sábado, 27 de fevereiro de 2010

Guiné 63/74 - P5903: Estórias avulsas (76): Como morreu o meu prisioneiro (Hugo Guerra)

1. Mensagem de Hugo Guerra* (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 55 e Pel Caç Nat 60, Gandembel, Ponte Balana, Chamarra e S. Domingos, 1968/70, que hoje é Coronel, DFA, na reforma), com data de 25 de Fevereiro de 2010, com uma história de prisioneiros:


COMO MORREU O MEU PRISIONEIRO


Em Fevereiro de 1970 estava em São Domingos para descansar de Gandembel e Ponte Balana, e acabar a minha comissão que viria a terminar abruptamente logo no mês seguinte, quando rebentou uma mina nas mãos do meu amigo Celeiro e nos atingiu aos dois.

Um dia qualquer de Fevereiro ou Março fomos informados pelo Comando de Batalhão que nos iam trazer uma encomenda.
Lembro-me que era ao fim da tarde e quando o DO aterrou, lá fomos num jipe à pista saber o que se passava.
Montada a segurança aproximei-me do avião e como era o mais velho dos Alferes e o Capitão estava de férias, competia-me fazer as honras da casa.
Do avião saíram alguns Oficiais Superiores e um nativo já de cabelos brancos e andrajoso, mas com um porte altivo e digno, que ainda hoje povoa as minhas recordações.

Era a encomenda.

Fui informado que o homem tinha sido encontrado algures junto à fronteira e traziam-no porque ele teria dito estar disposto a indicar o caminho para um local na nossa Zona onde se pensava que encontraríamos o IN. A ser verdade seria um ronco para aquela Companhia de periquitos que, felizmente para eles nunca os chegaram a ver, nem vivos nem mortos.

Lá mandei levar o homem para a prisão e dei instruções para que ficasse bem vigiado até à manhã seguinte quando, pensávamos nós, iria levar-nos até ao IN.

A avioneta foi-se com os Digníssimos passeantes e nós regressamos ao aquartelamento para a janta que já nos esperava.

Levaram o jantar ao prisioneiro e abrandaram a vigilância de tal forma que, estávamos nós a jantar, irrompe a rapaziada pela Messe dentro gritando que o homem se tinha enforcado.

Fui a correr ver o que poderíamos fazer - já era o terceiro enforcado que via na minha vida - e encontrei o meu prisioneiro pendurado e com a rapaziada toda a olhar especados com aquela visão. Tinha usado o baraço que trazia a segurar as calças e que ninguém se lembrara de lhe tirar antes. Agarrei o homem pelas pernas e fazendo força para cima para aliviar o peso lá arriamos o corpo que ainda tentei trazer de volta à vida. Fiz-lhe boca a boca e naquele desespero até injecções no coração lhe apliquei. Tudo sem resultado. O homem partira o pescoço e nada mais havia a fazer.

Apareceu entretanto o Chefe de Posto, cabo-verdiano, cujo nome não recordo mas que disse do alto da sua sapiência:

- Aquele mais velho da etnia (?), nunca trairia o seu povo e tinha-se suicidado para evitar a vergonha insuportável de ter sido preso e humilhado daquela forma.

Cresci mais um bocado naquele dia e, no dia seguinte achei que já tinha guerra a mais e, escrevi ao meu amigo Coronel Pilav Diogo Neto, Comandante da Zona Aérea da Guiné a pedir para me tirar daquele filme.

Já chegava.
Hugo Guerra

Hugo Guerra e o seu amigo Celeiro
__________

Nota de CV:

(*) Vd. poste de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5786: Os ex-combatentes sem abrigo não têm acesso ao Lar Militar de Runa (Hugo Guerra)

Vd. último poste da série de 16 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5822: Estórias avulsas (75): Do Cumeré a Canquelifá (João Adelino Aves Miranda, ex-1.º Cabo da 1.ª CCAÇ/BCAÇ 4610/73)

4 comentários:

Anónimo disse...

Caro Hugo Guerra.

É de registar a forma digna que tiveste para tentar salvar o “teu prisioneiro”, de facto até percebo porque dizes que nesse dia ficaste mais crescido.

O “mais velho” preferiu a morte, também com dignidade a ter que trair o seu povo.

Para ti é penosa a lembrança, mas na minha opinião tu e o “teu prisioneiro” foram ambos “heróis”, em lados opostos da guerra.

Um grande abraço

Manuel Marinho

António Graça de Abreu disse...

No meu Diário da Guiné, pag. 20, a 3 de Julho de 1972, com apenas uma semana de Guiné, em Teixeira Pinto, conto uma história semelhante. Aí vai:

"Estes dois prisioneiros ficaram à custódia do CAOP, não eram elementos perigosos. Com a ajuda de um intérprete, foram interrogados pelo nosso 1º. sargento Pinto, na pequena sala aqui ao lado. Recebi ordens para lhes ir comprar roupa e sapatos na Casa Gouveia, na avenida principal. Lavaram-se, vestiram-se, ficaram com melhor parecer. Foram estes os dois primeiros “turras” que vi. Olhei-os bem nos olhos, os olhos dos negros também falam: orgulho, ódio, humildade, revolta.
A mulher capturada tem seis filhos, o mais pequeno com apenas três meses. Foi libertada com a promessa de se apresentar com os filhos no Cacheu, para ficar sob a protecção da tropa portuguesa aí estacionada.
O homem, com o nome bem português de João Mendes, pequeno, negro, a alma da cor da alma de todos os homens, após mais alguns interrogatórios também ia ser libertado. Mas já não vai. Enforcou-se esta madrugada nas grades da cela da acanhada prisão que aqui temos, com as mangas da camisa nova que lhe comprei ontem e transformou numa corda. Morreu na casa em frente, a vinte metros da cama onde eu dormia, alheio a todos os dramas do mundo.
Numa pequena carteira de plástico que lhe encontrei no bolso das calças, João Mendes guardava um conjunto de senhas, uma de cada cor, comprovativas do pagamento de impostos referentes aos anos de 1960, 1962 e 1963, na circunscrição do Cacheu. A saber, Imposto Domiciliário 153 escudos, Imposto de Capitação 153 escudos, Imposto de Trabalho 25 escudos, Taxa Pessoal Anual 153 escudos, Remissão da Contribuição Braçal 25 escudos, Taxa de Exploração de Produtos Agrícolas 75 escudos, Imposto de Palhota (ano 1952) 80 escudos.
Pobres negros, como foram impiedosamente explorados!..."

Um abraço,
Antónbio Graça de Abreu

Hélder Valério disse...

Caro Hugo Guerra

Compreende-se que uma tal situação possa deixar marcas, principalmente a pessoa de bons sentimentos e formação moral.
Mas pensa que tanto tu como o teu prisioneiro cumpriram os seus papeis e, tanto quanto me apercebi, sem coisas de que envergonhes.
Um abraço
Hélder S.

Luís Graça disse...

Pela localização (S. Domingos), o prisioneiro deveria ser balanta... O chão é felupe, mas os felupes não quiseram nada nem com o PAIGC nem com os tugas...

Suicídio é capaz de ser um eufemismo... Objectivamente, o prisioneiro enforcou-se com as suas próprias mãos, mas a génese da violência está noutro lado...

Hugo, é uma história perturbadora, para muitos de nós que nunca quisemos saber como é que certos sargentos do quadro (e agentes da PIDE) faziam o "trabalho sujo" de arrancar "informações preciosas" dos "nossos prisioneiros" que depois permitiam ao senhor major de operações planear, no mapa, operações que davam direito a "ronco"...

No meu tempo, o "trabalho sujo" era entregue a um sargento da CCS do BCAÇ 2852 (não vou entrar em detalhes...) e ao nosso, da CCAÇ 12, pobre gigante Abibo Jau, que sofria de epilepsia e que se tornava violento nos interrogatórios (diziam-me, nunca assisti a nenhum).

Do Abibo Jau, fuzilado mais tarde, em 1975, em Madina Colhido, com o Cap Graduado Jamanca, comandante da CCAÇ 21, quero guardar a melhor recordação, a do "bom gigante", capaz de trazer tugas, feridos ou mortos, às costas, durante quilómetros no mato...

A questão da tortura de prisioneiros, de um lado e do outro, é um tema que deve merecer o devido destaque no nosso blogue...

É pena termos ainda poucos (ou, melhor, nenhuns) testemunhos presenciais... Dificilmente, de resto, aparecerá aqui alguém a dizer, em público:
- Eu interroguei e torturei prisioneiros!

É um problema-tabu em todas as guerras (da Argélia ao Vietname, da Guiné ao Iraque...). Ou não ?