quinta-feira, 24 de novembro de 2022

Guiné 61/74 - P23811: Notas de leitura (1521): "Uma longa viagem com Vasco Pulido Valente", de João Céu e Silva (Lisboa, Contraponto, 2021, 296 pp) - O Estado Novo, a guerra colonial, o Exército e o 25 de Abril (Luís Graça) - Parte III: Salazar, Caetano e as Forças Armadas... (Considerar os capitães milicianos como "voluntários" e "mercenários", raia o insulto, não?!..)

1. Estivémos a ler o livro de João Céu e Silva (ribatejano de Alpiarça, nascido em 1959, escritor e jornalista), "Uma longa viagem com Pulido Valente" (Lisboa, Contraponto, 2021, 296 pp.).

A pensar nos leitores do blogue, já fizemos duas notas de leitura (*), onde ficou patente a nossa opinião posiva sobre a obra. É um trabalho de grande fôlego e meritório, que resulta de uma verdadeira  maratona de entrevistas (42 ao todo, realizada ao longo de 2 anos, quase até ao fim da vida do entrevistado).

O protagonista desta "longa viagem" é o historiador, ensaísta, cronista, jornalista, analista político e também efémero político Vasco Pulido Valente (VPV), pseudónimo literário de Vasco Valente Correia Guedes (1941-2020).

Independemente dos aspetos mais polémicos da vida e obra do entrevistado (que, no campo do jornalismo quis, de certo, certo reeditar, um século depois,  As Farpas, do Ramalho Ortigão e do Eça de Queirós),  interessa-nos destacar algumas das ideias que ele gostava de explanar sobre a história do nosso país, e nomeadamente a do período que vai dos anos 30 até ao 25 de Abril de 1974, período esse onde cabe, por inteiro,  a nossa geração, justamente a que fez  "a guerra e a paz"...

Deste livro, aos nossos leitores deverá interessar,  sobretudo, o que diz respeito, direta ou indiretamemente à guerra colonial e às forças armadas, incluindo o 25 de Abril e a descolonização. 

Vamos reproduzir e analisar mais alguns excertos, com a devida vénia: (i) Salazar e as Forças Armadas; e (ii) Marcello Caetano e o Exército. (Em itálico, as declarações do VPV. Seleção, revisão, fixação de texto, para efeitos de publicação neste blogue, bem como notas complementares dentro de parêntes retos: LG) (**)

 Salazar 

e as Forças Armadas


(...) O Exército tinha duas coisas na sua mão: a sua força material e o poder. Foi assim durante muito tempo com o Carmona na Presidência da República e com ele ficou a tradição de ser sempre um militar no cargo.

Seguiu-se Craveiro Lopes, que indispôs Salazar, pelo que este não lhe renovou o mandato e, depois, Thomaz. (….)

Essa autonomia [uma certa independência do Exército dentro do regime] fez com que Marcello Caetano chamasse ao regime uma ditadura bicéfala: quando uma componente falhasse, a outra não falhava.

(…) Salazar (…) sabia que a ditadura só era eficaz se fosse bicéfala e se o Exército tivesse uma certa autonomia.

Ia-lhe custando caro durante a guerra colonial, mas sempre insistiu que era presidente do Conselho e que não queria ser presidente da República (…).

Exagerou-se muito sobre o que Santos Costa fazia e não fazia, porque o Exército chegou à guerra colonial com uma enorme independência em relação ao presidente do Conselho. (pp. 188/189). (…)

O Santos Costa (Mangualde, 1899 - Mangualde, 1892), aqui citado por VPV, foi o oficial do exército que, merecendo a inteira confiança do Salazar (mesmo sendo monárquico), desempenharia um papel fundamental na ligaçao dos sectores militares mais conservadores ao Estado Novo. Exerceu funções no Governo de Salazar durane mais de duas dezenas de anos, entre 1944 e 1958, como subsecretário de Estado da Guerra e depois ministro da Guerra,

Diz a Wikipédia: "Principal factor da reestruturação das Forças Armadas Portuguesas sob o Estado Novo e da sua subordinação ao poder político, Santos Costa participou ao lado de Salazar, de modo decisivo, na formulação da política de defesa de Portugal desde o deflagrar da Guerra Civil de Espanha até ao início da Guerra Fria, incluindo o período conturbado da Segunda Guerra Mundial. Nessas funções desempenhou um relevante papel nacional e internacional, em particular nas relações com os Aliados e na entrada de Portugal na NATO."

Segundo VPV, terá favorecido os amigos nas promoções de carreira, gerando com isso mal-estar nas Forças Armadas.


Marcello Caetano, o Exército 
e os milicianos... "mercenários"

(...) [Marcello Caetano] tinha um problema com o Exército em África: os que comandavam as tropas subiam muito rapidamente até tenente, mas depois ficavam nessa patente por muitos anos. [ Ignorância do "paisano" VPM: queria dizer capitão...]

Além de que o combate era rudimentar: a tiro de espingarda, com bazuca ou metralhadora pesada, longe da imagem que tinham do exército à americana, de onde se saía para as empresas privadas com um bom salário.

O exemplo de carreira dos nossos oficiais era esse: uns anos de escola do Exército, uns anos de alferes e dos postos mais baixos e o comando de uma companhia. Estavam preparados para fazer uma ou duas comissões, mas naquela altura já iam na quarta.

Além de que o recrutamento não dava para preencher os quadros e era preciso ocupar esses postos. Ou seja, o Marcello não tinha capitães que chegassem para liderar as companhias e havia duas soluções:

(i) uma, aumentar por meio da PIDE o número de oficiais que eram retidos para comandar companhias, o que era impossível com quem estava na terceira ou quarta comissão;

(ii) outra, ainda mais perigosa, usar voluntários milicianos (que secundavam os comandos das companhias). 

 [ Ignorância do "paisano" VPM: os capitães milicianos eram "voluntários à força"... e considerá-los "mercenários" raia o insulto... perguntemos aos nossos camaradas que por lá andaram, comandantes operacionais... A menos que VPV se esteja a referir aos "capitães do fim" ou "capitães-proveta", como tabém eram co hecidos na gíria da tropa...(***)]

Essa promoção dos milicianos foi fatal para Marcello, porque criava uma reação nos militares de carreira que estavam à espera de promoção após várias comissões de serviço.

Esse foi um dos grandes argumentos para o 25 de Abril, porque não há pior para os oficiais de carreira do que ver a tropa comandada pelos que consideravam ser mercenários. (…) (pp. 177/178)
 



11 comentários:

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Uma boa questão para debater, aqui, no nosso blogue: capitães milicianos (ao tempo do Marcello Caetano) = mercenários...

_________________


mercenário
mercenário | adj. n. m. | n. m.

mer·ce·ná·ri·o
(latim mercenarius, -a, -um, assalariado, alugado, pago, comprado)
adjectivo e nome masculino
1. Que ou aquele que trabalha, ou serve, por dinheiro.

2. Que ou quem é movido apenas pelo interesse pessoal e material. = INTERESSEIRO

nome masculino
3. Soldado que serve por dinheiro um governo estrangeiro.

4. [Religião] Frade da Ordem da Mercê.


"mercenário", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2021, https://dicionario.priberam.org/mercen%C3%A1rio [consultado em 24-11-2022].

Anónimo disse...

Rste assunto é um pouco melindroso.E eu explico porquê.
Porque não conheço ou conheci nenhum capitão miliciano que se recusasse a tal (E já sei que me vão bater, batam mas expliquem-me ou convençam-me)-Eram contra a guerra mas aceitaram ser capitães, não condeno mas não digam que eram contra a guerra.E depois também percebo, o que se recebia como capitão era muito diferente do recebia um alferes.E ontem como hoje o dinheiro faz falta a muita gente.
Carlos Gaspar

Anónimo disse...

Releia-se esta "nota de leitura" do Beja Santos:
24 DE AGOSTO DE 2020
Guiné 61/74 - P21289: Notas de leitura (1299): “Capitães do Fim… Uma radiografia estatística”, por António Inácio Correia Nogueira; Chiado Editora, 2017 (Mário Beja Santos)

https://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/2020/08/guine-6174-p21289-notas-de-leitura-1299.html

Uma radiografia dos capitães do fim

Beja Santos


António Inácio
Correia Nogueira
“Capitães do Fim… Uma radiografia estatística”, por António Inácio Correia Nogueira, Chiador Editora, 2017, apresenta-se como uma obra complementar a que o autor dera à estampa no ano anterior sobre a história de capitães milicianos submetidos a uma formação acelerada.

Como observa o autor, nos anos terminais da guerra colonial, a Academia Militar deixara de cumprir, por falta de candidatos, a sua missão capital: formar as elites militares intermédias de combate. Como a política do Estado Novo era intransigente na defesa do Império, custasse o que custasse, um dos expedientes encontrados foi a dos capitães do fim: em cerca de 14 meses fazia-se de um mancebo, muitas vezes em estádio avançado de licenciatura ou já licenciado, um capitão combatente para atuar num dos três teatros de guerra.

Com ironia cáustica, alguns apelidavam estas novas elites
de “capitães de proveta” ou de “aviário”. Reconheça-se que António Nogueira é mais justo ao recorrer à expressão “capitães do fim”.

De um modo geral, esta geração respirou outros ares bem diferentes dos oficiais milicianos que combateram ao longo da década de 1960. Vêm mais experimentados pelas lutas estudantis, coabitam, com maior ou menor intensidade, com agentes contestatários à guerra, da esquerda à extrema-esquerda. Enquanto uns desdenhavam a formação destes jovens capitães, a instituição militar apostava seriamente neles: o comandante de companhia tinha um papel fulcral na guerra, a guerrilha mostrava-se cada vez melhor apetrechada e com material de combate mais evoluído, enquanto as forças armadas permaneciam mal equipadas e pouco adaptadas ao crescimento da nova realidade miliciana. O autor preambula com eixos teóricos da guerra, mostra os períodos e fases do fenómeno subversivo, tal como eles eram apresentados aos cadetes em Mafra.

A base da obra de António Nogueira tem a ver com a construção de questionários, inquéritos que foram enviados e que obtiveram um considerável acolhimento, permitindo uma base aceitável de trabalho para a obtenção de uma radiografia de quem eram e em que se transformaram estes capitães do fim.

Vieram de todo o país, com preponderância para Coimbra, Lisboa, Porto e concelhos limítrofes, eram jovens com origens sociais, culturais e económicas muito diversas, jovens predominantemente nas idades entre 24 e 27 anos, nada de anómalo, os oficiais oriundos da Academia Militar eram promovidos a capitães com idades próximas.

As habilitações académicas destes capitães eram díspares, essencialmente todos com frequência de cursos universitários, mais de 50% estavam entre o terceiro e o último ano de um curso superior. 70% eram solteiros e 30% casados. Exerciam a profissão de engenharia 13% dos incorporados, profissão prestigiada devido à industrialização iniciada na década anterior.

Fala-se detalhadamente da incorporação na EPI – Escola Prática de Infantaria (instrução, instrutores, ambiente, contestação à guerra). Não deixa de ser uma curiosidade o que se fica a saber sobre a seleção e formação de capitão:

(i) 44,3% respondem desconhecer o motivo por que foram selecionados;

(ii) 18,3% declaram ter sido por já possuírem uma licenciatura;

(iii) 14,8% indicam ter sido escolha do instrutor;

(iv) 11% estão convictos de que foi por ocuparem os primeiros lugares da seriação psicotécnica;

(v) 5,2% por terem mais idade;

(vi) 4% pelas competências já adquiridas na vida civil.

(...)

(Continua)

Anónimo disse...

Uma radiografia dos capitães do fim COntinuação)

Beja Santos

O autor comenta:

“É estranho este conhecimento fracionado e superficial dos modos de seleção. É lacuna grave a forma como se comunicava na instituição militar. Mas surpreendente é a indiferença com que os questionados permaneciam desinformados sobre factos que condicionariam a sua vida militar futura”.

Após o círculo formativo de seis meses na EPI, a continuidade do processo era um estágio num dos teatros de guerra, com a duração de quatro meses, com o posto de alferes, e na qualidade de adjuntos dos comandantes de companhia do local onde eram colocados: 66% estagiaram em Angola, 28% na Guiné e 6% em Moçambique.

De acordo com o inquérito, cerca de um quarto dos estagiários enfrentaram situações de guerra muito difíceis. Depois de regressarem do estágio, os futuros capitães do fim, agora promovidos a tenentes, frequentavam um curso de comandantes de companhia, também na EPI.

A radiografia estatística incide também sobre a formação e instrução da companhia, como decorreu esse comando em teatro de guerra, se houve protagonismos na guerra, se os capitães de algum modo participaram na conquista da democracia ou nos atos finais da descolonização. Um número elevadíssimo de capitães (mais de 90% foram louvados, cerca de 9% tiveram a atribuição de uma medalha ou de uma condecoração).

E temos agora as consequências da guerra para os capitães do fim:

(i) 65% considera ter sido a participação na guerra gravosa para a continuidade dos seus estudos;

(ii) para cerca de 13% o reatamento foi impossível;

(iii) 36% consideram que a guerra lhes acarretou problemas de saúde e instabilidade emocional que prejudicaram os seus relacionamentos familiares, na profissão e com os amigos.

Mas há respostas afirmativas, quanto ao enriquecimento humano e profissional, reconhece-se valor à experiência das relações humanas, enriqueceu-se com a chefia de homens em situações adversas, houve enriquecimento cultural e sociológico. Quanto à passagem à disponibilidade, o grosso das respostas é eloquente: “Um imenso alívio”.

Nesta radiografia estatística também se procurou obter o contraditório dos comandados. 83% manifestam-se agradados com os desempenhos do seu capitão do fim.

Ao findar, o autor dá como comprovado que os capitães do fim tiveram desempenhos e protagonismos meritórios na guerra, na obtenção da paz e da democracia, e conclui com uma parte do poema de Ary dos Santos intitulado Retrato do Herói: Homem é quem tombando apavorado / dá o sangue ao futuro e fica ileso / pois lutando apagado morre aceso

Fernando Ribeiro disse...

Ora vamos lá ver se nos entendemos. Os capitães milicianos eram cidadãos que cumpriam o Serviço Militar Obrigatório, tal e qual como os alferes milicianos, os furriéis milicianos, etc. Não era por acaso que eles se chamavam MILICIANOS. Chamar "mercenário" a um capitão miliciano é exatamente o mesmo que chamar "mercenário" a Luis Graça, que foi furriel miliciano. Acaso Luis Graça entrou para o Exército por dinheiro?! É claro que não! O mesmo se passava com os capitães milicianos, sem tirar nem pôr. Estes é que eram os tais capitães-proveta, os "capitães do fim do Quarto Império", como lhes chamou António Inácio Correia Nogueira, que também foi um deles. Repito: os capitães milicianos cumpriram o Serviço Militar Obrigatório como Luis Graça, após o qual "passaram à peluda" como Luis Graça. Nem mais, nem menos.

Valdemar Silva disse...

De "Capitães do Fim", de António Inácio Corria Nogueira

"Os Capitães do Fim começaram o seu percurso militar em Mafra, na Escola
Prática de Infantaria, EPI. Durante seis meses de instrução, como Soldados-Cadetes,
foram sujeitos a um processo de selecção nada transparente, pois poucos souberam
porque e como foram seleccionados, incluindo os oferecidos como voluntários que
também não souberam o motivo da escolha. Neste curto período temporal eram
transformados em Aspirantes-a-oficial miliciano. Poucos dias depois já eram Alferes e,
nessa qualidade, embarcavam para os teatros de guerra como adjuntos de Comandante
de Companhia, onde faziam um estágio de quatro meses. Regressavam, abraçavam o
posto de Tenente e frequentavam um Curso de Comandantes de Companhia."

Vamos ver se eu percebo, como se costuma dizer.
Quem são estes Capitães do Fim?
O capitão mil., cmdt. da minha Companhia, tinha trinta e poucos anos e era engenheiro na SACOR. Não me lembro se ele já tinha sido tropa dez anos antes (1959) e estava na reserva, ou como é que foi chamado/mobilizado, mas, julgo, nunca ter feito o percurso acima descrito no texto de António Inácio Correia Nogueira.
Eu não sou do início da formação do Batalhão da minha CART.2479, apareci já a Companhia estava "separada" a fazer o IAO em Espinho e não sei se o capitão apareceu como tenente.
Então, são estes os Capitães do Fim e sempre foi assim desde o início da guerra nas colónias a partir de 1961, ou só aconteceu anos mais tarde com o alastramento da guerra à Guiné?
Fica, em todo o caso, a questão de se saber como é que "apareciam" estes capitães milicianos e se foram obrigados a ficar na tropa depois de cumprir o serviço militar obrigatório como aspirantes.

Saúde da boa
Valdemar Queiroz

.

Fernando Ribeiro disse...

Eu fui incorporado no Serviço Militar Obrigatório em 1971 e só posso referir-me ao que se passou no meu tempo de tropa. Nesse tempo, ia para capitão miliciano quem satisfizesse uma de duas condições: ou tinha 24 ou mais anos de idade à data da incorporação, ou tinha cumprido (ou estava em vias de cumprir) o Serviço Militar Obrigatório como alferes miliciano sem malhar com os ossos no Ultramar.

Quando terminei o 1.º ciclo do Curso de Oficiais Milicianos em Mafra, fui para alferes, porque ainda não tinha 24 anos de idade. Caso contrário, teria ido para capitão. Com exceção dos médicos e poucos mais, todos os soldados-cadetes que já tinham atingido ou ultrapassado os 24 anos de idade foram para capitães milicianos, sem prestarem quaisquer provas, testes psicotécnicos ou o que quer que fosse. Tivessem ou não condições para serem capitães, era mesmo para capitães milicianos que eles iam. A idade era o único critério de seleção.

Por outro lado, houve alferes milicianos que, por qualquer razão, não foram mobilizados para o Ultramar. Ficaram cá na Metrópole, onde fizeram a tropa num regimento qualquer, como alferes milicianos desse regimento. Mais tarde ou mais cedo (mesmo que já tivessem cumprido dois ou três anos de tropa), estes alferes acabavam por serem enviados de novo para Mafra, desta vez para frequentarem o Curso de Comandantes de Companhia e "despachados" para a Guiné, Angola ou Moçambique como capitães milicianos. O facto de alguns deles terem mesmo cumprido o tempo completo de tropa, e passado à disponibilidade, não os livrava de serem de novo chamados. A palavra "disponibilidade" significava que eles continuavam à disposição das Forças Armadas. Chamar "mercenários" a estes desgraçados é dirigir-lhes um insulto inqualificável.

Carlos Vinhal disse...

Caro Fernando Ribeiro, não sei como estás a definir 1.º ciclo do COM. Eu defino como 1.º ciclo a recruta propriamente dita, ao fim da qual se continuava, vós como cadetes e nós como instruendos do CSM. Só no fim da especialidade se era promovido, vós a aspirantes e nós à alta patente de cabo.

Um dia apareceu em Mansabá um alferes "estagiário" do curso de capitães milicianos. Passava muitas horas na messe de sargentos. Contou-nos a sua história um pouco singular. No tempo devido foi chamado para o CSM porque tinha o 7.º ano do liceu incompleto. Dias antes da incorporação partiu um braço e perdeu a recruta. Entretanto completou o 7.º ano e, quando incorporado, foi para Mafra para frequentar o COM. Lá, acabada a instrução e já aspirante, foi seleccionado para o curso de capitães, tendo ido como alferes para a Guiné. Passados poucos meses iria ser comandante de companhia. Dizia-nos ele, "se não partisse o braço seria furriel como vós, assim sou quase capitão". Coisas do destino.
Carlos Vinhal

Fernando Ribeiro disse...

Exatamente, Carlos Vinhal. O 1.º ciclo do C.O.M. correspondia à recruta e o 2.º ciclo à especialidade. Era na passagem do 1.º para o 2.º que eram selecionados os futuros capitães, que ficavam integrados num pelotão próprio, ainda como cadetes. Eles só eram promovivdos a aspirantes no fim do 2.º ciclo, tal como acontecia com os restantes. Depois então é que começava a diferenciação propriamente dita.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Vamos fazer um poste com os vossos comentários sobre os "capitães do fim" (também tratados, de maneira depreciativa ou insultuosa, de qualquer modo injusta, como "capitães-proveta" ou "capitães mercenários"...).

Conheci em 2008 (e é membro da nossa Tabanca Grande, vivendo na Ericeira) o Abílio Delgado... Não sei de notícias dele, era bom fazer "prova de vida"...

Veja-se a sua intervenção emocionada, em 2 de março de 2008, no âmbito do Simpósio Internacional de Guileje (Bissau, 1-7 de março de 2008).

Foi o comandante da penúltima unidade de quadrícula de Guileje, a CCAÇ 3477 (Nov 1971/Dez 1972), que foi substituída pela CCAV 8350, os Piratas de Guileje (Dez 1972/Mai 1973). Foi, aos 21 anos, o mais jovem capitão, miliciano, do Exército Português.


https://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/2008/05/guin-6374-p2815-tabanca-grande-67-os.html

paulo santiago disse...

Diz-se aí num comentário,iam para capitães milicianos,os cadetes com mais de 24 anos...é uma afirmação com verdade e com mentira.
Explico:
No Saltinho conheci dois estagiários,ambos tinham menos de 24 anos.Um deles,pode ter dado um bom capitão miliciano,o outro não deveria ter passado de alferes,e ainda hoje não sei o que se seguiu ao estágio.Este candidato a capitão era gay (termo actual)...uma noite,assediou sexualmente um soldado que estava de sentinela.Bronca!! Não sei qual a informação dada pelo comandante de companhia.
Infelizmente,conheci um desses "proveta", que o foi por ter os mais de 24 anos à data da incorporação...responsável por uma dezena de mortos.

Santiago