quinta-feira, 19 de maio de 2016

Guiné 63/74 - P16110: Convívios (747): Almoço do pessoal da 3872, onde se encontraram dois grandes médicos, o Dr. Pereira Coelho e o Dr. Rui Vieira Coelho (Juvenal Amado)

 

1. Mensagem nosso camarada Juvenal Amado (ex-1.º Cabo Condutor Auto Rodas da CCS/BCAÇ 3872, Galomaro, 1971/74), com data de 11 de Maio de 2016, com o rescaldo do Convívio do pessoal do BCAÇ 3872, ocorrido no passado dia 8:


Almoço do 3872

No dia 8 de Maio realizou-se mais um Encontro da CCS do 3872 onde se juntaram alguns elementos em especial da 3491 - Dulombi e 3490 - Saltinho, que já vão sendo hábito marcar presença. Não foi dos mais concorridos pois vão as preferências geográficas do pessoal participante por de zonas mais ao centro do país.

Foi no entanto um grande convívio, onde inesperadamente revi camaradas que já não via há muito tempo e presenciei reencontros de camaradas, que por estranho que pareça, não se reconheceram. O Cabo Enfermeiro Correia não reconheceu o Cabo Enfermeiro Catroga. Valeu a pena ver a estupefação genuína após a minha pergunta para adivinhar quem ali vinha. Ele não conseguiu reconhecer até eu desvendar o segredo. Depois, foi o que se esperava com abraços e conversas de nunca mais acabar.

O almoço foi bem condimentado com as nossas recordações como de costume. Também de costume se falou dos ausentes, reviveram-se as estórias com nuances e versões, que o tempo burilou onde o mesmo acontecimento é contado de várias formas.
Mas que interessa isso? Não se está a escrever a História mas sim a relembrar estórias.

A talhe de foice, acabou por vir à baila um dos nomes mais acarinhados, que por doença não pode estar presente.
Todos os que lidaram com ele têm estórias mirabolantes de que foi protagonista e como dava a volta ao tenente, que tinha por ele uma estima paternal.
Falo do Alfredo (estofador), que era um daqueles camaradas que tinha sempre uma piada, uma partida e sendo ele de riso fácil, o tornava contagiante espalhando-o pela assistência.

Em conversa com o primo, que foi furriel da ferrugem e por conseguinte superior no nosso pelotão, a respeito da doença (AVC) que o acometeu, diz este:
- ”O estofador não fala o que é uma grande injustiça”.

Como grande comunicador que era, ao perder o dom da fala, fica limitado no poder que tinha para espalhar a sua boa disposição. A sua forma de se expressar, com tiques de malandragem lisboeta, fazia dele uma companhia sempre desejada.

O tenente tinha-se arvorado em “padrinho” e protector. Passava a vida a ralhar por tudo e por nada. Mandava-o chamar a todo o momento para as tarefas mais disparatadas, facto esse que motivava o desaparecimento do “estofa” por largos períodos das vistas do nosso tenente. Mas o nosso superior deitava a mão a qualquer um que passasse junto à secretaria, mandava-o chamar a toda a hora e a todo o momento. Também lhe cortava a idas a Bafatá, o que motivava que ele se desenfiasse para a bolanha e aí apanhava boleia da coluna onde tinha sido proibido de participar.
Tal exagero quase perseguição, veio-se a saber que se devia à promessa do Alfredo “estofa”, de vir a integrar a Guarda-Fiscal, ou Republicana, após a desmobilização. E assim o tenente garantia que o nosso extrovertido camarada não apanhasse alguma porrada, que lhe sujasse a folha de serviços.
Nesse jogo de “sedução” o Alfredo tinha o que queria do tenente, mas também lhe tinha que aturar as reprimendas.

Assim se chegou ao fim da comissão sem que o “estofa” assinasse os benditos papeis que o tornaria membro dessas pouco prestigiadas, na altura, forças da ordem.

Já tínhamos os carros preparados com a bagagem para rumar ao Xime e embarcarmos para Bissau. A cerveja corria a rodos e todos bem bebidos, lá andava o tenente à procura do arredio camarada que não queria de maneira nenhuma ser apanhado e assinar os tais papeis.

Mas o imponderável aconteceu e o bem bebido Alfredo, entre a enfermaria e o edifício do comando, dá-se de frente com o até ali “benfeitor”. Levou um ralho a que os vapores do álcool fizeram responder assim mais ao menos:
- Raios parta o homem, que não larga da mão!
- O que é que disseste? Queres ver que levas já nas trombas?

O Alfredo embalado como estava e com voz distorcida responde:
- Dê-me sim, que logo vê o que lhe acontece!

O tenente ficou estarrecido. Era impensável o que acabara de ouvir do seu protegido. Desta vez, o nosso camarada tinha transposto a barreira do inaceitável até de um pai para filho.
A coisa ia acabar mal e logo chamamos o Alfredo à razão, que entre os vapores do álcool começou a aperceber-se do que tinha acabado de fazer. No dia seguinte partiríamos logo cedo para o Xime e urgia que o “estofa” arranjasse forma de pedir desculpa ao tenente, atribuindo que não sabia com quem estava a falar, pois para além dos copos, ali entre as viaturas carregadas estava escuro, etc. etc. etc.
Escapou à justa. O tenente não deve ter engolido as desculpas esfarrapadas e assim se acabou a amizade, bem como a entrada do Alfredo para a GNR ou congénere Guarda-Fiscal.
Parece que ainda vejo o Alfredo a contar isto imitando o nosso tenente e a fazer-nos rir até às lágrimas.

Compreende-se que seja uma injustiça ter perdido o dom da fala, ver os esforços que ele faz para nos comunicar, a coisa mais básica e insignificante sem o conseguir.
Este ano não foi ao encontro pois no ano passado emocionou-se de tal forma, que o médico desaconselhou a sua participação no deste ano. Para o ano talvez, e faço votos que ele esteja melhor para juntos recordarmos as peripécias de que ele era pródigo.

Um abraço
JA

 Drs. Pereira Coelho e Rui Vieira Coelho

 Enfermeiro Catroga e Ussumane Baldé

Momento do encontro dos dois grandes médicos do 3872
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Nota do editor

Último poste da série de 14 de Maio de 2016 Guiné 63/74 - P16086: Convívios (746): 22.ª edição (2016): Pessoal de Bambadinca, 1968/71 (CCS/BCAÇ 2852, CCAÇ 12, Pel Rec Daimler 2046, Pel Rec Daimler 2206, Pel Caç Nat 63, e outras subunidades adidas) - Coimbra, 28 de Maio de 2016 (António Damas Murta, ex-1.º Cabo Op Cripto, CCAÇ 12, 1969/71)

2 comentários:

Luís Dias disse...

Caros Camaradas

Foi uma honra ter como médicos do nosso batalhão, o Professor-doutor Pereira Coelho, o homem do Bebé-proveta, como é conhecido e também o Dr. Rui Coelho, um cirurgião de renome, da cidade do Porto. Além de excelentes profissionais, são pessoas de grande humanismo e de grande carácter, que deixaram saudades, quer em Bafatá (onde Pereira Coelho chegou a ser director do Hospital), quer nas tabancas do batalhão, onde granjearam grande estima na população.
Um abraço para estes queridos amigos e para os promotores do convívio, ao juntarem estes dois médicos.

Luís Dias
Ex-Alf Milº da CCAÇ3491/BCAÇ3872

Tabanca Grande disse...

Parabéns, malta, do BCAÇ 3872 (Galomaro, 1971/74) por mais um convívio e pelas alegrias dos reencontros!...

E parabéns ao Juvenal, que é um reconhecido mestre da escrita, e um grande contador de histórias, talento de que nem todos se podem gabar!... Gostei de ler a tua reportagem, mas aqui há um aponta de melancolia: todos os anos somos menos, uns porque vão morrendo, outros porque vão adoecendo, e outros ainda porque se sentem sós e tristes, à medida que vão envelhecendo...

Recordo-me do meu pai que, durante anos e anos, ia sempre fielmente às Caldas da Raínha, ao RI 5, ao encontro anual do seu batalhão expedicionário, que esteve no Mindelo, São Vicente, Cabo Verde, entre 1941 e 1943... Até que um dia, os sobrevvientes contavam-se pelos dedos de uma mão ou duas mãos... Deixou de haver quórum... Para o meu pai, ,um dos útimo resistentes, foi como que uma antecipação da morte... Aqueles camaradas faziam parte inntegrante da sua juventude, da sua vida, das suas memórias... Isso vai acontecer connosco... Ab. Luis Graçpa