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segunda-feira, 16 de março de 2026

Guné 61/74 - P27825: Manuscrito(s) (Luís Graça) (283): Maratona da amizade e da camaradagem


Lisboa > Largo da Madalena > 15 de novembro de 2009 > Pormenor da calçada à antiga portuguesa, à entrada da Igreja da Madalena... Se não forem os nossos amigos calceteiros, portugueses, de origem cabo-verdiana, já não há ninguém a faça... F*da-se, dá cabo das costas e dos joelhos!

Foto (e legenda): Luís Graça (2009). Direitos reservados


A maratona da amizade e da camaradagem

por Luís Graça

O João Crisóstomo
o mais famoso dos mordomos portugueses de Nova Iorque,
e agora régulo da Tabanca da Diáspora Lusófona,
instituiu o dia 14 de fevereiro 
como o Dia da Amizade... e da Camaradagem (*), 
Pois que seja o Dia do Camarigo, por causa das confusões.

E eu lembrei-me da maratona
que vamos fazendo,
trilhando velhas picadas, 
cada um até ao seu dia,
cada um de nós, os amigos e camaradas da Guiné.
Lembrei-me, 
revisitando um velho, longo poema
que estava no baú das minhas blogarias (**).

Juram, os amigos,
que a amizade não se esgota
nas questões de lana caprina.
Nem se dilui na espuma dos dias.
Testa-se e reforça-se na provação.
A amizade e a camaradagem
(que só pode existir na guerra
e noutras situações-limite).

É verdade, Abel, Abílio, Acácio, Adão, Adelaide, Adelino, 
Adélio, Adolfo, Adriano, Afonso, Agostinho ?!

Dizem outros que eles, os amigos,
devem ser para as ocasiões.
Todas as ocasiões ?
As pequenas e as grandes ?
As boas e as más ? Sobretudo as más ?
A estação seca e a estação das chuvas  ?
A paz e a guerra ?

 ... Albano, Albertino,  Alberto, Alcides, 
Alexandre, Alfredo, Alice, Almeida,   

Ou tudo isso é letra morta, treta?!
Que os amigos conhecem-se
na adversidade, diz o provérbio.

Almiro,  Altamiro, Álvaro, Amaral, Amaro,  
Américo,  Amílcar, Ana, Anabela,  
Angelino Aníbal, Anselmo, Antero ?!

E os camaradas, na guerra,
dizia o senhor doutor Lobo Antunes.
E os colegas nas tainadas e nas putas,
dizia o teu instrutor
de minas, fornilhos e outras armadilhas da vida.

Dizem que sim com a cabeça, 
António, Arlindo, Armandino, Armando, 
Arménio, Armindo,  Augusto, Áurea

Quem em caça, política, guerra e amores se meter,
não sairá quando quiser.


Sairá ou não,
Belarmino, Belmiro, Benito, Benjamim, 
Benvindo, Bernardino, Braima ?!

Os amigos, os verdadeiros e os falsos,
conhecem-se nas ocasiões.
Que a adversidade é o teste da amizade.
A prosperidade traz amigos,
a adversidade os afasta,
diz o chinoca da tua rua,
que não tem amigos,
a não ser o dicionário de português-cantonês,


que poderia ter sido escrito
o que é que vocês acham ?!,
p'lo Campelo, Cândido, Carlos,
se tivessem nascido em Macau,
filhos desventrados e desventurados
do Fernão Mentes Minto ?!

Oh, Galissá, Galissá, 
que no céu se fazem amigos;
e, no inferno da guerra, inimigos,
canta o poeta, cego, da tua rua,
tocador de cora,
deambulando de tabanca em tabanca,
no que resta do regulado de Gabu.

Lembram-se Carmelino, Carvalhido, Casimiro, 
Cátia, Célia, César, Cherno, 
Cláudio, Conceição, Constantino, Cristina ?!

Que a amizade é um edifício
que leva uma vida a construir,
e que num minuto pode ruir,
garante o Esquilo Sorridente,
que era o nome de guerra de alguém,
quando bom escoteiro em Ingoré, 
lá no Norte da Guiné.

Pelo menos assim te contaram, 
Daniel, David, Delfim, Diamantino. 

Não, vocês, não passaram por Ingoré.
Mas passaram por outros sítios da Guiné 
onde Jesus Cristo nunca parou.
Nem Alá.

Diana, Dina, Domingos,  Duarte e Durval.

No aperto do perigo, conhece-se o amigo.
Essa é a verdade,
e a verdade é um osso duro de roer,
até para o cão que rói o osso,
na opinião de quem em Bissorã teve um cão.

Dizem que um cão é uma boa companhia,
Edgar, Eduardo, Egídio, Ernestino, Ernesto, 
Estêvão, Eugénio, Evaristo,
que nunca tiveram cão de guerra.

Que os amigos fazem-se,
praticando a amizade,
E os camaradas a camaragem.
E os camaradas que são amigos
a camaradagem.

Felismina, Fernandino, Fernando, 
Ferreira, Filomena, Fradique.

Tal como os caminhos que, se não se usarem,
ganham espinhos, ervas, silvas, moitas, carrascos,
pedras soltas, calhaus, pedregulhos,
tornam-se abatizes, obstáculos, bagabagas, 
cabeços, colinas, montanhas.

Vero ?!... Gabriel, Garcez, George, Germano, 
Gil, Gilda, Gina, Giselda.

Ou na versão de um velho homem grande, 
mandinga de Contuboel,
algures na velha Guiné agora Bissau:
"a amizade é uma picada
que desaparece na areia, na bolanha ou no mato,
se não a usares todos dias".
Disse-te ele um dia.

Gonçalo, Graciela, Gualberto, 
Guilherme, Gumerzindo, Gustavo.

Não aceito que digas:
"Amigo não empata amigo",
porque o amigo é isso,  
tens toda a razão, camarigo,
que o amigo é para se usar, se guardar
e se resguardar.

 
Achas que sim ou que não ?!, 
Hélder, Henrique, Herlânder, 
Hernâni, Hilário, Hugo, Humberto. 

Para se resguardar das pontadas de ar, 
dos tiros tensos do canhão sem recuo 
e das emboscadas
e dos estilhaços do "jato do povo"-
Não é para se usar, expor e deitar fora,
na berma da picada armadilhada.

Ah!, Idálio, Ildeberto, Inácio, Inês,
Ah!, Isabel, Ismael... 

A amizade não é um objecto descartável,
manda o profeta dizer no seu último mail.
(Ou foi o Sócrates, o grego, antes da cicuta ?).

A conselho amigo, não feches o postigo,
além de que amigo diligente é melhor que parente.
Sobretudo se te dói o dente.

Ah!, Jota A, Jota C, Jota F, Jota L., Jota M.
 
E já que tens físico amigo,
queres dizer médico no antigamente,
manda-o a casa do teu inimigo.
Escreveu o Dom Dinis, 
que foi rei, e régulo da Tabanca da Linha, 
e já morreu, em plena pandemia,
mandou lavrar cantiga de escárnio e mal dizer,
além do pinhal de Leiria.
Quem seu inimigo poupa, às mãos lhe morre.

Ah! Jacinto, Jaime, Jean, Jéssica, João
Joaquim, Jochen,
será que vocês assinam por baixo ?

Mas, atenção, 

amigo disfarçado, inimigo dobrado.
E o que fazer ao amigo que não presta
e à faca que não corta, 
Jorge ?

Também se diz que os amigos novos
metem os velhos no canto ou a um canto.
Se não se diz, pensa-se.
Será assim, mano,
que os amigos também cansam
como a sarna na pele,
como a pele e as suas sete camadas ?

Que se percam, pouco importa!
proclama pela telegrafia sem fios
o coro dos Josés de A a Z

Não sei o que é que vocês pensam:
"Os amigos têm prazo de validade" ?

Joviano, Júlia, Júlio, Juvenal.
 
Uma questão que nada tem de metafísica:
ovo de uma hora,
pão de um dia,
vinho de um ano,
mulher de vinte,
amigo de trinta
e deitarás boa conta.


Lázaro, Leão, Leonel, Lia, 
Libério, Lígia, Luciana, 
Luciano, Lucinda, Luís com s ou com z, 
conforme o desacordo ortográfico.

Amigo, vinho e azeite... o mais antigo,
garante quem passou por Buruntuma
onde não havia azeite (ou se o havia, era o de dendê)
nem vinho... mas havia amigos.

Mamadu, Manuéis de A a Z,  
Margarida, Maria, Mário.

O vinho e o amigo, quer-se do mais antigo,
recomendam o outro Jorge, que é engenheiro,
mais o Picado, que foi agrónomo.
E o que farás dos teus novos amigos, Virgílio,
que não fazem anos no mesmo dia que tu ?

Marisa, Marta, Martins, 
Maurício, Maximino, Melo, Miguel,
 
Faz como o vinho, Zé Manel da Régua,
se for bom mete-o a envelhecer
em cascos de carvalho.
Francês.
Ou castanho.
Português.
A amizade não tem pátria 
Nem é chauvinista. 
Nem é racista.

Garantem o Natalino, o Nelson, o Norberto, 
mais o Nunes e o Nuno,

E por que é que os amigos dos teus amigos 
teus amigos são ?
É como os filhos do teu filho, serão dele ou não…
Que ao menos,
Jorge, 
cresçam Narcisos no teu jardim.

Que sabem vocês, 
que sabemos nós, 
amigos e camaradas da Guiné ?!
Só sabíamos do desalento, 
e do vento
e da morte na alma
e da terrível secura na garganta
e das lágrimas que não podíamos chorar
quando trazíamos do mato, 
os camaradas mortos,
às costas...


Orlando, Orlando, Osvaldo, Otacílio.

Só damos valor às coisas,  
quando elas nos faltam,
e aos amigos
quando fazemos o luto pela sua perda.
E já perdemos tantos, "alfero" Cabral",
tantos de A a Z
camaradas como tu e o António, 
ou amigas como a Zélia!

São tantos os estereótipos, 
amigos e camaradas,
sobre os amigos e a amizade.
E os camaradas.

Pacífico, Patrício, Paula,  Paulo, Pedro.

Sem falar do 'Nino', e do Pires, e do Mané, e do Manecas, e do Indjai, 
dos teus inimigos, que, esses, afinal
eram os mais previsíveis,
estavam sempre do outro lado da ponte...

Que à volta eles cá te esperam,
Amílcar Cabral,
aliás Abel Djassi.
Bolas, vocês até podiam ter sido,
se não amigos,  bons vizinhos!
Que camaradas, salvo seja,
cada "dari" ou chimpanzé no seu galho!
Que chimpanzé não é macaco,
era ferreiro castigado por Alá 
por trabalhar ao sábado 
e andar a fazer drones e espadas de guerra
em vez de arados para lavrar a terra.

Ramiro, Raul, Ribeiro, Ricardo, 
Rogé, Rogério, Rosa, Rui.

Amigo verdadeiro, esse vale mais do que dinheiro,
meu pobre Amadu Djaló,
bom crente, bom muçulmano,
bravo combatente,
leal aos teus amigos "tugas",
tu a quem já te acusaram de mercenário.

Mas vale a morte que tal sorte, Marcelino,
quando os amigos que tens não os tens.
Como os velhos elefantes, 
devias ter voltado para o teu chão,
para morrer entre os teus
e seres enterrado debaixo do teu poilão
Zé Carlos Suleimane Baldé.

O próximo teste,
é quando ganhares o Euromilhões.
Ou quando ficares esticado no caixão, ao comprido:
será que lá terás todos os gatos pingados da companhia ?

Sadibo, Santos, Sebastião, Sérgio, Serra,  
Silvério, Sílvia, Sílvio, Souleimane, Sousa, Susana, 

Antes boa que má companhia, 
nem que seja a do gás e electricidade.
Amigos, amigos, negócios à parte,
dizia o teu primeiro,
que chegou a "mandjor"...

Tibério, Timóteo, Tina, Tomané, Tomás, Tony.

Afinal, quem vai à guerra dá e leva.
Quem te avisa, teu amigo é,
leste uma vez no bilhetinho anónimo
do tempo da delação e do inquisidor-mor.

Quem seu amigo quiser conservar,
com ele não há-de negociar.
E será que se pode blogar,
Carlos ?
Longe da cidade, tanto melhor, diz o
Vinhal,
que é da vila de Leça da Palmeira.

Mas... quem tem amigos, não morre na cadeia,
nem no exílio, dourado,
seja feio ou belo, 
e mesmo que se chame José, o viking.

Um rico avarento não tem amigo nem parente.
As boas contas fazem os bons amigos.
Ao bom amigo, com o teu pão e o teu vinho.
Ao rico mil amigos se deparam,
ao pobre até seus irmãos o desamparam.

Os camaradas, comandos, páras e fuzos, dizem: 
"Connosco ninguém fica para trás"...
Aquele que te tira do perigo, é teu amigo.
Bocado comido não faz amigo,
porque não é partilha...
Defeitos do teu amigo ?

Lamento, meu caro Mário, mas não maldigo
o teu nome de guerra, "Tigre de Missirá"
Em tempo de figos, não há amigos.
Chacun que se governe, Patrício,
em caso de peste (de que Deus nos livre!).
Ou de ataque de abelhas.
Ou de pânico mortal.
Ou de fobia,
acrescenta aí, "Duque do Cadaval".

Muitos conhecidos, poucos amigos:
não é nenhuma heresia,
é palavra do Senhor,
e o Senhor esteja contigo,
meu camarigo  Jaquim,
e com todos nós, filhos da humanidade,
de Abel e de Caim.
Afinal foi Jesus Cristo que nos mandou
amar a Deus acima de todas as coisas 
e ao próximo como a nós mesmos.
Mas parece muito mais fácil 
cumprir o primeiro mandamento do que o segundo,
dizia o camarigo  Jero
Ora, bolas, como podemos amar a Deus que não vemos, 
se não amarmos o próximo que está à nossa frente, 
pergunta o capelão Puim?!

Guardem-se, entretanto, do alvoroço do povo, 
todo os Josés e todo os Joões,
mais os Martins,
e de travar com o doido.

Mas se calhar não há maior amigo 
do que o mês de julho
com o seu trigo que dá pão.
Olha, mulher, se não tens marido,
pouca sorte a tua,
não tens amigo e acabas na rua,
Lena, Hiena, de Bafatá.

Amigo mesmo é aquele que sabe o pior
a teu respeito
e mesmo assim... continua a gostar de ti,
mesmo que tenhas perdido a tua caderneta de vôo,
meu inFélix piloto Jorge dos Allouettes...

Quando uma pessoa perde dinheiro, perde muito;
quando perde um amigo, perde mais,
ó herói de Gadamel, agora tabanqueiro na Maia;
quando perde a coragem e a fé, perde tudo.
Onde é que já leste isto, Gil,
da Tabanca dos Melros ?

Valente, Valentim, Vasco, Victor (com c e sem c).

Difícil, meus amigos e camaradas da Guiné,
é ganhar um amigo numa hora;
fácil é ofendê-lo
e perdê-lo num minuto.
O Torcato Mendonça "dixit", 
da sua janela do Fundão
que dava para a Gardunha,
a Serra da Estrela e a Cova da Beira.

Vilma,Virgílio, Virgínio,   Zé.

Hoje é o amanhã
que tanto nos preocupava ontem,
escreveste tu isto no teu diário,
nas páginas dos feriados 
e dos Dias de Todos os Santos guerreiros...

Mas não menos sábia 
do que a do teu amigo Cherno
é a sabedoria do mongol:
o vitorioso tem muitos amigos, fracos,
mas o vencido tem bons amigos, valentes.
E até o otomano aprendeu à sua custa:
"Quando o machado entrou na floresta,
as árvores disseram:
'O cabo é dos nossos,
mas a lâmina de aço... não a estamos a reconhecer'".

Resta-nos a agridoce memória do passado,
as toponímias da nossa peregrinação trágico-marítima,
do Pijiguiti ao Xime,
de Bolama a Buba,
de Gandembel a Guileje,
de São Domingos a Catió,
sem esquecer o Cheche, 

e o Paulo, e o Rui, e o Aparício 

O que foi duro de sofrer,
lá longe da Pátria,
é agora doce de recordar,
no lar, no doce lar, 
conclui o cadete da Academia,
na fria pedra de mármore de Vila Viçosa.

Olha o Cufeu, Amílcar,
olha o Cufar, Fitas!

Planta hoje a semente da amizade,
mesmo que não sejas lavrador,
para colheres amanhã a flor da gratidão.
Ser amigo é ser generoso,
é dar antes de te pedirem,
é um gesto gratuito.
Quiçá o mais puramente gratuito dos teus gestos.
Ou será interesseira, a amizade ?
Para ti, não é como dar aos pobres...
Aí emprestas a Deus,
tu que és Paulo e Lage, tu que és pedra,
e Deus paga-te em vida ou na morte,
com os dividendos do poder,
da glória, da fama, da riqueza 
ou da eternidade,
lá no Olimpo dos Camarigos

Se estás tão cansado, meu amigo,
Junqueira, Condeço, Tavares,
que não possas dar-me um sorriso,
eu deixo-te o meu,
a ti que és Victor,
E "In Hoc Signo Vinces".

Não, nunca digas:
"Chega-te para lá, que me tapas o meu sol".
Por que o sol quando nasce devia ser para todos.
As lágrimas dos bons caem no chão,

Arminda, Rosa, Áurea, Giselda, Ivone, Zulmira,

para poderem vir a engrossar os rios da revolta
e da indignação.
Inútil tentares juntar as tuas mãos,
se elas não estiverem vazias,
diz o teu guru do Tibete, agrilhoado.
Os amigos escolhe-os tu,
os parentes são os que Deus te deu.
Quando estás certo, ninguém se lembra;
quando estás errado, ninguém esquece.

Amigos e camaradas paraquedistas,
poucos e loucos mas bons,
que não são do arre-macho
nem da tropa-macaca,
que também é gente e primata,

Volta o teu rosto na direção do sol, 
tu, Miguel, que és o mais "strelado" de todos nós,
para que as sombras fiquem para trás, 
E não caias do céu aos trambolhões, 
tu, tenente pilav que chegaste a general.

À laia de conclusão,
amigos e camaradas da Tabanca Grande, de A a Z,
sintam-se todos evocados e convocados,
para esta maratona da amizade e camaradagem.
E honrados.

Antes de começares o trabalho de mudar o mundo,
dá três voltas dentro de tua casa...
E sobretudo não esqueças a lição
sobre a parábola da Sabedoria e da Asneira:
"Para os erros alheios,  
temos os olhos do lince;
para os nossos próprios, 
os olhos da toupeira".
 
 
PS - Requiem para os amigos e camaradas da Tabanca Grande
que já se despediram da Terra da Alegria

A. Marques Lopes (1944-2024) 
Agostinho Jesus (1950-2016) 
Alberto Bastos (1948-2022) 
Alcídio Marinho (1940-2021) 
Alfredo Dinis Tapado (1949-2010) 
Alfredo Roque Gameiro Martins Barata (1938-2017) 
Amadu Bailo Jaló (1940-2015) 
Américo Marques (1951-2019) 
Américo Russa (1950-2025) 
António Branquinho (1947-2023)
António Cunha ("Tony") (c.1950 - c. 2022)  
António da Silva Batista (1950-2016) 
António Dias das Neves (1947-2001) 
António Domingos Rodrigues (1947-2010) 
António Eduardo Ferreira (1950 - 2023)
António Estácio (1947-2022) 
António José Matias (1949-2022)
António Manuel Carlão (1947-2018) 
António Manuel Martins Branquinho (1947-2013) 
António Manuel Sucena Rodrigues (1951-2018) 
António Medina (1939-2025) 
António Rebelo (1950-2014) 
António Teixeira (1948-2013) 
António Vaz (1936-2015) 
Armandino Alves (1944-2014) 
Armando Tavares da Silva (1939-2023) 
Armando Teixeira da Silva (1944-2018) 
Augusto Lenine Gonçalves Abreu (1933-2012) 
Aurélio Duarte (1947-2017) 

Carlos Alberto Machado Brito (1932-2025)
Carlos Alberto Cruz (1941-2023) 
Carlos Azeredo (1930-2021) 
Carlos Cordeiro (1946-2018) 
Carlos Domingos Gomes (Cadogo Pai) (1929-2021) 
Carlos Filipe Coelho (1950-2017) 
Carlos Geraldes (1941-2012) 
Carlos Marques dos Santos (1943-2019) 
Carlos Rebelo (1948-2009) 
Carlos Schwarz da Silva, 'Pepito' (1949-2012) 
Carronda Rodrigues (1948-2023) 
Celestino Bandeira (1946-2021) 
Clara Schwarz da Silva (1915-2016) 
Cláudio Ferreira (1950-2021) 
Coutinho e Lima (1935-2022) 
Cristina Allen (1943-2021) 
Cristóvão de Aguiar (1940-2021) 
Cunha Ribeiro (1936-2023) 
Daniel Matos (1949-2011) 
Domingos Fernandes (1946-2020) 
Eduardo Jorge Ferreira (1952-2019) 
Elisabete Silva (1945-2024) 
Ernesto Marques (1949-2021) 

Fernando Brito (1932-2014) 
Fernando Calado (1945-2025)
Fernando Costa (1951-2018) 
Fernando [de Sousa] Henriques (1949-2011) 
Fernando Franco (1951-2020) 
Fernando Magro (1936 - 2023) 
Fernando Rodrigues (1933-2013) 
Florimundo Rocha (1950-2024)
Francisco Parreira (1948-2012) 
Francisco Pinho da Costa (1937-2022) 
Francisco Silva (1948-2023)
França Soares (1949-2009) 
Gertrudes da Silva (1943-2018) 
Horácio Fernandes (1935-2025)
Humberto Duarte (1951-2010) 
Humberto Trigo de Xavier Bordalo (1935-2024) 
Inácio J. Carola Figueira (1950-2017) 
Isabel Levezinho (1953-2020) 
Ivo da Silva Correia (c. 1974-2017) 

João Barge (1945-2010) 
João Cupido (1936-2021)
João Caramba (1950-2013)
João Diniz (1941-2021)
João Henrique Pinho dos Santos (1941-2014)
João Meneses (1948-2020)
João Rebola (1945-2018) 
João Rocha (1944-2018) 
João Silva (1950-2022)
Joaquim Cardoso Veríssimo (1949-2010) 
Joaquim da Silva Correia (1946-2021) 
Joaquim Peixoto (1949-2018) 
Joaquim Sequeira (1944-2024) 
Joaquim Vicente Silva (1951-2011) 
Joaquim Vidal Saraiva (1936-2015) 
Jorge Cabral (1944-2021) 
Jorge Rosales (1939-2019)
Jorge Teixeira (Portojo) (1945-2017) 
José António Almeida Rodrigues (1950-2016) 
José António Paradela (1937-2023) 
José Augusto Ribeiro (1939-2020) 
José Barreto Pires (1945-2020) 
José Carlos Suleimane Baldé (c.1951-2022) 
José Ceitil (1947-2020) 
José Eduardo Alves (1950-2016) 
José Eduardo Oliveira (JERO) (1940-2021) 
José Fernando de Andrade Rodrigues (1947-2014) 
José Luís Pombo Rodrigues (1934-2017)
José Manuel Amaral Soares (1945-2024)
José Manuel Dinis (1948-2021) 
José Manuel P. Quadrado (1947-2016) 
José Marcelino Sousa (1949 - 2023) 
José Martins Rosado Piça (1933-2021) 
José Maria da Silva Valente (1946-2020) 
José Marques Alves (1947-2013) 
José Moreira (1943-2016) 
José (ou Zé) Neto (1929-2007) 
José Pardete Ferreira (1941-2021) 
Júlio Martins Pereira (1944-2022) 

Leite Rodrigues (1945-2025) 
Leopoldo Amado (1960-2021) 
Leopoldo Correia (1941-2024)
Libório Tavares (Padre) (1933-2020) 
Lúcio Vieira (1943-2020) 
Luís Borrega (1948-2013) 
Luís Encarnação (1948-2018) 
Luís Faria (1948-2013) 
Luís F. Moreira (1948-2013) 
Luís Henriques (1920-2012) 
Luís Rosa (1939-2020) 
Luiz Fonseca (1949-2024)
Mamadu Camará (c. 1940-2021) 
Manuel Amaral Campos (1945-2021) 
Manuel Carneiro (1952-2018) 
Manuel Castro Sampaio (1949-2006) 
Manuel Dias Sequeira (1944-2008)
Manuel Marinho (1950-2022) 
Manuel Martins (1950-2013)
Manuel Moreira (1945-2014) 
Manuel Moreira de Castro (1946-2015) 
Manuel Varanda Lucas (1942-2010) 
Manuel Gonçalves (Nela (1946-2019 (*) 
Marcelino da Mata (1940-2021) 
Maria da Piedade Gouveia (1939-2011) 
Maria Ivone Reis (1929-2022) 
Maria Manuela Pinheiro (1950-2014) 
Mário de Oliveira (Padre) (1937-2022) 
Mário Gaspar (1943-2025)
Mário Gualter Pinto (1945-2019)
Mário Vasconcelos (1945-2017)
Nelson Batalha (1948-2017) 
Nuno Dempster (1944-2026)
Nuno Rubim (1938-2023)

Otelo Saraiva de Carvalho (1936-2021) 
Paulo Fragoso (c.1947-2021) 
Queta Baldé (1943-2021) 
Raul Albino (1945-2020) 
Renato Monteiro (1946-2021)
Regina Gouveia (1945-2024) 
Rogério da Silva Leitão (1935-2010) 
Rui Alexandrino Ferreira (1943-2022) 
Rui Baptista (1951-2023) 
Suleimane Baldé (1938-2025)
Teresa Reis (1947-2011) 
Torcato Mendonça (1944-2021)
Umaru Baldé (1953-2004) 
Valdemar Queiroz (1945-2025)
Vasco Pires (1948-2016) 
Veríssimo Ferreira (1942-2022) 
Victor Alves (1949-2016) 
Victor Barata (1951-2021) 
Victor Condeço (1943-2010) 
Victor David (1944-2024) 
Vítor Manuel Amaro dos Santos (1944-2014) 
Xico Allen (1950-2022) 
Zélia Neno (1953 - 2023)
_________

Luís Graça (2009). O original foi escrito num noite de insónias,
há muitos anos (**).

Revisto e melhorado em 14/3/2026,
o dia em que a minha neta Rosa Klut Graça começou a andar,
às 20:15, na casa da Graça.
30 pequenos passos de gigante.
O primeiro "sprint" da sua vida. Aos 13 meses e meio.
E eu, por sorte, registei em vídeo esse momento único.
______________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 14 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27734: Efemérides (383): O dia 14 de Fevereiro é para mim mais que "o Dia dos Namorados”, é o ‘Dia da Amizade” (João Crisóstomo, ex-Alf Mil Inf)

João, já existe o Dia Internacional do Amigo e da Amizade. A Assembleia Geral das Nações Unidas resolveu convidar todos os países membros a celebrar o Dia Internacional da Amizade em 30 de julho. Só temos 365 dias por anos (mais um,  nos bissextos). O Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca é...Grande. Por causa das confusões, fica o Dia do Camarigo, no dia 14 de fevereiro.

(**) Vd. poste 21 de novembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5309: Blogpoesia (58): Para os amigos e camaradas da Guiné que esta noite tiveram insónias (Luís Graça)

(***) Último poste da série > 
16 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27824: Manuscrito(s) (Luís Graça) (284): a crise da habitação não é apenas dos humanos, é também das... cegonhas que se renderam ao "fast food" e já não migram para África!

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27585: In Memoriam (564): Horácio Neto Fernandes (Ribamar, Lourinhã, 1935 - Porto, 2025): ele foi, para mim, o irmão mais velho que eu nunca tive (João Crisóstomo, régulo da Tabanca da Diáspora Lusófona, Nova Iorque)


Lourinhã > Ribamar > Tabanca de Porto Dinheiro > 12 de julho de 2015 > Restaurante O Viveiro > Convívio anual da Tabanca de Porto Dinheiro. Régulo: Euardo Jorge Ferreira (1953- 2019), ex-alf ex-alf mil, Polícia Aérea,Bissalanca, 1973/74

(i) Da esquerda para a direita, na primeira fila:
  • António Nunes Lopes e João Crisóstomo (ambos pertenceram à CCAÇ 1439, 1965/67); 
  • Helena do Enxalé (mulher do Álvaro Carvalho, fotógrafo; era filha  do Pereira do Enxalé, que morreu em Bissau, em agosto de 1974);
  • Vilma Crisóstomo (esposa do João);
  • Dina   (esposa do Jaime) e Milita (esposa do Horácio) (as duas últimas naturais de Fafe); 
(ii) na segunda fila:
  • Eduardo Jorge Ferreira;
  • Maria Alice Carneiro e  Luís Graça;
  • Alexandre Rato (então presidente da junta de freguesia de Ribamar);
  •  Horácio Fernandes (1936-2025);
  • Jaime Bonifácio Marques da Silva. (Falta o fotógrafo, o Álvaro Carvalho.)

Lourinhã > Ribamar > Tabanca de Porto Dinheiro > 12 de julho de 2015 > Restaurante O Viveiro > Convívio anual da Tabanca de Porto Dinheiro > João e Horácio  

Fotos: © Álvaro Carvalho (2015) Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Braga > Convento e seminário de Montariol > 1959 > Esta foto foi a foto dos “finalistas" de Montariol de 1959 (5º ano), prontos a ir para o Varatojo, em Torres Vedras, ao pé da minha casa, “tomar o hábito de noviços". 

Sem desprimor para os outros, permito-me identificar o padre capelão (falecido), José Sousa Brandão, que é o segundo na última fila, da direita para a esquerda [assinalado a amarelo, com o nº 1]; ao centro está o padre, meu primo direito, António Alves Sabino (de Vale Martelo, Silveira, Torres Vedras); era o prefeito do colégio nessa altura [2].

A seu lado, estou eu, o único de braços cruzados [3] …A meu lado, a à minha esquerda, está o Padre Diamantino Maciel [4], fundador duma paróquia ( igreja St.António da Arancária, Vila Real ). 

O Horácio, quase dez anos mais velho do que eu, não está nesta fotografia. Encontrámo-nos pela primeira vez em Leiria no convento franciscano da Portela, ele já padre franciscano (desde 1959, ano em quer disse missa),  estava como prefeito do que era na altura uma “escola” para miúdos que fazia parte desse convento, mas sem qualquer relacionamento com “vocação religiosa”.

Foto (e legenda): © João Crisóstomo (2020). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].


1. Mensagem do João Crisóstomo, que vive em Nova Iorque, é o régulo da Tabanca da Diáspora Lusófona, e que está por estes dias em Alter do Chão com a Vilma e o Rui Chamusco, devendo lá passar o fim de ano. 

Data - segunda, 29/12/2025, 22:08
Assunto - O choque da notícia da morte do Horácio

Meu mano Luís Graça,

Bem Hajas!  

Obrigado por este poste "In Memorian” do nosso Horácio (*). “Nosso” porque vejo que temos muitos elos comuns que nos ligavam e continuam a fazer que ele fique sempre connosco. 

De certa maneira, ele é mais teu do que meu pois que no meu caso não sou da família e não sou tão seu conterrâneo como tu, pois a Bombardeira onde nasci fica a uns bons quilómetros de Ribamar. 

Por outro lado o destino fez de nós irmãos em várias outras vertentes: a sua meninice não deve ter sido muito diferente da minha: ambos fomos criados com poucos meios materiais. No caso dele ainda bem mais difícil do que eu. 

Depois da escola primária os nossos caminhos foram os mesmos: frequentamos os mesmos colégios onde recebemos a mesma "agridoce educação”: se por um lado recebemos uma cultura franciscana de altruísmo, desapego a bens materiais e outros ensinamentos que podemos considerar positivos, por outro lado fomos desde miúdos sujeitos a uma lavagem cerebral a muitos títulos desastrosa que a ele, a mim e tantos outros nos marcou e que tivemos de lutar para dela nos livrar para o resto das nossas vidas.

Mas tudo isto sucedeu sem mesmo nos conhecermos por muito tempo: ele nascido a 15 de setembro de 1935 era portanto quase dez anos mais velho do que eu. Encontrámo-nos pela primeira vez em Leiria no convento franciscano da Portela, ele já padre franciscano , estava como prefeito do que era na altura uma “escola” para miúdos que fazia parte desse convento, mas sem qualquer relacionamento com “vocação religiosa”. 

E eu frequentava os estudos de filosofia. E lembro que quando ele precisou de ajuda para preparar o presépio e outros decorações de Natal nessa escola , que de certa maneira era independente do convento, eu e outro “estudante franciscano de filosofia” oferecemo-nos. Foi nessa altura que nos conhecemos e começou a nossa amizade.

Sucede que no fim destes meus três anos de estudos eu resolvi sair. E logo se me pôs o problema do serviço militar, pois ninguém me queria dar trabalho antes de eu ter acabado o serviço militar. Esta espera levou-me a voltas e contactos, entre estes com uma família da Cerca, Silveira.

A verdade é que o que me atraía nessa família eram as três irmãs com quem eu queria a todo o custo manter boas relações. Estas conheciam o João Maria Maçarico e o Padre Horácio de Ribamar, que eu conhecia já. E cedo os pais e irmãs do (padre) Horácio "adoptaram-me” também . E a minha vida era uma correria entre Ribamar e a Cerca , a ponto de os meus pais me censurarem, que “parecia que eu gostava mais daquelas casas do que da casa deles”, que eram meus pais.

E comecei a conhecer melhor ainda o padre Horácio, o seu amor e dedicação aos seus paupérrimos pais e irmãs. Mas não só: ele era um amigo de toda a gente, e mesmo na sua pobre condição de frade franciscano, a todos queria ajudar. 

Recordo-me que um dia, estávamos nós— eu, ele e um grupo de rapazes e raparigas, sempre os mesmos —  nas imediações de Porto Dinheiro, e ele, pensando que  eu que já não era frade e devia estar "mais à vontade", de longe berrou-me:
 
 —  Oh,  João, tu podes-me emprestar vinte escudos?

E  eu que fazia tudo a pé (Bombardeira-Ribamar ; Bombardeira-Cerca, etc.), porque não tinha um tostão, fiquei muito embaraçado, mas triste também por o não poder ajudar. 

Ainda hoje se me aperta o coração quando lembro esse dia.  Como lembro o dia em que — o mesmo grupo   fomos todos numa traineira de pesca às Berlengas: o dono da traineira não só nos levou e trouxe com ainda fomos para casa depois comer sardinhas e chicharros que ele fez questão em nos presentear. 

Era assim o Horácio. Todos gostavam dele. Até que um dia mais tarde ele “saiu” também. Mas não vou falar sobre essa parte da sua vida de que ele fala com hombridade e coragem no seu livro que tu conheces bem.

Quando eu estava na Guiné e já depois de ter acabado o meu serviço militar e ele mesmo esteve na Guiné e depois num barco, eu correspondia-me com ele. E segui o que foi a sua luta (e sucesso) para ajudar as irmãs a tirarem os seus cursos de enfermagem e de professora e os seus próprios pais….

Talvez porque sofremos os dois tanta coisa comum — meninice, colégio, educação boa e má, lavagem cerebral , dificuldades financeiras, situações que felizmente no fim ele e eu conseguimos vencer e sobreviver… 
— mas sobretudo porque ele era para mim um irmão mais velho, a sua passagem foi dura para mim.

Já há bastante tempo que não sabia dele: era sempre a esposa, a Milita, que apanhava o telefone e agora nem isso. Pelo que ontem lembrei-me de ir ver a Carmitas, que habita no que era a sua casa onde nasceu, agora feita numa residência muito confortável, para lhe dar um abraço e saber notícias. Quando ele me disse "o meu mano faleceu“ foi como se me tivessem dado um "knock-out”. De que não me foi fácil despertar e aceitar.. Duro, duro!

E, mais do que informação que achei devia partilhar contigo, era o teu abraço e empatia que eu precisava. Obrigado, meu caro Luís Graça. Obrigo-me a mim mesmo a ter coragem. Mas não é fácil.

Um abraço grande, João

(Revisão / fixação de texto: LG)
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quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Guiné 61/74 - P27096: Felizmente ainda há verão em 2025 (12): ruminações nova-iorquinas... (João Crisóstomo, régulo da Tabanca da Diáspora Lusófona)





1. Mensagem do nosso John Crisostomo, o luso-americano régulo da Tabanca da Diáspora Lusófona  (foto à esuerda: com a Vilma, num 10 de junho).

João Crisóstomo, membro da nossa Tabanca Grande, com c. 280  referências no blogue, a viver em Queens, Nova Iorque, ativista social, ex-alf mil inf, CCAÇ CCAÇ 1439 (Xime, Bambadinca, Enxalé, Porto Gole e Missirá, 1965/67).


Data - 6 ago 2025 00:42  
Assunto - Ruminações

Caríssimo Luís Graça ( e outros camaradas-irmãos, se o nosso comandante quiser “partilhar” estas minhas “ruminações” )


Acabo de abrir o computador para me pôr em dia com os meus camaradas da Tabanca e verifico que estou mesmo a ficar atrasado. Tanta coisa boa: 

  • poesias do Manuel Gouveia Oliveira que merecem admiração e aplauso;
  • uma homenagem do Joaquim Caldeira ao “desconhecido herói' Adriano ( e quantos outros merecem um post destes e muito mais e nunca são lembrados por ninguém!); 
  •  crónicas do Juvenal Amado que nos fazem lembrar algumas situações semelhantes nas nossas vidas mas que na maioria dos casos, nunca passam de "luzes debaixo de alqueires”, por nunca serem partilhadas…; 
  • um comentário muito apropriado do Eduardo Estrela ao post do Adão Cruz (ambos me fazem inveja porque eu não sei dizer tanto com em tão poucas palavras; … etc etc… 

Isto para mencionar apenas os posts destes últimos dias, pois é raro o dia em que não apareça neste nosso blogue algo credor do nosso apreço. A eles e todos, faço minhas as palavra do Virgílio Teixeira “ A todos que não posso responder em directo, os meus abraços”.

Mas há um post muito especial que me causou uma cascada de emoções, frustração e inveja por não poder participar melhor do que sentir um nó no peito. Entre outras, muitas saudades. Saudades dum encontro semelhante (um festival do mexilhão ) onde eu e a Vilma fomos e em que, parece-me, estiveram toda a gente mencionada nesta "batatada de peixe seco”: O saudoso Eduardo e a São; o Rui Chamusco; os duques do Cadaval Pinto de Carvalho e Céu Pintéus; O Jaime ; e tu e a Alice…

E fez-me lembrar os meus tempos de miúdo: eu ainda não estava na escola primária, portanto devia ter os meus quatro ou cinco anos ; quando em Peniche havia peixe com fartura vinham sempre uma ou duas carrinhas vender o peixe pelas aldeias ; quando chegavam à minha aldeia, a Bombardeira, geralmente já só havia chicharro que vinha em bruto, na parte de trás da carrinha . E não era vendido ao quilo mas "em atacado" ( é assim que se diz certo?) aos cestos. 
Se me não engano chegava a ser cinco tostões por um cesto de chicharro.

 Nesses dias o meu pai comprava um ou dois cestos de chicharro, que depois de aberto e limpo era posto a secar . E aí eu sentia-me muito importante no meu trabalho de enxutador de moscas: punham-me em cima do telhado, com um boné velho na cabeça e uma pequena vara de eucalipto na mão e eu, muito compenetrado da minha responsabilidade de não deixar que as moscas pousassem no peixe, lá ficava até que o sol começava a perder a força e o chicharro era arrecadado para se repetir a mesma operação no dia seguinte.” Oh Tempo, volta pra trás…”

Não vou fazer comentário a este teu post pois que não tenho o que é necessário para o fazer . Mas mais uma vez, aproveito quem sabe falar e escrever melhor do que eu: “ Grande texto, Luís, estas a escrever como um principe, dos bons, da excelente literatura” diz o António Graça de Abreu. Ele tem razão. E a ambos eu tiro o meu chapéu.

E já que estou no computador, aproveito para te dar notícias nossas. Estamos bem, mais ou menos, pois na nossa idade, pelo menos no que me diz respeito, quando dizemos que está tudo bem, geralmente estamos a mentir: se não é a perna que dóe .. são os dentes a atrapalhar ou as costas a lembrar que estamos nos “entas” avançados. Agora ando quase sempre de bengala, por vezes até dentro de casa.

A Vilma essa parece cada vez mais nova: neste momento está em Maryland ( um “estado" perto de Washington) numa convenção relacionada com meditações e coisas assim . Ela bem me quis convencer a ir com ela mas eu pus os pés no chão: tive e fiz mais retiros e meditações, nos meus tempos de colégio, mais que suficientes para o resto da vida… Mas ela lá está contente e feliz. Falamos pelo WatsApp todos os dias duas ou três vezes. Quando ele me disse que gostava de ir a esta convenção eu pus as minhas reticências e objeções; mas evidentemente que não me opus, desde que fosse sozinha! ; e agora vejo que agi bem: ela está tão feliz que ao olhar para ela não posso deixar de sentir a sua alegria contagiante!

E não estou a dizer isto porque sou católico. “Voltei"ao catolicismo depois de muitas "visitas e viagens” que incluíram o ceticismo e agnosticismo… Muita gente pensa que o facto de eu por vezes ter muitos contactos com autoridades e líderes religiosos quer dizer que sou muito “religioso.” E não é bem assim. Na verdade sou católico , mas não sou “fanático”. Acho que antes de ser cristão um indivíduo é um ser humano. E por vezes até digo que me sirvo dos meus "contactos religiosos” para atingir fins sociais, independentemente da sua ligação ou não com religiões. Mas … chega de ruminações religiosas para hoje.

Bom, agora vou fazer uma pausa, que tenho de ir pintar o meu "back yard” (um pequeno quintal na traseira da minha casa.). Volto logo. Ou então faço como tu que te levantas às três da manhã para falar com os teus amigos e camaradas.

Estou de volta .

Disseste-me há tempos ( em comentário ao 4 de Julho americano com sabor a bacalhau ) que sou um "homem de ideias práticas, gostas de bricolagem” …. Deixa-me responder a esta tua afirmação/suposição. Porque parece-me que tens razão. Mas primeiro deixa-me fazer as devidas "ressalvas” para não ser mal compreendido e fazer figura de charlatão.

Lembro o que o meu pai dizia: "alguém que diz ter sete ofícios, pode ter quantos ofícios quiser mas não é bom em nenhum deles.” Portanto o que segue não em qualquer intenção de ridícula gabarolice. Os meus “ofícios" de alguma maneira foram-me impostos… tomei-os por pura e simples necessidade, nada mais. Sobrevivência ….

Pergunto-me o que diria hoje o meu pai , ao ver que o seu filho “virou” ( "virar “era uma palavra que ele usava para dar ênfase a uma ideia fora do vulgar) mesmo um homem de sete ofícios…As voltas da minha vida depois da Guiné deram mesmo nisso. É que "a necessidade faz o ladrão”. Quis estudar línguas e para isso tive de começar a lavar pratos e panelas… e eu que nunca tencionava trabalhar em restaurantes, de repente fizeram de mim um garçon, depois “virei” maitre d’hotel, gerente de restaurante, e finalmente mordomo.

Se "virei activista” também não tive culpa. As circunstancias em que me encontrava quando as coisas “apareciam" não me permitiam fazer diferentemente do que fiz. O acaso trouxe-me a Nova Iorque; o acaso levou-me a ser mordomo. Outra pessoa a quem o acaso levasse a encontrar-se nas mesmas circunstâncias teria com certeza feito igual, talvez mesmo mais e melhor.

E quanto a bricolage (em português europeu, bricolagem), é a tal necessidade de se desenrascar: reconheço e admito que tenho muita imaginação. E, dizem que sou “perseverante”. Sou pior do que isso: o que eu sou é um teimoso do caraças quando a minha cabeça me diz que uma coisa é ou pode ser duma maneira, mesmo que a maioria das pessoas afirme diferentemente. E quando é assim não desisto. Essa a razão porque por vezes me apelidaram de "berbequim".

A tal engenhoca para cortar o bacalhau em postas com uma catana da Guiné  (imagem à esquerda) é um exemplo de imaginação, faceta que não nego. 

Tenho vários outros ofícios, sem ser bom em nenhum deles: todas as pessoas que visitam a minha casa ficam de boca aberta ao ver a quantidade de bogigangas que eu tenho seja para o que for: carpintaria, alvenaria, pinturas… faço de tudo um pouco, bem consciente de que sou um engenhocas, mas sempre e apenas um engenhocas amador. 

Por vezes as coisas saem tortas e lá tenho eu de chamar o empreiteiro para corrigir as asneiras que eu fiz… outras vezes dá certo. Por exemplo a casa de arrumações no meu quintal foi toda feita por mim, sozinho. O empreiteiro que faz a maioria dos “trabalhos mais complicados " na minha casa queixou-se um dia de que eu tinha dado aquele trabalho a outrem…

Bom já chega. Hoje aconteceu-me ter inesperado tempo livre e deu-me para isto .

Um grande abraço
João ( Nova Iorque )






Lourinhã > Ribamar > Tabanca de Porto Dinheiro > 12 de julho de 2015 > Restaurante O Viveiro > Convívio anual da Tabanca de Porto Dinheiro. Régulo:  Euardo Jorge Ferreira (1952-2019).
- No  grupo dos tabanqueiros da saudosa Tabanca da Porto Dinheiro, falta o fotógrafo, o Álvaro Carvalho (casado com a Lena do Enxalé, de está azul, entre o João Crisóstomo e a Vilma). Faltam ainda os "duques do Cadaval" (Joaquim Pinto Carvalho e Céu Pintéus)...A Dina já não está entre nós nem o Eduardo... O Lopes está doente, acamado. Do nosso capelão Hirácio (e da Milita) também não temos notícias recentes. Falta ainda o Rui Chamusco, o Carlos Silvério e a Zita...

Legenda: da esquerda para a direita, António Nunes Lopes, João Crisóstomo, Helena do Enxalé, Vilma Crisóstomo, Dina, Milita (primeiria fila); Eduardo Jorge Ferreira, Maria Alice Carneiro, Alexandre Rato  [presidente da junta de freguesia de Ribamar,], Horácio Fernandes e Jaime Bonifácio Marques da Silva (segunda fila).


Foto (e legenda) : © Álvaro Carvalho (2015)  Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar:  Blogue Luís Graça & Camnaradas da Guiné]


2. Post-Scriptum

john crisostomo
6 agosto 2025 | 08:05

Às 02.03 AM, sem conseguir dormir, levantei-me e reli as "ruminações" que te enviei ontem. Vejo que há muito mais que podia acrescentar ou que podia ser dito de melhor maneira. 

Por exemplo não disse que o facto de ser eu o enxutador oficial de moscas quando o chicharro era posto aberto e espalhado em cima do telhado para secar se deve com certeza ao facto de eu ser o único "homem" da família num mundo de mulheres. Os meus pais tiveram dez filhos, mas de rapaz só saí eu. 

A mesma razão (de ser eu eu o único rapaz,) fazia de mim o "algoz.  mata-moscas" à noite antes de irmos para a cama. Na falta de outro meio mais eficiente para controlar as muitas moscas dentro de casa, durante o dia eram pendurados no teto uns ramos bem apertados de umas ervas/meio arbustos (não me lembro o nome ). Eram nestes ramos que as moscas se juntavam para passar a noite. 

E então à noite eu, com um a ajuda das minhas irmãs, conseguia enfiar e envolver os ramos de baixo para cima com uma saca das batatas ( de serapilheira) bem aberta, com muito jeito e cuidado para não tocar nos ramos ( pois quando o saco tocava nos ramos elas fugiam todas). Quando o saco estava a chegar ao teto eu de repente fechava o saco e as moscas ficavam dentro do saco. Então eu agitava o saco para elas não ficarem agarradas aos ramos e deslizava a boca da saca do ramo que continuava pendurado para o dia seguinte. A seguir com toda a força de que era capaz, com o apoio entusiástico das minhas irmãs que sempre riam a bandeiras despregadas, eu batia o saco conta a parede ou mesmo contra o chão. E repetia a mesma operação, um a um, em todos os ramos espalhados pela casa. etc.

Sobre outros assuntos mais sérios mais havia para dizer também, mas acho melhor deixar para quando nos encontramos pessoalmente, não vás tu achar que estou a abusar da tua boa vontade, esperando que tenhas pachorra suficiente para ouvir as minhas deambulações de pensador barato. 

Também disso não tenho culpa e até gostava bem de sentir menos esta obcecação de andar sempre a pensar em coisas de que, sei bem, nunca teremos uma resposta ou certeza. Da mesma maneira que os chamados cientistas pensam e tentam chegar a saber como o mundo começøu, tenha isso sido há quatro mil milhões e meio de anos ou quatrocentos vezes quatro mil milhões…

Bom, vou voltar à cama ( neste momento a Vilma está na sua convenção em sérias meditações e eu estou sozinho!) e vou ler o James Michener que é sempre uma leitura agradável e por vezes apaixonante. Dorme bem.
João

(Revisão / fixação de texto, negritos: LG)                            

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terça-feira, 5 de agosto de 2025

Guiné 61/74 - P27092: Felizmente ainda há verão em 2025 (9): Tu comeste batatada de peixe seco... ontem, na Ventosa do Mar, freguesia da Marquiteira, Lourinhã.. Mas, bolas, Eduardo, João, Rui, amigos, camaradas, como é difícil, em agosto, juntar a gente toda de quem a gente gosta!... (Luís Graça)


Lourinhã > Freguesia da Marquiteira > Ventosa do Mar > 4 de agosto de 2025 > Foto de t-shirt de um comedor de batatada de peixe seco, uma iguaria que não há no céu... nem nos restaurantes da Terra da Alegria.  Só na Marquiteira e na Ventosa do Mar... A da Marquiteira foi há um mês.

Fotos (e legenda): © Luís Graça (2025). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Garça & Camaradas da Guiné]


Bolas!.. A vida é breve... Tão breve... Um dia destes estamos numa cama de hospital a rever a merda do filme das nossas vidas ao contrário. De trás para a frente. De frente para trás. Um documentário curto.  Um filme mudo. Uns escassos segundos. Uma semibreve. Em trinta, sessenta segundos. O nosso tempo de antena... Tão breve como um orgasmo... E depois "damos o peido mestre!"... E vinte e quatro depois somos consumidos pelo fogo.  A 900 graus.  

A vida é tão breve e cruel, camaradas.  O fim do filme não é nada bonito. Porra, merecíamos melhor, não acham ?!...

Nascemos de um orgasmo. Semibreve. Trinta segundos. Tão simples como isso. Nada de mais anódino (do grego, "anódunos, -on", sem dor).. Anódino, anónimo, vulgar... A maior parte das nossas vidas cabe num pequeno vídeo de 30 a 60 segundos, Um minuto. Nada tem de heróico.  E o que é que levamos da nossa vida terráquea para a prometida eternidade ?... Uns dizem que é o que se come, se bebe e se f*de...

Como a gente dizia, na tropa, com crueldade e a estupidez dos nossos verdes anos (em que, pobres de nós , pensávamos que éramos  eternos, imortais, invulneráveis!), somos todos "meias lecas, meias f*das", feitos numa noite alegre de verão ou numa noite de pesadelo de inverno...

Acabámos de nascer. Há 70, 80 anos...  Heroínas foram as nossas mães. Nove meses a afagar a barriga. E depois a parir. E depois a amamentar-nos... Não há mais lindo do que a gravidez das nossas mães. A infinita ternura que puseram, do princípio ao fim, na nossa gestação. Mãe só há uma. Pai....todos podem ser. Progenitores, doadores de sémen.

As nossas mães que pariam em casa. Com dor. Sem assistência médico-hospitalar. No tempo do... Velho Estado Novo.  Cumprindo a maldição bíblica. Parirás com dor. Iam parir na casa das suas mães, se não vivessem longe. 

Como a tua, que faria agora 103 anos. Se fosse viva. Morreu com 92. Maria da Graça. Nascida em 6 de agosto de 1922, No Nadrupe, a 3 km da vila, Lourinhã. Filha da tia "Patxina" , Maria do Patrocínio, e do Manuel Barbosa. Em dia de festa. Festa do  Nadrupe, em honra de Nossa Senhora da Graça. Daí o apelido, Graça.  A três quilómetros da Lourinhã. Na margem direita do Rio Grande da Lourinhã. Que era navegável no tempos dos fenícios,romanos, visigodos, mouros, cruzados.... O mar chegava à Lourinhã nos séculos XII, XIII, XIV... A tua casa está construída em leito de mar. Assente em fósseis marinhos. E um dia destes será engolida por um tsunami.  Estupidez dos autarcas e do Estado que nos deixa construir e habitar em antigos leitos de mar. Todos queremos, afinal,  viver à beira-mar, e mais perto do sol,  para um dia sermos engolidos por eles, pela água e pelo fogo.

Andámos a jogar ao pião. Há 70 e tal anos. Somos filhos do pós-II Guerra Mundial. Da Idade Atómica. Da Bomba Nuclear. Somos todos filhos de Hiroshima. 6 de agosto de 1945. Por favor, não esqueçam!... Não esqueçam Hiroshima.

Aprendemos a rezar. Aprendemos as primeiras letras. Com sete ou oito anos já andávamos a jogar à porrada com os outros miúdos da rua e da escola. Na Rua do Castelo ou no Largo do Convento. Ou na Rua Grande, Ou no Largo das Aravessas.  Vimos o primeiro sangue a escorrer da cabeça. Saltámos às fogueiras de Santo António, São João e São Pedro. Fizemos gazeta à escola e à catequese. Quando o Rio Grande da Lourinhã transbordava. E, sem nos darmos conta, estávamos todos nus, em bicha de pirilau, com a mão a esconder as "vergonhas", à frente dos senhores coronéis da tropa que decidiam quem era apto ou não apto para servir a Pátria. Nus, em pelota, no primeiro andar do velho edifício republicano da câmara municipal. 

Um ou dois anos depois, lá estavam os "filhos de sua mãe", com uma p*ta de uma Mauser, na Índia, ou com uma "namorada", de nome G3, em Angola, Guiné e Moçambique,a defender os cacos do Império. Que fora grande no tempo do nossos maiores. Já não te lembras dos seus nomes. Os heróis da Pátria. Que vergonha!... Tinhas a obrigação de os saber. Eras um "barra" em história, quando fizeste o exame de admissão ao Liceu. Em Lisboa. Um terror, o exame de admissão...

Hoje, "radioativo, protésico, parkinsónico e...alzheimareado", já não te lembras a quem deste  três anos da tua vida, tão curta (vais fazer oitenta, se lá chegares, em 29 de janeiro de 2027!)...  Se alguém souber, por favor, que te ajude!... É uma obra de caridade...

São três da manhã. Estás con insónias. E quando estás com insónias, levantas-te, abres o "portátil"... e escreves. Alimentas o blogue, a tua "droga", a tua "adição". 

Nunca se deve comer batatada de peixe seco à noite. Muito menos na Ventosa do Mar, Lourinhã. Numa manjedoura coletiva que juntou perto de 350 bocas, esfomeadas, ruidosas, alegres... Como em romaria...  Ontem, 4 de agosto de 2025. No último dia da tradicional Festa do Emigrante. Convivendo à mesa com gente de diferentes gerações. Filhos de muitas mães e terras: Cadaval, Lourinhã, Seixal, Sobral, Marteleira, Ventosa, Cesaredas, Lisboa, Marco de Canaveses, Paris... Gente que adora batatada de peixe seco. Iguaria que só existe em terras ribeirinhas da Lourinhã como a Marquiteira, a Ventosa do Mar, Ribamar. Honra a esta gente que mantém esta tradição. 

Ficaste ao lado de pequenos empresários, gente valorosa, na casa dos 40/50, como os teus filhos. Um de mármores, outro de ar condicionado. Mas a quem já nada diz a p*ta da guerra que te roubou três anos de vida, e ainda tira o sono a muita gente, cinquenta, sessenta anos depois. Só tira o sono a quem a fez. Como tu. O Jaime. O Pinto de Carvalho.

Porra!... Faltou o Eduardo Jorge Ferreira, que já está lá no céu. Desde 2019.  Morto estupidamente numa clínica particular a partir uma pedra na bexiga. E que sempre te dizia, na caldeirada de Ribamar ou na batatada de peixe seco da  Ventosa: "Luís, olha que no céu não há disto!"... E ele era crente, tão cristão como tu és  herege!... 

Ainda hoje esta gente fala com respeito e ternura do senhor professor Eduardo Jorge... Que falta  fazes,  nosso irmão!... E tu, mano  João Crisóstomo, que estás para aí sozinho, com a tua Vilma,  em Nova Iorque. Bolas, nunca comeste com a malta, teus amigos e camaradas,  a batatada de peixe seco!... E o  mano Rui Chamusco que deve estar andar pelo Sabugal (ou por Alter do Chão ?)... Bolas, Eduardo, João, Rui, como é difícil, em agosto, juntar a gente toda de quem a gente gosta.

És fã, de há muitos anos, desta iguaria dos pobres. Que merecia ter uma confraria. A da Batatada do Peixe Seco. Costumas não perder as tradicionais batatadas de peixe seco da Marquiteira e da Ventosa do Mar. Este ano perdeste,  por um dia, a da Marquiteira. Que é a Rainha da Festa. Honra à Marquiteira, terra do teu primo, amigo e camarada  Rogério Gomes, que esteve em Angola, na guerra...

 Mas estiveste ontem, há meia dúzia de horas, na batatada de peixe seco, na da Ventosa do Mar. Terra do João Duarte, o presidente da Câmara Municipal da Lourinhã (agora em fim de mandato). Que sabe receber, como ninguém, os seus amigos e convidados. Na sua "manjedouro" eram dezenas os comensais, os companheiros. Convidou-te, a ti,  à Alice Carneiro, ao Jaime Silva, e aos "duques do Cadaval" (Joaquim Pinto de Carvalho e Céu Pintéus). Sem distinção de terras, clubes ou partidos. Um gesto de grande hospitalidade e nobreza. Na tua terra ainda são todos iguais.

 A batatada de peixe seco honrou a tradição. Não faltou a generosidades deste gente da Ventosa do Mar, Lourinhã. Malta nova, que organiza a festa. Que dá uma semana das suas férias ou do seu tempo em prol dos outros. Que veste a camisola, pela sua terra. Que lindo, que exemplo, que inveja, em tempo de crueldade, individualismo, egoísmo, arrogância, ódio, xenofobia, por toda a parte no mundo!... E aqui mesmo, ao teu lado...

Não faltou a batata,  a cebola, a arraia, a sapata... e pela primeira vez o espadarte seco (que é mais duro de roer)... A sapata e a arraia são as rainhas da festa... 

No final, estafaram-se duas garrafas de aguardente DOC da Lourinhã e uma de uísque velho, da garrafeira do João Duarte... Obrigada, Ventosa do Mar!,,, Obrigado, mordomos da festa do emigrante da Ventosa do Mar!... Obrigado, João Duarte, que sabes  honrar a tua terra, Ventosa do Mar,  como ninguém! 

Lourinhã, 6 de agosto de 2025, entre as três e meia e as seis e meia da manhã. (Três horas para escrever e editar este poste!...Três horas roubadas ao sono... Mas não à vida. Solidária.)
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