Pesquisar neste blogue

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28207: Retalhos da vida militar (7): A minha ida para o serviço militar obrigatório (Artur Conceição)

1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS da CART 730/BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 21 de Julho de 2026:

Boa tarde amigos e Camaradas Editores
Um pequeno texto para recordar.

O meu Grande Abraço
Com votos de muita saúde para todos
Artur António da Conceição



A minha ida para o serviço militar obrigatório

A minha ida para cumprimento do serviço militar obrigatório não me retirou hábitos de trabalho, diria mesmo que talvez por uma questão relacionada com o sistema nervoso, terá dado o seu contributo.

Durante vários meses do ano de 1964, enquanto estive no Regimento de Infantaria 11 na cidade de Setúbal, tinha a missão de atender às 8 e às 18 horas uma chamada via rádio relacionada com a segurança da Região Militar.

Como tinha muito tempo disponível, durante o dia ia trabalhar para o Conselho Directivo, onde havia sempre muita coisa para fazer.
Guiné > Região do Oio > Jumbembém > CART 730 (1965/67) > Artur Conceição, o hortelão na sua horta onde se gabava de cultivar os melhores tomates e alfaces do CTIG.

Durante os dois anos de estadia na Guiné e no tempo de Jumbembem fazia a escala de serviço da qual fazia parte, fazia a manutenção das baterias, fazia os autos de destruição, fazia a requisição de material, fazia a gestão de stocks e ainda tinha tempo para tratar da horta de onde vinha o tomate e a alface para a salada destinada à secção de transmissões e para a Messe de Oficiais.

Permitam-me que aqui recorde, com a mesma amizade e admiração, dois dos Furriéis mais “malandros” e da mesma forma os dois mais “trabalhadores”.

Começando pelos dois com que não era possível contar com eles, para fazer qualquer coisa de jeito temos:

O Furriel de Manutenção Auto, Ilídio Barros dos Reis. Um grande abraço.
O Furriel de Transmissões, Higino José Gama Passos, que era natural da Ilha da Madeira. Um grande abraço meu Furriel.

Agora os dois que inventavam algo para ocuparem os seus tempos livres.

O Furriel José Joaquim Nunes da Venda, atirador.
O Furriel Amadeu Júlio Neves Cruz, atirador.

Os restantes jogavam à lerpa durante os seus tempos livres, onde se obtinham lucros que davam para uma viagem à Metrópole. O meu abraço para todos.

Permitam-me agora um especial realce para o Senhor Furriel Amadeu Cruz.

Sendo atirador, desempenhou com a mais elevada competência, a função de Vaguemestre durante muito tempo da sua estadia em Jumbembem.

Encontrei-o em 1973 como gerente de uma loja de uma famosa marca de móveis em Lisboa. “Móveis Baía”.

Encontrei-o mais uma vez num almoço do Batalhão 733, que teve lugar na Cidade de Lagos no Algarve.

Ao aproveitar para enaltecer as qualidades do Amigo Amadeu Cruz, tive como resposta palavras que nunca mais esquecerei.

- Enquanto estive a cumprir o serviço militar senti-me sempre em serviço. Enquanto estou em serviço não bebo. Daí que durante todo o tempo que estive na tropa nunca apanhei uma bebedeira.

De todos os Sargentos e Oficiais da CART 730, todos nascidos em 1943 ou antes, só tenho conhecimento do falecimento do Furriel Vira, natural de Setúbal. Descansa em PAZ.

Damaia, 16 de julho, 2026
Artur Conceição

_____________

Nota do editor

Último post da série de 16 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28187: Retalhos da vida militar (6): História da Pista de aterragem de Jumbembem (Artur Conceição, ex-Soldado TRMS)

Guiné 61/74 - P28206: Humor de caserna (282): Todos com eles no sítio, todos aptos para o serviço militar (Jorge Cabral, 1943-2021)

 

Prompt e orientação  editorial: Luís Graça
Texto: Jorge Cabral (2009)
Geração gráfica assistida por IA:
Google (2026). Gemini (versão de 22 de julho de 2026) 
[Grande modelo de linguagem].



1. É uma expressão idiomática, muito portuguesa. Diz-se de um homem "com eles no sítio", que é viril, corajoso. ("Cabra-macho" era a expressão equivalente em crioulo, usada pelos guerrilheiros do PAIGC)...

O  Jorge Cabral (1943-2021), o impagável "alfero Cabral", é autor deste microconto. Faz parte das suas "estórias cabralianas" de que ainda publicou em vida  um livro, volume I.  

Filho de militar, tendo passado  (por pouco tempo) pelo Colégio Militar, era o menos "militar" dos "militares" que eu conheci na Guiné... Em 1969/71, enquanto comandante do Pel Caç Nat 63 (que esteve em Fá Mandinga e em Missirá, no sector L1, Bambadinca),  podia ser considerado o contraponto da "Spinolândia"... 

Spínola, dizia-se, como elogio, que era um general "com eles no sítio"... 

O tema dá "pano para mangas", e será glosado em próximo poste da série "Nomadizações de um marginal-secante". Para já, voltamos a reproduzir a já há muito esquecida estória cabraliana nº 46 (*).


Estórias cabralianas > Todos com eles no sítio...Apurados para todo o serviço militar

por Jorge Cabral

Pois, também eu naquela manhã de Junho me dirigi à Avenida de Berna, ao Quartel do Trem Auto, onde hoje funciona a [Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da] Universidade Nova [de Lisboa].

Éramos mais de cem, altos e baixos, loiros e morenos, alguns mancos, pitosgas muitos, um quase corcunda, três gagos e dois tontos.

Mandaram-nos despir e pôr em fila, numa literal e verdadeira bicha-de-pirilau.

Na mesa, um coronel, um major e um tenente médico, constituíam a Junta Inspectora. Um a um, fomos chamados diante do médico a fim de declarar se sofríamos de alguma maleita.

Após rápido e sumário exame, mesmo para aqueles que se disseram doentes, continuámos todos nus e encostados à parede, esperando o veredicto... que chegou num discurso patriótico do coronel. Falou de Aljubarrota, das picadas africanas, de heróis e da necessidade de homens valentes com “eles no sítio” e, por fim, concluiu:

– Todos aptos para o Serviço Militar.

Claro, pensei na altura, ainda nu e olhando os demais, todos tinham os dois no sítio. Juro que não vi nenhum com eles no pescoço, ou debaixo do braço
.

(Revisão / fixação de texto, negritos, parênteses retos, título: LG)


2. Comentário do editor LG:

O microconto do Jorge Cabral é um retrato irónico e vivo da inspeção militar, onde a expressão "com eles no sítio" ganha um duplo sentido: (i) o literal (todos os mancebos ali presentes tinham, de facto, "eles no sítio", os ditos cujos; e por esse facto passavam a ser "homens"); e (ii) o figurado (a virilidade, a bravura e a coragem que o discurso patriótico do coronel que presidia à junta, tentava evocar, era uma questão de anatomia e testosterona, desde que "certificadas" pelo médico).

É uma crítica subtil, mas acerada, à burocracia e ao ritual vazio da "ida às sortes", por trás daquilo que, em teoria, deveria ser um momento solene e dibno de seleção de homens "valentes", aptos, física, psicológica e socialmente, para a guerra. (**)

É lamentável que na altura, em 2009, esta estória tenha passado despercebida: ou talvez não, teve cerca de 500 visualizações, mas nenhum comentário (*)
___________________


(**) Último poste da série > 22 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28204: Humor de caserna (281): "Exame para ir à guerra", por Alberto Branquinho (excerto do novo livro, "Inventarium Vitae", 2026)

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28205: Historiografia da presença portuguesa em África (536): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (4): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 5 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
Os relatos dos dois principais protagonistas pela primeira demarcação das fronteiras da Guiné portuguesa são indiscutivelmente do maior interesse. O leitor já tem à sua disposição aqui no blogue a narrativa portuguesa que saiu do punho do tenente da Armada Real, Costa Oliveira; a do responsável francês, o capitão Brosselard, não lhe fica atrás, mostra claramente a cultura naturalista que era dominante na sua geração, o seu grau de cultura revela-se na qualidade da exposição e traz-nos outros aportes: logo a convicção da fraquíssima presença portuguesa no rio Nuno, curso de água muito importante para as transações francesas a partir do Futa-Djalon, que eles esbarraram aos portugueses; a teia formada por contratos entre as autoridades francesas e os Nalus; a Guiné Portuguesa ficou com o remanescente da etnia Nalu na região da península de Cacine, etc. Quando as duas comissões se encontrarem, surgiram tensões, a França começará por nos dar uma fronteira a leste que irá regatear noutras etapas da demarcação.

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo capitão Henri Brosselard – 4
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".

A missão francesa encontra-se em território Nalu, mais propriamente na Corte do rei Dinah, em Samiah, a coluna está imobilizada, recrutam-se carregadores, e o Capitão Brosselard aproveita para dar informações sobre o rio Nuno, a situação passada e presente do rio.

Diz que o rio Nuno foi descoberto em 1447 por Nuno Tristão (o que é completamente falso), observa que foi durante bastante tempo um antro de negreiros. Em meados do século XIX, os comerciantes tomaram o lugar dos negreiros e em 1850 havia no rio Nuno cinco entrepostos franceses, três ingleses, um norte-americano e um indígena. Partilhavam um comércio de 4 milhões de francos. Tal como acontecia ainda hoje (entenda-se, na época do relato do Capitão Brosselard) consistia na exportação de café, couro, ouro, marfim, arroz, amendoim, índigo e cera. Hoje há também borracha, acrescenta, partem trezentas toneladas através do rio Nuno. Esta preciosa mercadoria, que pode valer, segundo a sua qualidade, entre 6 a 8 francos o quilo, representa, por si só, a carga para 12 mil carregadores, em todo o transporte no Futa-Djalon.

Os direitos da França sobre o rio Nuno datam do primeiro Tratado do Protetorado, assinado em 28 de novembro de 1865, pelo governador Pinet Laprade e Youra rei dos Nalus. O Posto de Boké foi construído em 1876 e a partir daqui rumou René Caillié para a sua grande viagem através da Senegâmbia e o Sarah. Há aqui perto um monumento edificado pelos cuidados do General Faidherbe que evoca o corajoso empreendimento do nosso compatriota. Em 20 de janeiro de 1884 os Nalus cederam à França o país. O rio Nuno faz parte do grupo dos rios franceses entre a Guiné portuguesa e a Serra Leoa, cada um destes cursos de água vai em direção do Futa-Djalon. Os territórios banhados por estes rios e pelos seus afluentes fazem parte integrante do domínio colonial francês.

Segue-se uma descrição detalhada da região envolvente do rio Nuno.

Vamos agora entrar noutro capítulo, dá-se a partida da missão francesa para Kandiafara, local aprazado para o encontro com a missão portuguesa, esta chefiada pelo Tenente da Armada Real Costa Oliveira. Damos de novo a palavra ao Capitão Brosselard.

"Durante a minha estadia no rio Nuno pude, depois de muitos esforços, recrutar uma trintena de carregadores e organizei a minha pequena coluna que partiu a 10 de fevereiro para Kandiafara. O Sr. Galibert embarcou no navio de Dinah com as bagagens e pessoal doente e sugeri que fosse pelo rio Compony por um afluente que permitia, disseram-me, passar do rio Nuno para o Compony. O Sr. Galibert deveria reconhecer esta passagem assim como o curso do Compony, entre a embocadura e Kandiafara.

Com o pessoal válido, tomei o caminho que conduzia a Kandiafara e no dia 10 à noite pernoitámos em Roppas, escala do rio Nuno e última povoação dos Nalus na margem direita deste rio.

Fomos recebidos no entreposto, outrora um dos primeiros do rio Nuno e que depende hoje da casa Blanchard. Na ausência do responsável, a mulher deu-nos hospitalidade, uma mulata de certa idade que num instante e com o concurso de um grupo numeroso de indígenas organizou a sua casa para nos receber. O entreposto perdeu muito do seu antigo esplendor. Os edifícios caíram em ruínas, os tectos desmoronaram-se, os revestimentos de mármore foram arrancados pelos indígenas só restam vestígios de uma antiga prosperidade.

Em 11 de fevereiro, a coluna deixou Roppas perto das seis da manhã, coluna composta por 3 oficiais, 9 atiradores, 5 estivadores, 5 criados, 17 carregadores. A coluna atravessou a povoação de Patea, depois Caméiompo, por fim Yacoubéia. Os habitantes destas povoações são cultivadores pacíficos. A região que eles habitam produzia no passado muita mancarra, e a importância do entreposto de Roppas era em parte devida à abundância deste produto. Agora a cultura do amendoim parecia substituída, de um modo geral, pelas do milho, sorgo e arroz. São de assinalar algumas plantações de café; todo o planalto, aliás, parece adequado a este tipo de cultura.

A caminho das 9 horas, após termos passado uma espécie de cabeço através de matagais impenetráveis, chegámos abruptamente a uma ravina profunda de 50 metros e achámo-nos na presença de uma vegetação tropical de uma beleza fascinante e de um vigor exuberante. Um espesso tecto de verdura, formado por palmeiras gigantescas, deixa apenas filtrar alguns raios solares, que vêm acentuar os tons da folhagem.

Flores de grande variedade espalham odores inebriantes. A coluna percorre lentamente uma espécie de caminho estreito e tortuoso que foi mantido cuidadosamente no meio deste sítio encantador. Nesta ravina corre um riacho límpido, com água fresca e pura; as suas margens estão cobertas de um espesso tapete de elegantes fetos, tão juntos que parecem um tapete de espuma. Reina aqui uma humidade amena e suave, impenetrável ao sopro da brisa. Pássaros de uma plumagem multicolorida animam com os seus cânticos esta esplêndida solidão; e nuvens de borboletas de asas cintilantes esvoaçam em todas as direções.

Enquanto admirávamos esta poderosa e maravilhosa manifestação da natureza, sussurros característicos faziam-se ouvir à nossa volta: este local encantador estava povoado por um grande número de cobras.

De repente, o caminho, já tão estreito, voltou a diminuir; depois, num desvio, apareceu uma forte paliçada na qual existia uma abertura com a forma de porta. Passámos curvados por ela, e entrámos na povoação de Yaugaïa. Aqui mudou o espectáculo: estamos no meio de um povoado de Landumãs. Árvores da alta floresta cobrem as moranças, geralmente miseráveis; sentados à sombra, homens e mulheres confeccionam cestos elegantes destinados a servir de colmeias para as abelhas. As raparigas e mulheres andam praticamente nuas. O povoado está completamente cercado por uma forte paliçada; do lado da ravina é inacessível; do lado do planalto, a paliçada está reforçada por espessos bananais.

Após uma paragem de algumas horas na floresta, a coluna prossegue viagem, seriam duas horas e meia da tarde. O caminho penetra logo num espeço matagal que bordeja o riacho de Keimeia e desemboca na povoação de Toumané-Badé. Esta povoação, como a precedente, esta protegida dos assaltos devido à espessa vegetação que a envolve. Algumas paliçadas e espessos bananais completam as defesas. Estes bananais são tão cerrados que é impossível passar por eles, e atingem dimensões enormes.

A 12 de fevereiro, a coluna põe-se em marcha às 6 horas da manhã; a floresta na qual se pernoitou desaparece rapidamente, dando lugar a uma imensa pradaria onde grandes antílopes, surpreendidos pela vanguarda da coluna, não tiveram tempo de evitar os tiros que lhes fizeram baixas. Aves pernaltas, galinholas, flamingos e outros pernaltas são os hóspedes habituais deste solo verde e um pouco pantanoso. À nossa aproximação, ainda entorpecidos pelo frio húmido da manhã, parece que se põe a voar com um certo desgosto. A pradaria é atravessada pelo Bouroumda, que sai de uma estreita garganta aberta entre duas colinas e desaparece mais adiante numa floresta espessa e impenetrável que se estende à volta da pradaria. Faz-se um alto num bosque com árvores magníficas, à sombra temos uma fonte de água deliciosa; infelizmente, as abelhas disputam-nos este lugar de repouso, por isso tivemos de partir.

A coluna é surpreendida pela noite antes da nossa chegada ao acampamento. Instalámo-nos à luz de uma imensa fogueira. A meio da noite fomos bruscamente acordados por uma gritaria que vinha de todos os lugares do nosso acampamento. Num instante todo o pessoal se pôs de pé e apercebemo-nos à luz do fogo que o acampamento fora invadido por legiões de formigas. Todos os objectos colocados no chão desapareciam sobre a acumulação de terra amontoada por estes minúsculos trabalhadores; os nossos objectos iam sendo devorados, incluindo os nossos mosquiteiros que nos cobriam já estavam esburacados. A obra das formigas é extraordinária; porém, elas não atacam seres vivos, enquanto as suas congéneres, as formigas negras, são de uma ferocidade extrema."


Territórios franceses da Senegâmbia e do Sudão, com destaque para a Guiné Portuguesa
Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia

(continua)
_____________

Nota do editor

Último post da série de 15 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28185: Historiografia da presença portuguesa em África (535): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (3): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28204: Humor de caserna (281): "Exame para ir à guerra", por Alberto Branquinho (excerto do novo livro, "Inventarium Vitae", 2026)











Prompt e orientação  editorial: Luís Graça
Texto: Alberto Branquinho (2026)
Geração gráfica assistida por IA:
Google (2026). Gemini (versão de 22 de julho de 2026) [Grande modelo de linguagem].


1.  A IA é uma menina muito púdica. Lida mal (ou não sabe de todo lidar) com a nudez, o corpo humano,  etc. E não adianta citar-lhe o aforismo hipocrático, "Naturalia non sunt turpia" (o que é natural, não envergonha). Foi o cabo dos trabalhos para "fabricar" estas pranchas de BD... Mas cá estão, depois de uma suada e assanhada negociação e de algum trabalho de "corte e costura", ilustrando este microconto (ou pequena crónica) com que o Alberto Branquinho abre o seu último livro, "Inventarium Vitae" (*).

Sim, porque a nossa aventura, antes de sermos chamados para "servir a Pátria", começava, um ou dois anos antes, com a "ida às sortes", ou seja, à "inspeção militar"... Dois dos nossos grandes humoristas, antigos combatentes, membros do nosso blogue, o Jorge Cabral e o Alberto Banquinho, escreveram sobre a "inspeção militar"... Ou mais exatamente sobre a "junta médica militar" de cujo veredicto dependia a sorte ou o azar dos mancebos que o exército queria nas suas fileiras, no tempo em que o serviço militar era obrigatório em Portugal

Temos cerca de duas dezenas de referências ao descritor "inspeção militar". Mas em geral o ângulo de abordagem é o do "dia das sortes", e o que isso representava como "rito de passagem" (do mancebo para o adulto), a sua importância social e cultural no "Portugal profundo" do antigamente... 


Alberto Branquinho
O ato médico em si, de verificação da fisiologia e anatomia dos mancebos, e as cenas mais hilariantes ou mais humilhantes que podia originar, escapa à maior parte dos autores que, "ad hoc", escreveram aqui no blogue sobre o assunto. 

Para o Jorge Cabral, genial humorista, a inspeção médica resumia-se afinal a "tê-los (ou não) no sítio" (sic), uma expressão idiomática bem portuguesa que consagrava o culto do machismo (o "cabra-matcho", da rapaziada do PAIGC). 

Esta, a "Inspeção Militar", do "alfero Cabral",  é uma das histórias de antologia do humor de caserna. Que haveremos de republicar, por estes dias de canícula.  

Outra história, de  fina ironia e clínica observação,  é do Alberto Branquinho, que publicamos hoje, com a devida vénia ao autor e à editora.  É como que um  "aperitivo",  
um convite e uma sugestão para os nossos leitores comprarem e lerem o livro. Reservamos, para outra ocasião, 
e para a série "Nomadizações de um marginal-secante", a análise mais detalhada do texto.

  
A . Exame para ir à guerra

por Alberto Branquinho


Estavam quase todos despidos, embora alguns ainda estivessem com meias e sem sapatos e outros com meias e sapatos calçados.

Uma mulher. de bata vestida, mas não abotoada, com cerca de 50 anos, chegou junto à porta. Acertou os óculos no nariz, olhou os rapazes, levantou uma folha de papel à altura dos olhos e chamou três nomes. Aproximaram-se os três. Ela observou-os Um deles tapava o sexo com ambas as mãos.

 Oh!,  oh!,  que é isso ? Estás com medo que te caiam ao chão ? Venham comigo.

Entraram num salão grande, com chão e paredes em cantaria. Estavam mais dois homens de bata, um com estetoscópio ao pescoço. Fazia frio lá dentro.

Foram pesados, medida a altura e observados os corpos nus, mandando-os rodar, mostrando frente e costas. Quando julgavam necessário, faziam a observação mais cuidada de alguma parte do corpo.

 Aqui parece que há varicocele (#)  — disse a enfermeira, palpando os testículos de um dos rapazes.

O médico, sentado à secretária, olhou por cima dos óculos.

 Abre mais as pernas, rapaz!  — ordenou ela.

Voltou a apalpar, agora com ambas as mãos.

— Não é nada, doutor. Está tudo bem.

A inspecção dos três foi dada por terminada. O médico, ainda sentado, estava a tomar notas. Recebeu os papéis, olhou, arrumou bem as folhas e, depois, olhou na direcção deles:

 — Podem vestir-se. Boa sorte! 

Mais tarde, consultadas as listas afixadas, constataram: "Apurado para todo o serviço militar".

In: Alberto Branquinho - "Inventarium Vitae: Escritos, Memórias e Olvidos". Lisboa: Edições Partenon / Chancela Sítio do Livro, 2026),  pp. 13-14 

(#) LG: Varicocele=dilatação varicosa das veias que drenam os testículos; surge na puberdade;  pode ser causa de infertilidade.

__________________

Nota do editor LG:

(*) Ultimo poste da série > 18 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28192: Humor de caserna ( 280): Treze sextilhas e um refrão para o nosso mano Jaime Silva, agora octogenário (Luís Graça)

terça-feira, 21 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28203: Notas de leitura (1942): Alberto Branquinho, "Inventarium Vitae" (Lisboa, Sítio do Livro, 2026, 160 pp.) - Parte I: enquanto houver língua e dedo, não haverá leitor que nos meta medo...(Luís Graça)

 



Alberto Branquinho - "Inventarium Vitae": Escritos, Memórias e Olvidos". Lisboa: Edições Partenon / Chancela Sítio do Livro, 2026, 160 pp. (ISBN: 978-989-9198-51-7) (Está à venda em: www.sitiodolivro.pt ) (Preçod e capa; 12,00 euros)

Sinopse:

"Este livro é um esboço de memórias e, simultaneamente, um inventário-amostra dos livros publicados pelo autor. É, além disso, uma biografia breve de um “baby-boomer” nascido em Portugal, que atravessa grande parte do Salazarismo e do Marcelismo, envolvido, também, na guerra colonial de 1961-1974."



Dedicatória ao nosso editor LG


1. O Alberto Branquinho acaba de publicar, em maio passado,  mais um livro, o 12º da sua bibliografia, se não erramos as contas. E diz-nos, "off record", que bem pode ser o último. Não acreditamos. Ou esperemos bem que não. Ainda é cedo para "arrumar a caneta e o bloco de notas". Deu-lhe um título sugestivo, "Inventarium Vitae: Escritos, Memórias e Olvidos".

"Inventário de Vida", em português, é uma espécie de antologia, pessoal, dos seus melhores textos., uma parte já publicados, outros inéditos. E é também um esboço autobiográfico que, esperemos, dê origem ao próximo livro, de maior fòlego.

"Não venho falar de mim...nem do meu umbigo" é o título de uma das séries de que ele é autor no nosso blogue. Desta vez, sim, vem falar dele, mas na exata medida em que tem de "enquadrar as situações vividas com outros" (como escreveu na dedicatória no exemplar que teve agentileza  de oferecer ao editor do blogue) ...

Situações que viveu, com os outros, como  é o caso da Guiné, das avenidas novas de Lisboa  (onde ele viveu a sua vida, desde a "peluda"), ou da sua terra natal, Vila Nova de Foz Coa (que ele agora revisita na parte III - Vida Cumprida). Terra de que, aliás,  tem muito orgulho: a capa que escolheu para este seu último livro é justamente a fachada da sua igreja matriz, de singela beleza, de estilo manuelino, monumento nacional desde 1910, e onde presumo o autor foi batizado...Outra foto, é a do museu de Foz Coa, que vem na contracapa.

2. Percebe-se, pelo índice, que a organização do material (em geral, pequenos textos, crónicas, micrcocontos...) é temática: I. Guiné, tempo de guerrilha (pp. 11-80); II - Outros lugares, outros tempos (pp. 81-129); e III - Vida cumprida, inventário breve (pp. 131-158).

Boa parte do livro baseia-se em textos inédito. Mas há excertos de livros anteriores, tais como (com destaque oara Cambança Final): 

  • Contos com encontros (2008) (contos)
  • Parições & Aparições (2012) (prosa)
  • Cambança Final (2013) (contos)
  • QuasOutono?! (2014) (poesia)
  • Filhos d'outrem ou d'algures (2015) (histórias sobre paternidades)
  • Por século e meio (2017) (romance)
  • Sobre/vivèncias (2017) (poesia)
  • Sótáo, rés-do-chão e outras vidas (2018) (contos)
  • Deixem a guerra em paz (2019) (novela)
  • Retratos da Avenida e outros (2023) (contos)
Parabéns, Branquinho: a tua paixão pela escrita (e em particular pelo conto)    já nos deu um "balaio" de livros, os quais  merecem maior e melhor divulgação no nosso blogue. Não vou seguir o teu "conselho": pelo que eu já li, o teu "inventário" (estático) e "balanço" (dinâmico) de uma vida (pou de várias vidas( merece mais umas tantas notas de leitura. 

Afinal, estás, estamos todos nós, irremediavelmente presos na teia do passado. Parafraseando um dos teus poemas, auto-irónico, "temos os bolsos cheios de passado / para o que der e (ainda) vier"... Ou por outras palavras: ainda estamos aqui, não nos fomos embora, nem nos hão de enterrar na "vala comum do esquecimento", ainda temos felizmente presente e futuro (próximo)... 

Enquanto houver língua e dedo..., não haverá leitor que nos meta medo. A vida é um "suplício de Sísifo"... Mas pior do que levar o "pedregulho" até ao cimo da montanha, é um gajo ficar "protésico, radioativo, parkinsónico e alzheimareado"... Enfim, que os bons irãs da Guiné nos protejam... (LG)

Fonte: Alberto Branquinho - "Inventarium Vitae", Lisboa, Sítio do Livro, 2026,  pág. 127

____________________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 20 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28198: Notas de leitura (1941): "Arte de Portugal no Mundo - África Ocidental", por Pedro Dias; Edição do Jornal Público, 2008 (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28202: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte XI : semana de 14 a 20 de abril: tempo pascal, a importância da religião católica


Timor-Leste > Liquiçá > Manatti > Boebau > Placa da inauguração da Escola de Sáo Francisco de Assis, em 19 de março de 2018.

Foto: cortesia de página do Facebook da ASTIL 



1. O nosso amigo (e membro da Tabanca Grande), Rui Chamusco, professor de música reformado, a viver na Lourinhã, vai a Timor Leste todos os anos desde 2016 (exceto na pandemia, 2020, 21 e 22).

São 3 dias de viagem até Díli!... Fica lá 3 ou 4 meses... Ele já tem 80 anos e há dias fez uma operação cirúrgica,delicada, de que está a recuperar felizmente bem... Temos publicado as suas crónicas anuais no nosso blogue.

Ele é um exemplo vivo, o dele e da associação que ajudou a fundar (a ASTIL), de amor à lusofonia. Essa história merece ser conhecido pelos nossos leitores, os amigos e camaradas da Guiné.

Já aqui publicámos excertos das crónicas da I viagem (2016), II (2018) e VI (e última) (2025). Depois da pandemia, o Rui voltou a Timor-Leste em 2023 (IV viagem), e anos seguintes: 2024 (V viagem) e 2025 (VI viagem).

«


Banda desenhada: Rui Gaspar, João Crisóstomo e Gaspar Sobral, membros da ASTIL

"Prompt e orientação editorial: Luís Graça | Imagem:  João Crisóstomo (2017) | Geração gráfica assistida por IA: Google (2026), Gemini (versão de 8 de julho de 2026) [Grande modelo de linguagem]. Disponível em: https://gemini.google.com/"



Continuamos a publicar e excertos das crónicas da III Viagem (2019) (*), realizada pelo Rui Chamusco a Timor-Leste, enquanto cofundador e dirigente da ASTIL, a associação portuguesa de solidariedade com Timor Leste (ASTIL).

Lendo as suas crónicas (que ele reuniu numa brochura em pdf, com cerca de 3 centenas de páginas), ficamos a saber muito mais sobre a história, a cultura, a geografia, a sociodemografia, a idiossincrasia daquele país, que nos é tão querido, membro da CPLP.

 Além da construção, organização e funcionamento da Escola, a par do "apadrinhamento de crianças em idade escolar", a pequena ASTIL (que tem sede em Coimbra e delegação no Sabugal) já construiu a "casa do professor" e adquiriu uma viatura todo-o-terreno ("pick up"), indispensável para se chegar a Boebau, na montanha. 


Nestas crónicas de 2019, há referência a dificuldades e limitações que, felizmente, já foram entretanhto superadas. Falta, finalmente, resolver o magno problema da colocação, definitiva, de professores de carreira. A escola continua a ser privada e inteiramente financiada pela ASTIL (e os pais dos alunos).

Em  
Ailok Laran, nos arredores de Díli, costuma ficar na casa do irmão mais novo do Gaspar Sobral (outro cofumdador e dirigente da ASTIL, luso-timoresne, retornado de Angola, onde foi topógrafo), o "Eustáquio" (João de Araújo Moniz de Oliveira Sobral) (que de 1975 a 1978, andou fugido dos indonésios nas montanhas de Liquiçá, com a irmã mais nova e a mãe, tinha então 14 anos!).


Rui Chamusco e Gaspar Sobral (2027)

Foto à direita: Rui Chamusco (à esquerda), professor de música, reformado, é cofundador e líder da ASTIL - Associação dos Amigos Solidários com Timor Leste: é natural ds Malcata, Sabugal; vive na Lourinhã; é membro da Tabanca Grande, tem 70 referências no blogue; à direita, o Gaspar Sobral, o luso-timorense, retornado de Angola, casado com a Glória Sobral, natural de Sabugal: foi este casal que meteu o Rui nesta aventura solidária (que, para todos, tem sido gratificante).


III Viagem a Timor-Leste : 2019 (Rui Chamusco, ASTIL) - Parte XI: semana de 14 a 20 de abril



15.04.2019, segunda feira  - Ambição humana ou recado de Deus?

Este dia ficará na história da humanidade como um marco indelével da perda de um património social, político e religioso ímpar, incapaz de ser reparado na totalidade.

O incêndio deflagrado na Catedral de Notre Dame de Paris deixou todo o mundo atónito. A tarde deste dia 15 de Abril de 2019 ficará registada na história de França com marcas de angústia, de tristeza, de pena e de lamentações. Oitocentos anos de vida que, de um momento para o outro, são postos à mercê das chamas, com obras dem arte reduzidas a cinzas. 

A notícia correu célere por todo o mundo. E até aqui em Timor, a tantos quilómetros de distância, é o tema de conversa, particularmente entre os ocidentais que por cá habitam e aqueles que alguma vez tiveram a sorte de visitar
este monumento de renome internacional.

Lembro-me, nos princípios dos anos oitenta, quando habitava Paris, das experiências e vivências que tive neste local: o espetáculo noturno, com raios laser, sobre a história de Notre Dame de Paris; o encontro com o escritor Pe. Jean Leclérc, que dispunha de um gabinete de atendimento na catedral por onde passavam pessoas desesperadas da vida e que, em última oportunidade, foram salvas do suicídio graças a estes encontros (o livro “Début sur le Soleil” escrito por este autor reflete muitos destes casos); o encontro de emigrantes portugueses que, numa tarde de domingo, encheu por completo este templo para uma celebração eucarística, e que depois se prolongou no “parvis de Notre Dame” com manifestações culturais e recreativas; as visitas ocasionais em que eu fiz de guia a alguns amigos que visitaram esta catedral durante a minha estadia nesta cidade da luz.

É impossível ficar indiferente a tal tragédia.

Mas, como nada acontece por acaso, e tal como outros já fizeram com certeza, questiono-me sobre o porquê deste e doutros acontecimentos similares. Como entender tais acontecimentos? Terão algo para nos dizer? Que a Torre de Babel se tenha desmoronado, até parece compreensível à luz da mensagem bíblica. Que as “torres gémeas” de New Work tenham sido abatidas por terroristas assassinos, até parece que se entende devido ao ódio instalado no mundo árabe contra os americanos.

Tudo o que é grande e se orgulha de si próprio como o maior de todos tem o seu fim à vista, sejam torres, aviões, barcos, pessoas, nações, etc... E até pode haver quem diga que isto é castigo de Deus, que são lições de vida, que é o que tem de ser...

Quando há muitos anos estudei teologia, um dos temas de estudo era a “Teofania dos Lugares Altos”. Aí aprendemos que, ao logo de toda a história da salvação, os homens sempre acreditaram que, estando Deus lá no céu, a melhor maneira de estar mais perto dele é subir o mais alto possível, na tentativa de Lhe tocar. Por isso tantos templos, tantas igrejas, tantas capelas no cimo dos montes e em toda a parte.

Mas será que Deus quer ser mesmo tocado (apanhado) desta maneira? Não será mais certo procurarmos cá em baixo o Deus que encarnou e habita connosco? Não será demasiada ambição querer ser igual ou superior a esse Deus criador do céu e da terra?

Quem sabe se o incêndio da catedral de Notre Dame de Paris, este e outros acontecimentos, não terão alguma pedagogia divina? Quem sabe se, em contexto de fé, não serão uma chamada de atenção?... Até já há quem relacione este acontecimento com as “profecias de Nostramus”, como um sinal de purificação nesta Europa que envelhece e perde muitos dos seus valores e referências.

E por aqui me fico, não vão apelidar-me de profeta da desgraça, de bruxo ou de outra coisa qualquer...

17.04.2019, quarta feira  - Ida e volta a Boebau

Era assim que estava combinado. A educadora Diana Rebelo, aproveitando as férias de Páscoa, dispôs-se a ir até Boebau, à Escola de São Francisco de Assis, para “in loco” orientar as duas estágiárias nas suas atividades com as crianças. 

Claro está que nós (o Eustáquio, o Gaspar, a Adobe, a Diana e eu) sentimo-nos na obrigação de a acompanhar e apoiar em todas as solicitações. Depois de três horas de caminho nada fácil, mesmo que viajando em jipe alugado para o efeito, lá chegamos ao destino, onde as crianças já nos esperavam. Depois da imposição do tais à educadora Diana, e feitos os cumprimentos habituais, fomos mostrando e explicando as instalações da escola. 

A Diana aproveitou logo para dar sugestões de trabalho para estes dois grupos de crianças: o Grupo A, de 3 e 4 anos, com 17; o Grupo B, de 5 e 6 anos, com 27 crianças. Ao todo frequentam neste momento a escola 44 alunos.

Verifiquei a avidez com que as senhoras Fátima e Adelina (estagiárias) ouviam e assimilavam as observações feitas pela professora educadora, bem como a preocupação de registarem as ideias de trabalho para cada um dos grupos. Tenho a certeza de que esta visita vai contribuir imenso para o bom funcionamento da escola São Francisco de Assis. À educadora Diana um grande obrigado pela ajuda que, desdeno primeiro momento, nos tem prestado. É para nós uma referência de solidariedade.

Apesar dos muitos afazeres, está sempre disposta a colaborar connosco. OBRIGADO!

Aproveitamos também esta curta estadia para tratarmos de alguns assuntos pendentes, nomeadamente da construção de uma casa residencial para professores e voluntários.

Estivemos no local previsto para a construção, e estamos agora à espera de negociar o terreno e a empreitada. Pedimos para que fossem rápidos a apresentarem as suas propostas e, se assim for, em breve começará a sua construção. Casa residencial é uma condição “sine qua non” para que possamos motivar alguém da classe docente a aceitar trabalhar na nossa escola. Por nossa vontade, a sua inauguração será no começo do ano 2020. Mas isso não depende inteiramente só de nós.

Eram 14 horas quando procedemos ao regresso. Pelas 17.30 horas estàvamos todos em casa, felizes desta jornada. Amanhã será outro dia...

19.04.2019 - Sexta Feira Santa: hábitos, usos e costumes...

A religião católica, a par de outras religiões, tem uma presença muito signicativa na sociedade timorense. A sua influência na vida deste povo é bem notória nos seus hábitos, usos e costumes.

Hoje, Sexta Feira Santa, segundo dia do tríduo pascal, “es dia de dolor / murió nuestro Señor / No se puede estudiar” (letra de uma canção espanhola). 

Pois, aqui em Timor, povo que alia a sua cultura animista ao culto e à prática religiosa, celebra-se com devoção o dia da morte do Senhor em cerimónias que, sobretudo a religião católica, organiza nas suas igrejas. A afluência dos fiés é enorme e, regra geral, todo o povo se orienta por regras e princípios que desde há muito existem ou existiram na maior parte do mundo católico. 

Sabemos que o mais importante está dentro de nós, observantes ou não observantes. Sabemos que há pessoas não alinhadas nestas práticas religiosas.

Sabemos que cada um é livre de seguir esta ou aquela religião. Mas há ainda nesta cultura timorense hábitos, regras, usos e costumes que no dia de hoje, Sexta Feira Santa, ninguém deve transgredir: não dar o bom dia, a boa tarde, a boa noite; não varrer a casa; não fazer barulho: não gritar, não assobiar e não cantar; não ver televisão, etc, etc...

Onde é que eu já vi isto há mais de cinquenta anos atràs?

A verdade é que aqui, em Ailok Laran, hoje não se tem ouvido a algazarra, a música do todos os dias: crianças que passam, jovens cantarolando e tocando guitarra, carretas carregadas de produtos alimentares que, em alta música, vão anunciando a sua chegada, etc... 

O único ruído que se vai ouvindo são as folhas das árvores que, sopradas por um vento suave, nos vão enchendo os pulmões de oxigénio. Nem mesmo o cantar dos galos ou o cacarejar das galinhas se faz ouvir. (Ops!... que agora cantou um galo três vezes e me alertou de que, tal como Pedro, vos estou a mentir.)

Seja como for, o melhor é respeitar a cultura deste povo e a suas manifestações religiosas. Sexta Feira Santa, um dia de respeito, de devoção, de silêncio interior, de purificação. Estamos a caminho da Páscoa da Ressurreição...


20.04.2019, sábado  - Vigília Pascal...em noite de lua cheia

Para os cristãos esta é a noite mais importante do seu calendário litúrgico. Como se lê ou canta no Precónio Pascal, também chamado de “Exultet”, esta é a noite ditosa em que o céu se une à terra para celebrar a Ressurreição de Jesus:

 “No esplendor desta noite / Que viu ressurgir Jesus / Do sepulcro. Exultemos / Pela vitória da Cruz.”

“Noite mil vezes feliz / Na noite clara como o dia / Na noite de Cristo glorioso / Exultemos de alegria.”

Não importa muito como se começa; importa é como se acaba. Ora, convenhamos que a ressurreição de Jesus é um acontecimento únco na história da humanidade, e é o auge de toda a vida terrena, de toda a vida cristã. Como diz a letra do cântico “Ressuscitou” de Kiko Arguello: “ Se com Ele morremos, com Ele vivemos, com Ele cantamos Aleluia!” Ou seja, também nós havemos de ressuscitar. É uma questão de fé. Temos de acreditar.

Em todo o mundo os cristãos celebram a Páscoa (do hebraico Pasha, que quer dizer passagem) com manifestações religiosas diversas: a Festa da Ressurreição, a Festa das Flores (talvez por ser o inívio da primavera): Para os não cristãos é também uma festa.

São as férias escolares, são os encontros de família e de amigos, são as provas desportivas, são os doces e as amêndoas, etc... Queiramos ou não todo o mundo está envolvido. É a Festa da Páscoa de 2019.4.21

Aqui em Timor, com uma maioria predominantemente católica, vive-se a Páscoa intensamente. A julgar pela afluência e participação dos fiéis nas cerimónias que as igrejas promovem. 

Em Ailok Laran, pelas dezanove horas passavam constantemente grupos de pessoas bem trajadas. Perguntei para onde ia toda aquela gente, e de pronto
me responderam: “vão para a catedral, para a vigília pascal. Com mais ou menos meia hora de caminhao para cada lado, quer dizer que só lá para a meia noite estarão de volta. A liturgia desta vigília é muito demorada, devido em parte à quantidade de leituras que são proclamadas. Mas esta gente é de ferro. Tudo suporta em nome daquilo em que acredita. É gente de uma fé inabalável, capaz de tudo. Que Deus os abençõe!

E eu, um ocidental aqui deslocado, que faço eu neste contexto? Às vezes tenho inveja da fé simples mas forte destes crentes. Nós escusamo-nos e defendemo-nos com a nossa racionalidade, mas eles dão-nos exemplos e lições do que é acreditar com o coração. Se calhar, eles é que têm razão.

Mas nesta noite santa de 20 de Abril de 2019, quis a natureza associar-se a esta vigília pascal, presenteando-nos com uma lua cheia espetacular. A noite estava inundada de luz, a preconizar a luz solar que iria colmatar este luar. 

Sentado na varanda mais alta desta casa, desfrutei por horas este cenário idílico, deixando-me embeber deste luar inebriante. E, contemplando a lua, pensei em tudo: no homem que lá se vê com um molho de silvas às costas (crendice de meninos); nas viagens lunares, na compra de terrenos e viagens para a lua, no fascínio e apetência dos homens por este astro através dos tempos. 

A lua feiticeira que a todos encanta e extasia. Contemplando o horizonte, cheio de luzinhas e penumbras provocadas pelo arvoredo circundante, termino louvando o criador com as palavras de São Francisco de Assis, no Cântico do Irmão Sol ou Cântico das Criaturas: “ Louvado sejas meu Senhor pela irmã lua e as
estrelas que no céu formaste claras. preciosas e belas.”

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos: LG)
______________

Nota do editor LG:

Guiné 61/74 - P28201: S(C)em comentários (92): Eu, crente, me confesso... mas não pagador de promessas... (José Teixeira)

N. Sra. de Fátima de Guileje 
(2010)  | Foto: © António 
Camilo (2010). 
Todos os direitos reservados.
 [Edição e legendagem: 
Blogue Luís Graça
 & Camaradas  da Guiné]

1. Comentário de José Teixeira ao poste P17347 (*)

Poucos dias depois de chegar à Guiné; escrevi:

Prometi a minha mãe não me esquecer de Deus, mas confesso, que Ele se escapuliu, logo nos primeiros abalos do mar alto que me fizeram vomitar tudo quanto tinha e não tinha no estômago em alta sinfonia com centenas de camaradas alojados no porão do Niassa.

Singular fenómeno de religiosidade fui encontrar em Ingoré. Aí que tive o primeiro reencontro com Deus, após a saída de Portugal.

Logo no segundo dia da chegada, depois do jantar e, acabada a limpeza do refeitório, este enche-se de novo, agora sem pratos nem comida para o corpo. Seguia-se o momento de alimentar a alma. O grupo foi engrossando. Um estranho silêncio ou conversas em tom abaixo do normal, provocaram-me para ir averiguar o que se passava, com aquele grupo de camaradas de tez queimada por uns meses largos de sol na Guiné.

Um jovem soldado, lá na frente, começa a “votar” o terço em honra de Nossa Senhora, respondendo em coro o grupo de combatentes, onde se viam praças e um ou dois furriéis.

Foram vinte minutos de paragem, de reflexão, sobre o que me era exigido como seguidor do projeto de Jesus Cristo numa guerra para onde fui atirado, contra a vontade, pelos “senhores” do meu país.

Rezar, para mim, é mais um permanente estado de louvor a Deus pela vida, pela natureza que me disponibilizou para a minha felicidade. Corresponsabilizando-me com actos e acções de defesa de mim próprio no ambiente de guerra em que estou inserido, no respeito e serviço aos outros que me rodeiam pela missão que me foi atribuída - enfermeiro.

A oração não é para mim uma forma de negociar com Deus, com promessas a cumprir se... chegar ao fim da comissão escorreito, ou um pedir permanente a proteção, vendo Deus como que um guarda-chuva protetor, esquecendo que esse mesmo Deus também o é de tantos, quantos do outro lado da barricada nos atacam ou se defendem.

Os povos que ousam fazer-nos frente, possivelmente também tem a “sua Fé”, os seus santos a quem se agarrar nos momentos difíceis, os amuletos que lhes vemos à cintura são a prova evidente. Também tem avós, pais esposas, namoradas. Algumas, na frente de guerra, combatem lado a lado, outras, na retaguarda, sofrem como as nossas mães, os nossos familiares.


José Teixeira,
colaborador permanente
 do blogue

PS - Sobre o fenómeno de Fátima, onde gosto de ir no silêncio, já escrevi o poste nº 1873 um pouco baseado neste, que já estava escrito há muito tempo.

Creio que esta reflexão continua atual, pois muitas vezes deusifica-se a Virgem Maria e tenta-se "negociar" com ela a salvação na vida terrena com promessas de sacrifícios. Ouso colocar a questão: Quem é a mãe/pai que gosta de ver um filho a sofrer, mesmo que seja por "amor" ?!

sexta-feira, 12 de maio de 2017 às 14:23:00 WEST





2. Outro comentário do José Teixeira, agora ao poste P17350

Sem dúvida que não se pode "meter" a religião no blogue, sobretudo a discussão religiosa. 

Creio que muitos dos combatentes eram "marianos" por educação, por tradição e por devoção. Não podemos esquecer que a religião tinha um peso elevado na família, nas povoações e até na escola. Eu continuo a não ver mal nisso, mas não creio que consigas testemunhos das peregrinações que se fizeram sobretudo por parte da família, muito em especial as mães de todos nós. Não te esqueças que Maria, mãe de Jesus sempre nos foi apresentada como a mãe do céu e...quando a crise, a dor ou a insegurança aparece recorre-se sempre à mãe (antes do pai.

Assisti por missão a vários feridos e mesmo, apenas, debaixo de combate, muitos deles faziam preces a Nossa Senhora. E o contrário também, ou seja, culpar Maria mãe de Jesus, do infortúnio. (...)