sábado, 28 de julho de 2018

Guiné 61/74 - P18874: Os nossos seres, saberes e lazeres (277): De Aix-en-Provence até Marselha (9) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70) com data de 3 de Maio de 2018:

Queridos amigos,
Quando saltitamos por vários poisos, e neste caso o viandante traçara um itinerário a partir de Aix-en-Provence, estadia em Arles e visita a Pont du Gard, Avignon, Nîmes e Marselha, Arles no seu todo marcou indelevelmente quem já se impressionara com Aix, aqui a cidade estabelece vários diálogos de civilização e cultura que não emudecem o passado nem laqueiam a curiosidade do que é verdadeiramente moderno, o orgulho de Arles por ser um polo europeu da fotografia é desmesurado e incontido. Neste apanhado de imagens fica um rincão de saudades para o que vier, se há locais que o viandante visitou e que quer em breve voltar, Arles está entre os primeiros nomes.

Um abraço do
Mário


De Aix-en-Provence até Marselha (9)

Beja Santos

É quase um desabafo íntimo do viandante: Arles tocou-lhe no coração, não que durante esta viagem não tenham existido outros momentos ímpares, mas aqui foi o todo, os sinais da primavera, a luminosidade, a amenidade do clima, o que se viu e prontamente ficou a vontade de rever, o pouco ruído fora dos espaços onde reina a alegria dos encontros. O viandante não vai falar da Roma das Gálias, nem na multiplicidade das manifestações desse Império Romano, nem no romanesco provençal, rememora o todo através de algumas parcelas que deixaram sulco. Logo a fotografia que visitou no Museu Réattu, nome que homenageia Jacques Réattu, pintor de Arles, um clássico dos séculos XVIII e XIX, museu instalado num espaço espiritual da Ordem de Malta, numa curva graciosa do Ródano, veja-se esta magnífica fotografia de Dora Maar dedicada a Picasso, a luz sobre a fronte e as mãos e como numa pintura o fundo, que tudo elucida e que muito esconde.


Há lojas de vendas em todos os museus, mas esta é bem singular, pelo espaço que ocupa, quase abacial, a decoração, o envolvimento quente, o diálogo multicultural, aqui vende-se obras sobre a Antiguidade Clássica até à fotografia de vanguarda. Inesquecível.


Há monumentos que têm em si mesmos pendor iconográfico, já está dito e repisado que a Roma das Gálias tem em Arles um facho luminoso com teatro e anfiteatro, fundações subterrâneas do Fórum, termas, necrópole, um esplendoroso museu com um acervo a todos os títulos excecional. Mas com luminosidade, e dado que o anfiteatro (ou as arenas) está no centro de muitas ruas irradiantes e cardiais, impõe-se pela dimensão, pela imponência da pedra, e até esquecemos que na Idade Média o monumento foi fortificado e depois bairro habitado até ao século XIX. Esquecemos tudo, é a imponência da pedra e a vibração do génio arquitetónico romano que calam fundo, até ao aturdimento. Magnífico, até à exaustão das emoções!


Já se elogiou em parangonas o Museu Arqueológico de Arles, o edifício, o recheio e a envolvência. Não houvera oportunidade de registar estes espetaculares mosaicos romanos subtraídos de propriedades rurais da região, estão magnificamente dispostos em termos de museologia, sobe-se a uma varanda quadrangular para identificar estes belos painéis, há placas elucidativas que nos fazem compreender o que estamos a ver. Pode haver mosaicos de melhor qualidade noutros sítios mas o que se viu é muitíssimo bom, atesta que para esta Roma das Gálias convergiram artistas de calibre, exímios na técnica do mosaico.



Assim se pode ver como Arles é beijada pelo Ródano, vemos esta configuração e sentimos o odor mediterrânico, está aqui bem estampada a matriz provençal no alinhamento das ruas, na escala do casario, e a segunda imagem fala por mil palavras, é a omnipresença da Roma das Gálias, fala sempre mais alto.



E deste caderno de memórias, no exato momento em que o viandante muda de azimute e toma comboio para Nîmes, deixa para mais tarde as referências a Pont du Gard, outro lugar inesquecível, ficam duas fotografias de despedida, são de Alfred Latour, fotógrafo, pintor e gráfico, era uma exposição que decorria no Museu Réattu, foram tiradas nos finais dos anos 1920 e princípios dos anos 1960, espelham a visão do pintor, do publicista e desenhador de tecidos. Em 1936, esteve ao serviço de uma agência da imprensa e realizou uma série de reportagens que ilustravam tensões políticas e avanços sociais. O viandante reteve a primeira imagem como um grande fresco a preto e branco, deixa antever tratar-se de alguém que pinta e que sabe de artes gráficas. A segunda prende-se com o período buliçoso, mostram-se os seres humanos com direito ao lazer, ganho em 1936, as mulheres avançam na afirmação e autonomia. Nada ocorreu ao viandante de melhor para se despedir de Arles, despediu-se mas quer voltar.



(Continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 14 de julho de 2018 > Guiné 61/74 - P18844: Os nossos seres, saberes e lazeres (276): De Aix-en-Provence até Marselha (8) (Mário Beja Santos)

7 comentários:

Anónimo disse...

Dando uma vista de olhos às fotos, lamento não encontrar qualquer interesse para mim em as comentar, acho que não dizem respeito aos combatentes da Guiné, mas apenas viagens que todos nós já fizemos, após 50 anos de regresso da Guerra.
à consideração superior.
VT/.

Tabanca Grande disse...

Virgílio, a série "Os nossos seres, saberes e lazeres", de que já se publicaram 277 postes, é isso mesmo, é dedicada aos "seres, saberes e lazeres" dos camaradas da Guiné... Afinal de contas, ainda cá estamos, ao fim destes anos todos, uns viajando e gostando de escrever, outros viajando e não escrevendo, uns alimentando blogues, outros fazendo bricolage, outros ainda criando os netos, outros frequentando as "universidades séniores"... É interessante saber como é que a malta envelhece, de maneira ativa, produtiva e saudável...

Afinal, a nossa vida não acabou na Guiné... o que infelizmente não é verdade para os 3 mil camaradas que lá ficaram... Um bom fim de semana. Vou curtir o mar e a maresia... e pôr em dia as minhas leituras... Vou ver se consigo ler, de fio a fio a pavio, um dos clássicos da moderna literatura italiana, "La bella estate" [, em português, o belo verão...] do Cesare Pavese, que se sucidou em 1950, com 42 anos, e deixou este recado: "Perdoo a todos e peço perdão a todos. Va bene ?...E por favor não percam tempo com merdices["Non fatte tropi pettegolezzi"]...

A vida é bela mas é breve, Virgílio. "Carpe diem", como diriam os latinos, nossos antepassados, os que afinal nos deram o ser e a língua...

PS - Se passares por estes lados, já sabes onde estou, na "capital dos dinossauros",que é um dos melhores sítios da nossa terra, com qualidade de vida, amigos e camaradas, gente que sabe dar valor ao saber-ser. ao saber-estar, ao saber-viver...

Valdemar Silva disse...

Luís Graça, em latim QP.
Eu na tropa era conhecido pelo QS, apenas por estar escrito SILVA, na farda de trabalho o último nome, mas como Silvas há muitos passei a ser, para me diferenciarem, Queiroz da Silva o que deu QS abreviatura do latim de 'quantum saties' e assim me passaram a tratar de QS. (quanto melhor, quanta sabedoria, nem mais nem menos e outros elogios que não me cabem).
Mas, Luís Graça o QP cabe-te perfeitamente e até parece que foi feito pra ti.

Ab
Valdemar Queiroz

Anónimo disse...

Bom, já dei a minha opinião, que já tardou, porque estou farto, cheio, de ver fotos de Aix-en-Provence, e tantos outros sítios, estátuas, ruas; Viagens ao fim do mundo em 180 dias?; Poemas que nunca mais acabam; Fotos de festas e convívios até dizer chega!.
Não dá para mim, como não dá para outros as minhas fotos na piscina do QG, mas isso era ainda na Guiné. Mas conhecer o Canal do Geba de há 500 anos, a historia do BNU, e outras tantas 'banalidades', não me serve a mim.
Se quiserem, e eu tenho, umas 5 mil fotos em papel, da minha vida após 10 de agosto de 69, até hoje, e muitos milhares em arquivo digital, como todos têm. Se eu pedisse para as postarem todas, não chegavam 10 blogues. E os milhares de relatórios e Estudos Económicos de centenas de empresas durante as minhas décadas de actividade profissional de 'Consultor de Investimentos', Economista, Gestor, Director Financeiro, Administrador, etc. E já agora as 2500 páginas do livro que nunca vou acabar...
Acho isto um abuso à inteligência e paciência humana, e um desrespeito por aqueles que têm de ver tanta banalidade, que no fundo até acaba em pequenas invejas, naturais no ser humano, que não é de ferro.
O Blogue não é meu, fico se quiser e se me deixarem, mas para isto não.
Vou ter de repensar tudo isto, e na sequência do email que acabo de ler, do meu amigo e camarada de Beli, José Loureiro, muito chateado por eu divulgar o seu email, e perguntando 'o que querem mais de mim?'. Acho que perdi um amigo. Por isso apaguem o seu nome e email e não voltem a contactá-lo, pois já se percebeu que ele não está nada interessado em participar nesta tertúlia.
Boas férias a todos, e vamos ver se não chove hoje e nestes dias seguintes.
Não se zanguem, eu sou assim mesmo, difícil de lidar, a PDV assim me fez. Ponto

Por curiosidade apenas o que significa QP? É que eu não sei Latim.

VT/.



Antº Rosinha disse...

VT/., nem só de guerra vive o blog, e se assim fosse, já todos tinham dado um tiro na cabeça.

Carlos Vinhal disse...

Estamos todos muito susceptíveis, é da velhice, mas, acho eu, o Mário Beja Santos merece todo o nosso respeito pelo que deu e continuará a dar ao nosso Blogue. Ele não tem culpa de o Luís Graça ter criado, em 2008, esta série dedicada aos nossos saberes e tempos livres. Ao contrário do que sugere o VT, nesta série não queremos que os camaradas nos contem as suas vidas particulares passadas mas o que fazem agora, já um pouco entradotes, num tempo em que muitos de nós estamos doentes, ou pior, já desaparecemos. Quem não tem inveja da actividade intelectual do MBS? Eu tenho.
Mais não digo para não ferir susceptibilidades.
Carlos Vinhal
Co-editor

Nota:
Se repararem, eu dedico especialmente os sábados e os domingos aos momentos de lazer e poesia dos camaradas da tertúlia, a modos de que estando a "guerra" fechada ao fim de semana.

Tabanca Grande disse...

O Carlos Vinhal é um dos nossos coeditores, de resto o mais antigo, seguindo-se-lhe o Virgínio Briote (hoje "jubilado"), o Eduardo Magalhãoes Ribeiro e, mais recentemente, o Jorge Araújo. Por todos eles eu tenho o máximo apreço, consideração e confiança. E uma enorme dívida de gratidão... Sem eles este blogue nunca chegaria a ser o que é hoje... E eles têm sabido interpretar muito bem o que eu, desde o início, pensei ser e dever ser o nosso blogue... Nunca lhes retirei o "tapete", nunca os desautorizei, nem eles me deram motivo para isso... Com uma "dream team", como esta, com esta equipa maravilhosa, eu posso ir de férias, descansado...

Mas estou sempre por perto, onde quer que esteja. Ao alcance de um clique... Luís Graça