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segunda-feira, 13 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28179: Humor de caserna (279): Uff, primeiro que minha voz chegasse, dos CTT de Bambadinca, na Spinolândia, à Lourinhã, a 4 mil km de distância!...(Luís Graça)

















Prompting e orientação editorial: Luís Graça
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA:
Google (2026). Gemini (versão de 13 de julho de 2026) [Grande modelo de linguagem].



1. A maior parte de nós (talvez 4 em cada 5) nunca telefonou para casa, quando esteve ao serviço da Pátria na Guiné... Telefonar era um luxo. A maior parte da malta, sobretudo os da "província",  ainda não tinha telefónico fixo em casa... E depois era um exercício "penoso e moroso", além de caro, tentar ligar do mato para Portugal... Para um SOS, mais valia um telegrama ou até uma aerograma: era muito mais barato!" (*).

Em nunca sequer tentei ligar em 22 meses de "desterro". Mas estou a tentar reconstituir o meu "circuito de voz", se por acaso tivesse querido telefonar dos CTT de Bambadinca para os meus pais na Lourinhã... 

Com a ajuda da IA, e depois de muitas "calinadas" de parte a parte, lá chegámos a esta BD  que resulta de várias versões, colagens e emendas... A IA nunca contou com a sabotagem dos postos telegráficos por parte do partido do senhor engenheiro Amílcar Cabral, que era agrónomo mas devia perceber alguma coisa de telegrafia e telefonia com fios (de cobre), proque os mandou cortar... Eu, pela minha parte, que não sou engenheiro nem muito menos percebo de transmissões, estava piamente convencido de que em 1969 havia cabos submarinos  a ligar a Guiné à nossa terra (à beira-mar plantada). Fiz confusão, o meu pai é que foi para o Mindelo, Cabo Verde, em 1941, para guardar os cabos submarinos...(**)

Em 1969, não havia nenhum cabo submarino ligado à Guiné, nem telegráfico, nem muito menos coaxial.

O cabo submarino que existia em Bolama,  lançado em 1893 pela companhia britânica West African Telegraph Company,já tinha sido abandonado e desativado décadas antes (o tráfego comercial de cabos telegráficos para aquela zona da costa africana foi sendo progressivamente desligado à medida que as estações de rádio entraram em cena na primeira metade do século XX). E cabos coaxiais submarinos na Guiné?|... Nunca existiram até ao fim da guerra.

O circuito histórico exato de 1969 era o seguinte: as comunicações de Bambadinca para a Lourinhã dependiam a 100% da via aérea (rádio) na sua primeira e mais longa etapa.

O verdadeiro percurso daquela chamada era este:

~
A antena de rádio mais alta de Bambadinca, c. 1969/70. Vista aérea
Foto: Humbertio Reis / Arquivo do Blogue Luís Graça
& Camaradas da Guiné
i)  O salto local (Bambadinca ➔ Bissau)


Como os postes telegráficos da rede civil terrestre tinham sido cortados e sabotados pelo PAIGC logo no início do conflito, o posto dos CTT de Bambadinca dependia de um posto emissor de rádio HF (instalado no quartel, dentro do perímetro de arame farpado, pior razóes de segurança)

A minha voz saía de Bambadinca pelo éter e era captada em Bissau pela estação central dos CTT.




(ii) O grande salto transatlântico (Bissau ➔ Lisboa via Rádio Marconi)

Aqui entra  a  tecnologia da época. A central de Bissau não injetava nada num cabo submarino. O sinal era retransmitido por potentes emissores de onda curta (HF) da Companhia Portuguesa Rádio Marconi (CPRM) instalados na Guiné.

A minha voz viajava por propagação ionosférica;  as ondas de rádio subiam, batiam na ionosfera (a camada alta da atmosfera), faziam ricochete e voltavam a descer, cruzando os 4 mil quilómetros de distância em frações de segundo até serem captadas pelas gigantescas antenas de receção da Marconi em Portugal (como a mítica Estação de Receção de Alfragide ou de Vendas Novas).

(iii) A rede terrestre (Lisboa ➔ Lourinhã)

Só quando o sinal de rádio vindo de Bissau aterrava nas antenas da Marconi em Portugal Continental é que ele era transformado em sinal elétrico de linha telefónica:

A Marconi passava a chamada para a rede dos CTT em Lisboa.

A partir de Lisboa, a chamada seguia pelos cabos aéreos de cobre ou feixes hertzianos terrestres nacionais, subindo pela Estremadura até chegar à central manual dos CTT da Lourinhã, onde a telefonista finalmente completava a ligação para o destinatário.

2. Porque é que era tão difícil e instável a ligação Guiné-Bportugal ?   Uma verdadeira "lotaria"!

Não havia a estabilidade de um cabo submarino debaixo de água. Dependia-se inteiramente do estado do tempo e da atividade solar. Se a ionosfera estivesse instável, a chamada "caía", o ruído estático tapava a voz e os operadores tinham de ficar horas à espera que a frequência "abrisse".

Havia pouquíssimos canais de rádio disponíveis na Marconi para o tráfego civil/militar simultâneo, o que gerava as célebres listas de espera de dias nos postos dos CTT do mato.

Afinal, o único fio que nos unia, a nós militares,  à metrópole era, ironicamente, invisível e passava pelas ondas de rádio (e não por nenhum cabo submarino, como alguns de nós pensávamos).

(Pesquisa: LG + Fundação Portuguesa das Comunicações + IA (Gemini / Google)
Condensaçáo, revisáo / fixação de texto, negritos: LG)

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Notas do editor LG.:

(*) Último poste da série > 4 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28155: Humor de caserna (278): Na Spinolândia, namorar não era proibido... o preço da chamada telefónica para a metrópole é que era proibitivo!... Que o diga o Humberto Reis, o nosso "cartógrafo" e "ranger" (que está agora no "estaleiro", e a quem desejamos rápida recuperação)

(**) Em 1941,  diz a IA/Google, os cabos submarinos amarrados na zona do Mindelo (ilha de São Vicente, Cabo Verde) pertenciam a duas empresas principais: a Western Telegraph Company (de capital britânico) e a Italcable (de capital italiano). 

A ilha assumiu grande importância geoestratégica durante a Segunda Guerra Mundial devido à sua infraestrutura de comunicações: (i) Cabos Britânicos: eram os mais antigos e numerosos, sendo perados pela Western Telegraph Company: aziam as conexões cruciais do Império Britânico ligando Portugal continental (Carcavelos), Madeira, Brasil, e a costa ocidental de África;  (ii) Cabos Italianos: operados pela Italcable, cabos ligavam a Itália à América do Sul, passando por Cabo Verde (com amarração na praia da Matiota).

Guiné 61/74 - P28178: Parabéns a você (2504): António Tavares, ex-Fur Mil SAM da CCS/BCAÇ 2912 (Galomaro, 1970/72)

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Nota do editor

Último post da série de 12 de Julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28175: Parabéns a você (2503): Sarg-Mor Paraquedista Reformado António Dâmaso das CCP 121 e 123/BCP12 (Guiné, 1969/70 e 1972/74)

domingo, 12 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28177: Notas de leitura (1937): "3x44: Abel e Caim em Contrapé", de António Carvalho (Porto: eVida, 2026, 287 pp.): "O gerúndio famoso sempre existiu no português do Brasil e, pasmem, foi nos navios, diretamente do português europeu para a América." (Angélica Lima, escritora e ediucadora brasileira)


Angélica Lima,  Fonte: Linkedin

1. Texto da doutora Angélica Lima, lido por ela na sessão de apresentação do livro do nosso camarada António Carvalho, ontem em Medas, Gondomar (*) (cortesia da escritora,  brasileira, cuja foto, do Linkedin, reproduzimos aqui à direita):


Boa tarde a todas e a todos.


Quero começar agradecendo ao autor, António, pelo generoso convite para estar aqui com vocês neste momento tão especial, que é o nascimento público de um livro.

Agradeço também a confiança ao me permitir ler esta obra antes de sua publicação e ao me convidar para compartilhar algumas impressões de leitura.

Agradeço igualmente a presença de todos os que escolheram participar desta celebração literária, num tempo em que tantas vozes artificializadas disputam diariamente a nossa atenção.

Vivemos cercados por telas, notificações e estímulos constantes. Já existem estudos mostrando que esse excesso tem reduzido a nossa capacidade de concentração, de reflexão e até da criatividade.

Um livro impresso continua a nos oferecer algo cada vez mais raro: silêncio, tempo, autoescuta e reflexão. Mas, sobretudo, continua a nos lembrar da importância de exercitar aquilo que faz de nós essencialmente humanos: a nossa capacidade de pensar, de imaginar, de viajar. E, diferente das máquinas, fazemos isso enquanto lemos.

Esse convite específico me fez perceber que ler um romance e falar sobre ele num lançamento são experiências muito diferentes.

Ler é um encontro íntimo e silencioso entre o livro e o leitor.

Hoje, esse silêncio ganha voz.

Antes de entrar propriamente no romance, gostaria de compartilhar com vocês o lugar de onde falo hoje.

Ao receber o convite para ler este romance antes da publicação e depois, apresentar minhas impressões no dia do lançamento, minha primeira reação foi de surpresa.

Nunca havia participado de uma apresentação de livro como oradora convidada. Isso me deixou, ao mesmo tempo, feliz e consciente da responsabilidade que estava assumindo. Por isso, diante do público, para eu não ter aquele momento de mudez ou daquela tosse, que na verdade é um misto de vergonha e ansiedade, preferi trazer minhas anotações.

Gosto de acreditar que cada romance encontra novos sentidos quando é lido por pessoas diferentes. Um livro deixa de pertencer apenas ao autor quando chega às mãos dos leitores, e cada leitura lhe acrescenta uma nova camada de significado, muitas vezes até diferente daquela que o próprio autor pensou. E o texto vai ganhando outras dimensões.

 O olhar que compartilho hoje é apenas um dos muitos possíveis.

Falo como leitora, mas também a partir de uma circunstância muito particular.

Sou brasileira, paulistana, isto é, nascida em São Paulo – capital, não no interior, como, por exemplo, Santa Rita do Passa Quatro, onde, se nascesse, seria paulista. Se esse livro fosse lançado no Brasil, essa informação seria um motivo de bairrismo. Mas, é apenas uma informação para situar o espaço. Vivo atualmente em Portugal.

De certa forma, essa condição acabou me aproximando do protagonista, Abel, que também realiza uma travessia, embora em sentido inverso ao meu.

Ao acompanhar a sua viagem para o Brasil, procurei não buscar semelhanças nem diferenças entre os dois países. Preferi deixar-me conduzir pelas idiossincrasias que o romance vai revelando: esses pequenos gestos, modos de falar, de sentir, de relembrar e de viver que constroem a identidade de um povo e, ao mesmo tempo, tornam cada personagem única.

Ao longo da leitura, também fui observando como uma mesma língua pode aproximar dois países e, ao mesmo tempo, nos surpreender pelos diferentes sentidos que uma palavra pode assumir de um lado e do outro do Atlântico.

Foi essa travessia, feita por meio da linguagem, da memória e das personagens, que procurei acompanhar o protagonista e suas peripécias ao longo da leitura. Fui tentando perceber como Abel transporta com ele a sua memória, a sua língua, os seus afetos e a sua identidade quando atravessa um oceano e vai viver em outro continente. E fiz essa leitura refletir sobre a minha própria experiência enquanto imigrante.

Então, é desse lugar, ao mesmo tempo próximo e distante, que convido vocês a percorrer comigo algumas páginas deste romance.

Não como crítica literária, porque não sou, nem como especialista, mas simplesmente como uma leitora que teve o privilégio de caminhar por estas páginas antes que elas encontrassem vocês, seus futuros leitores.

Imaginei encontrar um romance que me conduziria pela história. Descobri, porém, que antes da história havia uma língua inteira à minha espera a ser atravessada. Foi logo de cara que percebi: preciso de um companheiro para fazer comigo essa viagem – o dicionário.

Há romances que não se deixam atravessar à pressa; devemos percorrê-los num barco a vapor ou num rabão à vela.

Este romance não se deixou ler rapidamente. Comparo essa leitura, com a chegada numa cidade do Brasil por onde nunca houvesse passado antes. Porque no Brasil é assim: até mesmo para nós que lá nascemos, muitas vezes desconhecemos o modo de falar de uma cidade que fica ao lado ou a cinco mil quilômetros. 

Chegando lá, compreendemos o geral, mas não os pormenores. E essa leitura trouxe a sensação de estar diante de uma grande diversidade de paisagens, cores e linguagens, onde o pormenor ficaria encoberto, se eu não decifrasse os regionalismos, os termos tão interessantes escolhidos por António.

Um dos aspectos que mais me surpreendeu no texto é o fato de o António usar períodos longos, sem cansar, às vezes, numa cadência quase oral e, em alguns momentos, pensei que ele usava os regionalismos semelhantes ao modo que Guimarães Rosa faz em "Grande Sertão Veredas".

A minha travessia foi assim: enquanto Abel conhecia os sabores do Brasil, eu viajava pela cozinha portuguesa.

Enquanto Abel se espantava com a paisagem exótica do Brasil, eu me encantava com a simplicidade e dureza da vida rural em Portugal.

Enquanto Abel aprendia o sotaque de se abrasileirar, como disse o autor, eu mergulhava no dicionário e viajava pela língua portuguesa.

Não porque a leitura fosse inacessível, mas porque o autor recupera um património linguístico extraordinário, fazendo-nos descobrir palavras que, muitas vezes, já desapareceram do nosso uso quotidiano. E palavras que eu realmente nunca tinha ouvido, mesmo morando aqui há quase 10 anos, mesmo sendo filha desse nosso idiomaterno.

Ao longo da leitura, fui percebendo que, com esse vocabulário, em vez de contornar as palavras desconhecidas, eu precisava entrar nelas.

Isto surpreendeu-me: a quantidade de verbetes escolhidos pelo autor que, sozinhos, dão origem a outro livro. No meu manuscrito, marquei mais de 250 termos, palavras, passagens em que eu precisei parar, desembarcar, e só depois, continuar a viagem.

Destaco apenas algumas palavras ou frases:

  • Sair pelas portas fronhas   – essa frase eu fiquei encafifada, fronha para mim é outra coisa;
  • Caminhos de pé posto – que achei muito interessante;
  • Dealbar – fiquei encantada com essa palavra.
Esses são exemplos de palavras lindas e, para mim, completamente desconhecidas.

Sobre as personagens? Vou me ater ao Abel e à Eva.

Abel acaba por abraçar o sonho de ficar rico ou melhorar de vida, por meio do seu trabalho, mas abraça, especificamente, o sonho do seu pai e é levado por ele, ainda muito menino, ao Brasil para assumir funções de homem.

Abel e Eva escondem a sua verdadeira paixão, a ambição. Mas essencialmente, a luta contra a miséria.

Sobre a personalidade de cada um, conforme vocês vão lendo a história, poderão refletir se Abel representa o homem do século passado, mas que tem nele, uma espécie de mofo que ainda está impregnado nas sociedades até hoje. 

Conforme a narrativa cresce, as personagens mostram a sua verdadeira cara. Eu gostei muito do Abel, mas, no fundo, eu tenho grande compaixão pela Eva e pelo que ela representa, por isso escolhi essas duas passagens sobre as mulheres desse romance, me perdoem os ouvintes, mas vou ser breve:

(...) "A repenicada moça do Porto não era propriamente uma daquelas carquejeiras de mãos encortiçadas, que durante anos e anos subiam 
ajoujadas sob feixes de carqueja e queiró de três a quatro arrobas, a Calçada da Corticeira, para alimento dos fornos das padarias da parte alta da cidade. Eva tinha um estatuto social mais elevado do que o dessas mulheres calçadas de socos e pele tisnada a subir a ziguezaguear o calvário de duzentos metros que pareciam nunca mais acabar. Mais do que um calvário (que me perdoem os cristãos mais sensíveis) os itinerários que estas mulheres (algumas com pouco mais de dez anos) faziam até à lonjura de Paranhos e Carvalhido, eram autênticas vias sacra."! (...)


Ou essa:

(...) "Enquanto passava ligeira e empertigada, com estes sinais distintivos, envaidecida pela concupiscência dos olhares masculinos, as outras, atarracadas sob o peso dos desmedidos feixes, mostravam-se alquebradas, na postura como na mente, como se aquela tarefa ciclópica durante seis dias da semana, encosta acima, debaixo de carregos maiores que o corpo, em passada lenta, retornando encosta abaixo, de vazio, a pé ligeiro, as tivesse marcado, na pele e na alma, de modo irreversível." (...)

O romance transporta-nos para o espaço descrito, a paisagem é magnífica, tanto de Portugal como do Brasil. Com muitos detalhes que tornam o texto belíssimo. O autor vai contando causos, resgatando fatos históricos e momentos culturais fantásticos. A paisagem, com isso, participa da história.

O tempo que o autor usa, do meu ponto de vista, apesar de parecer linear, é não linear, é simbólico. É uma história contada em camadas, símbolos e memórias. E os detalhes dessas memórias são de uma delicadeza poucas vezes encontrada.

Ao mesmo tempo, não deixa de ser um romance histórico, para além da própria história contida, que se estende por mais de 30 anos. Nela, o tempo cronológico se mistura ao tempo social, psicológico e simbólico, como nessa passagem:

(...) "Por uma alta torre dotada de sinos que se ouvissem no vale mais profundo da freguesia e relógio de grandes algarismos e ponteiros que se divisassem ao longe. Todos os presentes convergiam quanto à prioridade da torre da igreja, que marcaria as horas dos trabalhos nos campos, dos momentos fulcrais dos actos litúrgicos, dos baptismos, comunhões e casamentos, e as desoras dos que morriam." (...)

Entre os símbolos, quero destacar a água que é um símbolo de travessia. A água faz parte da vida de Abel, no Rio Douro, nas travessias pelo mar, e em outras situações que o envolvem, a água aparece como um sinal de vida, de esperança e de tragédia.

Há muitos símbolos e metáforas religiosas, mas só nessa parte, eu gastaria mais de uma hora a falar e o objetivo é o silêncio da leitura.

Entre os temas que aparecem — e são muitos —, vou destacar apenas dois que estão muito na moda. A imigração e as classes sociais, muito bem retratadas no texto, ao pormenor, e um que é o mais importante do meu ponto de vista, a linguagem, como nestas passagens:

(...) "Eram os melhores ideólogos por esses dias o padre, o presidente da junta, o regedor, o professor e os que calçavam sapatos à semana. " (...) 

(...) "Os sapatos que o seu pai encomendara, para esta viagem, a um sapateiro de Emendadas, sobravam-lhe igualmente nos pés, mas assim deveria ser para lhe dar para mais anos." (...)

Essas são passagens sobre sapatos; me remetem à infância e aos causos contados em casa pela minha mãe. “Nas fazendas, havia uma criança que ia à escola com um pé do calçado até gastar; depois, usava o outro”.

Há uma passagem que o autor relata sobre a língua portuguesa abrasileirada e isso é um dos destaques que eu também quis trazer:

(...) "Assim, sempre que confrontado com gente graúda, evidenciava, no modo como temperava as palavras e insistia no uso do gerúndio, o contributo que recebera de catorze anos passados numa fazenda de café, a abraseileirar-se." (...)

O gerúndio famoso sempre existiu no português do Brasil e,  pasmem, foi nos navios, diretamente do português europeu para a América. Como não sou linguista de formação, como boa brasileira, achei curioso recordar que o gerúndio, tantas vezes apontado como uma marca do português do Brasil, não nasceu no Brasil.

 Trata-se de uma construção antiga da própria língua portuguesa, preservada entre nós brasileiros, enquanto Portugal foi seguindo outro caminho. Foi uma mudança gradual na fala portuguesa, mas foi o Brasil que manteve a originalidade da língua levada para lá.

E, entrando nos finalmentes, o que ficou em mim talvez seja o mais importante.

Para mim, este romance não fala apenas das travessias entre Portugal e o Brasil, entre o Atlântico e o Douro. Fala também das travessias humanas: entre a pobreza e a esperança, entre o preconceito e a dignidade, entre as escolhas que transformam uma vida e aquelas que acabam por cristalizar destinos.

Quando fechei o livro, algumas personagens permaneceram comigo. Eva, sem dúvida. Mas a personagem que mais me acompanha é Chiquinha. Talvez porque ela traga uma leveza inesperada para uma realidade tão dura. Sua presença parece lembrar que, mesmo nos períodos mais difíceis da nossa história, a humanidade nunca deixou de encontrar espaços de afeto, generosidade e esperança.

Ao acompanhar essa personagem, fui pensando que olhar para a história não significa apenas procurar culpados ou inocentes. Significa, antes de tudo, reconhecer que ela foi feita por seres humanos, com as suas grandezas e as suas misérias. 

Só quando temos coragem de reconhecer também as partes menos nobres da nossa história é que podemos construir uma sociedade mais justa, mais consciente e mais humana. É isso que o livro traz.

Há uma imagem que continua a regressar à minha memória: a chegada de Abel pela Serra do Mar. Enquanto lia essa passagem, revi-me adolescente, fazendo aquele mesmo percurso de trem em direção a Santos, num fim de semana. O trem pendurado pelos cabos, passando sobre o abismo, onde só se ouvia o barulho do trem. Foi um daqueles momentos em que a literatura nos devolve aos tempos da nossa própria vida.

E talvez tenha sido essa a maior transformação que esta leitura provocou em mim. Descobri que, neste romance, cada palavra carregava algo para além do seu significado imediato. Cada escolha do autor guardava uma memória, um símbolo, uma intenção. Muitas vezes eu me perguntava: Por que esta palavra e não outra? E, quando ia procurar o seu significado, descobria que havia muito mais por trás dela do que imaginava e ficava encantada.

O meu diálogo com este romance nunca foi uma análise nem uma crítica. Foi uma conversa, uma experiência.

Este livro levou-me de volta ao Brasil, à minha infância, ao colchão de palha, às quaresmeiras, ao Manacá-da-serra, à Serra do Mar, às viagens de trem para Santos, não ao Porto, à Praia Grande. A galinha com farofa. O sanduíche de pão Pullman com queijo e presunto. O ‘Guaraná’ sem gelo. Os farofeiros. Nome dado aos pobres que frequentavam as praias, mas não tinham dinheiro para almoçar ou lanchar nos restaurantes. 

É para isso que servem as histórias: para nos fazer encontrar, nas vidas dos outros, pedaços da nossa própria vida.

Por isso, termino dizendo que há romances que não se deixam atravessar com pressa. É preciso caminhar ronceiramente dentro deles. E foi exatamente essa a experiência que este romance me proporcionou.


António Carvalho: integra a Tabanca Grande
 desde 13/9/2008, e tem cerca de uma centena
 de referências no nosso blogue




Não posso revelar mais do que o próprio livro vai oferecer ao longo das suas páginas. Posso apenas dizer que esta leitura foi, para mim, uma verdadeira travessia pela memória e pela condição humana e principalmente, pela riqueza da nossa língua portuguesa, nosso tão amado idiomaterno.

Tenho certeza de que cada leitor encontrará também o seu próprio caminho dentro desta narrativa. Descobrirá as suas personagens preferidas, as palavras que mais o tocarão e fará, à sua maneira, 
 a sua própria travessia.

Parabéns ao António por esta obra e muito obrigada a todos pela atenção.

Obrigada, Angélica Lima.

Apoio estratégico para projetos acadêmicos e literários
Escritora|Ghostwriter|Ilustrações
Especialista em artigos, teses, dissertações e livros.
Ilustrações |  Palavras  | Sonhos (...)
https://lattes.cnpq.br/1870298303464362

(Revisão / fixação de texto: LG)

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Guiné 61/74 - P28176: Notas de leitura (1936): "3x44: Abel e Caim em Contrapé", de António Carvalho (Porto: eVida, 2026, 287 pp.): dois continentes, dois destinos (Luís Graça)


Foto nº 1


Foto nº 2

 

Foto nº 3


Foto nº 4


Foto nº 5

Gondomar > Medas > Fundação Hermínia Rei Vilar > 11 de julho de 2026 > 15h00 > Sessão de apresentação do livro "3x44: Abel e Caim em Contrapé", editado pela eVida, chancela do jornal Vida Económica. O romance tem 287 pp.


1. Com a devida vénia, reproduzimos estas fotos (sem legenda, numeradas por nós, na nº 1 o autor e a esposa Maria de Fátima) e este apontamento da sessão de lançamento do livro do António Carvalho. Fonte: Página do Facebook da Vida Económica (11 de julho de 2026, 15h00):


Uma tarde de encontros, partilha e celebração da literatura.

A apresentação de “3x44 – Abel e Caim em Contrapé”, a mais recente obra de António Carvalho, reuniu familiares, amigos, leitores e convidados num momento marcado pela emoção, pelas memórias e pelo prazer de partilhar histórias.

O nosso agradecimento a todos os que estiveram presentes e contribuíram para o sucesso desta sessão, bem como ao Grupo Vida Económica, através da sua chancela eVida, pelo apoio e pela aposta na divulgação da literatura portuguesa.

Que este livro siga agora o seu percurso, encontrando novos leitores e inspirando novas reflexões.

Obrigado por fazerem parte deste momento especial.



2. Texto que mandei ao António para ser lido na sessão de apresentação do seu romance "3x44: Abel e Caim em Contrapé" (Porto: eVida, 2026), que se realizou ontem, à tarde, na quinta da Fundação Hermínia Vilar Rodrigues, em Medas, Gondomar.

António, começo por saudar-te, a ti, que és o artista principal desta sessão literária, o motivo afinal por que estamos aqui.

E saudar todos os demais presentes, a começar pelos donos da casa, a Fundação Hermínia Vilar Ribeiro, a par da coapresentadora, a doutora Angélica Lima, e do Jorge Castro Guedes, encenador, mestre em Artes Cénicas pela Universidade, a NOVA de Lisboa, que se voluntariou
para me emprestar a sua voz (e a quem fico, desde já, muito
reconhecido, não podendo eu estar, aqui, fisicamente presente por razões imperiosas).

António (e amável audiência): eu, por mim, dava uma.. "aula de hora e meia" para falar deste teu segundo livro... Que li de fio a pavio, em formato digital, na esplanada da praia, tentando fugir da canícula que nos castiga por estes dias.

Li o teu livro, deliciado, e suspenso do final, empolgante e genial. E, todavia, não é um "thriller".

Não, não quero nem posso abusar da paciência dos teus convidados e teus futuros leitores. Tenho sempre presente a tripla obrigação do apresentador de um livro:

(i) dar a conhecer o autor/produtor e o livro/produto;

(ii) suscitar curiosidade, interesse, empatia no leitor, através de uma sinopse do livro;

(iii) levá-lo, por fim a comprar o livro, a lê-lo, a discuti-lo, a promovê-lo, a partilhá-lo com outros...

Como mandam as boas regras do marketing (nas áreas do social e do cultural), tenho de ser claro, conciso, preciso e... entusiástico.

Vou-te apresentar o livro, não como "académico", mas como amigo, ex-camarada de armas e até confidente (tive o privilégio de acompanhar um pouco, à distância, o "making of" do teu livro...). E, não preciso de to lembrar, fiz-te a apresentação do teu primeiro livro, "Um caminho de quatro passos", em 2021, em Fânzeres, na Tabanca dos Melros...

Deixem-me então desenvolver três ou quatro ideias sobre o autor e o seu livro, que cruza dois continentes e dois destinos. Há um primeiro leitor, português, que sou eu, e uma segunda leitora, brasileira, que é a Angélica Lima. Julgo que fomos os primeiros a ter o privilégio de ler o manuscrito do livro em primeira mão.

Trata-se, pois, de um exercício a quatro mãos, que todavia não foi ensaiado, nem sequer à distância.

O romance "3 x 44 – Abel e Caim em Contrapé" conta a história de um homem comum, transformado pelas grandes migrações e pelas circunstâncias do seu tempo.

Abel, natural de Emendadas, é enviado ainda criança, em 1909, para uma fazenda de café no interior do Estado de São Paulo, onde cresce, trabalha, apaixona-se pela primeira vez por uma mulher, ao mesmo tempo que se deixa tocar e marcar profundamente pelo Brasil.

É aí que surge Chiquinha, uma jovem afro-descendente, determinada, inteligente e independente. O amor entre ambos nasce naturalmente, mas a vida (e as opções de vida de cada um) acaba por separá-los.

Quinze anos depois, Abel regressa a Portugal, em 1924, convencido de que um dia voltará ao Brasil. Nunca mais voltará.

Tema exaustivamente glosado na literatura portuguesa dos séc. XIX e XX, é um "brasileiro de torna-viagem" que não já não é inteiramente português nem inteiramente brasileiro, é um homem em contrapé, com duas identidades em conflito.

A Chiquinha, essa, permanecerá na sua terra, fiel ao seu próprio projeto de vida. Contudo, apesar da distância e dos muitos anos de separação, continua a habitar a memória mais íntima de Abel, sobretudo nos momentos decisivos e dramáticos da sua existência.

De regresso à aldeia, Abel torna-se um próspero negociante de madeira, lenha e carvão, recursos então escassos e muito procurados. Estamos em plena II Guerra Mundial e no auge do Estado Novo.

O protagonista desta história casa, enviúva, cria os dois filhos pequenos e procura reconstruir a sua vida conjugal e familiar.

Mas o sucesso desperta invejas. É então que ganha relevo a figura de Caim, vizinho consumido pelo ressentimento, cuja hostilidade cresce sem causa proporcional aos gestos de generosidade que Abel lhe dispensara.

O contraste entre os dois homens vai-se adensando até desembocar numa tragédia anunciada logo desde as primeiras páginas.

O verdadeiro protagonista é, contudo, Abel. O autor afirma- o expressamente na Introdução. Chiquinha não é apenas a figura feminina da história. É o grande amor da juventude, a memória permanente que acompanha Abel até ao fim da vida, embora os dois nunca mais se reencontrem.

Chiquinha simboliza também a resistência, a educação como arma e a libertação dos oprimidos. Depois de aprender a ler, na fazenda, com Abel, torna-se professora e ajuda os outros a libertarem-se das trevas da ignorância e das grilhetas da opressão.

Caim é importante, mas sobretudo como contraponto moral e dramático. Representa a inveja, o ressentimento e a violência que acabarão por conduzir à morte de ambos.

Não conto o desfecho: comprem e leiam o livro.

Mais do que um romance de ação, esta é uma grande narrativa sobre a emigração portuguesa para o Brasil, a vida rural durante o Estado Novo, os efeitos da Segunda Guerra Mundial na economia portuguesa, a figura do brasileiro torna-viagem, os afetos, a memória e a condição humana.

O título remete para o episódio bíblico de Abel e Caim, mas António Carvalho evita a armadilha das simplificações morais: as suas personagens não são arquétipos, são profundamente humanas, moldadas tanto pelas suas escolhas como pelas circunstâncias da História.

O resultado é uma saga familiar e social em que o amor, a ambição, a inveja, a liberdade e o destino caminham constantemente... em contrapé.

Lógica e cronologicamente, podíamos dividir esta saga em três atos:
 
Ato I - A partida de Abel para o Brasil e a sua formação
(1909–1924);

Ato II - O regresso (contrariado) a Emendadas e a vida em Portugal (1924–1944);

Ato III - Chiquinha, a heroína do Brasil (1924– 1980 +) e o "ajuste de contas no além";.

O(s) diálogo(s) dos mortos no cemitério (Ato III) é(são) momento(s) de realismo mágico que eleva o romance a um patamar filosófico e universal.

"3x44! pode parecer um título cabalístico. Caberá ao autor (ou ao leitor) descodificá-lo. Não vou roubar esse prazer a ninguém. Direi apenas que é o jogo dos números e dos destinos que se cruzam e descruzam.

Abel e Caim são como dois lados da mesma moeda:

  • Abel, o sonhador que falha (regressa a Portugal sem fortuna, morre traído);
  • Caim o invejoso que se destrói (suicida-se, condenado pela sociedade);
  • E há ainda a terceira personagem, forte, poderosa, feminina, a Chiquinha: a sobrevivente que vence (liberta-se das grilhetas, dos preconceitos, das ameaças, ensina, educa, transforma o mundo à sua volta).
Chiquinha, a filha de uma ex-escravizada, Abel ensina-a a ler, é a sua primeira aluna e o seu primeiro grande (e único) amor. A relação entre eles é pura, platónica e transformadora: ele abre-lhe as portas do conhecimento; ela abre-lhe os olhos para a injustiça social (quilombos, escravidão, segregação social e racial).

Recorde-se que a abolição da escravatura no Brasil "de jure" mas não "de facto" é tardia: 1888 (Lei Áurea).

O António não inventa um mundo. Parte de uma velha história que ouviu contar em criança, na sua terra. Quiçá assustado, ou até aterrorizado.

Como acontece tantas vezes na literatura, um "fait-divers" quase esquecido transforma-se em romance. É isso que faz a boa literatura: salva do esquecimento aquilo que parecia perdido no sótão da memória coletiva.

Não é um  "thriller"muito menos um romance policial. É verdade que existe um crime. Mas o assassínio de Abel é apenas o motor da narrativa. Caim teria que ser logo o suspeito, como na história bíblica, e onde, de resto, não falta uma Eva, nada e criada nas "ilhas" do Porto.

O verdadeiro protagonista é outro. É coletivo. É uma comunidade. É Medas. É o Douro e sua faina fluvial. É a emigração para o Brasil. É o Estado Novo. É a vida rural. É a dureza do trabalho. São as carquejeiras. É o mundo dos "brasileiros de torna-viagem" É uma civilização inteira que desapareceu.

António Carvalho escreve contra a "vala comum do esquecimento". E esse é um traço comum entre mim e o António. Tenho defendido e reafirmado, há mais de 20 anos a esta parte, no blogue "Luís Graça & Camaradas da Guiné" o nosso direito e dever de memória como antigos
combatentes. Procuramos preservar vidas, pessoas, lugares, geografias emocionais, episódios de tropa e de guerra etc., que a História com H grande quase sempre deixa para trás.

Só que agora a memória, que é matéria-prima do António, já não é apenas autobiográfica. É coletiva. É quase etnográfica. É uma homenagem aos homens e mulheres anónimos que fizeram aquele mundo.

O António é, antes de tudo, um contador de histórias. Não pertence à escola da escrita minimalista. Escreve com gosto. Demora-se. Delonga-se. Descreve. Deixa um parágrafo inteiro ocupar o espaço de uma página. Deixa a ação espraiar como as águas do seu Douro. Ouve-se a oralidade da conversa a fluir junto ao lume, com as panelas de ferro de três pés.

Essa oralidade é uma marca muito própria. Que já vem do primeiro livro, Não deve ser confundida com excesso. Não é defeito, é uma opção estética. É uma forma de preservar a maneira de falar e de contar do mundo rural onde tem ele tem raízes telúricas, genéticas, socioecológicas, culturais.

Há escritores que inventam lugares imaginários. António Carvalho fez o contrário. Pegou numa pequena freguesia do concelho de Gondomar, a sua terra natal, e mostrou que nela cabem todos os grandes temas da literatura de todos os tempos: a infância, a emigração, o amor, a inveja, a ambição, a morte, a memória, o destino. Mas também a
liberdade e a dignidade do ser humano.

Quem ler "3x44 Abel e Caim em Contrapé" não encontrará apenas um crime por deslindar. Encontrará um país que já não existe, mas que continua vivo enquanto houver quem o saiba contar ou recriar.

Nesse aspeto, lembrou-me, guardadas todas as distâncias, alguns dos nomes grandes da literatura portuguesa dos últimos dois séculos, do romantismo de meados do séc. XIX ao neorrealismo de meados do séc. XX: Camilo Castelo Branco, Júlio Dinis, Eça de Queiroz, Miguel Torga, José Rodrigues Miguéis, Ferreira de Castro, Alves Redol, etc.

Em todos eles, está presente a figura do emigrante, e nomeadamente o "brasileiro de torna-viagem", o drama da emigração, o retorno, a crise de identidade...

Creio que a grande força deste romance não reside apenas na história que conta, mas sobretudo na forma como a conta.

Antes de mais, trata-se de uma verdadeira saga. A vida de Abel atravessa dois continentes, o Velho e o Novo Mundo, Portugal e o Brasil, e quase meio século de História.

A narrativa acompanha o percurso de um homem vulgar, sem nunca o transformar num herói que, segundo a mitologia grega, é sempre mais do que um homem, e menos que um deus. É precisamente essa condição de homem comum que o torna tão próximo de nós, leitores.

Um segundo aspeto que merece destaque, é a extraordinária reconstituição histórica e social.

O autor não fala como sociólogo, antropólogo, psicólogo ou historiador,  revela, isso sim, uma grande sensibilidade sociocultural e um conhecimento profundo, empírico, do mundo rural português da primeira metade do século XX: os trabalhos agrícolas, a navegação no Douro, o comércio das lenhas e do carvão, a emigração para o Brasil, as formas de falar, de trabalhar, de namorar, de casar, de negociar, de
rezar e até de morrer.

Nada disto aparece como simples "décor" ou cenário: faz parte da própria respiração da narrativa. E é aí que ele se sente nas suas sete quintas e mostra o seu talento literário.

Ao mesmo tempo, o romance mostra como a História interfere silenciosamente na vida de todos nós. A Segunda Guerra Mundial, o Estado Novo, o racionamento, as restrições económicas, as viagens transatlânticas, os ciclos económicos, os mecanismos de controlo do regime ( da censura à polícia política), etc., surgem sempre através das consequências concretas que produzem no quotidiano das personagens. Mais: com o autor evitar ou recusar cair no
fácil registo panfletário.

Outro elemento particularmente conseguido é a construção psicológica das personagens.

Abel é um homem empreendedor, trabalhador e generoso, mas também vulnerável, emocionalmente frágil, preso às recordações, às perdas e aos arrependimentos.

Chiquinha representa, por seu turno, muito mais do que um amor de adolescência e juventude: é uma presença permanente na memória de Abel, quase um ideal de vida que o persegue até à morte. E até depois da morte. O diálogo "post mortem" com a Chiquinha é outra página de
antologia.

Já Caim não é apenas o "mau da fita". É uma personagem dominada pela inveja, pela pobreza, pelo ressentimento e pelas frustrações acumuladas, mostrando como sentimentos aparentemente pequenos podem crescer até adquirirem a força devastadora de um vulcão assassino.

Gostei também da utilização discreta, mas muito eficaz, do simbolismo bíblico. Os nomes Abel e Caim remetem inevitavelmente para o primeiro fratricídio da nossa tradição judaico-cristã.

Contudo, António Carvalho não tem a veleidade de reescrever esse episódio da Bíblia (quase fundacional da moral judaico-cristã). Serve-se desses nomes (a que há a acrescentar a Eva) para propor uma reflexão sobre a natureza humana, mostrando que o bem e o mal não
aparecem em estado puro, nem são o verso e o reverso da mesma medalha, mas estão misturados nas circunstâncias, nas escolhas e nos acasos da vida, enquanto jogo de luz e sombra.

Merece igualmente destaque a linguagem e o estilo literário. O autor escreve num português rico, elegante e profundamente expressivo, com uso da metáfora e outros recursos estilísticos, recuperando um património lexical rural que hoje quase desapareceu, ou ainda não foi grafado pelos nossos lexicógrafos.

Muitas páginas têm um evidente sabor etnográfico, sem perderem fluidez narrativa. Sente-se que há um enorme trabalho de investigação, mas nunca se tem a impressão de estar a ler um pachorrento tratado histórico. O conhecimento está completamente integrado na ficção.

E que dizer do ritmo narrativo ? O romance alterna momentos de descrição demorada, quase contemplativa, com episódios de grande intensidade dramática. Essa alternância permite ao leitor respirar, conhecer melhor as personagens e compreender o mundo em que vivem antes de ser confrontado com os acontecimentos decisivos.

Sem querer nem poder ser exaustivo, direi que este livro tem também o mérito de nos deixar uma ideia simples, mas profundamente humana: cada vida resulta de uma mistura de vontade própria, circunstâncias, encontros, desencontros e acaso(s). Ninguém constrói sozinho o seu destino. Todos somos, ao mesmo tempo, atores e personagens da nossa própria história. Nós e a nossa circunstância.

É um romance que eu li, antes de mais, pelo prazer da narrativa. E que vou reler, agora em papel e de lápis na mão. E esse é seguramente um dos melhores elogios que se pode fazer a um jovem autor de 76 anos: o seu segundo livro, afinal o seu primeiro romance, permanece connosco depois da última página, porque nos leva a pensar na memória, no tempo, na emigração, no amor, na inveja e na fragilidade da condição humana e na sempre inacabada luta pela liberdade e felicidade.

Quero terminar com uma breve nota. Este romance começa no Brasil, passa pelo Brasil e regressa ao Brasil através da memória. E do Brasil falará, muito melhor do que eu,  a Angélica Lima a quem vou passar a palavra. Mas as suas raízes mergulham profundamente nesta margem do Atlântico, e do rio Douro. O autor não idealiza, nem um, Portugal onde nasceu, nem outro, o Brasil onde o Abel poderia ter sido livre e feliz.

Há um Portugal inteiro dentro destas páginas:
  • o Douro dos barcos, das marés e das inundações;
  •  a aldeia de Emendadas, com os seus lavradores (cuja riqueza se mede pelo número de juntas de bois, carros de milho, sacas de batata e pipas de vinho), com os seus jornaleiros, cabaneiros, mineiros, carquejeiras, barqueiros;
  • a cidade do Porto, a cidade grande, e o porto de Leixões, cais de partidas e regressos, ou seja, fábrica de histórias;
  • o Estado Novo, sentido não através dos discursos oficiais, mas através da vida concreta das pessoas.
É esse Portugal popular que António Carvalho recria com uma impressionante riqueza de pormenores e grande talento literário. O leitor não encontra apenas personagens: encontra modos de viver, de trabalhar, de falar, de amar e de sofrer que pertencem à memória coletiva de várias gerações.

É sobretudo esse registo que me toca mais, tanto mais que não conheço o Brasil. Ao longo da leitura (penosa, porque quase sempre feita através do pequeno ecrã do telemóvel à beira-mar), tive todavia a sensação de não estar apenas perante um romance, mas perante um vasto fresco humano, onde a ficção e a memória histórica caminham lado a lado.

Gostaria, por isso, de terminar lendo um pequeno excerto situado precisamente neste universo português, onde se percebe bem a qualidade da escrita do autor e a extraordinária capacidade de recriar uma época e um mundo que já desapareceram, mas que continuam vivos graças à literatura. E nada melhor para o ler do que através a voz de um homem do teatro:

(...) Costumavam as mães, nos anos cinquenta do século passado, antes do cumprimento da norma obrigatória da missa do domingo, apressadamente, atamancar alguns padre-nossos e ave-marias, no cemitério de Emendadas, adjacente à Igreja Paroquial.

Quedavam-se frente a cada campa onde morasse familiar benquisto, não se esquecendo nem dos avós nem dos bisavós, muito menos dos pais e irmãos. Detinham-se por mais tempo defronte da sepultura de algum filho pequeno que não tivesse sobrevivido a doença sem médico ou epidemia sem cura. Então, quando acontecia, por mero adrego,
passarem pela campa de Caim, com alguns filhos pela mão, usavam dizer-lhes, depois de se assegurarem que não estava ninguém por perto, de modo ciciado:

- Não olheis prali, meus meninos, que está ali enterrado um home ronhe.

Era assim que, reiteradamente, manifestavam o seu repúdio pela presuntiva crueldade daquele morto, personagem secundária deste livro, inumado no canto amaldiçoado do cemitério, sem merecer o benefício da cruz, nem lhe dispensarem um pingo de água benta sobre a cova.

Mas não foi por Caim, sepultado sem missa nem padre, que me atrevi a contar as peripécias desta aventura decorrida em dois continentes. Fi-lo pela memória de Abel, supostamente sua vítima inocente, cujo corpo ali encontrara morada também, a bem poucos metros do outro. (...)

Lourinhã e Alfragide, 9 de julho de 2026, Luís Graça

Guiné 61/74 - P28175: Parabéns a você (2503): Sarg-Mor Paraquedista Ref António Dâmaso da CCP 121 e CCP 123 / BCP 12 (Guiné, 1969/70 e 1972/74)

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Nota do editor

Último post da série de 9 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28165: Parabéns a você (2502): Adriano Moreira, ex-Fur Mil Enfermeiro da CART 2412 (Bigene, Binta, Guidage e Barro, 1968/70)

sábado, 11 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28174: Fichas de unidades (41): CART 2384, "Leões do Norte" (Contuboel, Saliquinhedim / K3, Jumbembém, Farim, 1968/1970)


Guião da CART 2384. Coleção Carlos Coutinho (2009).

1. Temos apenas três referências à CART 2384, subuniddae que não tem nenhum representante na Tabanca Grande, apesar do convite já feito, em 28/2/2026, ao Manuel João Revelos, que vive em Cacia, Aveiro (ex-sold at art, nasceu em 15/12/1946 em Lavos, Figueira da Foz; do seu álbum publicámos, com a devida vénia, algumas fotos, incluindo cinco de  Farim)(*).

Para colmatar esta lacuna, publicamos para já a sua ficha de unidade (**). Esperamos que haja mais alguém que nos dê notícias dos "Leões do Norte", que estuveram em reforço de vários batalhões e outras unidades  (BCAV 1905, BART 1904, BART 1914,BCAÇ 1932, COP3).

2. Fichas de unidade:

Companhia de Artilharia n.º 2384

Identificação: CArt 2384

Unidade Mob: GACA 2 - Torres Novas

Cmdt: Cap Mil Art José Reis Fernandes Leitão | Cap Mil Inf António Luís da Silveira Santos Rodrigues

Divisa: "Leões do Norte" - "O Céu, a Terra e as Ondas Atroando"

Partida: Embarque em 01Mai68; desembarque em 07Mai68 | Regresso: Embarque em 03Abr70

Síntese da Actividade Operacional

Em 11Mai68, seguiu para Contuboel, a fim de efectuar o treino operacional sob orientação do BCav 1905.

A partir de 05Jun68, ainda com a sua sede em Contuboel, assumiu as funções de companhia de intervenção e reserva do Comando-Chefe, tendo tomado parte em acções desenvolvidas na área de Fajonquito e Poidom (Xime), em reforço do BCav 1905 e BArt 1904, respectivamente. 

Em 16Jun68, foi colocada em Bissau, mantendo-se como companhia de intervenção e sendo atribuída em reforço do BArt 1914, de 17 a 20Jun68, com vista à realização de operação "Corsário Negro", na região de Jabadá-Budoco.

Em 25Jun68, assumiu a responsabilidade do subsector de Saliquinhedim / K3, em substituição de dois pelotões da CArt 1691 ali temporariamente colocados, tendo ficado integrada no dispositivo e manobra do BCaç 1932 e colaborando ainda nas acções de contra-infiltração no corredor de Lamel.

Em 07Dez68, após desactivação do subsector de Saliquinhedim (onde ainda permaneceu um pelotão até meados de Jan69) e em virtude da criação do subsector de Jumbembém, foi ali colocada, em substituição dos efectivos da CArt 2340 e mantendo-se integrada no dispositivo e manobra do BCaç 1932 e depois do COP 3.

Em 01Jun69, foi rendida no subsector de Jumbembém pela CArt 2478, do antecedente ali colocada em reforço da guarnição local e foi transferida para o subsector de Farim, com um pelotão destacado em Saliquinhedim, a fim de substituir a CCav 1748.

Em 04Ag069, substituída no subsector de Farim pela CCaç 2547, regressou ao subsector de Jumbembém a fim de render a CArt 2478; em 05Jan70, por troca com a CCaç 2548, foi colocada de novo em Farim, com vista à realização do esforço de contrapenetração no corredor de Lamel.

Em 28Fev70, foi substituída em Farim pela CCaç 2681 e recolheu, por fracções, a Bissau, a fim de efectuar o embarque de regresso, mantendo entretanto dois pelotões em Farim até à 3.a semana de Mai70, em reforço da actividade daquela subunidade.

Observações - Tem História da Unidade (Caixa n." 120 - 2ª Div/4ª Sec, do AHM).

Fonte: Excertos de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 7.º volume: Fichas das Unidades. Tomo II: Guiné. Lisboa: 2002, pp. 461/462

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Notas do editor LG:

(*) Vde. poste de 28 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27779: As nossas geografias emocionais (63): Farim, ao tempo do Manuel Jordão Revelos, ex-sold at art, CART 2384 (Farim, Mansoa, Mansabá, 1968/70)

Guiné 61/74 - P28173: Os nossos seres, saberes e lazeres (740): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (261): Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 6 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 11 de Junho de 2026:

Queridos amigos,
Iniciei a visita à cidade museu de Gjirokastër, Património da Humanidade, possui uma das fortalezas mais imponentes de toda a península balcânica, casas de arquitetura otomana que cortam a respiração, tudo em pedra, um singelo museu etnográfico onde até se guarda o berço do ditador Enver Hoxha, nasceu neste local, Gjirokastër é também a terra natal do maior escritor albanês do século XX, Ismail Kadaré, preferi andar um tanto à solta a contemplar a cidade em pedra, possui uma mesquita bem curiosa que quando o regime de Enver Hoxha decidiu que a Albânia era um país ateu, em 1967, foi transformada em escola de artes circenses. Ainda houve a tentação de ir visitar o parque arqueológico de Adrianópolis, fundada pelo imperador Adriano, mas o deslumbramento de toda aquela pedra pesou mais alto, ainda tenho imagens para vos mostrar.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (261):
Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 6


Mário Beja Santos

Mostrar-vos a miniatura do mapa da Albânia não é um puro acaso, nasce da preocupação de vos dar conhecimento quanto ao itinerário seguido, no decurso desta viagem; houve partida em furgão de Tirana até Pogradec, para admirar o Lago Ohrid, seguiu-se depois para Korçë, há quem lhe chame uma pequena Paris, é, no mínimo, bonita e cosmopolita; mais adiante, graças a nova viagem em furgão chegou-se a Përmet, esperava uma maravilhosa igreja ortodoxa, como se mostrou; e daqui rumou-se para a espantosa Gjirokastër, um justificado Património da Humanidade.

Chega-se à cidade e lembra o que me aconteceu quando se chega a Bérgamo, a parte de baixo é igual a todas as outras, toma-se um táxi e em dado momento ganha-se a perceção que entrámos num mundo antigo, ruas de Bazar engalanadas com tapetes Kilim, a grande mesquita, poupada aos acontecimentos de 1967, quando o regime de Enver Hoxha decretou que a Albânia era um país ateu, destruíram-se templos ou converteram-se em ginásios, escolas de circo e muito mais coisas. É em povoações como Gjirokastër que sentimos uma Albânia que tem um dos povos mais antigos da Europa. Aqui subsistem vestígios de uma fortaleza imponente do século XIII, não deixa de nos assombrar que em torno desta cidadela se expande uma cidade singularíssima em pedra, que se iniciou nos primeiros anos do século XIV. Com a ocupação otomana, tornou-se um centro administrativo, aqui residia o Paxá. A cidade começou a crescer no século XVII e teve o seu desenvolvimento final no século XIX, tal como a conhecemos hoje.

A vista não se cansa de olhar para esta urbanização, possui bairros próprios, mas a unidade urbana salta à vista. Casas em pedra, ruas em pedra. Obviamente que o edifício de maior grandeza é a cidadela, teve benfeitorias até à década de 1810, ao tempo de um senhor feudal que deixou marca, Ali Paxá de Tepelena. O mercado coberto foi no passado um dos conjuntos arquitetónicos mais importantes da cidade, veio depois aa ser reconstruído em finais do século XIX no local onde hoje o encontramos, o grande bazar. É evidente que o visitante vem condicionado pelo que vem escrito nos guias, dão destaque ao património otomano, casas de vários andares, construídas em terreno rochoso, com características na distribuição interna, o ponto máximo do refinamento é o quarto de acolhimento dos hóspedes, o interior das outras divisões é de grande sobriedade. Preferi andar um tanto à deriva, tive a sorte de ficar num lugar perto do grande bazar e comecei a incursão pela fortaleza que possui dois museus, preferi cirandar e viver a atmosfera nesta cidade museu. O andar à deriva fez-me perder a visita a um dos bunkers que o regime mandou fazer na década de 1970, quando se supunha, que dentro daquela paranoia das invasões e de guerra termonuclear, que era determinante salvar a vida aos quadros comunistas. Sobre este assunto, limito-me a reproduzir fotografias do interior dessa construção da Guerra Fria.

Castelo de Gjirokastër, imagem retirada do site Tripadvisor, com a devida vénia. O castelo serviu de prisão durante o regime comunista, hoje a então área prisional foi transformada no museu dos armamentos.
Tanque italiano Fiat L6/40, de 1940, a generalidade destes tanques foi destruída em batalha, este exemplar foi encontrado na costa sul da Albânia, é uma peça de museu. Imagem retirada na visita ao museu dos armamentos.
Imagem da parte histórica de Gijirokastër, e, lá em baixo, coberto pela nuvem, a parte nova da cidade. A imagem é tirada do castelo, um dos mais velhos da Península Balcânica, parece um navio, como se procura mostrar noutra imagem, tem poderosas muralhas, uma área museológica, no seu interior realiza-se de cinco em cinco anos um altamente prestigiado Festival Mundial do Folclore, dado que a cidade é um centro de canto tradicional polifónico.
Vista aérea do Castelo de Gjirokastër
A torre do relógio do Castelo, a omnipresente envolvência das montanhas
Realiza-se neste local um dos mais importantes festivais de folclore de todo o mundo, de 5 em 5 anos
A Casa Zekate é uma das preciosidades do património otomano, construída entre 1811 e 1812, a casa pertencia a um dos servidores do Paxá. Na sua imensidade, dispunha de divisões para guardar os alimentos, entre a cave e o rés-de-chão, estábulos, o andar para os servidores e um amplo espaço para os proprietários. Impressiona com o seu aspeto de casa fortaleza.
Quarto dos proprietários
Quarto dos hóspedes
Na impossibilidade de aqui se mostrar o interior de todas as divisões, nomeadamente dos terceiro e quarto andares, divisões com muitíssimo interesse pela lógica de ocupação do espaço, pois há casas de banho com banhos turcos, salas de estar, espaços de convívio, etc. veja-se uma cama no terceiro andar, por baixo da escada.
Vista do quarto andar que permite ver a lógica de uma urbanização um tanto uniforme, transita-se sempre por chão empedrado.
Museu etnográfico de Gjirokastër, um pormenor
Duas imagens do bunker da Guerra Fria em Gjirokastër

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 4 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28157: Os nossos seres, saberes e lazeres (739): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (260): Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 5 (Mário Beja Santos)