sábado, 23 de outubro de 2021

Guiné 61/74 - P22654: Os nossos seres, saberes e lazeres (473): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (14): Aquelas bibliotecas, escolas e centros escolares que ajudaram a despontar a I República (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 22 de Setembro de 2021:

Queridos amigos,
Os ideais de instrução pública, de ilustração e propagação da ética republicana despontaram concretamente a partir de 1880, os republicanos passavam a ter desempenho municipal, fizeram propostas a escolas e bibliotecas, de forma colateral o Partido Republicano criava centros escolares onde se ensinava e incidentalmente se disseminava o ideal republicano, forma cuidadosamente escolhendo áreas operárias, bairros populares, usaram a educação e o ensino como bandeiras. Pouco resta desse universo, os centros escolares republicanos entraram no ocaso, estranha-se a displicência com que é encarado o Centro Republicano Almirante Reis pela importância histórica que desempenhou como fermento do 5 de outubro e pelo acervo que guarda, não se entende o abandono cultural que está entregue; mas farol daquele tempo é aquela Biblioteca de São Lázaro, ali no Desterro, entre o Martim Moniz e o Campo Mártires da Pátria que hoje vos convido a visitar, é grato o dever de memória e sentir que se mantém como biblioteca vivíssima.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (14):
Aquelas bibliotecas, escolas e centros escolares que ajudaram a despontar a I República


Mário Beja Santos

Um eminente pedagogo, o professor Rogério Fernandes, investigou e publicou a história dos ideais de instrução e ensino que os próceres republicanos puseram em prática durante a Monarquia Constitucional e implantada a República. Só conhecendo esta atividade é que se poderá entender a visita que vamos fazer à primeira biblioteca municipal de Lisboa, a Biblioteca de São Lázaro, que abriu ao público em 5 de agosto de 1853, anexa à Escola Municipal N.º 1. Neste mesmo espaço já havia uma biblioteca escolar num edifício mandado erigir por Elias Garcia. Este republicano foi professor da Escola do Exército, jornalista, político, coronel de Engenharia do Exército Português. Foi vereador da Câmara Municipal, personalidade maçónica de relevo, onde esteve 38 anos, com o nome de Irmão Péricles. Morreu pobre, tudo investiu em proveito dos seus ideais republicanos e para dar vida ao jornal Democracia, de que foi fundador.

Os avatares republicanos punham no topo das prioridades a instrução, o conhecimento, a criação de estabelecimentos públicos de ensino, de bibliotecas e de centros escolares. Estes últimos foram-se extinguindo, o que é dano cultural grave, o Centro Escolar Republicano Alferes Malheiro, de que fui membro, tinha escola e sócios devotadíssimos, um deles deixou em testamento um prédio na Rua da Escola Politécnica, tais eram as suas convicções e fé no papel do ensino. Conheci igualmente o Centro Escolar Fernão Boto Machado e ali perto o Alberto Costa, completamente desaparecidos, o civismo republicano jamais soube atualizar-se por via destes ideais de instrução pública e da propaganda cívica e da ética republicana.

É a contemplar um edifício de arquitetura neoclássica, bem equilibrado, sabendo da sua importância histórica, aqui entrando para desfrutar da sua sala de leitura, magnífica, pois o ideal da instrução e da iluminação cultural exigiam construções exemplares, recorde-se a fachada da Voz do Operário, outro templo de ideais republicanos. São Lázaro é um verdadeiro ícone, tem conhecido remodelações e acréscimos que já não está circunscrita a milhares de livros encavalitados e a uma sala de leitura.


A Biblioteca de São Lázaro na atualidade
Fotografia de José Elias Garcia, vereador do Pelouro da Instrução Municipal, 1873
Uma bela tapeçaria de Almada Negreiros

A primeira biblioteca popular surge anexa à Escola Municipal n.º 1, que a partir de 1938 passou a ser designada com o nome de Biblioteca de São Lázaro. Até à instauração do Estado Novo foram proliferando em Lisboa biblioteca populares e bibliotecas municipais, em 1891 Lisboa contava com cinco bibliotecas municipais e outras três em fase de organização. Em 1926, o município contava com quatro bibliotecas: a do 1.º bairro, na Travessa de São Vicente; a do 2.º no Largo do Edifício da Escola Municipal; a do 3.º na Rua da Boa Vista; a do 4.º na Calçada da Tapada, em Alcântara. Foram todas encerradas com a chegada da Ditadura exceto a Biblioteca Municipal de São Lázaro. O seu acervo, em 1938, ultrapassava os 8 mil volumes.


A biblioteca tem tido obras, entre 1992 e 1993 foi alvo de um processo global de reestruturação, conheceu uma ampliação do espaço de uma para quatro salas, ficando dotada de um setor audiovisual e infantojuvenil. Voltou a encerrar em 2000 para receber a coleção do padre Ruela Pombo, uma coleção de livros infantis que reúne mais de cinco mil exemplares.


É muito bom percorrer este espaço que como se vê é bem aproveitado por quem estuda, é uma memória viva da popularização da cultura republicana, quando se sonhava em formar um professor culto, o ideal “missionário” capaz de empurrar os seus discentes da escola para a biblioteca. Este local do Desterro está perto da Rua de São Lázaro, se o visitante vier com tempo sobe até ao Campo dos Mártires da Pátria, tem muita arte a ver dentro da Escola de Medicina ou visitar o Goethe Institut ou percorrer a zona circundante do Jardim do Torel, desfrute de uma panorâmica magnífica; ou então descer, há muita renovação de edifícios até ao Martim Moniz, vale a pena deambular por ali, a freguesia de Arroios é a mais multiétnica de Lisboa, há para ali comes e bebes de dezenas e dezenas de países. Mas comece primeiro por ir por este cadinho de ideais republicanos, não se sentirá defraudado.


(continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 16 DE OUTUBRO DE 2021 > Guiné 61/74 - P22635: Os nossos seres, saberes e lazeres (472): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (13) (Mário Beja Santos)

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