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quarta-feira, 15 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27921: Casos: a verdade sobre... (68): Kalashnikovmania - Parte III: Continuo fã incondicional da G3 (Mário Dias)




 Guiné > Bolama > 1959 > 1º CSM >  O Mário Dias, à direita, assinalado com um círculo verde: no extremo oposto, à esquerda, a vermelho,  o Domingos Ramos (1935-1966, hoje herói nacional da Guiné-Bissau, morto em combate em 10/11/1966, em Madina do Boé; foram camaradas de armas e amigos, tendo frequentado o 1º Curso de Sargentos Milicianos, Bissau.

Foto do álbum do  Mário Dias ou Mário Roseira Dias, sargento comando na situação de reforma, histórico membro da Tabanca Grande (para onde entrou em 17/11/2005);  no TO da Guiné, foi comando e instrutor dos primeiros comandos da Guiné (1964/66), entre os quais alguns dos nossos camaradas da Tabanca Grande, como o Virgínio Briote, o João Parreira, o Luís Raínha, o Júlio Abreu, etc. Passou também por Angola e Macau.  Estava de sargento de dia, no Regimento de Comandos, no dia 25 de Novembro de 1975. 

É uma figura muito respeitada entre os comandos. Na vida civil, é também um conceituado arranjador e compositor musical, a par de maestro de coros. (Tinha um página no sapo.pt sobre partituras corais, que foi descontinuada cpom o fim dos alojamemntos naquele servidor, mas que pode ser consultada em arquivo morto, aqui: https://arquivo.pt/wayback/20071020033005/http://partiturascorais.com.sapo.pt:80/ )

 


Lisboa > Belém > Forte do Bom Sucesso > 24  de Setembro de 2005 > Um reencontro de velhos camaradas, 'comandos', militares portugueses que estiveram na Guiné, tendo participado na Op Tridente (Ilha do Como, de 14 de Janeiro a 24 de Março de 1964)... Quarenta anos depois, tiraram uma foto para a História estes seis bravos da mítica batalha do Como onde a G3 foi posta à prova mas não levou a melhor sobre a AK 47... simplesmente porque esta arma, de fabrico soviético, ainda não equipava a guerrilha.

Entre eles, está o nosso Mário Dias (o segundo, a contar da direita)... Já agora aqui fica a legenda completa (os postos, referentes a cada um, são os que tinham à época dos acontecimentos): 

Da esquerda para a direita: 

(a) sold cond auto João Firmino Martins Correia (CCAV 487 / BCAV 490, e Gr Cmds "Camaleões". 1963/65) (era comandado pelo alf mil 'cmd' Justino Godinho, já falecido, sendo o fur mil 'cmd Mário Dias um dos chefes de equipa):

(b) 1º cabo' cmd0  Marcelino da Mata (já falecido) (pertenceu, neste período,  ao Gr Cmds "Panteras", tal como o fur mil Vassalo Miranda);

(c) 1º cabo Fernando Celestino Raimundo (originalmenmte 1º cabo fotocine); 

(d) fur mil António M. Vassalo Miranda (Gr Cmds "Panteras"); 

(e) fur mil Mário Fernando Roseira Dias (hoje sargento na reforma); 

(f) sold Joaquim Trindade Cavaco (CCAV 487 / BCAV 490, e Gr Cmds "Camaleões", 1963/65).

Fotos (e legendas): © Mário Dias (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].


1. Sobre o nosso camarada Mário [Fernando Roseira] Dias, acrescente-se mais o seguinte:

(i) nasceu em 1937 em Lamego;

(ii) foi para a Guiné, com a família, em 1952, ainda adolescente (com 15 anos);

(iii) assistiu à modernização e crescimento de Bissau, capital da Província desde 1943;

(iv) conheceu, entre outros futuros dirigentes e combatentes do PAIGC, Domingos Ramos, de que se vai tornar amigo, na recruta e depois no 1º Curso de Sargentos Milicianos [CSM], que se realizou na Guiné, em Bolama, em 1959;

(v) com o posto de fur mil, partiu, em 29 de outubro de 1963, para Angola, integrando num grupo de Oficiais, Sargento e Praças, do CTIG, a fim de frequentarem um curso de Comandos, no CI 16 na Quibala - Norte, e on se incluía o major inf Correia Diniz; alf mil Maurício Saraiva; alf mil Justino Godinho, 2º srgt Gil Roseira Dias (irmão do Mário), fur mil cav Artur Pereira Pires, fur mil cav António Vassalo Miranda, 1.º cabo at inf Abdulai Queta Jamanca e Sold. At. Inf.ª Adulai Jaló.

(vi) este grupo esteve na origem da criação, em julho de 1965, da Companhia de Comandos do CTIG (CCmds/CTIG), tendo sido nomeado seu comandante o cap art Nuno Rubim, substituído em 20 de fevereiro de 1966 pelo cap art Garcia Leandro;

(vii) em 1966, seguiu para Angola, onde prestou serviço, seguindo a carreira militar;

(x) depois de reformado dedicou-se à música: dotado de grande sensibilidade e talentos artísticos, é mais conhecido por M. Roseira Dias, no meio musical, é autor de inúmeros arranjos musicais de canções populares como a açoriana Olhos Negros, e tantas outras que por aí circulam em Portugal e no Brasil.


2.  Texto de Mário Dias, enviado em 15 de Janeiro de 2008, publicado originalmente a seguir sob o título Em louvor da G3 (edição de Virgínio Briote, com um belíssimo comentário que merece também ser relido ). 

 Justifica-se a repescagem e republicação deste poste: é uma peça fundamental para o debate sobre a G3 "versus" AK47, no contexto da guerra colonial no CTIG, tratando-se para mais de um combatente  com grande experiência operacional. Mas no decurso da Op Tridente (jan/mar 1964), o PAIGC

Sobre a G3 temos 40 referências no blogue. Sobre a AK 47 (ou Kalash), 25. A primeira Kalash capturada pelas NT terá foi no  TO da Guiné em 29/11/1964.  Por outro lado,  e como é sabido, a G3 não  +e mais a arma-padrão do Exército Português.

Passados tantos anos sobre a guerra, continuo fã incondicional da G3

por Mário Dias


É muito vulgar e frequente tecerem-se comentários depreciativos à espingarda G3, quando comparada à AK 47. Em minha opinião, nada mais errado. Analisemos, à luz das características de cada uma e da sua utilização prática, os prós e contras verificados durante a guerra em que estivemos empenhados em África:

(i) Comprimento: G3 - 1020mm; AK47 - 870mm
(ii) Peso com o carregador municiado: G3 - 5,010Kg; AK 47 – 4,8Kg
(iii) Capacidade dos carregadores: G3 – 20 cartuchos; AK47 – 30 cartuchos
(iv) Alcance máximo: G3 – 4.000m; AK47 – 1.000m
(v) Alcance eficaz (distância em que pode pôr um homem fora de combate se for atingido): G3 – 1.700m; AK47 – 600m
(vi) Alcance prático: G3 – 400m; AK 47 – 400m

Passemos então a comparar.
(A) No comprimento e peso:
 A AK47 leva alguma vantagem. A capacidade dos carregadores, mais 10 cartuchos na AK47 que na G3, será realmente uma vantagem?

Se, por um lado, temos mais tiros para dar sem mudar o carregador, por outro lado esse mesmo facto leva-nos facilmente, por uma questão psicológica, a desperdiçar munições. E todos sabemos como o desperdício de munições era vulgar da nossa parte apesar de os carregadores da G3 serem de 20 cartuchos.

O usual era, infelizmente, “despejar à balda” sem saber para onde nem contra que alvo. 
Sem pretender criticar a maneira de actuar de cada um perante situações concretas, eu, durante todas as acções de combate em que participei ao longo de 4 comissões, o máximo que gastei foi um carregador e meio (cerca de 30 cartuchos). 
Por tal facto, em minha opinião, a dotação e capacidade dos carregadores da G3 é mais que suficiente, além de que os próprios carregadores são mais maneirinhos e fáceis de transportar que os compridos e curvos carregadores da AK47.
(B) Quanto ao poder balístico:
Também aqui a G3 leva vantagem pois, embora na guerra em matas e florestas seja difícil visar alvos para além dos 100/200 metros, tem maior potência de impacto e perfuração sendo a propagação da onda sonora da explosão do cartucho muito mais potente na G3, o que traz uma maior confiança a quem dispara e muito mais medo a quem é visado. 
A G3 a disparar impõe muito mais respeito.

Porém, os principais motivos que me levam a preferir a G3 à AK47 (creio que a fama desta última é mais uma questão de moda) são as que a seguir vou referir ilustradas, dentro das possibilidades, com as gravuras acima publicadas.
(C) A importância do silêncio e da rapidez de reacção

Deixem-me, então, começar a vender o meu peixe em louvor da G3. Todos sabemos a importância do silêncio e da rapidez de reacção numa guerra de guerrilha e de como o primeiro a disparar leva vantagem.

Normalmente o combatente numa situação de contacto possível em qualquer lado e a qualquer momento leva geralmente a arma com um cartucho introduzido na câmara e em posição de segurança. Eu e o meu grupo tínhamos bala na câmara e arma em posição de fogo desde a saída à porta de armas do aquartelamento até ao regresso e nunca houve um único disparo acidental. 

Mas, partindo do princípio que nem todos teriam o treino necessário para assim procederem, a arma iria então com bala na câmara e na posição de segurança.

Quando dois combatentes se confrontam, o mais rápido e silencioso tem mais possibilidades de êxito e, nesse aspecto, a G3 tem uma enorme vantagem sobre a AK47. Talvez poucos se tivessem dado conta dos pequenos pormenores que muitas vezes são a diferença entre a vida e a morte.


Um caso concreto:

Vou por um trilho no meio do mato e surge-me de repente um guerrilheiro. Levo a arma em segurança e tenho rapidamente de a colocar em posição de fogo. Do outro lado o guerrilheiro terá de fazer o mesmo. Em qual das armas esta operação é mais rápida e fácil?

 Sem dúvida alguma na G3.

Se olharmos para as gravuras observamos que na G3, levando a arma em posição de combate, à altura da anca com a mão direita segurando o punho dedo no guarda mato pronto a deslizar para o gatilho, utilizando o polegar sem tirar a mão do punho com toda a facilidade e de forma silenciosa passo a patilha de segurança para a posição de fogo e disparo.

E o portador de AK47?

 Sendo a alavanca de comutação de tiro do lado direito da arma e longe do alcance da mão terá que, das duas uma: ou larga a mão do punho para assim alcançar a alavanca de segurança ou então tem que ir com a mão esquerda efectuar essa manobra. Em qualquer das soluções, quando a tiver concluído já o operador da G3 terá disparado sobre ele.

Suponhamos agora que o homem da G3 vê um guerrilheiro e não é por este detectado. A passagem da posição de segurança à posição de fogo, além de rápida, é silenciosa pois a patilha de segurança é leve a não faz qualquer ruído ao ser manobrada. O guerrilheiro não se apercebe de qualquer ruído suspeito e mais facilmente será surpreendido. 

Ao contrário, um guerrilheiro que me veja sem que eu o veja a ele e tenha que colocar a sua AK47 em posição de fogo para me atingir, de imediato me alerta para a sua presença pois a alavanca de segurança dá muitos estalidos ao ser accionada. Assim, não é tão fácil a um portador de AK47 surpreender alguém a curta distância.

Outro caso concreto:

Todos certamente estaremos recordados de quantos vezes era necessário combinar o fogo com o movimento nas manobras de reacção a emboscadas ou na passagem de pontos sensíveis. Nessas ocasiões, em que fazíamos pequenos lanços em corrida para rapidamente atingirmos um abrigo para o qual nos teríamos de lançar de forma a ficarmos automaticamente em posição de podermos fazer fogo (a chamada queda na máscara), a G3, devido à sua configuração era de grande ajuda,  pois, não tendo partes muito salientes em relação ao punho por onde a segurávamos, (o carregador está ao mesmo nível) permitia que de imediato disparássemos com relativa eficácia.

E a AK47? 

Reparem bem naquele carregador tão comprido e saliente do corpo da arma. Como fazer manobra idêntica? Impossível. Mesmo colocando a arma com o carregador paralelo ao solo para facilitar a “aterragem”, isso faz com que tenhamos que perder tempo a corrigir a posição de forma a estarmos aptos a disparar. E em combate cada segundo é a diferença entre a vida e a morte.


(D) Defeitos

Um defeito geralmente apontado à G3 é que encravava facilmente com areias e em condições adversas.

Quero aqui referir que ao longo dos muitos anos da minha vida militar, tanto em combate como em instrução ou nas carreiras de tiro, tive diversas armas G3 distribuídas e nunca nenhuma se encravou. 

A G3 possui de facto um ponto sensível que poderá impedir o seu funcionamento se não for tomado em conta. Trata-se da câmara de explosão, onde fica introduzido o cartucho para o disparo, que tem uns sulcos longitudinais (6 salvo erro)* destinados a facilitar a extracção do invólucro.

 Acontece que se esses sulcos não estiverem limpos e livres de terra ou resíduos de pólvora não se dá a extracção porque o invólucro fica como que colado às paredes da câmara. Se houver o cuidado em manter esses sulcos sempre livres de corpos estranhos,  nunca a G3 encravará. 

Outra coisa que poderá levar a um mau funcionamento é as munições estarem sujas ou com incrustações de calcário ou verdete.

Nós tínhamos por hábito, como forma de prevenir este inconveniente, untarmos as mãos com óleo de limpeza de armamento, para esfregarmos as munições na altura de as introduzirmos nos carregadores. E resultou sempre bem.

São pequenos pormenores que deveriam ter sido ensinados na recruta mas, pelos vistos, nem sempre havia essa preocupação bem como muitas outras que foram, a meu ver, causa de algumas (muitas) mortes desnecessárias.



CONCLUSÃO

Depois de passados tantos anos sobre a guerra, continuo fã incondicional da G3. Se voltasse ao passado e as situações se repetissem, novamente preferia a G3 à AK47.


Mário Dias


[ Revisão / fixação de texto /  negritos / título: LG]

sábado, 11 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27911: Agenda Cultural (888): Convite para a cerimónia de apresentação do livro "Guiné, Bilhete de Identidade. Tomo II – Da Pequena Senegâmbia à Guiné Portuguesa", de Mário Beja Santos, a levar a feito no próximo dia 21 de Abril de 2026, pelas 17h30, na Biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. A obra será apresentada por António Duarte Silva e Eduardo Costa Dias.



Sinopse

A mais indefinível possessão portuguesa ganhou finalmente nome: Guiné.

Admitindo que navegadores portugueses aqui arribaram em finais da primeira metade do século XV, este espaço conheceu uma enormidade de nomes, desde Etiópia Menor, Guiné do Cabo Verde, Grande e Pequena Senegâmbia e muitos mais. Até que, em 1886, passou a chamar-se Guiné Portuguesa, e com menção constitucional. O livro aborda a história desta possessão de meados do século XIX e meados do século XX, um território que tinha praças e presídios, dependente de Cabo Verde; todas as companhias comerciais se tinham malogrado; foi preciso a comoção de um desastre militar num local chamado Bolor para, em 1879, se ter determinado a sua separação de Cabo Verde; estabeleceu-se uma capital em Bolama, mas a presença portuguesa manteve-se ténue, junto dos rios e rias. No final do século XIX, chegou a admitir-se a entrega da colónia a uma companhia majestática.



MÁRIO BEJA SANTOS

Biografia

Toda a sua vida profissional, entre 1974 e 2012, esteve orientada para a política dos consumidores. Ao nível da sua participação cívica e associativa, mantém-se ligado à problemática dos direitos dos doentes e da literacia em saúde, domínio onde já escreveu algumas obras orientadas para o diálogo dos utentes de saúde com os respetivos profissionais, a saber: Quem mexeu no meu comprimido?, 2009, e Tens bom remédio, 2013. Doente mas Previdente, dá continuidade a esta esfera de preocupações sobre a informação em saúde, capacitação do doente, o diálogo entre os profissionais de saúde, os utentes e os doentes.


(Com a devida vénia a Bertrand Livreiros)
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Nota de Mário Beja Santos:

A cerimónia de apresentação do livro será abrilhantada com uma actuação de Braima Galissá
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Notas do editor

Vd. post de 19 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27836: Antologia (101): "Guiné, Bilhete de Identidade, Tomo II, Da Pequena Senegâmbia à Guiné Portuguesa", a publicar brevemente (Mário Beja Santos)

Último post da série de 7 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27896: Agenda Cultural (887): Apresentação do Catálogo "O Movimento das Forças Armadas e o 25 de Abril", dia 9 de Abril de 2026, pelas 18h00, na Associação 25 de Abril, Rua da Misericórdia, 9 - Lisboa

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27909: Notas de leitura (1912): Um manjar para filatelistas acérrimos: "Os Selos Coroa da Guiné" (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 11 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
Como o meu interesse filatélico é praticamente nulo, os aficionados que tiverem a paciência de ler esta narrativa me perdoem se nela houver alguma besteira. Encontrei este livro no alfarrabista, era irresistível a sua aquisição, creio que nunca falámos da filatelia guineense, nomeadamente deste período de transição da dependência da Cabo Verde até ao estado de Província autónoma. Os primeiros governadores, impossibilitados de terem selos próprios emitidos pela Casa da Moeda ou pela Imprensa de Bolama, recorreram aos selos Coroa de Cabo Verde sobrecarregando-os do termo Guiné em minúsculas e em maiúsculas, Guiné pequena e Guiné grande. O General Oliveira Pinto, autor da obra, faz um resumo histórico entre 1879 e 1897, estudou a fundo toda a documentação atinente que encontrou no Arquivo Histórico Ultramarino, dá-nos conta das discussões havidas entre filatelistas e tira as suas conclusões. Estou ciente que trouxe a público um assunto que interessa a poucos, mas a Guiné aqui é estudada sem pensar em maiorias ou minorias.

Um abraço do
Mário



Um manjar para filatelistas acérrimos:
Os Selos Coroa da Guiné


Mário Beja Santos

Este livro intitulado "Os Selos Coroa da Guiné", muito provavelmente só terá interesse para os filatelistas, sobretudo aqueles que colecionam selos das antigas colónias portuguesas, mas creio que as informações que se dão sobre a história destes selos poderão interessar a muitos mais. 

Diz-se no prefácio da obra que se vai procurar provar que as raras “Guinés” pequenas terem sido as primeiras a aparecer sobre os selos Coroa de Cabo Verde, que tradicionalmente circulavam na Guiné sem sobrecarga, isto em primeiro lugar. Mas o autor, o General Oliveira Pinto, deixa uma síntese histórica do território e revela aspetos interessantes da História Postal; o livro inclui a documentação que o autor pesquisou no Arquivo Histórico Ultramarino sobre o assunto.

Logo nas generalidades, o General Oliveira Pinto recorda que até junho de 1941 todos os catálogos, nacionais e estrangeiros, sem exceção, mencionavam os selos da emissão Coroa com a sobrecarga Guiné pequena como os primeiros selos a circular na Guiné depois da sua autonomia em relação a Cabo Verde, e só depois os de sobrecarga Guiné da Casa da Moeda, sobrecarga vulgarmente conhecida como Guiné grande. 

Como sou ignorante no tema, fui bater à porta de uma loja filatélica para saber o significado do que são selos Coroa, Guiné grande e Guiné pequena e sobrecarga. Os selos Coroa é um termo para todo o selo que incorpora no espaço central a Coroa régia, Guiné pequena, como se pode ver na capa da obra, inclui a impressão de Guiné em letras pequenas e Guiné grande em letras maiores, sobrecarga é o significado da impressão sobre um selo já existente, tanto em Guiné pequena como em Guiné grande.

Ficamos a saber que o 2.º Governador da Guiné, Pedro Inácio de Gouveia foi quem, em meados de 1882, por faltar em Bolama selos de várias taxas, das de sobrecarga Guiné, em grandes caracteres, mandara sobrecarregar com a mesma palavra, em caracteres mais pequenos e na Imprensa do Governo da Província uma certa quantidade de selos de Cabo Verde, que existiam em cofre, ainda do tempo em que a Guiné não era Província autónoma.

A discussão entre filatelistas sobre o aparecimento dos primeiros selos com a sobrecarga Guiné tem em consideração depoimentos da época. Vivia nessa altura na Guiné um inglês de nome John Marsden, que era da opinião que os Guiné pequena tinham sido os primeiros, portanto os Guiné pequena apareceram em 1879 e os Guiné grande circularam entre 1881 e 1884. Sabe-se igualmente que foram dadas ordens à Casa da Moeda para providenciar selos com a legenda Guiné Portugueza.

Passando adiante ao resumo histórico sobre a Província da Guiné, o autor dá-nos a relação das casas comerciais aí existentes em 1881, as empresas francesas com destaque, temos depois um acervo de imagens de documentação que o autor analisou no Arquivo Histórico Ultramarino, aparece depois a Imprensa na Guiné, a sua principal responsabilidade era tipográfica, a publicação regular do Boletim Oficial da Província da Guiné. 

Temos depois o elenco das remessas de selos, a partir de 1879 onde podemos ver claramente a sobrecarga de Guine pequena. A partir de 1884 os selos vão ter a efigie de D. Luís I, mas durante um bom lapso de tempo a Casa da Moeda foi satisfazendo as requisições da Guiné com os selos tipo Coroa, terá sido uma situação que se arrastou até 1886 ou mesmo 1887.

O autor discreteia sobre os correios na Guiné, como os selos e postais existiram em Bissau, Cacheu, Bula, Geba e Farim. Havia diretor dos correios nomeado em 1879, tinha a designação de Superintendente dos Negócios Postais da Guiné; tecem-se breve considerações sobre os serviços dos correios, fica-se a saber que o correio estava instalando no mesmo edifício da alfândega e assim o autor chega às conclusões: 

“Os selos Coroa, que começaram a sua circulação na Guiné em 1879, deviam ter terminado em 1886, quando começaram a circular os selos com a efigie do monarca.” 

Tinham sido proibidos todos os selos Coroa para Lisboa. Acontece que as contas da Alfândega de Cacheu, na listagem dos selos existentes em 1891, eram referidas estampilhas antigas de 40 e 100 reis, o que é o mesmo que o tipo Coroa.

O autor dá-nos algumas notas sobre John Marsden (1857-1939) como filatelista. Ele viveu em Bissau na época em que ainda circulavam os selos Coroa. Era um filatelista de fama mundial, quando vendeu a sua coleção de selos de Portugal e colónias ela foi considerada a maior do mundo naquela época. Podemos ver na imagem um seu retrato publicado no Boletim Oficial n.º 27, de 4 de julho de 1885. Esteve na Guiné um pouco mais de um ano, teria então 28 anos. Elaborou catálogos e colaborou com revistas de renome. Os seus artigos publicados em jornais e revistas da especialidade eram tidos como fundamentais. No jornal Le Timbre Poste deu conta dos selos existentes na Guiné:

“Quando cheguei a Bissau e depois a Bolama, eu procurei saber nos Correios e em toda a parte e verifiquei para minha surpresa que ninguém tinha visto ou ouvido falar destas sobrecargas pequenas. Até o Governador da Província, cuja esposa era colecionadora de selos, não tinha ouvido falar neles.

Considerei aquela compra um mau negócio e cheguei à conclusão de que eram falsos, até que numa manhã cedo, meses depois, quando saí com a minha arma, passeando ao longo da praia em Bissau, eu vi um pequeno envelope enrolado nas ondas, e para minha satisfação vi que ele tinha no verso um selo de 20 reis e outro de 5 reis, ambos com a sobrecarga pequena e o envelope era dirigido ao padre de Bissau. Eu conhecia-o muito bem e tinha-o ajudado a tratar-se durante um par de dias quando ele estava a sofrer um forte ataque de febre.

Quando lhe mostrei o envelope e lhe disse o que queria, respondeu: ‘a carta era do meu amigo Cleto da Costa, o Chefe dos Correios de Cacheu’. Não perdi tempo a enviar a Cacheu mensageiro, três dias de jornada, pedindo-lhe para me enviar um selo de cada taxa que ele tivesse no correio. Quando em abril de 1881, o Governo recebeu o primeiro fornecimento de selos com a sobrecarga grande, todos os outros existentes em Bissau e Bolama sem sobrecarga, foram sobrecarregados em pequenos caracteres na Imprensa do Governo e enviá-los para Cacheu onde ficaram esquecidos até eu os descobrir.”


Outro filatelista contesta as afirmações de Marsden, não me sinto habilitado a saber qual o rigor dos argumentos de uns e outros, mas o autor nas conclusões volta a falar de Marsden dizendo que este chegou à Guiné em 1884, portanto cinco anos depois de terem feito as sobrecargas que estavam em circulação. 

No fundo, as autoridades da Guiné pretendiam tornar os selos diferentes dos de Cabo Verde, para poderem fiscalizar as receitas, logo sobrecarregando-os. Diz o autor que desconhece com que fundamentos Marsden, que começou por considerar a emissão dos Guiné pequena em 1881 veio depois a alterar, e bem, essa data para 1889.

O autor procede a um resumo dos pontos de vista de alguns filatelistas que já escreveram sobre a ordem cronológica das emissões, caso de Faustino António Martins, Carlos Trincão, Carlos George, Pires de Figueiredo, Vitorino Godinho. E assim se chega às conclusões finais quanto à cronologia das emissões dos selos da Guiné com as sobre cargas Guiné pequena e Guiné grande. Conclui o autor que a primeira emissão com selos da Guiné como Província autónoma foi a emissão com sobrecarga pequena.

Peço desculpa ao autor se acaso o estou a enfastiar com as considerações feitas pelo General Oliveira Pinto neste seu livro editado em junho de 2003 e que deve ser uma preciosidade para quem sente a devoção filatélica.

Página de bilhetes postais inseridos no livro Os Selos Coroa da Guiné
Folha completa dos 100 reis Guiné pequena
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Nota do editor

Último post da série de 6 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27894: Notas de leitura (1911): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (2) (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27900: Historiografia da presença portuguesa em África (524): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1966 (82) (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Outubro de 2025:

Queridos amigos,
Recordo-me quando cheguei à Guiné em 1968 ainda se falava numa explosão lá para os lados de Farim, uma barbaridade, ato insólito praticado por um grupo do PAIGC, não era prática corrente na guerrilha guineense lançar explosivos no meio de uma festa. Segundo os louvores dados pelo Governador Schulz, os agentes da PIDE que ali se deslocaram contaram com a colaboração da tropa local. Perguntará o leitor porque é que louvores desta natureza vêm no Boletim Oficial e não nos boletins das Forças Armadas. Acontece que a PIDE não estava enquadrada nas Forças Armadas, é a razão pela qual o Boletim Oficial regista a chegada e partida dos agentes da Polícia Política. O Governo central cede dezenas de milhões para financiar os planos de desenvolvimento. Fala-se neste ano de 1966 no contrato de concessão para a pesquisa e exploração de hidrocarbonetos na Província da Guiné, é esperável que tenhamos acesso ao desfecho desta missão. Criam-se novos grupos desportivos, caso da ANCAR e da SACOR, cria-se uma cooperativa de pesca em Bolama. E foi criado o Batalhão de Caçadores-Paraquedistas n.º 12, na dependência do Comando da Zona Aérea de Cabo Verde e Guiné.

Um abraço do
Mário



Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Guiné, 1966 (82)

Mário Beja Santos

O que mais me impressiona na leitura do Boletim Oficial destes anos tumultuosos é a tentativa de uma grande discrição, a Guiné vive em apuros, mas teima-se em silenciar os factos, nesta altura a Província vive uma tempestade demográfica, mas quem lê o Boletim Oficial precisa de ler nas entrelinhas os acontecimentos.

Talvez para benefício do leitor, dá-se o rol dos acontecimentos e fazem-se as citações necessárias. Logo no Boletim Oficial n.º 1, de 3 de janeiro, o Governador Schulz dá louvores a dois agentes da PIDE, aqui sim, convém transcrever logo:
“O atentado terrorista, levado a cabo em 1 do passado mês de novembro, na tabanca de Morocunda, em Farim, por elementos então desconhecidos, motivou a deslocação de uma brigada da PIDE àquela vila, a fim de se proceder às averiguações necessárias para a descoberta dos criminosos.
Foram árduas e extremamente difíceis as investigações, não só pela falta de indícios, como também pelas massas autóctones, em estado de choque devido à explosão e seus efeitos, se recusara a prestar declaração, o estar convencida que o atentado fora perpetrado por brancos.
Só houve a suavizar as dificuldades criadas por meio tão hostil, a franca e leal colaboração dada pelas tropas locais, a cujo apoio moral e material se deve, em grande parte, o êxito obtido.

Foram estas que nos cederam os locais para concentrar os detidos por suspeita e as dependências para os interrogatórios, alimentaram os presos e ainda facilitaram a nossa tarefa muito contribuindo para a descoberta dos criminosos.
A atuação do pessoal desta Polícia, também merece especial relevo dado que foi graças ao seu inexcedível zelo, competência, espírito de sacrifício e vontade de bem servir, que se descobriram os autores do crime e uma vasta e bem organizada rede de elementos do PAIGC que tudo prepararam e mais projetavam fazer.”

Em sequência, foram louvados um chefe de Brigada e quatro agentes de 2.ª classe, que vêm perfeitamente identificados no Boletim Oficial.

No Boletim Oficial n.º 2, de 8 de janeiro, publica-se a Portaria n.º 1767, que estipula que durante o ano de 1966 é autorizada a isenção de direitos na importação de arroz. Em termos nacionais, o Governo decidira melhorar os vencimentos dos militares do Exército, Armada e Força Aérea. Dá-se igualmente reforço de verbas inscritas na tabela de despesa do orçamento privativo das forças terrestes ultramarinas em vigor na Província da Guiné. Ficamos a saber que pelo Decreto-Lei n.º 46826 foi instituído o Serviço Postal Militar; também pelo Decreto n.º 46796, do Ministério do Ultramar, é aprovada a renovação do contrato para pesquisa e exploração com a Esso Exploration Guiné Inc., celebra-se um novo contrato que consta no Boletim Oficial n.º 6, de 5 de fevereiro.

Igualmente merece destaque o contrato de empréstimo à Província Ultramarina da Guiné para a execução de empreendimentos previstos no Plano Intercalar de Fomento. Vale a pena dar conta de como se previa a aplicação destes recursos financeiros oriundos de uma receita extraordinária, provenientes do empréstimo a conceder pela metrópole: conhecimento científico do território; investigação científica; estudos de base; agricultura, silvicultura e pecuária; pesca; energia; indústria; transportes e comunicações; turismo; habitação e melhoramentos locais; promoção social. Tudo somado: 40.000.000$00.

Voltando ao contrato de concessão com a Esso, talvez valha a pena dizer que a concessão tinha por objeto o direito de pesquisar e explorar, à custa do concessionário, em regime de exclusivo, todos e quaisquer jazigos de hidrocarbonetos sólidos, líquidos e gasosos, incluindo petróleo, nafta, ozoquerite, gases naturais e asfalto, e ainda enxofre, hélio, anidrido carbónico e substâncias salinas; obviamente que se define a área de concessão que teria um período inicial de cinco anos.

No mês de abril, conforme consta no Boletim Oficial n.º 17, de 23 de abril, constitui-se a Cooperativa de Pesca de Bolama, diz-se mesmo no preâmbulo do despacho do Governador:
“É de todos conhecida a enorme riqueza ictiológica das águas interiores e fluviais da Província da Guiné. Dos cursos fluviais de maior riqueza ictiológica destaca-se o rio Grande de Buba em cujo troço designado por Ria de Buba, entre a foz do rio Lenguete e a ponta Nalu, abundam várias espécies ictiológicas comestíveis, tais como a bicuda, o barbo, a taínha, a corvina, etc.
Dos portos nas proximidades da Ria de Buba o porto de Bolama é aquele que oferece, sem sombra de dúvida, melhores condições para enxurrar as embarcações com mais recursos do que se refere à possibilidade de uma regular manutenção tanto das embarcações propriamente ditas como dos respetivos equipamentos propulsores.”

Estabelece-se a natureza, os fins e sede da sociedade.

No Boletim Oficial n.º 19, de 7 de maio, pela Portaria n.º 1803, aprovam-se os estatutos do Grupo Desportivo, Recreativo e Cultural ANCAR. Ficamos a saber que foi fundado pelos empregados, assalariados e simpatizantes da Firma António Augusto de Carvalho, a coletividade tem a sua sede em Bissau e as suas finalidades são, para além das modalidades desportivas, a organização de cursos de ginástica, excursões, criação de uma biblioteca técnica, realização de palestras, conferências e exposições, o resto dos estatutos mostra a afinidade com a estrutura de todos os outros.

Disse-se inicialmente que se procura o máximo de discrição quanto às dificuldades económico-financeiras, elas vão sendo desveladas pingo a pingo.

No Boletim Oficial n.º 30, de 23 de julho, a Portaria n.º 22107 determina que o Governo da Província Ultramarina da Guiné abra créditos destinados a suportar determinados encargos provenientes de objetivos previstos no programa de financiamento do Plano Intercalar de Fomento, e destacam-se as rúbricas envolvidas: regularização do abastecimento interno do pescado; portos e navegação; educação; meteorologia; fomento dos recurso agro-silvo-pastoris; aproveitamento dos meios de obtenção de água doce; transportes rodoviários, aéreos e aeropostais, etc. O Boletim Oficial n.º 33, de 13 de agosto, pelo Decreto n.º 47132 autoriza o Governo da Província a contrair no Banco Nacional Ultramarino, um empréstimo, em moeda local, até ao montante de 12 milhões, destinado a ser aplicado em obras inscritas em planos de fomento.

Já estamos em setembro, no Boletim Oficial n.º 36, de 13 de setembro, são aprovados os estatutos do Grupo Desportivo e Recreativo do Pessoal da SACOR.

No Boletim Oficial n.º 45, de 5 de novembro, temos a Portaria n.º 22260, da Presidência do Conselho e Ministério do Ultramar é constituído o Batalhão de Caçadores-Paraquedistas n.º 12. No Boletim Oficial n.º 48, de 26 de novembro, pela Portaria n.º 1849 voltamos à candente questão do reforço de verbas, será assim até ao fim do ano.

Procurando refletir conjuntamente com o leitor, subjaz a grande questão dos meios económico-financeiros que foram postos por Lisboa à gestão do Governador Schulz, é bem percetível de toda esta avalanche de reforço de verbas de que a economia guineense ainda não está exangue, mas deu-se uma reviravolta nas receitas fiscais, nas taxas aduaneiras, lê-se permanentemente no Boletim Oficial que há nomeações, e da leitura que estou a fazer do Boletim Oficial de 1967 já faltam candidatos para os postos administrativos, a dissuasão é dado pelo alastramento da guerra de guerrilhas. Não deixo de insistir que a dilucidação de todo este período da governação de Schulz aguarda uma tese de doutoramento.

General Arnaldo Schulz
O Subsecretário de Estado do Fomento Ultramarino, Rui Patrício, visita a Guiné em abril
Felupe em traje festivo
Tecelão Manjaco
Dança Manjaca
Rapariga Manjaca tatuada
Tocadores Fulas

Estas cinco imagens são retiradas do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa de 1966

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 1 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27879: Historiografia da presença portuguesa em África (523): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1965 (81) (Mário Beja Santos)

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27880: In Memoriam (577): Mário Magalhães (1937-2026), membro da Tabanca da Linha e da Tabanca Grande, ex-srgt mil, CCAV 252 (Bafatá, Nova Lamego, Buruntuma, Bula, Caió, Mansabá e S. Domingos, 1961/63)



O nosso "veteraníssimo" Mário Magalhães (1937-2026), membro da Tabanca da Linha e Tabanca Grande (nº 742), ex-srgt mil da CCAV 252 (Bafatá, Bula, Mansabá e S. Domingos, 1961/63).




Tabanca da Linha > 34º almoço-convívio > Algés > Restaurante "Caravela de Ouro" > 16 de novembro de 2017 > Da esquerda para a direita, o Jorge Ferreira e o Mário Magalhães,  na altura já membros, recentes, da Tabanca Grande. O Jorge Ferreira, que passou a frequentar a Tabanca da Linha, no almoço-onvívio nº  32 ( Riviera Hotel, Carcavelos, 20/6/2017) deve ter trazido o  Mário Ferreira (que se estreou no almoço-convívio nº 34, aqui no Caravela d'Ouro, Algés).

Foto (e legenda): © Manuel Resende (2017). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Oeiras > Algés > Restaurante "Caravela de Ouro >36º Convívio da Magnífica Tabanca da Linha > 22 de março de 2018 > Da esquerda para a direita, Jorge Rosales (1939-2019) e Mário Magalhães (1937-2026), dois meninos da Linha, dois veteraníssimos da guerra da Guiné, 


Foto (e legenda): © Manuel Resende (2018). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].




Leiria > Monte Real > 25 de maio de 2019 > XIV Encontro Nacional da Tabanca Grande >  Mário Magalhães, o veteranos dos veteranos da Guiné, mais a esposa, Fernanda (Sintra)«

Foto: © Manuel Resende  (2019). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1.  Soubemos, pelo Manuel Resende, régulo da Magnífica Tabanca da Linha (que se vai reunir no próximo dia 16, para o seu 64º almoço-convívio), da morte recente (*), em finais de janeiro, do nosso veteraníssimo Mário Magalhães, membro da Tabanca Grande (nº 742, desde  12/4/2017) e Tabanca das Linha (desde 16/11/2017) (**), ex-srgt mil da CCAV 252 (Bafatá, Bula, Mansabá e S. Domingos, 1961/63). Tinha 88 anos.

Eis algumas notas biográficas do nosso camarada:

(i) data de nascimento: 13 de setembro de 1937;

(ii) estado civil: casado:

(iii) habilitações literárias 7º ano do liceu;

(iv) teve dois períodos de serviço militar: 
um 1º período, de 7 de abril de 1959 a 7 de março de 1961 (Escola Prática de Cavalaria, Curso de Sargentos Milicianos; BA 4, Açores, Polícia Aérea); e um 2º período, em que foi reintegrado,  em 6 de junho de 1961, no CIOE, Lamego, sendo entratanto mobilizado para a Guiné em agosto de 1961,  como furriel miliciano da CCAV 252;

(vi) até novembro de 1963, passou por Bafatá, Nova Lamaego, Buruntuma, Bula, Caió e S. Domingos; e ainda por Bula, Binar,Caió, Mansoa, Farim, Olossato, Oio/Morés, Susana, Varela, S. Domingos, Ingoré, etc.;

(vii) foi promovido a 2º srgt mil em 28/2/1963;

(viii) a sua subunidade, a CCAV 252 teve um louvor coletivo do comandante-chefe, o brigadeiro Fernando Louro de Sousa (**).

(ix) esta subunidade foi a primeira, da arma de cavalaria, a chegar à Guiné; mobilizada pelo RC 3, Estremoz, partiu em 10/8/1961 e regressou a 6/11/1963; esteve sediada em Bissau, Bula, São Domingos e Bula; o seu 1º comandante, o  cap cav António Lopo Machado Carmo   morreu em combate em 14/3/1963, nas proximidades de São Domingos; foi condecorado com a Cruz de Guerra de 2ª Classe; foi substituído pelo cap cav Luís Alberto do Paço Moura dos Santos.

2.  Para a família e amigos mais próximos, vão as condolênicias da Tabanca Grande. 

Ontem dei a triste notícia ao Jorge Ferreira, nosso grão-tabanqueiro nº 728,  contemporâneo do Mário no CTIG: o Jorge foi alf mil, 3ª CCAÇ (futura CCAÇ 5, "Gatos Pretos", a partir de meados de 1967), tendo passado por  Bolama, Nova Lamego e Buruntuma, 1961/63); o fur mil cav Mário Magalhães comandava o destacamento de Buruntuma, ainda antes da chegada do Jorge Ferreira (em outubro de 1961).
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Notas do editor LG:

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27879: Historiografia da presença portuguesa em África (523): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1965 (81) (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 7 de Outubro de 2025:

Queridos amigos,
O termo cartapácio é bem adequado a estes volumes bem pesados, e cada vez mais bem pesados, dado que o espaço ocupado pela legislação da política ultramarina não para de crescer. Tomam-se medidas para que não falte o arroz e ao mesmo tempo definem-se apoios para os produtores; há promoções, pensa-se que mais do que fidelidade são as provas de bravura, caso de Abna Na Onça e de Mamadu Bonco Sanhá. Não vem no Boletim Oficial, mas Azeredo Perdigão, presidente da Fundação Calouste Gulbenkian, visitou a Guiné em fevereiro, a Gulbenkian dá apoio a um conjunto de programas humanitários, como é o caso da Missão de Combate às Tripanossomíases. O efetivo da PIDE cresce a olhos vivos, está sempre a chegar gente. Foi criado o Serviço Público dos Transportes Aéreos da Guiné. E falando de nomeações, nunca se nomeou tanto professor na Guiné, será seguramente o caso das mulheres dos militares sediados em Bissau e certamente militares colocados na capital que recebem autorização para horas extra.

Um abraço do
Mário



Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Guiné, 1965 (81)


Mário Beja Santos

Tenho pela frente um volume superior a mil páginas, a legislação emanada do Ministério do Ultramar, da Presidência do Conselho e de outros órgãos do Governo tem aqui assento, e ocupa muitíssimo espaço. No que toca à Guiné temos a rotina e o outro lado da guerra, ou seja, listas de antiguidade, concursos públicos, movimentos de pessoal, recondução dos cargos, balancete de receitas cobradas e despesas, movimentos de pessoal, mas agora uma enxurrada de concessão de créditos e empréstimos, criação de fundos permanentes, são os artifícios para que tudo aparente uma certa normalidade. Mas não se escondem as dificuldades. Logo no Boletim Oficial n.º 4, de 23 de janeiro, temos a Portaria n.º 1700, nela se diz “Havendo necessidade de promover a importação de arroz para ocorrer ao abastecimento público, considerando que é imperioso tomar medidas no sentido de impedir que o preço de venda desse arroz não ultrapasse o limite da tabela em vigor no corrente ano, durante este ano é autorizada a isenção de direitos a cobrar o despacho da importação.”

Pratica-se a ação social, como se pode ver no Boletim Oficial n.º 16, de 17 de abril, Portaria n.º 1725, é autorizada a Direção da Caixa de Providência dos Funcionários Públicos da Guiné a conceder empréstimos aos servidores do Estado vítimas do incêndio ocorrido no Bairro do Cupelom em 13 de março passado. Ficamos a saber que vão circular notas de mil escudos com a efígie de Honório Pereira Barreto. Percebeu-se que a questão do preço estável do arroz podia ser alvo de descontentamento dos produtores, pelo que, no Boletim Oficial n.º 20, de 15 de maio, pela Portaria n.º 1728, alteram-se as taxas a incidir sobre o arroz vendido na província, por forma a criar uma situação de privilégio para o arroz originário da Província, em relação ao importado, a taxa deste é aumentada.

Temos promoções de regedores, trata-se de figuras de fidelidade à soberania portuguesa. No Boletim Oficial n.º 24, de 12 de junho, é promovido por escolha ao posto de capitão de 2.ª linha o Tenente Abna Na Onça, regedor de Porto Gole e é promovido também por escolha ao posto de Tenente o alferes de 2.ª linha Mamadu Bonco Sanhá, regedor de Badora. O Boletim é recorrente na concessão de adiantamentos de tesouraria, e nunca se viu tanta tomada de posse de professores como agora. Há acontecimentos oficiais que o Boletim Oficial não transcreve, daí a utilidade em consultar o Boletim Cultural da Guiné Portuguesa. Em 10 de fevereiro chegou a Bissau o Presidente da Fundação Calouste Gulbenkian, Azeredo Perdigão vem acompanhado pela mulher e outros membros da administração, visitará, entre outros lugares, o Museu e Centro de Estudos em Bissau, andará por Nova Lamego, Cacheu e Bolama, a Gulbenkian oferece apoio à Missão de Combate às tripanossomíases.

Ler a legislação oriunda de Lisboa, ajuda-nos a perceber como está a evoluir a guerra de guerrilhas. No Boletim Oficial n.º 30, de 24 de julho, é publicado o Decreto-Lei n.º 46410, é criado no âmbito do Ministério do Exército o Centro de Instrução de Comandos, que funcionará na Província de Angola.

Tomam-se medidas favoráveis ao abono de alimentação e subvenção de campanha. Pretende-se dar sinais públicos de austeridade, caso de circular dos Serviços de Fazenda e Contabilidade que se publica no Boletim Oficial n.º 33, de 14 de agosto, faz-se saber que as missões oficiais e comissões de serviço no estrangeiro serão consideradas apenas para casos especiais e extraordinários, reconhecidos por despacho do Ministro do Ultramar.

Os meses passam e mantém-se este misto de rotina e de sinais de alteração, temos os acórdãos e os avisos do costume, e o espaço ocupado pelos diplomas de política ultramarina continua a encorpar. No Boletim Oficial n.º 40, de 2 de outubro, é publicado o Decreto n.º 46511, foi criado o serviço público de Transportes Aéreos da Guiné (TAG), e dá-se a seguinte justificação: “O desenvolvimento que tem tido o tráfego aéreo da Província Ultramarina da Guiné aconselha a criação de um serviço autónomo que assegure da melhor maneira o financiamento do sistema de transporte aéreo.” No Boletim Oficial n.º 42, de 16 de outubro, Suplemento, é aprovada a pauta de importação aplicável às mercadorias originárias de países estrangeiros; pela importação de mercadorias sujeitas a esta pauta, além dos respetivos direitos só serão cobradas, quando forem devidas, as taxas do imposto de consumo ou de prestação de serviços e dos organismos de coordenação económica. Pretende-se obviamente travar a inflação à custa de mais problemas orçamentais.

1965 é o ano em que aumentam os efetivos da PIDE na Guiné. Iremos mesmo ver no Boletim Oficial n.º 1, referente a 1966, louvores do Governador a ações da PIDE, tudo relacionado com gravíssimos acontecimentos ocorridos em Morucunda, no concelho de Farim, em 1 de novembro de 1965. Atenda-se que no Boletim Oficial n.º 43, de 23 de outubro, pela Portaria nº 21565 são criados postos da PIDE em Teixeira Pinto e Bolama.

Outro aspeto que tem a ver com o surto de luta armada é a aprovação do Estatuto Disciplinar da Organização Provincial de Voluntários e Defesa Civil das Províncias Ultramarinas.

Em 27 de dezembro, no Boletim Oficial n.º 52, voltamos à questão do arroz. É permitida a aquisição ao produtor de arroz de pilão nas áreas de Bissau, Mansoa, Bafatá, Catió, Bissorã e Fulacunda, estabelecem-se preços de compra ao produtor e preços de venda ao público.
O Conselho de Ministros aprova fazer engenharia financeira para a Guiné, que já está económica e financeiramente depauperada
Aumentar as verbas diárias para o rancho nas Forças Armadas
Campas de Manjacos
Caçadores Fulas
Convocação para preces a Alá
Dança de rapazes Balantas
Jogo do pau entre Balantas

Estas cinco últimas fotografias foram retiradas do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, números de 1965

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 25 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27856: Historiografia da presença portuguesa em África (522): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1964, 2.º semestre (80) (Mário Beja Santos)