Luís Graça & Camaradas da Guiné
Blogue coletivo, criado por Luís Graça. Objetivo: ajudar os antigos combatentes a reconstituir o "puzzle" da memória da guerra colonial/guerra do ultramar (e da Guiné, em particular). Iniciado em 2004, é a maior rede social na Net, em português, centrada na experiência pessoal de uma guerra. Como camaradas que são, tratam-se por tu, e gostam de dizer: "O Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande". Coeditores: C. Vinhal, E. Magalhães Ribeiro, V. Briote, J. Araújo.
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terça-feira, 27 de janeiro de 2026
Guiné 61/74 - P27677: Ser solidário (294): Bilhete-postal que vai dando notícias sobre a "viagem" da campanha de recolha de fundos para construir uma escola na aldeia de Sincha Alfa - Guiné-Bissau (19): Bambu - a tradição do futuro (Renato Brito)
Bom dia Carlos Vinhal,
Espero que esta mensagem o encontre bem.
Foi renovado o convite para no dia 6 de Fevereiro regressamos ao “Spazio autogestito 77” em Bolzano - Itália para apresentar o projecto de construção de uma escola na Guiné-Bissau.
Partilho a “cartolina” que divulga o evento que fala sobre o bambu. Para além do documentário apresentado na “cartolina” o convite a conhecer o trabalho de um Arquiteto Colombiano:
De tal palo, documental sobre el arquitecto Simón Vélez
https://www.youtube.com/watch?v=GjL9ZqxcJSo
Durante o evento será apresentado o documentário “Kora”. Filmado na Guiné Bissau, o filme dá voz aos ”griots” (músicos/trovadores que cantam as tradições de geração em geração) e aos habitantes das comunidades Mandinga do leste daquele país, onde supostamente o instrumento surgiu.
Pode ser visualizado com legendas em inglês aqui:
Kora: Povo que canta os seus antepassados não morrerá.
https://www.youtube.com/watch?v=qy1sKOaWZL8
Para mais informações relativas a iniciativas e desenvolvimento do projecto o convite a visitar a seguinte página internet:
https://sostegnoguineabissau.weebly.com/
Cumprimentos,
Renato Brito
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Nota do editor
Último post da série de 11 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27519: Ser solidário (293): Bilhete-postal que vai dando notícias sobre a "viagem" da campanha de recolha de fundos para construir uma escola na aldeia de Sincha Alfa - Guiné-Bissau (18): A bolanha (Renato Brito)
Guiné 61/74 - P27676: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci... (Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, BCP 21, Angola, 1970/72) (14): ainda o caso do pide e do guerrilheiro, em Léua, leste de Angola
Guiné > Região do Cacheu > Barro > CCAÇ 3 > 1968> Um "suspeito" do PAIGC..."Turra" não era "prisioneiro de guerra", à luz do entendimento das autoridades político-militares do território...
Foto (e legenda): © A. Marques Lopes (2005). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
2. Comentário do editor LG:
Obrigado, Jaime. Como sempre, lúcido e corajoso. Temos , todos (as tropas especiais incluídas: páras, fuzileiros, comandos) um certo pudor em falar do "back office", das "traseiras", dos "quintais" da guerra, dos prisioneiros, dos interrogatórios, da colaboração com os Pides, etc. Há o lado "sujo" e "animal", e o lado "nobre" e "heróico" da guerra...
Guiné 61/74 - P27676: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte VI: Corista de filosofia e teologia e depois padre

1. Estamos a reproduzir excertos da dissertação de mestrado em ciências da educação, pela Faculdade de Psicologia e Ciências das Educação da Universidade do Porto (1995), da autoria do Horácio Fernandes, que foi nosso camarada como capelão militar no CTIG ( 1967/69).
No capº IV daquele trabalho académico, ele narra e comenta a história de vida de Francisco Caboz, seu "alter ego". Trata-se, pois, de uma autobiografia, que em 30 páginas, a duas colunas, cobre a sua infância, adolescência, juventude e idade adulta até 1972, o ano em que, prestes a fazer 37 anos, regressa ao estado laical e constitui família.
Nos cinco postes anteriores já publicados(*), ele fala-nos, sucintamente, de:
(iii) a entrada no Colégio Angélico (leia-se, Seráfico, na altura Montariol, em Braga, a mais de 300 km de distância da sua terra, Ribamar, Lourinhã), e os "quatro cenários" onde se vai desenrolar a sua vida de "angélico" (ou seja, até ao 5º ano, correspondente hoje ao 9º ano de escolaridade): a camarata, o refeitório, a sala de aulas, o salão de estudo, e onde vigora o panoptismo;
Foi depois alferes graduado capelão, em rendição individual, no BART 1913 (Catió, setembro de 1967 - maio de 1969) e no BCAÇ 2852 (Bambadinca, no 2º semestre de 1969). Chegaria ao CTIG com 32 anos, regressaria com 34.
- José António Correia Pereira (nº 84): de 26/3/1972 a 21/3/1974;
- José de Sousa Brandão (nº 79): de 25/9/1871 a 22/12/1973;
- José Marques Henriques (nº 97): de 28/4/1974 a 9/10/1974):
- Manuel Gonçalves (nº 58): de 19/7/1969 a 30/6/1971;
- Manuel Maria F. da Silva Estrela (nº 11): de 27/9/1963 a 14/8/1965;
- Manuel Pereira Gonçalves (nº 91): de 28/5/1968 a 29/6/1974)
4.3. - Corista de Filosofia
A minha transição do Noviciado para o Coristado foi aos 17 anos [em Leiria, no Convento da Portela ou de Sáo Francisco ].
Na minha qualidade de professo de votos simples, tinha uma cela mais moderna, com uma varanda colectiva, era assíduo ao coro, três vezes por dia, participava nas festas litúrgicas e tinha a obrigação do estudo.
Embora continuasse a acompanhar os padres em algumas funções religiosas, já era permitido ir a Fátima, a pé, nos dias treze, onde por vezes me encontrava com a família e conterrâneos.
O tempo de lazer também se alterou: às quintas feiras deslocava-me ao campo de futebol, ou a uma quinta próxima e jogava futebol, ou tomava banho no rio.
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Quanto a férias grandes, no primeiro ano fui 15 dias para o santuário dos Remédios, em Peniche. Era proibido tomar banho individualmente no mar e não podíamos tirar o hábito na povoação, nem falar com pessoas estranhas.
Como alguns não resistissem à tentação de falar com pessoas estranhas e tomar banho às escondidas, fomos daí a pouco proibidos de continuar.
Destes três anos, recordo, sobretudo, o segundo e o terceiro. No segundo fomos todos castigados a passar as férias grandes no Colégio Angélico, bem guardados por um ex-Prefeito, porque no primeiro ano em que fomos passar férias aos Remédios, Peniche, não cumprimos as determinações superiores, no que respeita ao contacto com estranhos. Alguns falaram, sobretudo com um grupo de enfermeiras católicas que ali perto passava férias.
Também era proibido tirar o hábito e alguns andavam sem hábito e com calças. Igualmente faltavam ao Coro' que, embora simplificado, não era dispensado.
Foi baseados nestes argumentos que os superiores, no ano seguinte, nos obrigaram a passar as férias grandes no Colégio Angélico [em Montariol, Braga ], o que foi interpretado como um castigo.
Com o Colégio deserto, dávamos longos passeios a pé, e cumpridas as obrigações do Coro jogávamos a bola e líamos.
Podíamos utilizar a biblioteca dos padres, mas tínhamos que registar o livro. Aconteceu que alguns deram com o armário dos livros proibidos, aberto, e leram freneticamente os livros que nunca tinham lido, mas só ouvido falar.
Durante uns dias, até darem por isso, foi um corropio para a biblioteca, buscar os romances de Camilo, Eça, Alexandre Dumas e outros .
Os Coristas começaram a faltar ao Coro e a deitarem-se muito tarde. De manhã, ou não apareciam, ou apareciam cheios de sono.
Eu também fui dos que aproveitei. Agarrei-me ao «Crime do Padre Amaro» e devorei-o numa noite. Seguiram-se outros do mesmo autor.
Cheio de remorsos, fui-me confessar a um padre velhinho, que me aconselhou a ir embora, face aos maus pensamentos que não me largavam. Porque estava agarrado aquilo, fui então a outro que me aconselhou a esperar até ver se os maus pensamentos abalavam.
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Entretanto; alguém deu o alarme e os que registaram os livros, conforme as ordens que tinham recebido, foram severamente castigados e proibidos de gozar férias no ano seguinte.
Eu não cheguei a cumprir o castigo, porque entretanto adoeci. Estive oito meses de cama, sempre na minha cela, com uma pneumonia e depois com uma osteamilite , sem poder deslocar-me à portaria, nem poder receber visita da família.
Apenas o Director Espiritual me visitava a miúdo, para me tentar convencer que era uma provação passageira de Deus, para me purificar. Além dele, só podiam entrar na minha cela o irmão enfermeiro e esporadicamente um médico, amigo do Seminário.
Os colegas apenas espreitavam à porta, pois era expressamente proibido entrar nas celas alheias. O meu colega de lado, a quem por vezes incomodava para ir chamar o irmão enfermeiro, se demorasse mais algum tempo, ouvia o ralhete do Mestre:
- Vossa Caridade não sabe que é proibido entrar nas celas uns dos outros?
Com temperaturas altas e sem poder dessedentar-me por imposição médica, dava largas à imaginação, sonhando com missões e missionários. Vivia angustiado, sobretudo pelo perigo de não poder continuar ou perder o ano. Contudo, acreditava que, se fora escolhido por Deus, ele me havia de curar, sem deixar sequelas.
Agarrado como estava ao sonho de ser missionário, para mim esse era o maior drama. Afinal consegui passar o ano, embora de muletas, sendo operado à perna esquerda, já no ano de Teologia, em 1956.
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4.3. Os três anos de Filosofia foram passados já num convento de linhas arquitectónicas mais modernas e panopticamente menos rigoroso.
Tratava-se de inculcação dos saberes da Filosofia tradicional católica, como fundamento dos estudos de Teologia, a ciência por excelência: Philosophia ancila Theologiae [a Filosofia serva da Teologia, LG ].
Embora as chamadas Ordenações Peculiares continuassem em vigor e se cumprisse as normas de disciplinação e as disciplinas, notou-se uma maior flexibilização.
O corpo docente, do qual alguns dos quais tiraram a Filosofia nas universidades católicas estrangeiras, estava mais aberto ao exterior. Embora conservando a matriz doutrinária ortodoxa, estavam mais preocupados em esgrimir argumentos contra as posições tomistas e inculcar as especificidades escotistas. Os mais novos faziam gala das suas intervenções no meio intelectual e os mais velhos remoíam sebentas repetitivas.
O sistema panóptico, reforçado no Noviciado, começou a dar mostras de algum abrandamento na Filosofia. Já éramos clérigos professos e de votos simples, feitos por 3 anos. Este facto dava-nos algum status, diante dos irmãos leigos e donatos.
A situação geográfica do convento também favorecia mais os contactos com o exterior. Os pregadores e missionários faziam da casa ponto de passagem obrigatória para o santuário de Fátima.
Esta relativa abertura não nos impedia de viver alheados da situação sócio-política nacional ou internacional.
Sem acesso aos meios de comunicação, uma das grandes lutas a nível interno era contra a proibição de usar calças, por debaixo do hábito. Os mais «modernos» achavam um costume medieval, desadequado. Argumentavam que a tradução em espanhol da Regra falava em 'panetones' e não tinha tradução directa em português. Por isso, alguns interpretavam como calças e os mais observantes como cuecas ou ceroulas. O mesmo acontecia com a túnica que os mais modernos substituíam por camisa.
Esta luta transbordava nas conversas e nas aulas. Acendia-se, quando algum corista mais atrevido era apanhado pelo Mestre com um par de calças arregaçadas debaixo do hábito, ou quando passavam pelo Coristado missionários em férias ou pregadores, que, geralmente, eram menos observantes e mais liberais no trajar.
Embora os Mestres evitassem o contacto dos Coristas com eles, era inevitável, o que me fazia questionar porque para uns havia uma Regra e para outros outra. Resposta não a encontrava, mas estas e outras interrogações não abalavam a confiança na instituição. O 'habitus' estava bem arreigado.
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4.4. Corista de Teologia e Padre
Acometido pela doença, aos 20 anos, novamente o estatuto de devedor de benefícios me acompanhou.
Primeiro aos superiores, por me terem tratado durante a longa doença, aos professores por me deixarem fazer exame em Setembro e novamente aos superiores, quando sofri a intervenção cirúrgica ao fémur, já em Lisboa.
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Apenas no 2º no de Teologia a minha vida de corista seguiu o seu ritmo de estudo normal, quando recebi a Prima Tonsura (8).
No primeiro ano de Teologia, quase não saí do Seminário, porque andava amparado em muletas. Por isso, ocupava todo o tempo no estudo e nas aulas.
Olhando à distância, recordo algumas impressões deixadas por professores e Mestres de Coristas.
Havia o professor de História da Igreja que, sob uma máscara de dignidade, debitava sempre as mesmas anedotas sobre os jesuítas, para Corista rir. Era o professor de Direito Canónico, que, no seu palmo e meio, não conseguia encarar os alunos de frente. Era o professor de Moral que mandava fechar as janelas e persianas e às escuras, apressadamente, explicava os pecados contra o Matrimónio e as respectivas sanções canónicas.
A partir do 2º ano de Teologia e já quase totalmente recuperado, substituía o passeio semanal pela catequese nas escolas primárias dos bairros sociais próximos.
Para mais facilmente captar a atenção das crianças, utilizava projector e diapositivos alusivos aos temas do catecismo a que eles chamavam cinema. Era um trabalho novo e, cheio entusiasmo como estava, entregava-me a ele com alma e coração.
O contacto com as crianças das escolas primárias era uma novidade. Às quintas e sábados, lá ia carregado de pagelas, distribuindo «santinhos» pelos bairros pobres.
A preparação para as ordens menores (9), ordens maiores (10) e votos solenes (11) era concomitante com o estudo aturado das Disciplinas Teológicas.
Empenhado nestas tarefas, vivia as notícias da terra que falavam do entusiasmo de todos os conterrâneos, na minha próxima Missa Nova.
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4.4. A última etapa da Teologia foi um gradativo caminhar para o sacerdócio (13).
Não obstante o Curso Teológico ser ministrado em Lisboa, estava completamente arredado da problemática política ou social.
O rádio só podia funcionar na sala dos padres, a que não tínhamos acesso e, mesmo ali, só depois do jantar e da ceia. Terminado o recreio, era fechada sem contemplações e só se podia abrir com licença expressa do superior 'toties quoties' (Ordenações Peculiares, 1943: 12).(**)
Geograficamente bem situado, o Seminário era um interposto espiritual entre o poder terrestre e o celestial, para muitas famílias ricas do regime que ali iam procurar o passaporte para o anti-quotidiano.
Talvez por isso estive, quase completamente, alheado do momento quente das eleições de 1959 (***).
Lembro-me, apenas, que me mandaram e fui votar duas vezes: uma de manhã e outra de tarde na Junta de Freguesia, porque estava em causa o derrube de Salazar pelos «comunistas».
Igualmente me lembro de ter ido de hábito, como era do Regulamento, à Baixa Lisboeta, ver o cortejo, durante a visita da Rainha da Inglaterra a Portugal. Foi das poucas vezes em que não fomos acompanhados pelo Mestre.
Outra recordação que conservo viva, foi o castigo aplicado pelo Mestre de Coristas, algum tempo antes do retiro para a ordenação sacerdotal, no convento onde tinha feito o Noviciado.
Admoestado, por estar com um colega a falar nas escadas, em tempo de silêncio, retorqui-lhe que ele estava a espiar-nos debaixo das escadas. Ele não gostou e só fomos fazer o retiro obrigatório para a Ordenação, dois dias depois, o que nos nos obrigou a acabá-lo depois dos outros três colegas.
Felizmente, este percalço não atrasou à Ordenação, pois estava tudo a ser ultimado na minha terra para a Missa Nova (12).
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Notas do autor:
(7) Reza colectiva do Breviário, seis vezes por dia e que tinha a seguinte designação: Matinas, Prima, Tércia, Sexta, Noa, Vésperas e Completas.
(8) Ordem menor que consistia em cortar uma madeixa de cabelo no alto da cabeça, vulgarmente chamada coroa: «Feito o exame do 1º ano de Teologia, devem os alunos requerer a Prima- Tonsura, as ordens menores durante o 2° ano e o Subdiaconado ao sair do 3º ano, se lho permitir a idade, por forma que possam receber o Presbiterado no fim do 4º ano, tanto quanto deles dependa. (Regulamento do Processo de Ordenação e programa do exame do Cânone 996).
(9) Assim chamadas por não implicarem a incardinação à Ordem, Congregação Religiosa ou Diocese.
(10) Assim chamadas pela excelência das funções, a que dão acesso. São o Subdiaconado, Diaconado e Presbiterado ou Sacerdócio.
Nenhum ordenando podia receber o Subdiaconado sem ter o chamado título canónico, que era um património suficiente para a sua sustentação. Esta suficiência era aferida pelo correspondente «ao ordenado dum professor de instrução primária, quando provido definitivamente» (Parágrafo 2o do Cânone 479 do cap. Ill das Constituições Sinodais da Diocese de Lamego, 1954).
(11) Os votos solenes era o juramento que os candidatos ao sacerdócio das Ordens e Congregações Religiosas faziam e através dos quais eram recebidos a título definitivo na instituição.
(12) Missa Nova era a primeira missa do Presbítero, depois da Ordenação. Esta designação estendia-se, contudo, a outras missas celebradas solenemente em vários locais para onde estivesse convidado.
(13) Vd. nota (10).
Fonte: Excertos da dissertação de mestrado do Horácio Neto Fernandes, "Francisco Caboz: do angélico ao trânsfuga, uma autobiografia". Porto: Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. 1995, pp. 120-124 (A dissertação, orientada pelo Prof Doutor Stephen R. Stoer, já falecido, está aqui disponível em formato pdf).
(Seleção, revisão / fixação de texto, parênteses retos, links, negritos, itálicos, título: LG)
20 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27651: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte V: O noviço
(**) A exressão latina "toties quoties" quer dizer em português "tantas vezes quantas" ou "tantas indulgências plenárias quantos os terços (ou orações) que rezar".
segunda-feira, 26 de janeiro de 2026
Guiné 61/74 - P27675: O nosso blogue como fonte de informação e conhecimento (115): Comparticipação adicional de 100% da parte não comparticipada pelo SNS nos medicamentos adquiridos pelos Antigos Combatentes Reformados
Nas redes sociais aparecem muitas dúvidas sobre a comparticipação dos 100% da parte não comparticipada pelo SNS, nos medicamentos adquiridos com receita médica pelos Antigos Combatentes.
Como se pode ler na Circular abaixo, o cálculo da comparticipação é feito sobre o Preço de Referência (PRef) do medicamento, sendo que sempre que o Preço de Venda ao Público (PVP) for superior ao Preço de Referância (PRef), o combatente pagará a diferença. Na maioria dos casos o custo reduz-se a alguns cêntimos e não justifica os insultos dirigidos às entidades públicas. Há alternativas que podem anular estas diferenças, como por exemplo a escolha de Medicamentos Genéricos (MG), tão eficazes como os medicamentos de marca.
Nota do editor
Último post da série de 18 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27436: O nosso blogue como fonte de informação e conhecimento (114): a tábua corânica de Galugada Mandinga (subsetor de Contuboel)
Guiné 61/74 - P27674: Agenda cultural (910): Convite para visitar a Exposição fotográfica de José Veloso de Castro (1869-1945), patente no Museu Militar de Lisboa, Largo do Museu da Artilharia, Lisboa, até ao dia 31 de Janeiro de 2026
O Museu Militar de Lisboa apresenta A Revelação de um Artista, a primeira grande exposição dedicada à vida e obra do major e fotógrafo José Veloso de Castro (1869-1945).
Com um espólio de enorme relevância histórica, composto por 2355 positivos fotográficos e sete caixas de negativos em vidro, esta mostra reúne 120 provas inéditas, realizadas a partir de negativos originais (1904-1912), preservados desde 1917 no Arquivo Histórico Militar.
As imagens foram captadas em Angola, durante as comissões militares de Veloso de Castro, e revelam muito mais do que documentação colonial: mostram um olhar artístico singular, sensível ao movimento, à paisagem e ao quotidiano humano no início do século XX.
Terça a domingo, das 10h às 17h (última entrada 16h)
Visita guiada: 31 janeiro, às 10h
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(Com a devida vénia a agendalx.pt)
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Nota do editor
Último post da série de > Guiné 61/74 - P27602: Agenda cultural (909): Lisboa, Panteão Nacional, Concerto de Ano Novo, domingo, 4 de janeiro de 2026, 18h00: Kimi Djabaté (balafon e voz) e Iaia Galissá (cora)
Guiné 61/74 - P27673: Notas de leitura (1889): "Vida e Morte na Grande Bolanha do Rio Mansoa", por Albano Dias da Costa; primeiro Prémio Literário Antigos Combatentes, atribuído pelo Ministério da Defesa Nacional, 2022 (Mário Beja Santos)
1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 27 de Agosto de 2025:Queridos amigos,
Faz todo o sentido uma breve recapitulação da trajetória da literatura da guerra colonial. Primeira fase: a exaltação das façanhas do soldado português, lembre-se Armor Pires Mota, as reportagens propagandísticas, a literatura encriptada de Álvaro Guerra. Segunda fase: o 25 de abril, os ajustes de contas, a procura da certidão da verdade sob a forma de romance, poesia, novela, conto, entra em cena a literatura memorial. Terceira fase: a matura idade, o período dos grandes romances, caso de Nó Cego, de Carlos Vale Ferraz, as obras de Lobo Antunes, de João de Melo. Quarta fase: as investigações, a manutenção de um quadro caleidoscópico para toda esta literatura, algo que se irá prolongar até aproximadamente década de 2010; daí em diante, vai pontificando a literatura memorial, pode bem acontecer que haja inéditos guardados nas gavetas, mas está praticamente tudo inventariado, resta o rodopio da memória. É o que faz Albano Dias da Costa com a sua prosa narrativa, andou pela Guiné nos primórdios da guerra, reduz ao essencial as atribulações e as perdas humanas, inesquecíveis; regressa à infância e dá-nos alguns parágrafos luminescentes do Alto Douro Vinhateiro. Não sou de profecias, mas estamos a voltar à guerra com os cartuchos que nos restam, não se pode subestimar o antes e o depois.
Um abraço do
Mário
A literatura memorial destronou todo o processo ficcionista da guerra colonial
Mário Beja Santos
Vida e Morte na Grande Bolanha do Rio Mansoa, prosa narrativa, por Albano Dias da Costa, primeiro Prémio Literário Antigos Combatentes, atribuído pelo Ministério da Defesa Nacional, 2022, é mais uma evidência de que a literatura memorial deixou muito para trás todos os processos de ficção, desde o romance ao diário. O protagonista e narrador, o Tenente Miliciano Luís Lapa, é o alter ego de Albano Dias da Costa, como ele próprio escreve: “Na presente narrativa, o autor transpõe temas de uma reflexão ensaística para uma narrativa ficcionada; procura exprimir numa diegese (realidade própria da narrativa) memorialística, o testemunho de quem também a viveu e padeceu.” Temos um prologo com o regresso de Luís Lapa da Guiné até à terra natal, a Folgosa, no Alto Douro, que ele escreve com o sobrepeso da emoção, envolvendo-nos com o colorido dos detalhes.
O primeiro episódio narra a sua partida para a Guiné, ele pertence à CCAÇ 413, bolanha do rio Mansoa, vai experimentar-se os horrores da guerra. Segundo episódio temos a tormentosa viagem numa operação em que ele irá desativar uma mina, voltaremos a tal ambiente, Lapa conhecerá os ferimentos. No terceiro episódio, no regresso a casa, agraciado com uma Cruz de Guerra, haverá uma extensa reflexão acompanhada de uma conversa com um Major no comboio, temo-lo em Coimbra, na retoma dos seus estudos. E o epílogo, o reencontro com a mãe, acompanhado de um poderosíssimo texto de amor à terra onde nasceu e se criou, aquele ponto do Alto Douro.
O regresso a casa é feito das lembranças: “Quando, antes, se deslocava ao Porto, recordava ele, a viagem era feita nos bancos duros de madeira das carruagens da terceira classe. Respirava-se o cheiro doloroso das merendas e o odor acre do vinho à mistura com discussões intermináveis intercaladas de impropérios.” Nessa viagem irá conhecer Maria Inês, encontro decisivo para o futuro dos dois. No apeadeiro toma a barca que o vai levar a casa, rememora o caminho poeirento que calcorreara para apanhar o comboio para ir à Régua, a Lamego, aos estudos em Coimbra, vem-lhe à mente mais recordações deste Alto Douro Vinhateiro, chega a casa: “A Folgosa era uma rua. Nascia lá em baixo, à beira do rio, junto da paragem da carreira de Tabuaço. Subia, depois, íngreme, estreita e sinuosa, até morrer lá em cima, junto da igreja. Aí, acabava o mundo.” Mais recordações da escola, dos exames, das brincadeiras, a dureza das caminhadas. O tenente miliciano Luís Lapa não gostou do acolhimento, perguntas incómodas. “Depois da guerra, os combatentes desmobilizados tinham ainda de suportar as agruras e as incompreensões de um país rural à deriva, alheado do conflito interminável que se desenrolava nas colónias da África distante.”
Chegou à Guiné ainda a guerra mal começara, a sua unidade é lançada na grande bolanha do rio Mansoa. Lança-se em profundas meditações, não faltam os filósofos gregos nem a pensadora Hannah Arendt, nem Santo Agostinho. Ouve no seu gira-discos a pilhas a Missa Solene de Beethoven. Esteve destacado na povoação de Encheia, localizada na margem noroeste da bolanha do rio Mansoa. “Lá chegado, em finais de junho do ano anterior, encontrou uma pequena povoação perdida no meio de cajueiros, constituída apenas por três habitações edificadas no alto de uma pequena elevação sobranceira à extensa bolanha serpenteada pelo rio Mansoa: a casa do chefe do posto, o celeiro anexo e o pequeno estabelecimento de um comerciante libanês, uma construção rudimentar de paredes de adobe cobertas de chapas de zinco. Adiante, de um lado e de outro da estrada de Bissorã, alinhavam-se algumas palhotas com uma ampla varanda onde homens de balandrau branco exerciam ofícios vários, de ferreiro, de alfaiate, de cesteiro.” E experimentam-se as flagelações.
Prometi voltar ao episódio em que Luís Lapa desmonta uma mina anticarro: “Pousou a arma no chão. Com o sabre, começou a afastar lentamente a terra que a envolvia. E, de repente, surgiu a cabeça da espoleta do temível engenho. Muito devagar, retirou as pedras que restavam à sua volta. A seguir, soprou para afastar a poeira que ainda a ocultava. E ei-la, brilhante e desafiadora, feita atração do abismo! Por breves instantes, contemplou-a, emudecido, sentia-se como se estivesse hipnotizado diante da cabeça de uma serpente que ia atacá-lo a todo o momento com a língua bífida.” A dureza do momento merece-lhe um digno desenvolvimento, o episódio acaba bem, mas a continuação da operação é manchada por o Cabo Serafim, moleiro de Temilobos, ter pisado uma mina antipessoal, não resistirá aos sofrimentos. A marcha prossegue, inesperadamente a coluna é sacudida por uma emboscada, o Sargento Santos atingido mortalmente na cabeça, há feridos, Luís Lapa incluído, ficará longo tempo internado no Hospital Militar de Bissau.
Dá-se a rendição da CCAÇ 413, ansiosamente esperada perante 751 infindáveis dias e noites. O texto polvilha-se de muitas considerações à posteriori, a conversa com o sr. Major no comboio só pode ser aceite ao nível da ficção, era totalmente impensável em 1965.
O texto tem agora parágrafos magníficos, já Luís Lapa despiu a farda, e ao som da missa solene vamos acompanhar uma esplêndida ode ao Douro de Cima-Corbo, terra de bom vinho, espesso e rijo. A mãe falece, o tenente na disponibilidade volta para Coimbra, de onde não alberga recordações amigáveis, vem ao encontro de Maria Inês, toda a missa solene de Beethoven irá acompanhar o derradeiro escrito. “Apenas iria persistir dentro de si, transfigurada pelo distanciamento no tempo, a Guiné dos Balantas fiéis ao barrete vermelho com que coroavam as suas cabeças, algumas paisagens ainda com a virgindade deslumbrante com que o criador lhes ofereceu aquando do Génesis e o cheiro da terra quente e avermelhada da grande África.”
Esta prosa narrativa é precedida de uma apresentação pelo General Chito Rodrigues, tece considerações sobre a guerra e enfatiza o trabalho de Albano Dias da Costa, sobretudo a magnífica descrição dos cinco momentos do ciclo da vinha, texto entremeado pelo reencontro com a mãe que irá falecer.
Estou em crer que o leitor não contestará quando digo que depois de décadas estuantes de romance, conto, novela, poesia, diarística, reportagem e afins, a idade confina o combatente aos escaninhos da memória, à trajetória que vai do antes ao durante, até ao peso maior do remanescente que fica como saudade, resquício de solidariedade, mágoa pela indiferença dos outros, talvez culpa por acontecimentos em que interveio e em que se pensa que podiam ter decorrido de outra maneira, agora só resta o apaziguamento.
Nota do editor
Último post da série de 23 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27663: Notas de leitura (1888): "Porto, 1934 a Grande Exposição", por Ercílio de Azevedo; edição de autor, 2003 (Mário Beja Santos)
Guiné 61/74 - P27672: O nosso blogue em números (113): Em 2025, o Chrome como navegador (51%) e o Windows como sistema operativo (66%) continuam a ser reis e senhores (considerando os mais de 16 milhões de visualizações, acumulados, desde meados de 2010)
1. Os três principais navegadores usados pelos nossos leitores, os que visitaram o nosso blogue desde junho de 2010 até ao final de 2025, são (entre parênteses, os valores de 2024)
- Chrome > 51 % (45,1%)
- Firefox > 21,2 % (24%)
- MSIE (Microsoft Internet Explorer) > 15,2 %(17,4%) (Gráfico nº 9)
- Windows: 65,8% (68,4%)
- Macintosh: 14,3 % (12,5%)
- Android: 8,9 % (8,5%)
- Linux: 4,6 % (4,6 %)
- iPhone: 1,9 % (1,9%)
- Outros: 4,1% (4,1) (Gráfico nº 8).
- por navegador, o Internet Explorer ia à frente (41%), seguido do Chrome (27%) e do Fire Fox (22%) (o Fire Fox manteve a sua proporção, e passou para 2º lugar);
- os restantes juntos somavam 10% do total das visualizações (hoje, 12,6%);
- por sistema operativo, o Windows em 2014 era o rei e o senhor absoluto (84%), destacadíssimo da concorrência: McIntosh (6%), Linux (5%) e outros (5%)....Perdeu em 11 anos, mais de 18 pontos percentuais.
Nota do editor LG:
Último poste da série > 19 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27649: O nosso blogue em números (112): Em 20 anos, estamos a cminho dos 110 mil comentários... Em 2025, publicámos 3,6 comentários por poste... Nos 19 primeiros dias de janeiro de 2026, já vamos em 6, em média, o que é encorajador
Guiné 61/74 - P27671: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci... (Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, BCP 21, Angola, 1970/72) (13): a morte do pastor alemão que salvou a vida de homens e… a minha perna direita!
(ii) membro da nossa Tabanca Grande, nº 643, desde 31/1/2014;
(iii) tem já 130 de referências, no nosso blogue;
(v) é professor de educação física, reformado;
(vi) foi autarca em Fafe, com o pelouro de "Desporto e Cultura": viveu lá durante cerca de 4 décadas;
(vii) tem página pessoal do Facebook;
(viii) é autor do livro "Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1).
Eu não esqueci a única operação do meu pelotão com a ajuda de um cão de guerra (pastor alemão). Foi no Norte de Angola, na zona dos Dembos.
Após saltarmos dos Hélis, progredimos e, pouco depois, somos confrontados com uma emboscada. Reagimos, tiroteio, silêncio, fase de expetativa e foi o momento de decidir também a atuação do cão:
– Buscs, busca, ataca, ataca ! – ordena o tratador.
Enquanto aguardávamos pelo regresso do cão, protegi-me atrás de uma árvore e, quando olho para o chão, vejo, mesmo encostado ao meu pé direito uma mina antipessoal meia destapada…. Presumivelmente, teria sido pisada pelo cão, aquando da perseguição aos guerrilheiros.
Já perto da base, o cão deteta uma emboscada e investe sobre os guerrilheiros e no tiroteio é atingido mortalmente.
De acordo com as normas, o tratador cortou-lhe uma orelha como prova da morte do animal em combate, no regresso ao Batalhão. (**)
(*) Sobre cães de guerra, vd. postes de:
18 de março de 2008 > Guiné 63/74 - P2664: Os Cães de Guerra (Mário Fitas e Carlos Filipe, ex-Fur Mil, CCaç 763, Cufar, 1965/66)
17 de fevereiro de 2019 > Guiné 61/74 - P19502: Álbum fotográfico de João Sacôto, ex-alf mil, CCAÇ 617 / BCAÇ 619 (Catió, Ilha do Como, Cachil, 1964/66) e cmdt da TAP, reformado - Parte III: O meu cão Toby, que fez comigo uma comissão no CTIG, e que será depois ferido em combate no Cantanhez
(*) Último poste da série > 17 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27641: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci... (Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, BCP 21, Angola, 1970/72) (12): o interrogatório do pide… e o silêncio do guerrilheiro
domingo, 25 de janeiro de 2026
Guiné 61/74 - P27670: Tabanca Grande (578): António Brito Ribeiro, ex-Alf Mil TRMS da CCS/BART 2857; GA 7; COP 6; CAOP1 e BCAÇ 3884 (1970/72), senta-se à sombra do nosso poilão, no lugar 912
O Alf Mil TRMS António Brito Ribeiro, nosso novo amigo e camarada de armas, que se vai sentar no lugar 912 da tertúlia
Percurso Militar de António de Brito Ribeiro,
- Recruta para o COM (Curso de Oficiais Milicianos), na EPI em Mafra, no 3.º turno de 1969
- Especialidade de Transmissões de Infantaria do COM, na EPI em Mafra, no 4.º turno de 1969
- Como Aspirante a Oficial Miliciano dei instrução de Transmissões a um pelotão de cabos milicianos, no CISMI (Centro de Instrução de Sargentos Milicianos de Infantaria) em Tavira, nos primeiros 2 turnos de 1970
- Em junho de 1970, fui mobilizado para a Guiné, em rendição individual e promovido a Alferes
- Fiz a viagem para a Guiné no navio Ana Mafalda, tendo feito escalas em Cabo Verde, nas ilhas de S. Vicente (Mindelo) e S. Tiago (Praia) cerca de 10 dias
- Chegado à Guiné em 2 de julho de 1970, passei uma semana em Bissau a aguardar transporte para PICHE no leste da Guiné, para desempenhar a função de Oficial de Transmissões na CCS do BART 2875, em rendição individual do anterior Alferes. Em Piche encontrei e convivi com o Zé Gouveia (Zé Bentinha) que prestava serviço no STM. Loriguense e também da minha idade, deu-me dicas importantes para a comissãoque estava a iniciar.
- Regressado a BISSAU em outubro, após a rendição e regresso à metrópole do BART 2857, fui integrado no GA 7 (Grupo de Artilharia n.º 7), com as funções de Oficial de Transmissões e de Oficial da PJM (PolíciaJudiciária Militar).
- Em 10 de dezembro de 1970, fui punido com 5 dias de prisão disciplinar, por me ter negado a punir o motorista do comandante, adulterando e simulando falsas acusações, num auto que o mesmo mandou abrir para o efeito. Apesar de ter reclamado e depois recorrido da punição, foi a mesma reduzida para repreensão, pois apesar de me ter sido dada razão, ficou registado que me neguei a cumprir uma ordem de comando, infringindo assim os deveres do n.º 1, do Art.º 4, do RDM.
- Na sequência desta situação, fui transferido para o COP 6 (Comando Operacional 6), em MANSABÁ, no meio das matas do Morés e Oio (zona de guerrilha intensa), desempenhar a função de Oficial de Transmissões e de Operações. Este Comando Operacional, coordenava a proteção aos trabalhos da estrada entre Mansabá e Farim, contando para o efeito com as seguintes forças: Companhias de Caçadores Paraquedistas CCP 121 e CCP 122, 27ª Companhia de Comandos, CCAV 2721 (comandada pelo capitão Mário Tomé), CCAÇ 2753 (Açorianos), CART 2732 (Madeirenses), EREC 2641, 21.º PELART (10,5), 27.º PELART (14), PELART 8,8, PELSAP BCAÇ 3832. Quando a construção da estrada se aproximou de Farim (+/- 3 Km), o comando do COP 6 mudou-se para FARIM, nas margens do rio Cacheu, localidade com uma dimensão e população muito razoáveis.
- Após a conclusão das obras e do COP 6, já no final de 1971, fui transferido para o CAOP 1 (Comando de Agrupamento Operacional 1), em TEIXEIRA PINTO, comandado pelo Coronel Rafael Durão, que liderava toda a Intervenção Operacional naquela zona, desempenhar a função de Oficial de Transmissões. Teixeira Pinto já era uma localidade de grande dimensão para a Guiné, com muito comércio e, uma sala de cinema e de festas.
- Quando em março de 1972, estava a terminar a comissão e preparar para regressar ao continente, apenas aguardava a guia de marcha, fui requisitado para ir dar a instrução e tirocínio ao BCAÇ 3884, com destino a BAFATÁ, atendendo à fuga do Oficial de Transmissões para o estrangeiro. Após o tirocínio em Nhacra (+/- 3 semanas), próximo de Bissau, o Batalhão seguiu em lancha e coluna até Bafatá, onde estive até junho de 1972, a instruir e comandar o pelotão de Transmissões da CCS e, acompanhar a rendição do anterior Batalhão, que por curiosidade tinha sido rendido em 1970, quando da rendição do meu Batalhão de Piche. BAFATÁ era uma localidade de grande dimensão para a Guiné, onde havia muito comércio e uma ótima piscina fluvial.
- Terminei a comissão e regressei à metrópole em 23/junho/1972
Caro amigo Brito Ribeiro,
Sê bem aparecido na tertúlia. Um dos lemas do nosso blogue é "o mundo é pequeno e a nossa Tabanca... é grande". Talvez por isso, tenho vivido aqui algumas agradáveis surpresas, vendo aparecer camaradas que jamais imaginaria voltar a "ver". No nosso caso particular, já nos tínhamos encontrado em 2009 em Arruda dos Vinhos, mas com a nossa idade, cada reencontro pode ser o último, principalmente, quando como é o nosso caso, estamos geograficamente distantes.
Arruda dos Vinhos, 18JAN2009 > 1.º Encontro da CART 2732 > Na foto, a partir da esquerda: Cor Art Ref Carlos Marques Abreu; António Brito Ribeiro; Cor Art Grad DFA Ref Américo Almeida Nunes Bento, Carlos Vinhal e João Malhão, organizador do Encontro.
Há na tertúlia um bom grupo de camaradas que passaram por Mansabá, um dos melhores resorts da Guiné, onde até nem faltavam sessões de fogo de artíficio, incluídas na diária.
Referes e eu confirmo, que em meados de Março de 1971, o COP 6 foi deslocado para Farim, mas regressou em fins de Abril à base, Mansabá, onde permaneceu até ser desactivado em 20 de Julho de 1972. A actividade operacional naquela zona exigia um COP. Julgo que ainda foste contemporâneo do Major (ou TenCoronel?) Correia de Campos, que a determinada altura foi deslocado para a Península de Gampará onde havia muito barulho. Em Maio de 1973 vamos voltar a ouvir falar dele, agora em Guidaje, onde segundo os relatos, foi um herói, incentivando e comandando a guarnição daquele quartel num dos momentos mais difíceis da nossa guerra.
Ainda hoje mantenho contacto com o senhor Coronel Carlos Alberto Marques de Abreu, Comandante do COP 6 e com o senhor Coronel António Carlos Morais da Silva, que faz parte da nossa tertúlia, que como Adjunto também passou pelo COP 6.
Falei do nosso tempo comum em Mansabá, de ti e das tuas vivências por terras da Guiné falarás tu melhor que ninguém. É um convite.
Fico ao teu inteiro dispor para o que achares útil.
Em nome da tertúlia, deixo-te um abraço de boas-vindas.
Carlos Vinhal
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Nota do editor:
Último post da série de 21 de outubro de 2025 > Guiné 61/74 - P27339: Tabanca Grande (577): Timóteo da Conceição dos Santos, ex-Fur Mil Inf Minas e Armadilhas da CCAÇ 2700 / BCAÇ 2912 (Dulombi, 1970/72), que se senta à sombra do nosso poilão no lugar nº 909

























