quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Guiné 61/74 - P18888: Memória dos lugares (377): Fontes de água viva - Fonte Frondosa de Empada (José Teixeira, ex-1.º Cabo Aux Enf)

Eduardo Moutinho dos Santos e José Teixeira


1. Em mensagem do dia 25 de Julho de 2018, o nosso camarada José Teixeira (ex-1.º Cabo Aux Enf da CCAÇ 2381, Buba, QueboMampatá e Empada, 1968/70) fala-nos da Fonte Frondosa de Empada:


Fontes de água viva

Fonte Frondosa de Empada

José Teixeira

Naquele tempo, todos nós gostávamos de ir até à Fonte Frondosa em Empada, que por sinal tinha sido construída no ano do meu nascimento. Era lá que as bajudas "lavanderas" lavavam a nossa roupa. Era lá que tomavam banho e quantos de nós, incluído eu tomávamos banho. Outros, apenas se sentavam nas escadas de acesso para apreciar a paisagem e mandar os piropos da ordem.

Ficava bem lá no fundo a uns trezentos metros do aquartelamento.

Fonte Frondosa de Empada

O Chefe de Posto gostava de alimentar o seu ego aplicando castigos aos nativos que por qualquer motivo caíam na malha da sua justiça, obrigando-os a carregar pipos de água meio cheios para regar o jardim da sua casa. Um dia meteu-se com um africano que nos ajudava na enfermaria por um prato de comida, o saudoso Kebá, falecido em 2007, e correu-lhe mal. Ao terceiro dia em falta, na enfermaria, fui procurá-lo e dei com ele a transportar uma barrica de água. Não tinha pago o imposto "pé descalço" e foi a castigo.

Fiquei indignado e agi. Virei a tropa contra o Chefe de Posto e íamos cercar-lhe a casa e libertar o homem quando chegou o Capitão. Apercebeu-se da situação. Acalmou-nos, libertou o homem e escreveu. A Tabanca teve um prémio. O Chefe de Posto foi enviado, sob prisão, para Bissau e o Capitão Moutinho Santos - o da fotografia - foi nomeado Chefe de Posto interinamente. Escusado será dizer que muita coisa mudou quer na relação com as pessoas, quer em melhorias para a Tabanca. Bendita hora em que eu, aquele que não levava arma nas saídas para o mato para não ser tentado a dar fogo, reagi com dureza. Talvez pela primeira e ultima vez, que me recorde.

Voltámos lá com os meus filhos em 2011 em romagem de saudade e acabamos por almoçar em casa de uma antiga "lavandera" que nos preparou um bom frango com arroz à sua moda e comido à mão para honrarmos a tradição.

Note-se que o pobre Kebá tinha ficado sem as suas duas mulheres que foram apanhadas pelo PAIGC com os filhos. Sei que ele ainda as tentou recuperar assentando-se por uns tempos de Empada, para onde tinha fugido, mas não conseguiu, suponho que por elas se terem recusado a voltar com ele. Não aceitou ir para a milícia, segundo ele, para não ter de enfrentar os filhos e as esposas, mas era em excelente enfermeiro que nos ajudava na enfermaria no apoio à população.
____________

Nota do editor

Último poste da série de 22 de maio de 2018 > Guiné 61/74 - P18663: Memória dos lugares (376): Cheche , rio Corubal e Madina do Boé, uma trilogia trágica (Xico Allen / Zélia Neno / Albano Costa)

4 comentários:

Tabanca Grande disse...

Uma história bonita, de solidariedade humana...

A injustiça, o abuso de poder, a arrogância, a arbitrariedade, a safadeza, a crueldade... dos administradores e chefes de posto, os "pequenos chefes do colonialismo português" (, houve exceções...), também ajudam a explicar muita coisa daquela guuera estúpida e inútil... Spínola percebeu isso, tarde demnais... LG

G.Tavares disse...

Esses administrativos sempre foram uns carrascos dos povos africanos.De uma maneira geral geral davam-se mal com a tropa que nem sempre tolerava os seus desmandos.

Antº Rosinha disse...

Nunca houve bom relacionamento entre a tropa e os administradores e os civis (brancos), em geral, a partir de 1961.

Antes de 1961 a tropa até se dava maravilhosamente, com toda a gente, tanto os oficiais como os sargentos principalmente, os praças, que também chegavam a ir em comissões para o Ultramar, com certas especialidades, também gostavam do ambiente.

Mas sobre os Chefes de Posto, que muitos fizeram todos os 13 anos de guerra do Ultramar, parece que tinham um pacto com o diabo (ou com os turras).

Raramente se ouve falar em linchamentos ou assassinatos dessa gente ou seus familiares por elementos do IN ou das populações, parece que nem se odiariam muito.

Penso que ainda há muita gente que não se chegou a aperceber qual era o papel "multi-funções" dos chefes de posto.

Alem da palmatória símbolo do tribunal do qual ele fazia de juiz, de advogado de defesa, advogado de acusação e advogado do diabo, ele era também ministro das finanças, comandante da polícia, era também carcereiro não só para prender o criminoso, como para proteger o criminoso das fúrias da populaça.

Mas havia mais uns tantos papéis que ele desempenhava, uns mais honestos, justos honrados, outros nem tanto.

Mas da fama de algozes e os principais culpados de os indígenas quereremm a "Independência", disso não escapam.


A partir de 1961 perderam todo o protagonismo com a chegada do "turra" e do "tuga".

Também havia constantes atritos entre a tropa e os comerciantes que "roubavam" descaradamente o indígena.

manuel carvalho disse...

O Eduardo Moutinho dos Santos foi Alf. Na minha Comp. a C. Caç.2366 em Jolmete e foi promovido a Capitão por distinção tendo ido comandar a 2381 em Empada.Sabia que ele para além de comandante militar tinha sido também chefe administrativo em Empada mas não sabia em que circunstâncias.Quem o conhece sabe que ele não é homem de ver coisas destas e assobiar para o lado.

Manuel Carvalho