segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

Guiné 61/74 - P23013: Notas de leitura (1422): “Descolonizações, Reler Amílcar Cabral, Césaire e Du Bois no séc. XXI”, é coordenadora Manuela Ribeiro Sanches; Edições 70, 2019 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 17 de Abril de 2019:

Queridos amigos,
A promessa desta professora universitária, Manuela Ribeiro Sanches, que tem currículo em estudos do Império Português, era a de questionar o legado europeu numa altura em que o continente conhece novas divisões e racismos, em que a crise financeira e económica global, as pressões migratórias, introduziram confrontos e posições defensivas, em perfeito contraponto com uma tradição de abertura e ocupação ou presença noutros territórios, para comerciar e fazer vanglória deste modo de viver em democracia liberal, nos tempos atuais. Escolheu bem os pensadores que criticaram o processo colonizador europeu, muitas décadas atrás. Esperava-se que esta forma de visita trouxesse clarificações. O que aconteceu é que se juntaram à molhada intervenções por vezes muito dissonantes, falta-lhes qualquer forma de conexão. Isto a despeito de haver alguns textos de gritante qualidade. Uma ocasião perdida para retomar a análise das descolonizações, as de ontem e as de hoje.

Um abraço do
Mário



Questionar o legado europeu muito depois das descolonizações

Beja Santos

A obra intitula-se “Descolonizações, Reler Amílcar Cabral, Césaire e Du Bois no séc. XXI”, é coordenadora Manuela Ribeiro Sanches, Edições 70, 2019. O livro pode ser considerado como a conclusão de um projeto que envolveu esta investigadora e outros, iniciado há 14 anos. Começa por questionar a oportunidade de avaliar o legado europeu no momento em que a Europa conhece novas divisões e racismos, clivagens ideológicas nos quatro pontos cardeais. O projeto reflete sobre a deslocalização da Europa, deslocar até aos lugares em que produzimos saber, ocupámos em diferentes continentes, ouvir de novo três influentes pensadores do antigo colonialismo, que deram suma importância, pela crítica veemente ao colonialismo europeu e às desigualdades a nível mundial. São contributos vários, há entre eles dissonâncias, diria mesmo que há reflexões um tanto descabidas para o objetivo primordial do projeto. Alguém pergunta, no início: “Na nossa era, caraterizada pela ocupação de territórios, pela destruição do meio ambiente, por uma nova política de espoliação, por novas formas de escravidão, novas formas de colonização, que podemos aprender com a geração dos anticolonialistas? Que dizem eles que possam ainda ecoar em nós e nos ajude a imaginar novas formas de emancipação?”.

E clarifica mais adiante: “Cabral, Césaire e Du Bois participaram nos movimentos dos povos não-brancos do século XX que estabeleceram ligações transfronteiriças entre línguas, culturas e identidades nacionais/coloniais. Fizeram parte do longo século XX, da história das lutas em todo o mundo, ligando a negritude, os movimentos anticoloniais e feministas, os movimentos políticos e culturais pan-africano e pan-asiático, os movimentos de independência na Ásia e em África, a Conferência de Bandung de 1955, o Movimento dos Não-Alinhados, o Movimento dos Direitos Cívicos, o Black Panther Party, a luta palestina”.

A Europa delineada pelo Tratado de Utreque, de 1713, idealizava uma paz perpétua para toda a cristandade, um equilíbrio entre potências rivais, o comércio livre e os teóricos vaticinaram que esta comunidade se ligaria pela lei, pela moral e até pela colonização. Era um sonho eurocêntrico que, como bem sabemos, acabou em graves disputas na ocupação dos territórios, graças à avidez de matérias-primas. Césaire, em 1956, censurava o espírito que estava enraizado na Europa, da extrema-direita à extrema-esquerda de dispor e pensar pelos colonizados, exigia-se uma verdadeira revolução coperniciana, cortar com esse pensamento do dominador sobre o dominado.

A Guerra Fria, o confronto direto entre as duas superpotências, assumiu matizes específicos, ambas queriam influenciar os novos Estados independentes e os ainda colonizados, o pregão comum era o desenvolvimento, explorar todos os recursos. Ambas as superpotências apregoavam representar uma civilização superior. Assim se plantou o novo equívoco, o conceito de um desenvolvimento universal, as necessidades fundamentais, materiais e espirituais definidas como o comum a qualquer povo. Daí a resposta dos pensadores do anticolonialismo, exigindo uma nova atitude cultural dos povos libertados. Um estudioso angolano de Amílcar Cabral, António Tomás, reflete sobre o conceito de cultura do pai fundador da Guiné-Bissau. Para o estudioso, fica demonstrado que Cabral tinha um entendimento da cultura que chocava com a realidade da Guiné no tempo da guerra revolucionária. Cabral foi voluntarista, agia como que cabo-verdianos e guineenses se encontrassem em situações idênticas, a unidade era assumida como um dogma. “Cabral contava com os cabo-verdianos para fornecer os quadros para os escalões mais elevados do partido. Contudo, durante a guerra, só cerca de uma centena de cabo-verdianos trabalhava para o PAIGC. Só aos poucos eram atribuídas funções relevantes dentro do partido, além de tarefas burocráticas básicas. A maior parte vivia no quartel-general do partido em Conacri, trabalhando em escolas, hospitais, escrevendo panfletos e guiões radiofónicos, mas raramente se aventurando a ir para a luta no mato”.

No tempo da luta armada já era evidente que os grupos sociais apresentavam caraterísticas culturais manifestamente distintas. Cabral forjou a «cultura nacional», conceito englobante que abarcaria todas as diferenças e contradições das culturas particulares. Tomás observa um grupo étnico balanta, a sua coesão e ambições. E recorda que a política de Spínola assentava numa representação étnica onde os cabo-verdianos tinham um papel dominador, a Guiné Melhor refutaria tal privilégio, a Guiné era dos guinéus, com os antecedentes históricos existentes e com o exacerbamento destes novos quadros cabo-verdianos, a separação radical foi uma questão de tempo. Tomás conclui que a teoria de Cabral se baseava em explicações de fenómenos sociais que não davam conta do contexto real em que se encontrava.

Noutras intervenções deste trabalho é analisado o conceito de povo, ideologia e ciência em Amílcar Cabral, o pensamento de Du Bois e de Frantz Fanon, que estabeleceram um diálogo à distância. Inusitadamente, aparece um texto completamente fora do baralho intitulado “A política da tradução de conceitos deslocados”, bem curioso mas que no contexto só serve para encher papel, não liga com o antes nem o depois. Fica-se com a sensação que houve uma ideia arrojada, de voltar a pôr na linha da frente três figuras de proa da luta anticolonial mas o projeto entrou em desnorte ou por falta de colaborações apropriadas ou por se considerar que tudo ao molhe e fé em Deus, uma sala de conversa cacofónica era uma boa maneira de repensar a Europa, o Ocidente quando se reclamam novas formas de descolonização. Ideia arrojada para arranque de projeto, uma deceção nos resultados.

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Nota do editor

Último poste da série de 18 DE FEVEREIRO DE 2022 > Guiné 61/74 - P23007: Notas de leitura (1421): “Declarações de Guerra, Histórias em carne viva da Guerra Colonial”, por Vasco Luís Curado; Guerra e Paz Editores, 2019 (Mário Beja Santos)

1 comentário:

Anónimo disse...

Tudo ao molho e fé em Deus.
Obrigado Mário Beja Santos.

António Graça de Abreu