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sexta-feira, 19 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28114: Documentos (64): A Última Operação: Retirada Final – Ordem nº 1/74: Retirada da Guiné em 15 de outubro de 1974 (Luís Gonçalves Vaz, filho do Cor Cav CEM Henrique Gonçalves Vaz (Barcelos, 1922- Braga, 2001), último Chefe do Estado-Maior do CTIG, 1973/74),



Cabeçalho da Ordem de Operações nº 1/74.  O documento foi desclassificado em 2017. “Documento cedido pela Biblioteca Central da Marinha - Arquivo Histórico
 


Luís Gonçalves Vaz, grão-tabanueiro nº 530
filho do Cor Cav CEM Henrique Gonçalves
Vaz (Barcelos, 1922- Braga, 2001)
(último Chefe do Estado-Maior
do CTIG, 1973/74, e, a partir de 26 de agosto
 de 1974, ​ foi também o chefe do 
Estado-Maior 
do Comando Unificado 
no TO da Guiné)

Introdução: A Memória e o Documento — Revisitando o 15 de outubro de 1974

Ao longo das últimas décadas, a narrativa sobre a presença portuguesa na Guiné tem sido construída, por um lado, pelo depoimento vivido daqueles que ali serviram e, por outro, pelo silêncio, muitas vezes imposto, dos documentos que só agora começam a ser plenamente integrados na historiografia pública com a sua "Desclassificação" nos vários Arquivos Portugueses.

Este artigo propõe uma revisitação necessária à data de 15 de outubro de 1974 — o marco derradeiro da retirada das tropas portuguesas do CTIG. 

Se, em 2012 (data do meu último artigo sobre a Retirada Final da Guiné) (*), a abordagem a este momento histórico dependia essencialmente da memória oral e do relato pessoal, hoje, o distanciamento temporal e 
o acesso a fontes primárias de natureza confidencial já "desclassificadas", permitem-nos um olhar clínico e rigoroso.

Através do cruzamento inédito entre a Ordem de Operações nº 1/74 do Comando Unificado — documento que traçou, com precisão técnica e logística, o complexo movimento de retirada por via marítima entre os dias 14 e 15 de outubro — e os testemunhos diretos, nomeadamente do meu falecido pai, cor cav CEM Henrique Gonçalves Vaz, último Chefe do Estado-Maior do Comando Unificado na Guiné, e a perspetiva, no terreno, do meu primo marinheiro radiotelegrafista Manuel Beleza Ferraz, procura-se aqui não apenas narrar, mas documentar a mecânica da descolonização nesta Colónia Portuguesa.

Mais do que o relato de um fim, este artigo pretende ser um exercício de rigor histórico: confrontar o plano operacional com a realidade humana da partida. Ao alinhar a "Ordem de Operações" com a "ordem dos afetos e da vivência", este trabalho oferece aos amigos e camaradas da Guiné   e aos demais leitores do nosso blogue uma nova leitura sobre o desfecho de uma missão que marcou, definitivamente, a história de Portugal e da Guiné.

Um grande Abraço

Braga, 08/06/2026

Luís Beleza Vaz

(Tabanqueiro nº 530 e filho do último CEM/CTIG)



O navio Uíge no porto de Bissau em 28 de outubro de 1969 a descarregar material de guerra



A Última Operação> Retirada Final – Ordem  nº 1/74: Retirada da Guiné em 15 de outubro de 1974

por Luís Gonçalves Vaz 


MISSÃO: Efectuar a Retirada Final das NT (nossas tropas) da Ilha de Bissau garantindo o seu embarque via marítima para a Metrópole com a maior discrição, dignidade e segurança.

 A Ordem de Operações nº 1/74 foi um documento estratégico de alto nível, emitido pelo então Comando-Chefe das Forças Armadas da Guiné (CCFAG), que definiu as fases, os meios logísticos (navios, transportes aéreos, etc), as responsabilidades de segurança e os itinerários de retirada (**).

Como já apresentei aqui no blogue,  no poste P9535, de 26 de fevereiro de 2012, um artigo sobre a “Retirada Final” da Guiné (*), resolvi agora, e com recurso à consulta do Fundo Coloredo do Arquivo Histórico da Marinha, nomeadamente à consulta da Ordem de Operações nº 1 de 1974,  BCM (Biblioteca Central da Marinha)(Pasta 179), Diretiva de 9 de outubro de 1974 do Comandante-Chefe aos Comandantes dos três Ramos das Forças Armadas no TO  da Guiné, realizar um artigo com mais detalhe sobre esta última operação militar, comandada pelo Comodoro Vicente de Almeida d ́Eça, que foi o Comandante do Comando da Defesa Marítima da Guiné entre 4 de janeiro de 1974 e 28 de outubro de 1974, bem como o Comandante da Força Naval que transportou os últimos efetivos portugueses ali estacionados.

A referência à Ordem de Operações nº  1/74 como o plano mestre para a retirada final de cerca de 2.500 militares (os últimos contingentes que permaneceram em Bissau e noutros pontos fulcrais nesta altura do mês de outubro), reflete o culminar da transição negociada entre o Comando-Chefe português, liderado à época por Carlos Fabião, e o PAIGC.

Depois de de lermos a Ordem de Operações nº 1/74, percebe-se que esta retirada não foi apenas um "ir embora", pois exigiu a catalogação e o transporte de material de guerra, a coordenação com a Força Aérea e a Marinha (especialmente o papel dos navios de transporte, como o Uíge, que figura nas memórias fotográficas da época como o símbolo do final da presença portuguesa) e a manutenção de um cessar-fogo rigoroso que evitasse incidentes durante a desocupação das posições.

A emissão desta ordem de operações, o "Ponto Final" da nossa Colónia da Guiné, foi o instrumento que permitiu que o processo, iniciado com o Acordo de Argel assinado em 26 de agosto de 1974, se concretizasse. O facto de ser a "nº 1/74" sublinha que se tratou da primeira e decisiva operação de desmobilização total e encerramento de um Teatro de Operações, após décadas de guerra.

Esta ordem representa, na prática, um "roteiro" para o fim da Guerra Colonial na Guiné, marcando a passagem de um estado de beligerância para a transferência de soberania, consolidando assim a retirada das tropas que, em outubro de 1974, aguardavam nas docas de Bissau a sua partida definitiva para a Metrópole.

Este documento é, sem dúvida, uma peça de arquivo valiosa para a historiografia do 25 de Abril e do processo de descolonização, pois documenta o plano de execução para a evacuação final das forças nacionais.


A fragata “Comandante Roberto Ivens” foi o navio-chefe onde se coordenou toda a operação e onde 
embarcou o Comandante da FO27 (Força de Combate 27), o comodoro Vicente Almeida d'Eça (foto: cortesia de Navios da Armada, página do Facebook (Do Livro da Fabrica das Naus de Fernando Oliveira aos nossos dias. Viva a Briosa).

Ao falarmos na Ordem de Operações nº  1/74 e no rigor técnico da retirada, tocamos num ponto que muitas vezes é ignorado, o papel crucial da Marinha de Guerra Portuguesa, quer durante o conflito neste TO, quer na logística de desocupação desta Colónia. 



Capitão-de-Fragata (em 1966),  Vicente Almeida d' Eça (1918-2018) 
Fotografia gentilmente  cedida pela Biblioteca Central 
da Marinha - Arquivo Histórico

Enquanto a narrativa política se foca no 25 de Abril e nas negociações, a execução prática da retirada, especialmente a retirada final em quinze de 
outubro de 1974, foi uma operação logística de uma complexidade técnica monumental, quase exclusivamente conduzida pelos meios navais.

O rigor técnico mencionado nesta Ordem de operações, decorre de vários fatores que ela teve de acautelar, nomeadamente:

  • A Logística de Transporte: retirar 2.500 militares não significava apenas embarcá-los. Implicava transportar armamento pesado, equipamento de comunicações, arquivos confidenciais e material de intendência. A Marinha organizou o "Comboio da Descolonização",                                                                  onde o NRP Uíge e o NRP  Niassa  foram as peças-chave.
  •  Segurança e Cessar-Fogo: a Ordem de Operações Nº 1/74 tinha de prever a manutenção de um perímetro de segurança em Bissau até ao último segundo; o rigor era vital para evitar incidentes que pudessem degenerar em confrontos armados no momento da transição, o que exigia uma coordenação minuciosa entre as guarnições dos navios, os fuzileiros em terra e os postos de comando conforme  relato no artigo da Retirada Final,   em 14 e 15 de outubro  de 1974 (Luís Gonçalves Vaz / Manuel Beleza Ferraz) (*);
  • “Segundo o ex-marinheiro radiotelegrafista, Manuel Beleza Ferraz, os navios que se encontravam a realizar a 'segurança de rectaguarda'  mais próxima às tropas que iriam retirar-se para os navios ao largo no Rio Geba, eram a LFG Órion e a LFG Lira.
Encontravam-se também ao largo em missão de Segurança um patrulha (NRP Cuanza) e o navio NRP Comandante Roberto Ivens, este último a comandar as operações navais desta missão de “Retirada Final”. 

No próprio navio Uíge estava montado discretamente um dispositivo de segurança pronto a abrir fogo, caso o PAIGC se lembrasse de abrir alguma hostilidade contra o último pessoal militar a abandonar a Guiné, com algumas metralhadoras HK-21, além de todos os militares estarem armados com as suas G3 e as respectivas munições.


Guiné-Bissau > 15 de outubro de 1974 > A LFG Lira, depois de abandonar o Rio Geba na Guiné, a escoltar os T/T Uíge e Niassa até águas internacionais. Foto do álbum do marinheiro radiotelegrafista 812/70 Manuel Beleza Ferraz.

Foto (e legenda): © Manuel Beleza Ferraz (2012). Todos os direitos reservados. (Edição e legendagem: Bogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)


Após o “Arriar da Bandeira Portuguesa”, as tropas portuguesas dos três Ramos das Forças
Armadas, presentes na referida cerimónia, logo de seguida foram transportadas em zebros e
LDM (lanchas de desembarque médias) para o navio Uíge, que os aguardava no meio do Rio
Geba, a cerca de 400 metros afastados do cais, onde se encontrava já com as máquinas em pleno funcionamento ("pairavam") por razões de segurança.




Guiné > Bissau > c. out 1974 > Lancha de Fiscalização Grande (LFG) Lira, atracada na ponte-cais, poucos dias antes da “retirada final” em 15 de Outubro de 1974. Foto do álbum do marinheiro radiotelegrafista 812/70 Manuel Beleza Ferraz.


Fotos (e legendas): © Manuel Beleza Ferraz (2012). Todos os direitos reservados. (Edição e legendagem: Bogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)


O ex-Marinheiro Radiotelegrafista, Manuel Beleza Ferraz, fonte destes testemunhos históricos, aqui relatados, informou-me ainda de que as ordens vindas do Comando Naval, com apenas 24 horas de antecedência, foram entregues em mão aos comandantes das duas LFG (Orion e Lira) e do patrulha Cuanza, presentes ao largo do cais, no caso do seu navio, o patrulha Lira, recebeu directamente o seu Comandante, 1º tenente Martins Soares.

Como tal, os comandantes destes três navios que constituíam nesse dia, a “força naval” em frente ao cais de Bissau, receberam ordens expressas “para se posicionarem em postos de combate”, com todas as peças Bofors de 40mm, devidamente municiadas e preparadas para realizarem fogo, como apoio de retaguarda à retirada das nossas tropas, de terra para os navios, nomeadamente o Uíge.”

Na secção "Situação" desta “Ordem de Operações”, é descrito o planeamento da retirada marítima de aproximadamente 2.500 militares das Forças Armadas Portuguesas da zona de reagrupamento da Ilha de Bissau, prevista para ocorrer entre os dias 13 e 15 de outubro (15outT).

No ponto das "Forças inimigas", também é referido que, embora a colaboração das forças policiais da República da Guiné-Bissau estivesse, em princípio, assegurada para evitar aglomerações de população junto à zona portuária, não era de excluir a hipótese de ocorrência de "actos inamistosos".

Na secção “Execução”, é referido que durante a noite de 13/14 de outubro descolará de Bissau o último avião da ponte aérea militar para Lisboa (voo que transportou o brigadeiro Carlos Fabião e o seu Estado-Maior, nomeadamente o último Chefe do Estado-Maior do então Comando Unificado, o coronel do CEM Henrique Gonçalves Vaz). 

Diz ainda que o T/T “Uíge”, atracado, embarcará cerca 1380 elementos da nossa Tropa. 

Finalmente diz que o embarque das restantes efetivos terá lugar na noite de 14/15 de outubro em LDG atracadas na ponte cais que os transportará para o T/T ”Niassa” e para o NRP “S. Gabriel” fundeados no canal do rio Geba. 

Quanto à segurança é referido que as Forças “FO27” assegurarão a proteção dos efetivos a embarcar, tanto no embarque e largada do cais como nos trânsitos fluviais até aos transatlânticos (T/T) e promoverá a escolta destes até à hora de espera.



Guiné > Bissau > s/d > Três das LFG (Lanchas de Fiscalização Grandes) que integraram a Operação nº 1/74 no cais de Bissau (Foto: cortesia do blogue de Luís Cavaleiro, Rio dos Bons Sinais, disponível aqui)-

Quanto à “Organização Operacional”, a ordem detalha a estrutura da força-tarefa naval (FO27 - Força Operacional Embarque), liderada pelo Comodoro Almeida d'Eça, dividida em cinco grupos funcionais, conforme se pode ver no organigrama seguinte:


Organigrama construído a partir da Organização Operacional apresentada logo no início da Ordem
Operacional nº 1/74. Fonte: Fundo Coloredo | Arquivo Histórico da Marinha (Infografia cedida pela Biblioteca Central da Marinha - Arquivo Histórico)


Este documento fornece sem dúvida um registo claro das medidas logísticas e defensivas tomadas pelas forças militares portuguesas durante as fases finais da sua presença na Guiné em 1974.

Relativamente à coordenação Interforças, este documento é uma peça de engenharia militar porque estabeleceu a sincronização entre a desocupação dos quartéis do Exército e a prontidão dos navios no porto. A precisão horária era a única garantia de que ninguém ficaria para trás ou exposto sem proteção.

O facto de ter consultado o Arquivo Histórico da Marinha e encontrado este rigor nesta “Ordem de Operações nº 1/74”, confirma que de facto a descolonização, vista pelos olhos dos oficiais que a planearam e executaram, foi um processo de gestão de risco elevado. 

A Ordem de Operações nº 1/74 não foi apenas um "fim de guerra", mas o documento que garantiu que a soberania portuguesa fosse transferida de forma organizada, mantendo a disciplina militar intacta até ao arriar da última bandeira.

É um registo que retira o processo da esfera puramente política e o coloca no lugar que lhe cabe: uma operação militar de grande envergadura, planeada com a precisão exigida pela hierarquia militar da época.



Guiné > LFG Lira > s/d  > Elementos da guarnição do NRP Lira, em convívio na sala
comum/refeitório. Foram estes os marinheiros que,  no dia 15 de outubro de 1974, nos seus lugares de combate e outros, asseguraram a operacionalidade da NRP Lira, no que diz respeito ao apoio e segurança na evacuação do último contingente militar do território da Guiné.

Foto (e legenda): © Manuel Beleza Ferraz (2012). Todos os direitos reservados. (Edição e legendagem complementar: Bogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)

´
Embora os "tiros" tenham parado, a missão militar continuou sob um rigor técnico extremo, de forma que esta "Operação nº 1/74" foi, na prática, a operação de logística militar mais complexa da história recente de Portugal, pois exigia que os militares mantivessem a disciplina, a hierarquia e a segurança enquanto o território sob os seus pés deixava de ser português.

Em suma, esta última operação na Guiné foi, tecnicamente, uma operação de combate defensivo em contexto de paz armada. Os elementos que consegui recolher, desde depoimentos à análise deste documento histórico (a Ordem de Operações nº 1/74), confirmam que não houve desleixo na sua preparação, pois:
  • a manutenção de perímetros de segurança com tropas de infantaria e fuzileiros, prontos para responder, foi o que impediu o vácuo de poder que, noutros cenários mundiais de descolonização, levou a massacres;
  • o apoio naval: as lanchas de desembarque com metralhadoras prontas não eram apenas um dispositivo de transporte; eram plataformas de fogo de cobertura; o  facto de a Marinha ter mantido esse poder de fogo visível e operante foi o fator dissuasor que garantiu que nenhum grupo se sentisse tentado a atacar as colunas de retirada; 
  • a "não-violência" como sucesso militar: um dos maiores erros históricos é pensar que "não houve combates" porque "não houve guerra"; o sucesso real foi que não houve combates precisamente porque a força portuguesa se manteve capaz de combater; se a prontidão não estivesse ao mais alto nível, a operação teria sido um alvo fácil.

A Ordem nº 1/74 não foi uma "entrega", foi uma manobra de extração realizada sob condições de combate potencial. Esta foi talvez a operação de maior sucesso de toda a presença portuguesa na Guiné, não por ter conquistado território, mas por ter garantido a integridade física de todos os seus homens.


Fonte: Luís Gonçalves
Vaz (2024)
Conclusão: foi o planeamento rigoroso da Marinha, em cumprimento da Ordem de Operações nº 1/74 emitida pelo Comandante-Chefe (mas planeada pelo seu Estado-Maior), em sintonia com a prontidão das unidades em terra que permitiu que o regresso das nossas tropas fosse feito sem
baixas.

Este regresso não foi um ato de desistência, foi o último ato de uma força que, até ao último segundo, soube manter-se coesa, profissional e preparada para o pior cenário.

Braga, 08/06/2026
´
Luís Beleza Vaz
Grão-Tabanqueiro nº  e filho do último CEM/CTIG, cor cav Henrique Gonçalves Vaz (Barcelos, 1922 - Braga, 2001; foto à direita)


Anexo > Cabeçalho da Ordem de Operações nº 1/74
 (publicado no topo deste poste). O documento foi desclassificado ~
em 2017. “Documento cedido pela Biblioteca Central 

(Revisão / fixação de texto: LG)

______________

Notas do editor LG:

(*) Vd.  postes de:



(**) Último poste da série > 2 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27786: Documentos (63): A retirada de Madina do Boé: a jangada - Parte II (Cálculo das dimensões e lotação, com a ajuda das fotos e da IA)

sábado, 13 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28094: Movimento Nacional Feminino: visita da Cilinha a Bambadinca e espetáculo com a "prata da casa", o Conjunto Musical Os Bambas D'Incas, em princípios de maio de 1969



Prompt original e composição editorial: Luís Graça.

Foto: José Carlos Lopes (2013)

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.

Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá >Setor L1 > Bambadinca > CCS/BCAÇ 2852 (1968/70) > c. maio de 1969  

 Representação artística da parada do quartel de Bambadinca: visita da presidente do Movimento Nacional Feminino, Cecília Supico Pinto (1921-2011), mais conhecida por "Cilinha";  faz entrega de oferta de instrumentos musicais ao Conjunto Os Bambas D'Incas, formado por militares do batalhão.

Com base em foto do álbum do José Carlos Lopes, ex-fur mil amanuense, com a especialidade de contabilidade e pagadoria, especialidade essa que ele nunca exerceu (na prática, foi o homem dos reabastecimentos do batalhão).

Foto nº 1 > Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Setor L1 (Bambadinca) > Mansambo (CART 2339, 1968/69) > 1969 > Atuação do conjunto musical, da CCS/BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/70), "Os Bambas D' Incas": > Os elementos da banda em cima de um abrigo > Da esquerda para a direita, José Maria Sousa ("Braga") (viola solo), de pé; Tony (vocalista), sentado (era "alfacinha");  Otacílio Luz Henriques (viola baixo), de pé; Neves (bateria), sentado (era da Póvoa de Lanhoso); e Peixoto (viola ritmo), de pé (era de Ponta da Barca) (*). (O Otacílio era assistente técnico no Município da Amadora, trabalhou no Departamento de Obras Municipais, reformou-se em 2011.)





Foto nº 2 > Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Setor L1 (Bambadinca) > Mansambo (CART 2339, 1968/69) > 1969 > Atuação do conjunto musical, da CCS/BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/70), "Os Bambas D' Incas" > O vocalista do grupo. Era radiotelegrafista na CCS/BCAÇ 2852. "Cantava o Fado muito bem. Era bastante indisciplinado, punha a cabeça do alf mil trms Fernando Calado em água" (escreveu o José Almeida, ex-fur mil trms, CCAÇ 12, 1969/71).

Pelo nome e nº mecanográfico terminado em 61, pode ser o 1º cabo nº 14219661 António N. Sousa ("Era refratário, e tinha cinco a seis anos a mais do que nós", diz o Sousa; (...) 
 era natural de Lisboa, onde já cantava, com fadistas conhecidos como a Maria da Fé; desconhece-se atualmente o seu paradeiro; foi ele que em Bambadinca, por volta de maio de 1969, cantou para a Cilinha a famosa canção do Alberto Cortez, "Oh Mónica", EP, 1961, adaptando a letra; Cortez nasceu na Argentina, em 1940, e morreu em 2019, em Espanha].

Fotos (e legendas) : © José Maria Sousa Ferreira (2015). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Foto nº 3 > Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Setor L1 > Bambadinca > CCS/BCAÇ 2852 (1968/70) > c. princípios de maio de 1969 > Visita da presidente do MNF e  atuação do conjunto musical Os Bambas D' Incas, formado por cinco (ou seis) elementos: da direita para a esquerda, o 1º cabo Tony ("cantor romântico");  o 1º cabo Serafim (bateria);  o 1º cabo Peixoto (viola ritmo e cantor pop);  o José Maria de Sousa [Ferreira, mais conhecido por "Braga":  era soldado do pelotão de intendência (viola solo), originário do BART 1904 ]; e ainda "um outro 1º cabo que "deveria ser chapeiro e que, na vida civil, praticava halterofilismo" (acabámos por identificá-lo como  sendo o 1º cabo bate-chapas Otacílio Luz Henriques, membro da nossa Tabanca Grande)(*) ... 

Com exceção do Sousa, todos pertenciam ao BCAÇ 2852 e eram 1ºs cabos... 

Foto do álbum do José Carlos Lopes, ex-fur mil amanuense, com a especialidade de contabilidade e pagadoria .

Pela consulta da história da unidade (BCAÇ 2852, Bambadinca, 1968/70), presume-se que:

(i) o Peixoto seja o 1º cabo escriturário José Faria Taveiro Peixoto, nº 11176267, do comando do batalhão, secção de pessoal e reabastecimento;

(ii) o Serafim deve ser o 1º cabo mecânico auto António Luis S. Serafim, nº 06148667, do pelotão de manutenção comandado pelo alf mil Ismael Quitério Augusto, nosso grã-tabanqueiro;

(iii) o Tony, pelo nome e nº mecanográfico terminado em 61, pode ser o 1º cabo nº 14219661 António N. Sousa ("Era refratário, e tinha cinco a seis anos a mais do que nós", diz o Sousa; julga que era condutor, e natural de Lisboa, onde já cantava, com nomes fadistas conhecidos como a Maria da Fé);

(iv) Falta identificar o Neves, que também tocava bateria.



Foto nº 4 


Foto nº 5


Foto nº 6


Foto º 7

Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Setor L1 > Bambadinca > CCS/BCAÇ 2852 (1968/70) > C. fins de abril / princípios de maio de 1969 > Visita da presidente do MNF  (Fotos nºs, 6 e 7)  e atuação do conjunto musical Os Bambas D' Incas, (Fotos nºs, 3, 4 e 5). 

Destaque para a foto nº 6: a Cecília Supico Pinto (1921-2011), mais conhecida por "Cilinha", sobressaindo de um grupo de militares que a rodeiam e a escutam.. Todos as guerras têm a sua "Pasionaria"... A "Cilinha" terá sido a nossa... Esta foto, notável, do José Carlos Lopes, é uma prova disso... É uma foto de antologia.

Fotos (e legendas): © José Carlos Lopes (2013). Todos os direitos reservados. (Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)



1. Não, não foi o Conjunto Musical das Forças Armadas (a que pertenceria mais tarde o Vitor Roseira), quem atuou nesse dia da visita da Cilinha a Bambadinca, mas sim a "prata da casa", o Conjunto Musical Os Bambas D'Incas. Corrija-se, então, o título do poste P10993 (***), por mor da verdade...

Tudo indica que esta visita se tenha realizado entre finais de abril e princípios de maio de 1969 (em 2 de maio, a Cilinha estava em Có, na região do Cacheu, e em 11 no Olossato, sede  da  CCAÇ 2402,  a que pertenceu o nosso saudoso grã-tabanqueiro Raul Albino). 

 O aquartelamento de Bambadinca  será atacado, em força, em 28 de maio desse ano. Nessa altura, fim da época seca, a líder do MNF andava pela Guiné.

O meu camarada José Carlos Lopes (estivemos juntos em Bambadinca, de julho de 1969 a maio de 1970,) já não pode precisar a data precisa em que  foram tiradas estes "slides". Mas lembra-se muito bem da visita da Cilinha e da atuação do conjunto musical  (que não era  o das Forças Armadas, mas o grupo local, "Os Bambas D'Incas") que veio animar a malta da CCS do batalhão e subunidades adidas, o Pel Rec Daimler 2046, 1968/70; o  Pel Mort 2106 (esteve em Bambadinca entre Março de 1969 e Dezembro de 1970)., Pel Caç Nat 63, que em junho ou julho vai para Fá, sendo rendido pelo Pel Caç Nat 53) .

2. Um dos membros do  conjunto musical Os Bambas d'Incas, onde tocava viola solo,  foi o José Maria Sousa Ferreira, conhecido pelo "Braga" (*), foi sold mec da CCS/BART 1904, de rendição individual, em 1968; foi depois integrado, na segunda parte da sua comissão, no Pelotão de Intendência (PINT),  sediado em Bambadinca (em 1969/70, já com instalações próprias, junto ao porto fluvial, na margem esquerda do Rio Geba Estreito).

Contou-nos ele que em Bambadinca era muito solicitado para festas de anos e animações, dentro e fora do quartel. Depois formou um conjunto com a malta da CCS/BCAÇ 2852. O Movimento Nacional Feminino (MNF) ofereceu-lhes os instrumentos. 

Tocaram, com grande sucesso, em vários sítios, incluindo Bafatá (na festa de Natal de 1969 e na passagem de ano). As fotos acima referem-se ao dia em que a Cilinha foi visitar Bambadinca... e houve espectáculo musical no edício em U onde ficava o comando do batalhão e as messes e quartos de oficiais e sargentos.

Terminou a sua comissão em abril de 1970. Tornou-se empresário, sendo sócio de várias escolas de condução (provavelmente, hoje estará reformado). 

Em  2015, quando nos contactou, andava à procura da malta do seu tempo e em especial dos elementos que integraram o saudoso conjunto musical Os Bambas d'Incas.  Falou comigo ao telefone. Já voltou à  Guiné, em férias, em 2012,  e claro visitou Bambadinca.
.
Esse conjunto musical cujas fotos se mostram acim,  era formado por 5 elementos, 4 cabos e 1 soldado,  havendo 2 vozes, 3 guitarras elétricas e 1 baterista (pormenor curioso: arranjou um cunhete de munições para pôr em cima da cadeira e "fazer altura") (. Havia 2 bateristas, o Serafim e o Neves.)

Não confundir este conjunto com um outro que andava pela Guiné, o Conjunto Musical das Forças Armadas. (O nosso camarada Vitor Raposeiro, ex-fur mil radiotelegrafista, STM, de rendição individual, que passou por Aldeia Formosa, Bambadinca, Bula e Bissau, 1970/72, também viria a integrar esse Conjunto Musical das Forças Armadas, tendo saído de Bambadinca ao tempo do BART 2917; esse conjunto atuava por toda a Guiné.)

Um das formas de apoio aos militares no mato, por parte do MNF,  para além da realização de espectáculos com artistas trazidos da Metrópole (****),  era ajudar os conjuntos musicais locais "ad hoc", disponibilizando ou fornecendo instrumentos musicais. Ou juntando músicos a cumprir o serviço militar (caso, por exemplo, do Conjunto Musical das Forças Armadas, e do Conjunto Académico Poão Paulo) (*****)

__________________

Notas do editor LG:

(*)  Vd. postes de: 

10 de abril de 2015 > Guiné 63/74 - P14455: O Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande (97): José Maria de Sousa [ Ferreira, minhoto, com escola de condução no Porto], ex-sold mec aut (BCAÇ 1904 e PINT, Bambadinca, 1968/70) descobre os seus companheiros do conjunto musical a quem o Movimento Nacional Feminino ofereceu, em 1969, os instrumentos






sexta-feira, 15 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28022: Notas de leitura (1923): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (2): III - O que eu sei da guerra que estou a travar e IV - O conhecimento da morte, Missirá devastada, o desafio de lhe dar nova vida (Mário Beja Santos)

CONGRESSO INTERNACIONAL
DAS GUERRAS AO PÓS-25 DE ABRIL
Os Militares em Territórios em Conflito
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
De 2 a 4 de abril de 2025


A biografia de um combatente:
O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História

Mário Beja Santos

III - O que eu sei da guerra que estou a travar

Estou consciente que não disponho de tempo para manter este nível de pormenor, quando comecei a estruturar esta intervenção achei por bem pôr ênfase neste tempo de adaptação, dou-lhe um valor incalculável, foi nascendo o meu amor por aquelas gentes que tanto confiavam em mim, faltava-lhes tudo, exigiram-me que lhes desse o devido cuidado, tudo somado nasceu entre nós o respeito, a consideração, a lealdade. Eu estava ali para fazer a guerra, ou para travar os ímpetos do chamado inimigo, cedo descobri que tudo passava por mostrar às populações a moeda da lealdade do cuidado pelo Outro.

À cautela, supondo que irei viver num universo radicalmente diferente do que vivi em Lisboa, apetrechei-me de dois malões feitos em pinho, levei neles umas largas centenas de livros e discos de vinil e o gira-discos a pilhas. Nada sei da Guiné, quando ali desembarquei, nem do seu mosaico étnico, em que locais estão implantadas as tropas portuguesas e onde há guerrilha, li durante a viagem de barco um volume sobre a Guiné Portuguesa da autoria do então Comandante Teixeira da Mota, esclarecedor quanto a aspetos históricos, geográficos, antropológicos e etnográficos, mas era um livro de 1954, fiquei com uma ideia quanto à severidade do clima, e havia tornados e uma espantosa diversidade quanto a fauna e flora, mangais, vários tipos de floresta, palmares, lalas de água salgada, Savanas, não faltam macacos, cobras, ratos-voadores e uma espécie de abutres, alimentam-se de tudo.

Desembarcado em Bissau, ainda esperei ser convocado para uma reunião onde ficasse a saber que guerra de guerrilhas ali se vivia, nada aconteceu, fiquei entregue a mim próprio, ia diariamente a uma repartição do Quartel-General saber se tinha guia de marcha. Passeei-me por Bissau, o museu da Guiné surpreendeu-me, comprei um livro sobre os Mandingas, o jeito que me deu. Resta dizer que me mandaram apresentar no cais do Pidjiquiti na manhã de 2 de agosto, embarquei num barco com vários africanos, deram-me um garrafão de água e uma ração de combate. Fiz o estuário do Geba, havia um jovem que me ia explicando os locais, ali ao fundo é Jabadá, vamos parar em Porto Gole, anoiteceu, alguém me dirá em voz baixa que vamos passar perto de Ponta Varela, é ali que os barcos são atracados, o barco navega com toda a gente em silêncio, depois entrou num estreito leito do rio, sinuoso, mais adiante há luzes, primeiro o Xime mais adiante Bambadinca.

Algo me está a maravilhar, assim como descobri na recruta e na especialidade a energia física e o prazer da marcha, começo a entender agora que tenho capacidade de liderança, nestes primeiros três meses vamos fazendo patrulhas de reconhecimento, vou tirando notas do terreno percorrido, deslumbrei-me com os palmares de Gambiel e de Chicri, estou ciente de que aquelas obras são mais do que indispensáveis, não tenho ilusões quanto à insegurança em que vivemos. Vivo numa morança onde se pôs saibro no chão, foi pintada uma cama de ferro e feito um colchão de folhelho, mais tarde descobrirei que aquela cama pertenceu a um dos nossos maiores cartógrafos, Armando Cortesão. Converso regularmente com o régulo, com o chefe de tabanca, com o responsável religioso. Apareceu um jovem a oferecer-se para guarda-costas, o seu nome é Ieró, parece ser uso e costume haver tal intendência, Ieró explica-me o que é que pretende fazer: entregar a roupa suja à lavadeira e verificar o estado em que regressa; limpar o armamento e a limpeza da casa de nosso alfero, vai por aí fora falando das botas para engraxar, levar e trazer recados, e, súbito, diz algo que arrepia nosso alfero: se necessário pôr, protege com o seu corpo o seu comandante, deve estar preparado para dar a sua vida por ele.

Vive-se com o que a vida nos ensina: os graves problemas de saúde, sobretudo dos civis, as carências nutricionais das crianças, o imperativo das colunas de abastecimento; apanhou-se um grande susto, um dia em Mato de Cão, ouve-se um ronco medonho, depois as águas parecem estar a ferver em remoinho, deitam espuma para os lodos das margens, segue-se uma onda, então desatei a fugir colina acima, soldados a rirem-se, e eu a pensar que era um marmoto e os soldados a dizerem que não, é macaréu.

Multiplicam-se as tarefas, na secretaria do Batalhão entregam-me um processo de averiguações, uma criança, anos atrás, em Finete, acionou uma granada incendiária que tinha ficado num reboque militar, o seu corpo foi severamente atingido, como eu irei ver mais tarde, passei horas e horas a mandar deprecadas para muitos lugares de Portugal, o processo acabou em nada. Percorro aquelas matas, vejo estacas calcinadas, houve para ali vida, apercebo-me agora que vivo num território dividido, onde se deu um turbilhão demográfico, fugiu gente para muitos sítios, os que ficaram estão em Missirá e Finete, em Madina e Belel. É assim que se vive num território em guerra de guerrilhas.



IV - O conhecimento da morte, Missirá devastada, o desafio de lhe dar nova vida

Aproveito as idas a Mato de Cão para fazer patrulhamentos, quero descobrir os caminhos que as gentes de Madina e de Belel percorrem atravessando o Geba em diferentes sentidos. Iremos descobrir pirogas camufladas dentro do mato denso do tarrafe, para quem vai aos Nhabijões; junto do Geba estreito, frente à bolanha de Mero, na margem esquerda, encontramos indícios da sua passagem, desde carregadores de espingardas a bosta de vaca. Seguem-se emboscadas, o chamado inimigo terá os seus mortos e feridos, sofremos também com gente nossa acidentada, o Natal mais luminoso da minha vida será o de 1968, alegria irrepetível, gente de cá enviou vitualhas, houve festa para toda a população civil e para os contingentes de Missirá e Finete.

Em fevereiro de 1969 fui ao hospital militar de Bissau para ser operado, sofria de uma cartilagem atrás do joelho direito que me dava dores insuportáveis. Antes de ir, participei numa operação desastrosa onde se acidentou gravemente mais um amigo meu. Feita a operação, descubro que Missirá fora flagelada, o incêndio consumira cerca de dezasseis moranças, consegui apoios no Batalhão de Engenharia, não me irá faltar cimento, nem dinheiro para as madeiras, virão chapas onduladas, o essencial para que quando chegou a época das chuvas toda a gente tinha o mínimo de conforto e aproveitou-se a ocasião para renovar um bom número de abrigos.

Entretanto, não faltarão flagelações, a resposta será sempre pronta e enérgica. Tenho de abreviar, a contragosto. Participaremos também nas operações dos outros, deixei de ter medo da noite. Uma vez escrevi o seguinte: “Descobri que a floresta à noite tem outras expressões de vida, os estalos da madeira sobressaltam, o piar das árvores pode parecer de muito mau agoiro, um porco-do-mato pode assustar uma patrulha em marcha, há sons que se confundem, o pior são os gemidos das hienas, lembram o choro dos bebés; em emboscadas noturnas, sente-se o bafo do vizinho do lado, parece que estamos perdidos num oceano de sombras, já me habituei ao restolhar dos animais, quem está à noite na floresta em circunstância alguma pode perder de vista o camarada que segue à frente, já ouvimos falar no terror, no desespero que é estar perdido em território perfeitamente desconhecido.”

Os meses passam, os homens do meu pelotão dão-me claramente a saber que estão fartos de viver naquele ponto do mato, há mais de três anos que combatem em Missirá, fui forçado a pedir ao comando do batalhão transferência, não deixando de advertir os meus homens que não iríamos para melhor em Bambadinca. Tal como aconteceu.

(continua)

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Notas do editor:

Vd. post de 8 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28001: Notas de leitura (1920): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (1): I - À guisa de apresentação do ex-combatente e II - Foi assim que cheguei ao Cuor (Mário Beja Santos)

Último post da série de 13 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28014: Notas de leitura (1922): "Os Có Boys (Nos Trilhos da Memória)", de Luís da Cruz Ferreira, ex-1.º cabo aux enf, 2.ª C/BART 6521/72 (Có, 1972/74) - Parte X: À falta de vaca, avançou o hipopótamo para o rancho

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27970: Fotos à procura... de uma legenda (203): Um "mininu" chamado Adão Doutor


Guiné >  > Zona do Cacheu > Bigene > c. 1966/67  > O alf mil médico Adáo Cruz ( CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887, Canquelifá e Bigene, 1966/68), com uma jovem mãe, e o seu filho a quem pôs o nome de "Adão Doutor", em gestor de gratidão para com o  médico, "tuga",  que a assistiu no porto. A mulher parece ser do grupo étnico diola, djola ou jola / felupe

Foto (e legenda): © Adão Cruz (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. A foto é do nosso camarada 
Adão Cruz, médico cardiologista, reformado,  ex-al mil médico,  CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68); nasceu em Vale Cambra, em 1937; poeta, escritor, pintor, com diversos livros publicados e exposições em Portugal e no estrangeiro; membro da nossa Tabanca Grande desde 27 de junho de 2016; tem mais de 240 referências no blogue; é autor das séries "Contos ser e náo ser" e "Memórias de um médico em campanha".

A CCaç 1547 / BCAÇ 1887 desembracou em Bissau, com o resto do pessoal do seu batalhão em 13 de maio de 1966, seguindo de imediato para  Fá Mandinga, a fim de efectuar a IAO (instrução de aperfeiçoamento operacional) sob orientação do BCaç 1888, substituindo a CCav 702 na função de intervenção e reserva daquele sector, e tendo tomado parte em operações na região de Xitole e no baixo Corubal.

 De 27 de maio de 1966  a 7 de junho de 1866, foi entretanto deslocada, temporariamente, para Nova Lamego, em reforço do BCaç 1856, em virtude de um previsível agravamento da pressão inimiga neste sector, tendo efectuado acções na região de Pataque e outras.

Em 13 de setembro de 1966, recolheu a Bissau, a fim de seguir para Bula, para realização de uma operação na região de Jol, sob dependência do BCav 790.

Em 27Set66 foi colocada em Bigene, tendo assumido a responsabilidade do respectivo subsector, com um pelotão destacado em Barro, em substituição da CCaç 762 e ficando então integrada no dispositivo e manobra do seu batalhão.

Em 29 de 0utubro de 1967, foi rendida no subsector de Bigene pela CArt 1745 e seguiu para Bissau, a fim de substituir a CCaç 1497 a partir de 2 de novembro de 1967 no dispositivo de segurança e protecção das instalações e das populações daquela área, sob ependência do BArt 1904 e depois do BCaç 2834. 

Manteve-se em Bissau até ao embarque de regresso, em 25 de janeiro de 1968,  tendo, entretanto, destacado um pelotão para Nhacra, em reforço da guarnição local.


Comentário do editor LG:

A fotografia e o testemunho do nosso camarada Adão Cruz dizem muito mais do que aparentam à primeira vista. Parece haver ali uma tensão silenciosa entre dois mundos: um médico miliciano, jovem, deslocado pela força de uma guerra que ele próprio rejeita, segurando nas mãos um recém-nascido (terá uns escassas semanas, talvez um mês e pouco de vida), símbolo absoluto de vida, no meio de um cenário que, no fundo, era (ou poderia viver a ser em qualquer momento) um palco de guerra, um cenário de morte organizada. 

Ali está um criança, vitoriosa, que sobrevive ao parto e ao primeiro mês de vida... O gesto de levantar o bebé é quase ritual. Não é só clínico, é um gesto humano, de triunfo da vida sobre a morte. É como se a imagem nos dissesse: “apesar de tudo, a vida continua”. 

E depois há o nome, esta maravilha: "Adão Doutor"!...  Nome, espontáneo, que lhe deu a jovem mãe,  fula, ao seu menino. É uma forma de reconhecimento profundo por parte dela: não é apenas gratidão, é também uma espécie de inscrição simbólica daquele nosso camarada na origem daquela vida. Como se ele tivesse participado não só no parto físico, mas no próprio destino da criança, há 70 anos atrás.

A presença da mulher,  ao lado,  digna, firme, composta, com o seu extenso e lindo colar (e por baixo dos panos que lhe cobrem o corpo, os amuletos protetores), deve merecer especial atenção.

Não está submissa nem apagada,  está ali como sujeito, pro direito próprio, como mulher, como mãe, como pessoa inteira. O olhar dela parece mais difícil de ler do que o do médico (embora ambos estejam viarados para o sol). Carrega  em todo o caso uma experiência que não está escrita, mas onde se adivinha dureza e sofrimento, mas também orgulho e dignidade.

E depois, quando lemos o texto do nosso Adão Cruz, tudo encaixa. Ele recusa a narrativa heroica clássica: não há medalhas, não há pátria exaltada, não há glorificação dos senhores da guerra. Há sofrimento, há dúvida, há humanidade. 

Isso dá ainda mais peso à imagem. Porque percebemos que aquele gesto não era exceção: era coerente com quem ele era, com o que ele pensava e sentia.  A sua guerra era outra: cuidar, salvar, ensinar, reconhecer o outro como igual, uma forma de resistência ética.

E aquela frase final dele (de que aqueles dois anos “valeram vinte”) é muito típica de quem passou por experiências-limite. Não é glorificação da guerra; é reconhecimento de que ali se viveu tudo em estado bruto, sem filtros.

(...) Sempre disse que os dois anos que passei na Guiné, anos de sofrimento e saudade, de tristeza e alegria, de coragem e desânimo, mas sobretudo de inigualável fraternidade e vivência humana, valeram vinte anos da minha vida. Não sei dizer porquê, mas sinto-o até ao mais fundo do meu ser. Sei apenas que me levaram a um futuro do qual nunca saberei o valor que o define, mas que sempre construí em consonância comigo mesmo. Sei apenas que sem esses dois anos, seja eu quem for, nunca seria quem sou. (...)

 Ficamos na dúvida se a mãe é fula ou felupe (**).   As populações da Guiné, muitas vezes apanhadas entre duas forças anatgónicas, tiveram uma experiência particularmente complexa — ora vistas como colaborantes, ora suspeitas, ora simplesmente vítimas. E aqui temos  uma mulher, guineense,  que entrega o seu corpo e o seu filho aos cuidados de um médico militar português. Isso não era banal e algumas, por interditos culturais, de origem religiosa ou não, recusavam-se a ser vistas pior um médico "tuga". 

É um gesto de confiança num contexto onde a confiança era um bem raríssimo (**).

A fotografia, assim, ganha outra densidade:  n
ão é só mais uma criança que nasceu, é um momento de suspensão da guerra; não é só um médico militar, no exercício das suas funções de prestador de cuidados à população; não é só uma mãe, é uma mulher que atravessa o medo e decide confiar.

E o nome "Adão Doutor" torna-se ainda mais forte. Em muitas culturas da África Ocidental, dar o nome exótico (ou uma "alcunha")  ( Adão Doutor, Alfero Cabral, Capitão Fula, Tchombé,  José Manuel Sarrico Cunté,  José Carlos Suleimane Baldé, Nuninho,  Alicinha...)  é um acto profundamente simbólico, não é um capricho, é uma forma de inscrever relações, acontecimentos, memórias. Aquele nome fixa para sempre o encontro entre dois mundos naquele instante concreto.

É um  detalhe cultural (o nome “tuga” dado, em geral,  por agradecimento ou veneração) que bate certo com muitos testemunhos da época na Guiné: o nome funcionava quase como marca de relação, proteção simbólica ou memória do acontecimento.

A foto é de meados da década de 60, em pleno "consulado" de Arnaldo Schulz,o governador que não era propriamente uma figura carismática, popular e empática... Pelo menos, se comparada com António Spínola, o "Caco Baldé".

E há algo que nos fica a martelar: o alferes miliiciano médico, que não recusou a guerra,  não foi desertor, diz que não se considerava combatente... Mas nesta imagem há uma forma de combate, talvez a mais difícil: combater a desumanização.

Esta foto  tem, portanto, “lastro humano”, como dizem os especialistas de fotografia. E, sendo do Adão Cruz, ganha ainda outra espessura.


2. Perguntarão os leitores: que idade terá esta criança, ao certo ? Quantos dias, semanas ou até meses? E esta "cena" deve passar-se em Bigene, takvez no início de 1967...

Esta criança não é um "recém-nascido"... Terá já algumas semanas, até um mês e picos...Já usa adornos e amuletos. É um rapaz. A mãe vem agradecer ao médico, militar, português, Adão Cruz, a ajuda no parto. Não sabemos se é fula, muçulmana, ou de outra etnia: a zona era já de miscigenação (e hoje há balantas, balantas manés, mandinga, fulas, djolas/felupes...).  Em agradecimento pôs o nome do "Adão Doutor" ao filho. Era frequente dar nomes "tugas" às crianças que nasciam em zonas com quartéis. 

Analisando a foto com a ajuda de um ferramenta de IA, pode concluir-se que, de facto,  não se trata propriamente de um "recém-nascido":
  • já tem bom controlo da cabeça (não totalmente firme, mas não é aquele tombar típico de recém-nascido);
  • apresenta membros mais “cheios”, já com alguma gordura subcutânea;
  • a pele não tem aquele aspeto enrugado ou descamativo dos primeiros dias;
  • parece alerta e reativo, não em postura fetal;
  • já usa amuletos/adornos, o que muitas vezes só acontece depois dos primeiros dias (às vezes após o nome ou rituais iniciais).

Tudo isto sugere claramente que não é um recém-nascido (0–2 semanas). Estimativa mais plausível: (i) entre 4 e 8 semanas de vida; ou seja, cerca de 1 a 2 meses. Se tivessemos de afinar mais, diríamos: por volta de 5–7 semanas.

Menos do que isso (2–3 semanas), seria provável ver menos firmeza corporal. Mais do que isso (3 meses), o bebé tenderia a parecer ainda mais robusto e com outra expressão muscular.

Estivemos a reler o primeiro poste que o Adão Cruz publicou no nosso blogue, e não há dúvida, o seu "primeiro parto" no CTIG aconteceu em Bigene, mais provavelemente no 1º semestre de 1966  (**):

(...) Foi  rápida a aceitação e compreensão dos esclarecimentos que fiz na tabanca acerca de infec­ções e higiene, acerca do papel da mãe, da dignidade do parto e das vantagens de este ser efectuado na nossa enfermaria, ainda que pequena e modesta.

Não demorou muito tempo a aparecer a primeira parturiente. Era uma linda mulher grávida de termo que não falava nada que se percebesse. Não sou capaz de precisar nesta altura a etnia, mas lembro-me que nem os outros negros entendiam o seu dialecto.

Mas o seu sorriso, apesar das dores, era tão aberto e confiante que não precisávamos de melhor forma de comunicação e entendimento. Até os olhos do meu enfermeiro Pimentinha brilharam de entusiasmo, entusiasmo que o levou a ler de ponta a ponta a minha sebenta de obstetrícia e a transformar-se em pouco tempo num habilidoso parteiro e carinhoso puericultor.

Nas minhas mãos um pouco trémulas eu segurava o fruto do primeiro parto que assisti na Guiné. Era um belo rapazinho que, apesar da pobreza alimentar daquela gente, nasceu bem nutrido e de uma cor rosa-marfim.

Os negros nascem brancos, como se sabe. Uma deliciosa ironia anti-racista da natureza.

Embora as nossas dificuldades logísticas e económicas fossem grandes, lá consegui oferecer-lhe o alimento, sob a forma de leite condensado, indispensável aos primeiros meses de aleitamento, pois a mãe parecia ter esgotado todas as reservas das suas entranhas ao gerá-lo de ma­neira tão eutrófica e tão perfeita.

Umas semanas após o nascimento vem ter comigo o Chefe de Posto e diz-me sorridente:

- Doutor, vou dar-lhe uma linda notícia que a mim, pes­soalmente, me enterneceu. A mãe daquele catraio... aquele primeiro parto que o doutor fez, lembra-se?... A mãe veio registá-lo há dias, oficialmente, com o nome de Adão Doutor. (...)



 3. Gostaríamos que os nossos leitores acrescentassem, na caixa de comentários, a sua própria legenda, sucinta, espontânea... Não há legendas certas nem erradas. Deixemo-nos levar pela memória, pela emoção.

Pode ser qualquer coisa como "Bigene, c. 1966/67: 'Adão Doutor entre a guerra e a vida, um instante suspenso". Mas eu espero que o nosso Cherno Baldé nos dê uma ajude... Nesta época ele já era um djubi com cinco ou seis anos feitos, o "Chico de Fajonquito"...

Um jovem médico militar português segura um recém-nascido, nu, que terá   chegado ao mundo há pouco tempo. Já ostenta adornos e seguramente amuletos. Ao lado, a mãe mantém-se de pé, firme, inteira, com a dignidade de quem acaba de atravessar uma fronteira invisível entre a vida e a morte.

O cenário é Bigene no norte da Guiné, junto à fronteira com o Senegal. Zona de tensão, de passagem, de incerteza. Zona de guerra.
 
E, no entanto, nesta imagem não há guerra. Há um gesto: o de levantar a criança, quase como uma apresentação ao mundo, há um olhar: o do médico, onde se cruzam cansaço e cuidado; e há um nome que ficou: “Adão Doutor”.

 O autor da fotografia e protagonista da cena, hoje quase nonagenário, recusou sempre a ideia de ter sido “combatente”. Disse de si próprio que apenas combateu a doença e a injustiça. E talvez esta imagem seja a melhor prova disso.

Num tempo em que a linguagem da guerra tende a apagar os pequenos gestos (mais ternos e mais íntimos), esta fotografia devolve-nos uma evidência simples e desarmante: mesmo nos lugares mais improváveis, a vida existe, insiste, persiste. (***)

(Pesquisa: LG + IA (ChatGPT, Open AI)
(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)
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Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 27 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27960: (In)citações (286): Guerra colonial (Adão Cruz, Cardiologista, ex-Alf Mil Médico)

(**) 25 de junho de 2016 > Guiné 63/74 - P16235: Memórias de um médico em campanha (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547) (1): O Parto - ou o nascimento do Adão Doutor em Bigene
 
(***) Último poste da série > 29 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27869: Fotos à procura de...uma legenda (202): No Dia Mundial da Poesia e da Árvore (Joaquim Pinto de Carvalho, régulo da Tabanca do Atira-te ao Mar)