1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 10 de Março de 2026:
Queridos amigos,
Não foi por acaso que juntei a este texto a imagem de uma carta geográfica elaborada pelo capitão Brosselard mostrando o Casamansa e a colónia portuguesa na Guiné. O oficial francês explica com meridiana clareza as razões pelas quais a diplomacia francesa se bateu estrenuamente para se desembaraçar da presença portuguesa dá margens do Casamansa, Durante as conversações realizadas em Paris e que levaram à elaboração da Convenção Luso-Francesa assinada em 12 de maio de 1886, os representantes portugueses bem argumentaram a nossa longa presença histórica em Ziguinchor, para os franceses era a pedra no sapato, contornaram a questão prometendo oralmente que iriam apoiar a diplomacia portuguesa na questão do Mapa Cor de Rosa. Na hora própria, assobiaram para o lado, e ganharam a pérola de Ziguinchor.
Um abraço do
Mário
A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 16
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette
Mário Beja Santos
A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".
Estamos agora na apreciação que o capitão Brosselard faz de Ziguinchor. No meu ponto de vista, constitui algo de muito relevante para se perceber das motivações geopolíticas que levaram o Governo de Paris a tudo fazer para nos afastar liminarmente do Casamansa. Damos a palavra na primeira pessoa do singular ao narrador.
No percurso do rio Casamansa só se encontra uma escala digna desse nome. É Ziguinchor. Tem um fundo de sete metros no cais. A montante desta ancoragem, os navios com um calado de três metros podem subir até à ponta Piedras; com um calado de dois metros podem atingir Selho, a 170Km da foz; abaixo desta dimensão, as embarcações podem subir algumas milhas para lá de Dianah. Deste ponto às nascentes, a distância só poderá ser feita por pirogas ou canoas de fundo liso.
De Adéane a Dianah, as duas margens são bordejadas por uma vegetação luxuriante e árvores gigantescas, principalmente em Yatacounda onde as únicas clareiras que se encontram são ocupadas pelas povoações. A maré faz-se sentir até Selho, e facilita a navegação a veleiros de um só mastro e escunas da ilha de Gorée que, com exceção de alguns navios costeiros ingleses, carregado de nós de cola, frequentam sozinhos este rio. Um vapor demora doze horas desde a foz do rio Casamansa a Selho; os veleiros precisam de três dias. O principal afluente do Casamansa, o Songrogou, é praticável até Tabor para os pequenos veleiros de um só mastro ou bateiras com um calado de 80cm.
Com a concordância do comissário português, a missão francesa dirige-se a Ziguinchor, em 24 de abril, no aviso Goéland. E toma posse desta praça portuguesa que fora evacuada dias antes. O pavilhão francês foi hasteado no dia seguinte de manhã na presença dos principais habitantes e saudada pelos regulamentares vinte e um tiros de canhão.
Em Ziguinchor as habitações confortáveis são raras; quando muito, encontram-se três ou quatro casas de comerciantes construídas à europeia; as outras habitações são casas bastante elevadas, de forma quadrangular ou retangular, de vinte e cinco metros (?) de lado, cujas paredes são em barro e o teto em palha; comportam geralmente quatro divisões e um corredor central. Em grande número de povoações do Casamansa as habitações têm mais conforto que as de Ziguinchor. Quando eu explorava os arredores desta antiga escala portuguesa, fui um dia à povoação de Brin. Ergue-se no meio de um bosque de alta floresta; as casas são construídas com terra e têm um primeiro andar que lembra uma sobreloja. Como nas casas de Ziguinchor, esta parte é destinada a guardar as provisões de milho e arroz. Um largo teto de palha cobre tudo; a este teto são adaptados algerozes feitos com palmeira, através deles as águas fluviais escoam-se longe das povoações. Estas casas, no interior, com a sua grande altura, os seus corredores cumpridos e escuros, os seus postigos e pequenos recantos, lembram muito os velhos castelos medievais.
A ocupação de Ziguinchor regula a questão da posse do Casamansa, que se torna de facto um rio francês. Nós possuímos, além disso, a única escala favorável ao carregamento de grandes navios, Ziguinchor.
Os vapores podem subir com toda a carga e acostar aos pontões acima de seis ou sete metros de água. Esta situação, altamente favorável, atrai há bastante tempo os comerciantes que criam agora em Ziguinchor entrepostos gerais.
Antes da posse da escala portuguesa, os vapores que vinham da Europa descarregavam a sua carga em Gorée, onde tomavam os produtos do Casamansa, trazidos por um vaivém incessante de veleiros de um só mastro ou escunas. Doravante estes vapores virão diretamente aos pontões de Ziguinchor.
A floresta, a quinhentos metros da povoação, presta-se admiravelmente à criação de construções e jardins. Basta arrancar o matagal entre as palmeiras que procuram a sombra, a frescura e fornecem vinho, gordura, tecidos, etc. É um acontecimento feliz para a nossa nova possessão, porque apertado no meio dos seus arrozais, Ziguinchor sufoca nos seus limites atuais e a administração terá que tomar a iniciativa da criação e uma nova povoação na qual poderão estabelecer-se os habitantes que fazem atualmente dinheiro alugando as suas casas a comerciantes.
Graças à brisa marítima que se faz sentir regularmente todos os dias, o clima é relativamente doce, reconhece-se uma reputação de salubridade, porque os únicos franceses que têm descendentes do Casamansa são os que se estabeleceram nesta povoação. O Sr. Chambas, um francês, viveu aqui 27 anos. Os habitantes intitulam-se europeus. Ziguinchor é assim uma pequena colónia que parece vir a tornar-se a principal localidade do Casamansa; Selho conservará a sua importância militar e Carabane será o posto alfandegário do rio.
Os habitantes da antiga povoação portuguesa têm somente pirogas, são talhadas a machado no tronco de árvores enormes e atingem grandes dimensões.
Durante muito tempo o tráfico de escravos era o grande negócio de Ziguinchor. Mais tarde, os portugueses contentaram-se em comprar escravos para o cultivo das terras vizinhas. Em 1860, a irmã do governador tinha ainda, só para ela, uma centena de escravos. Hoje os Grumetes não têm mais que os cativos estritamente necessários para as suas necessidades.
Quando os franceses se estabeleceram no Casamansa, os portugueses só mantinham dois soldados negros para guardar a bandeira. O serviço alfandegário era dirigido por um diretor e o culto religioso assegurado por um padre. Em certas alturas, os portugueses tinham porto uma guarnição de vinte homens comandados por um alferes.
A população mostrou muitas vezes antipatia pelo seu governador e que se traduzia por atos de revolta. No entanto, os portugueses manifestavam uma grande tolerância; tinham mesmo deixado subsistir usos e costumes inadmissíveis à sombra de uma bandeira de uma nação civilizada; assim um dos meus primeiros atos foi suprimi-los.
O mais horrível dos costumes que subsistiam ainda era o do julgamento do veneno, que remontava aos maus dias da Inquisição. Em certas épocas do ano, fazia-se beber o veneno às pessoas suspeitas de ser indiferentes à religião. O chefe da povoação (juiz do povo), desempenhava o papel de inquisidor, e o paciente não podia escapar à morte a não ser que se subornasse os seus juízes.
Há na povoação dois partidos: os que habitam o bairro oeste (Vila Fria) e o outro que habita o bairro este (Tabourka). As discórdias entre estes dois partidos levam muitas vezes à morte de homens.
No século XVII, os portugueses estabeleceram-se em Cacheu, São Domingos, Farim, Ziguinchor e num dédalo de outros lugares, fixaram-se na maior parte dos casos sem espírito de regresso. /b>
Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Posto de saúde de Cuntima (também conhecida por Colina do Norte), Guiné-Bissau, em estado de ruína, é manifesto abandono. Imagem retirada da tese de doutoramento de Ibrahima Dione disponível no site: https://theses.hal.science/tel-00945314/file/THESE_DIONE.pdf, prende-se com os cuidados de saúde na República do SenegalCarta do Casamansa e do distrito de Cacheu, elaborada pelo Capitão Henri Brosselard
Imagem extraída do livro La Guinée Portugaise, Subsides pour son Études, pelo antigo governador Carlos Pereira, 1914Povoação Mancanha, bilhete postal antigo
(continua)
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Nota do editor
Último post da série de 7 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28413: Historiografia da presença portuguesa em África (547): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (15): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)





































