segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

Guiné 63/74 - P1518: Questões politicamente (in)correctas (24): Um desertor é sempre um desertor em qualquer parte do mundo (Lema Santos)

1. A propósito da questão dos três fuzileirso navais que teriam desertado ou sido feitos prisioneiros pelo PAIGC (1), mandei perguntar aos nossos camaradas e dignos representantes da Marinha, Jorge Santos, Lema Santos e Pedro Lauret, o seguinte:

Amigos & camaradas: Quem é que sabe mais desta história ? Em que ano terá sido ? Houve mesmo deserção ? Não seria só propaganda do PAIGC ? Talvez os nossos marujos Jorge Santos, Lema Santos e Pedro Lauret saibam algo mais sobre este episódio... O Fernando Barata esteva na Guiné entre 1970 e 1972. Foi ele que me mandou cópia do panfleto do PAIGC já aqui reproduzido (2).

2. Resposta, ou melhor, comentário do Manuel Lema Santos (3)

Caro Luis Graça,

Tenho um clássico conceito de desertor. Se desaponto alguém, porreiro! É que nem sequer isso lamento.

A palavra faz parte da língua portuguesa e figura em qualquer dicionário que se preze de explicar condignamente a lusíada expressão.

Atrevo-me a ir mesmo mais longe porque lusíada é um adjectivo excessivamente redutor na aplicação a um conceito que, ao longo da História, configura uma forma universalista de pensamento e em qualquer sociedade, da mais feroz ditadura à mais excelsa democracia.

Aplica-se à pessoa que, à revelia da legalidade, abandona as funções a que se obrigava por lei, se exime ao cumprimento do serviço militar obrigatório ou muda de partido deixando obviamente alguém, alguma instituição ou organização penduradas.

Sempre as houve e, muito provavelmente, vai continuar a haver. O Jornal de Notícias, de 16 de Maio de 2006, aborda o assunto de forma ligeira e a acção tem sempre como objectivo a obtenção de melhoria de condições de vida, à conta do sacrifício de outrém.

Nem sequer desejo dispender muito mais do meu tempo na discussão filosófica de um conceito que para mim é óbvio e cimentadamente aceite e até tenho muita dificuldade em distinguir entre o dito conceito e a obscura variante do objector de consciência.

Em qualquer dos casos o resultado final será sempre a nomeação de alguém que venha colmatar a falta de coragem, de abnegação e de espírito de equipa do artista. Com um sinal pessoal manifestado no meu último post (4), que publicaste e que passo a transcrever:

...
enquanto estiver convencido da necessidade de disponibilizar alguma da minha capacidade na ajuda a esclarecimentos de facto, ainda que aos poucos de cada vez, terei de me cingir a seguir os caminhos óbvios que a minha sensibilidade e conhecimento apontam: pesquisar, documentar e ilustrar se possível sobre determinado acontecimento e, só então, relatar e divulgar.
...


Na minha opinião, não houve este cuidado e talvez a sensibilidade do tema o merecesse. Aconselho vivamente a consulta e leitura de algumas edições recentes que abordam e esclarecem parcialmente os aspectos focados:

Operação Mar Verde, de António Luis Marinho, Temas e Debates, ISBN 972-759-817-X

Fuzileiros: Crónica dos Feitos na Guiné, Comissão Cultural de Marinha, ISBN 972-797-134-2

Quanto a algum esclarecimento complementar aconselho a via hierárquica competente.

Um abraço,
Manuel Lema Santos
ex-1º TEN RN 1965-1972
Guiné, NRP Orion, 1966/68

_________

Notas de L.G.:

(1) Vd. post de 11 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1513: Os três fuzileiros navais: desertores ou prisioneiros ? Aonde e quando ? (Jorge Santos)

(2) Vd. post de 4 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1496: PAIGC (2): Propaganda: Notícia da deserção de três fuzileiros navais (Fernando Barata)

(3) Vd. último post da série > 31 de Janeiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1479: Questões politicamente (in)correctas (23): O que podemos (ou não) fazer pelo povo guineense (Beja Santos)

(4) Vd. post de 10 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1511: Uma lição de... marinha (Lema Santos)

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