terça-feira, 17 de maio de 2016

Guiné 63/74 - P16098: O que dizem os Perintreps (Nuno Rubim) (4): A um mês do 25 de abril de 1974, o IN ataca Canquelifá durante 4 dias, com um grande potencial de fogo, e faz violenta emboscada no itinerário Piche-Nova Lamego a coluna auto (Perintrep 12/74, relativo ao período de 17 a 24/3/1974)


Foto nº 1



Foto nº 2

Foto nº 3


Foto nº 4

Guiné > Zona leste > Região de Piche > Setor de Piche > Canquelifá >  Março de 1974 > A desolação da guerra: a tabanca, depois das violentas e prolongadas flagelações, diárias,  do PAIGC, à tabanca e ao aquartelamento,  à luz do dia, com morteiros 120,  foguetões 122 e canhões s/r,  entre 18 e 22 de março de 1974, e partir de várias direções (, e sobretudo Norte e Leste).

Houve mortos e feridos e graves danos materiais: pelo menos, 1 morto e 5 feridos graves entre as  NT; 3 mortos, 2 feridos graves e 4 feridos ligeiros entre a  População. Essas acções, que devem ter sido dirigidas pelo comandante do PAIGC Manuel dos Santos (Manecas),  revelam um certo "sentimento de impunidade", com o IN escudado nos Strela russos, tentando "engodar" a nossa aviação... Nesta altura, Canquelifá corria o risco de tornar-se a Guileje da zona leste.

Sempre presumi que a base de fogos tivesse instalada do outro lado da fronteira. O Perintrep é omisso fosse este ponto. Mass não, ao que parece era na antiga tabanca de Chauara, a escassos 10 km de X Canquelifá, com o PAIGC entrincheirado, e sua artilharia defendida por sapadores e infantaria... a escassos 4 km a norte, havia outra posição. Sinchã Jidé. No caso de Chauara, o reabastecimento era feito por estrada próxima que vinha do Senegal e atravessava a Guiné-Conacri.


Fotos: © Jacinto Cristina (2010) / Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné . Todos os direitos reservados.



Guiné > Zona leste > Mapa de Canquelifá (1957) > Escala 1/50 mil > Posição relativa de Canquelifá (NT) e das bases de fogos do PAIGC, em março de 1974: Sinchã Jidé, a 4 km a norte, junto á fronteira com o Senegal, e Chauara, a menos de 10 km, a leste, junto à fronteira com a Guiné-Conacri.


Infogravura: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2016)


Para aliviar a pressão sobre Canquelifá o batalhão de comandos africanos, a 3 companhias,  realizou a Op Neve Gelada (vd. vídeo no You Tube, da série A Guerra, realizado por Joaquim Furtado), a partir de 21 de março e até ao fim do mês, o  que levou à captura de grande quantidade de material, e provocou 26 baixas mortais entre o PAIGC (incluindo combatentes caucasianos ou não africanos, e nomeadamente enfermeiras, segundo testemunho de Carlos Matos Gomes, que comandou uma das companhias do Batalhão de Comandos Africanos).

Os comandos africanos tiveram 6 mortos e 1 desaparecido. Foi a última grande operação da guerra da Guiné, comandada por Raul Folques. esse bravo e lendário 'comando',  na altura, major.

Em 31/1/1974, tinha sido abatido por um Strela o Fiat-G pilotado pelo ten pilav Victor Manuel Castro Gil, a última aeronave abatida no TO da Guiné, antes do fim da guerra. O pilotop ejectou-se e conseguuiu chegar até tabanca de Dunane. Nesse dia Canquelifá foi flagelada com 50 foguetões, durante 2 horas, que causando sérios prejuízos no aquartelamento: um jipe com canhão s/r foi destruido.
























Documento (digitalizado) por Nuno Rubim (2016) / Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné




Foto: Nuno Rubim (2007). Tem duas comissões no TO da Guiné, a última no QG, já como major. Na primeira comissão comandou duas das unidades que passaram por Guileje: a CCAÇ 726 (out 1964/jul 1966) e a CCAÇ 1424 (jan 1966/dez 1966); trabalhador incansável, é também um bom amigo e um grande camarada, a que pedimos informação e conselho sobre as coisas e os feitos da Guiné; é membro da nossa Tabanca Grande desde 10 de junho de 2006 (*)

1. Reprodução (parcial) do Perintrep nº 12/74, relativo ao período de 17 (domingo)  a 24 (domingo) de março de 1974.

O Perintrep era uma documento classificado, elaborado pela 2ª Rep/QG/ComChefe/Guiné (, chefiada então  por Artur Baptista Beirão, ten cor inf) (1925-2014). Era elaborado a partir de notícias recebidas (Relim) durante um período semanal, indicando-se sempre a origem ou o órgão da fonte da notícia.

Repare-se no nível de segurança: o documento, classificado,  chegava até aos comandantes operacionais (nível de companhia), que o tinham de incinerar no prazo de 72 horas... As informações nele contidas, devidamente selecionadas, podiam ser (ou não)  partilhadas depois com os subordinados, individualmente ou em grupo.

Este documento (cópia nº 36, parcial) chegou-nos às mãos, a nosso pedido, por gentileza do cor art ref Nuno Rubim, investigador, especialista em história da artilharia, e nosso grã-tabanqueiro da primeira hora. O Nuno Rubim tem a coleção toda, digitalizada,  dos Perintrep relativos ao CTIG (*).

Como se pode depreender da leitura deste Perintrep, a um mês do 25 de abril de 1974, no conjunto do TO da Guiné, e deum modo geral,  "atividade de iniciativa IN sofreu quebra considerável tanto no número de ações como na agressividade", se excetuarmos a zona leste, e em particular a parte nordeste do território,  "onde o IN fez incidir o esforço":

(i) flagelação da tabanca e aquartelamento de  Canquelifá (posto administrativo de Piche), diaramente, e durante várias horas, durante o dia, a partir de 18 e até 22 de março,   de várias direções, utilizando foguetões 122, canhão s/r, morteiro 120 (fonte: CCAÇ 3545);

(ii) emboscada a 22 de março, às 7h45, a coluna auto, no itinerário Piche-Nova Lamego, no troço entre  Bentém e Cambajã, por um grupo estimado em 200 elementos; as NT tiveram 5 mortos   5 feridos graves e 11 feridos ligeiros;  foram destruídas 3 viaturas: 1 Chaimite, 1 White, 1 Berliet (fonte: BCAÇ 3883)(**) .

A 22 de março de 1974, um grupo IN, na região de Canquelifá, também abriu fogo sobre sobre dois helis AL III, sem consequências.

Nos restantes zonas (oeste e sul), a atividade IN foi mais reduzida, em nº de ações e agressividade: assinalam-se ações, de iniciativa IN, em Binta (zona oeste) e em Gadamael (zona sul).

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Notas do editor:

(*) Último poste da série > 11 de maio de 2016 > Guiné 63/74 - P16077: O que dizem os Perintreps (Nuno Rubim) (3): Mais três fotos da "minha" CCAÇ 1424... Numa delas o alf mil inf António Joaquim Alves de Moura, natural de Padronelos, Montalegre, que morreu em combate, "a meu lado com um tiro no coração", a 4/9/1966, em Chinchim Dari, entre Mejo, a sul, Nhabocá, a norte, e Salancaur, a oeste... mais 4 topónimos do nosso martirológio de Guileje

(**) Vd. poste de  12 de maio de  2016 > Guiné 63/74 - P16079: Caderno de Notas de um Mais Velho (Antº Rosinha) (45): A brutal emboscada do dia 22/3/1974, na estrada (alcatroada, construida pela TECNIL ) Piche-Nova Lamego: só por negligência, propositada ou intencional ou casual, estes casos podiam acontecer... É coincidência apenas, ou as Forças Armadas só já estavam preocupadas com outros valores?...

6 comentários:

Antº Rosinha disse...

Canquelifá está mais ou menos a 15 Klm das fronteiras Leste ou Norte,ao alcance do 122, aprendi aqui, com os artilheiros do blog as características do canhão.

Mas os artilheiros do blog, provavelmente não estudaram, mas outros que por aqui não passam, sabiam com certeza que de Canquelifá às Caldas da Rainha, no dia 16 de Março de 1974, iam apenas 3000 Klm.

E as distâncias desses canhões até Lisboa, via Conacry e Kremlin, nesse tempo já se faziam por fax codificado em minutos.

Caldas 16 e Canquelifá no cú de judas, e Piche de 17 a 24 de Março a ser atacados sem vermos nestes papéis preciosíssimos de Nuno Rubim, referências a reacções dos comandantes...não haverá coincidências a mais?

Para mim anda tudo ligado, mas eu ando aqui, mais para compreender melhor, coisas que não me surpreendem há muitos anos.

Mas se não fosse o luisgraca tinhamos que nos contentar com as guerras dos joaquinsfurtados, como acontece como a quem só lê o jornal A Bola, ou seja, o país todo em geral.





Abilio Duarte disse...

Lembro-me muito bem dos PERINTREPS, muitas vezes em Nova Lamego e principalmente em Paúnca,
quando na messe,a malta se sentava para o jantar, eu e outros perguntava-mos ao Cap. Analido Aniceto Pinto (Cap. Milº.), então Capitão qual é a guerra para hoje?
E ele naquele dizer suave de alentejano, dizia, segundo o PERINTREPS de hoje o Nino Vieira, vem nos atacar.
Mas eu já tenho uma estratégia, os obuses ficam apontados para Norte(Senegal), os morteiros para este, pois tenho um pelotão a west, mas ás 10 horas , viro os canhões para Sul, que é de onde os gajos vêem, estão a perceber. Assim era uma Compª. de Artª. em acção.
O meu Capitão Analido Aniceto Pinto era um tratado. Grande amigo,grande soldado, grande companheiro. Me emociono falar destes tempos.

Tabanca Grande disse...

É verdade, Rosinha, tudo isto se passa depois do "16 de Março"... O PAIGC tentou repetir Guileje... O balanta Paulo Correia era então o comandante da Frente Leste...

Foi brava gente que aguentou Canquelifá, a começar pelo Cap Mil Inf Fernando Peixinho de Cristo, comandante da CCAÇ 3545 (sediada em Canquelifá), e pelos seus homens... Chegarama a cair 300 granadas por dia naquele remoto local, a que nossa aviação mal podia acudir por falta de autonomia de voo... Era chegar lá, despejar a carga e voltar a Bissalanca para se reabastecer...

Bravos comandos africanos, incluindo o nosso saudoso Amadu Djaló, que também participou nesta Op Neve Gelada, se não erro...

Antº Rosinha disse...

É verdade Luís, o nosso saudoso Amadu Djaló não sabia que nessa data lhe estavam a puxar o tapete nas Caldas da Rainha e já havia gente sincronizada em Bissau, Conacri e no Kremlim.


Tabanca Grande disse...

Rosinha, peço desculpa, induzi-te em erro... O nosso saudoso Amadu Djaló já não estana na 2ª compapanhia do batalhão de Comandos Africanos nesta data... Portanto, não podia ter participado na Op Neve Gelada... Mas andava por aqui, no nordeste da Guiné, com a CCAÇ 21, comandada pelo Jamanca...

Ele participou, isso sim, na Op Ametista Real, um ano antes, nem tanto, no assalto a Kumbamory, a base do PAIGC em Casamança, no Senegal, aquando da batalha de Guidaje (maio de 1973). Nesta operação o cap comando Raul Folques foi ferido. O comandante do batalhão era o Almeida Bruno, já major. Em 1974, quem comandava o batalhão era o major Folques.


https://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/2010/04/guine-6374-p6180-lancamento-do-livro-do.html

Antº Rosinha disse...

Luís, os factos e os nomes e até as datas, contam para fazer a história de facto, e é uma das funções do blog, esquematizares e esmiuçares os acontecimentos é um esforço que um dia te será reconhecido por quem queira um dia estudar aqueles 13 anos excepcionais da história de Portugal.

Mas para mim, particularmente, não me induzes em erro, porque neste caso o sentido do meu comentário tanto pode ser para um nome concreto como para um "soldado desconhecido", porque não sendo o Amadu, com certeza algum parente ou companheiro dele esteve lá.

E nem ele nem os outros fulas sabiam onde ficava a linda cidade das Caldas a 16 de Março de 1974 e o que se passava nesse dia que lhe estava a marcar o destino, sem os avisarem.