez um esforço de negação, e o homem guerra, sentiu a rala barba orvalhada, por pérolas saindo dos olhos e o coração doeu. Mamadu reflectiu e teve reconhecimento perante a dádiva de tantas outras, mulheres grandes quase crianças, da obra que fizeram levando o seu alento junto daqueles jovens, homens fabricados à força e perdendo os melhores anos da sua juventude, vivendo nas mais miseráveis e terríveis situações. 

Não!... Não haverá palavras para agradecer a todas elas aquilo que levaram junto do soldado Português.

(Continua)
________________


(...) Tânia, comigo irão sempre a tua franzina figura e teus negros olhos cintilantes. A tua negação ficará eternamente cica­triz aberta, dentro do peito do cigano errático em que me trans­formei. O resto será aventura. Olhou para os amigos e lembrou-se das palavras de Niotetos: nunca mais seria a mesma pessoa. Um abraço a todos e até ao meu regresso. Esperem pelo Vagabundo, gritou, sem nenhum som lhe sair da garganta. (...)

(**) Vd. poste de 8 de maio de 2016 > Guiné 63/74 - P16063: Pré-publicação: O livro de Mário Vicente [Mário Fitas], "Do Alentejo à Guiné: putos, gandulos e guerra" (2.ª versão, 2010, 99 pp.) - IX Parte: VI - Por Terras de Portugal: (iii) Lamego, Oeiras...

(...) Os esgotos da cidade [de Lamego] tomam-se caminhos conhecidos pela matula, em noites de percursos fantasmas, com petardos de trotil pelo meio. Aqui existe outra mulher especial na vida do ranger que consegue incutir força para a resistência. Apesar dos seus dezoito anos, Maria de Deus explica ao jovem militar a razão das coisas, mas não consegue influenciá-lo a fugir das terras para Norte. No entanto aqui começou uma louca doação. Ao aquartelamento de Cufar na Guiné chegarão, mais tarde, montes de cartas e aerogra­mas, trocar-se-ão poemas, falar-se-á da vida, da guerra e da mor­te. Haveria que fazer qualquer coisa!... A jovem incute no militar a aventura da fuga para França durante as férias. O militar prepara-se para a loucura, mas… há os velhotes e, nas terras para os lados do Norte, Tânia essa estranha força mais forte que o vento, não deixa voar o pensamento acorrentado de Vagabundo. Tão forte na guerra e tão frágil pela imagem de uma mulher que nunca será sua!... Uma mulher, que possivelmente até a sua existência já desconhece.  (...) 


(...) – Furiel!... tu é Mamadu, home balente, bó na bai na mato e cá tem medo, Miriam gosta de furiel. Eu sabo tu é branco, a mim preto! Miriam quer fazer cumbersa giro com furiel Mamadu! (...)

2 comentários:

Tabanca Grande disse...

Mário Fitas, aliás "Calças de Palanco", aliás "Gandulo", aliás "Vagabundo", aliás "Mamadu"... E agpra, camarada ? Estamos a chegar ao fim, falatm 16 páginas... E o leitor começa a ter uma visão de conjunto da tua história de vida, enquanto jovem e combatente do exército português na Guiné, em 1965/67...

O teu manuscrito tem vindo a ser publicado com alguma irregularidade. Merecia as honras da publicação em papel. ´É um testemunho forte sobre a condição da nossa geração, homens e mulheres. Desta Maria do Céu, por exemplo, e a não se que seja uma personagem totalmente, ficcionada, gostaria de poder ler o resto das cartas... Ou mais algumas cartas e poemas...

Um desafio e um abraço do Luís

Tabanca Grande disse...

Hoje, no almoço da Tabanca da Linha, o Mário Fitas confidenciou-me que cartas e poemas da Mimê "ca tem"... Levaram sumiço, discretamente... Há um dia em que um homem rem de assentar e "deixar a vida artística"... É pena... Parece que a Mari do Céu era irmã de um ofical do exército lá de Lamego, uma mulher avançada para aquele tempo e lugar... Morreu estuoidamente aos 24 anos.