sexta-feira, 15 de abril de 2016

Guiné 63/74 - P15977: Nota de leitura (829): “A África começa mal”, de René Dumont, edição portuguesa de 1965 (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 26 de Maio de 2015:

Queridos amigos,
Este livro de René Dumont é hoje uma reminiscência histórica, um trabalho de referência que acabou por deixar os dirigentes africanos de então tanto irritados como indiferentes. Não era possível acusar o reputadíssimo agrónomo de neocolonialista, acusaram-no de pouco condescendente e exigente em excesso nas suas propostas sobre o campesinato, a industrialização, a melhoria da pecuária, etc. E não lhe perdoaram a denúncia dos políticos corruptos, vaidosos e tribalistas.
É uma reminiscência histórica mas passadas todas estas décadas dá que pensar como a África não sai da estagnação, tal como René Dumont aqui denuncia.

Um abraço do
Mário


A África começa mal, por René Dumont

Beja Santos

A edição francesa de “A África começa mal”, de René Dumont data de 1962, em 1965 surgia a sua edição portuguesa com prefácio de Raquel Soeiro de Brito que cedeu fotografias de colónias portuguesas de África. O livro provocou celeuma, vindo de onde vinha. Dumont era já nessa altura um dos maiores especialistas mundiais de agricultura, com obra exemplar, indiscutível, no continente africano. O seu tremendo libelo dirige-se fundamentalmente aos países de África negra francófonos, ele levava já um palmarés de estudos como assessor de Chefes de Estado e de departamentos ministeriais de muitos países independentes, caso de Madagáscar, Guiné Francesa, Costa do Marfim, Mali, Congo, Chade, Daomé, Senegal, Camarões. Com este título provocatório, o agrónomo procura demonstrar que África não é um continente maldito apesar de marcar passo, enuncia os principais obstáculos e tem sempre argumentação persuasiva ao dizer que a savana e a floresta podem fazer a revolução agrícola e dá pistas para uma nova maneira de pensar a formação, a cooperação entre camponeses, a política de crédito e os apoios ao desenvolvimento por parte dos países mais industrializados.

Convém nunca perder do horizonte temporal quando foi escrito este importante documento, início da década de 1960.

Dumont começa por explicitar as dificuldades tropicais: a insalubridade do clima, as doenças, os solos depauperados, as carências alimentares de diferente índole, a formação de couraças férricas ou lateríticas ressequidas, enfim, os vales e os litorais difíceis de drenar. E comenta: “O homem negro encontra-se fechado no círculo infernal de uma agricultura subprodutiva, realizada por homens subalimentados numa terra não fertilizada”. E contrapõe com um argumento demolidor falácias de então e de hoje: “Muitos europeus têm mostrado tendência para tornar o negro, que logo de princípio batizaram de primitivo (quando não de preguiçoso, ladrão e mentiroso) inteiramente responsável pelo seu atraso e por todos os seus males. Esquecemos facilmente que há séculos que o homem branco explora sem escrúpulos esse continente negro; primeiro através da escravatura e do comércio de trocas, depois através da colonização. E quando as metrópoles manifestaram o desejo de provocar o desenvolvimento económico aumentando o seu auxílio, este foi durante muito tempo, e ainda hoje é, bastante inadequado”. Revela em toda a sua extensão os desgastes do tráfico de escravos, a par das guerras intestinas multiplicadas, e de seguida desmonta as infraestruturas onerosas, o custo excessivo dos trabalhos hidráulicos, os porquês do fracasso da mecanização prematura.

E se o libelo acusatório já ganhou ressonância pelos factos irrefutáveis dos erros do colonialismo, agora o investigador muda da tribuna e desmascara o tribalismo africano, os salários chorudos da nova classe política, as novas manifestações do nepotismo, a administração pública inflacionada, as moradias sumptuosas, os carros dispendiosos para mostrar o estatuto do presidente sempre acompanhado de batedores. De forma clara, Dumont mostra como as elites africanas se preocuparam em tomar o lugar dos brancos e em gozar-lhes as vantagens. Ainda dentro desta sequência, levanta o véu a várias perversidades. Por exemplo, “para a maior parte das crianças das cidades e dos campos a escola representa acima de tudo a possibilidade de acesso à casta privilegiada do funcionalismo público”.

Estes governos africanos confiavam num novo Deus, o planeamento cuja elaboração era confiada a tecnocratas, a maior parte deles estranhos ao país, sem dispor de meio de saber o que pensam do plano os trabalhadores e os agricultores. Pensou-se num planeamento de caráter socialista quando a economia era mais do que primária e sem haver a certeza nos investimentos públicos e privados. Muitos fracassos vieram imediatamente à tona, caso dos preços elevados de açúcar, dos adubos e de certas indústrias alimentares. Por isso Dumont disseca um sem número de obstáculos ao desenvolvimento agrícola e propõe correções nas plantações em zona florestal, na cultura do algodão e do amendoim, no desenvolvimento da irrigação, na cultura do arroz, na eliminação de obstáculos à intensificação da pecuária. O agrónomo adverte que a África deve rever a sua escola, reabilitar a quinta/escola, descobrir as formas mais apropriadas do crédito e animar os agricultores à cooperação com medidas concretas e no pleno respeito dos valores culturais dos diferentes povos. Recorda que há lições a ter em conta e dá os exemplos da Suécia, Israel, Jugoslávia, Polónia, Cuba, URSS e China. Mas também não deixa de ser franco ao dizer que os auxílios são indispensáveis não devem saldar-se em subordinação. Muito ao sabor da época, recorda aos dirigentes africanos as plenas vantagens das organizações unitárias, sem esquecer os seus pressupostos básicos: “Uma confederação de Estados perfeitamente autónoma, pela sua política interna e pela sua conceção mais ou menos liberal ou socializante, teria mais possibilidades, mas seria necessário que existisse um mínimo de acordo, nomeadamente para a política externa; as uniões económicas podem suprimir as alfândegas, permitem confrontar os planos e alargar os mercados”. Considera que a África se defenderá melhor diversificando a sua agricultura e deixando de pensar unicamente no rico Ocidente Atlântico. E como no manifesto, recorre a uma linguagem de exaltação e retórica: “Acabamos de pedir aos africanos, camponeses e governantes, funcionários e estudantes, que forneçam para o seu desenvolvimento um esforço e sacrifícios, que sejam, em suma, heróis e santos. A que título o faremos nós, que temos uma vida tão fácil, resultado principalmente do trabalho dos nossos antepassados, e em seguida dos nossos trabalhadores e camponeses? E que fizemos nós até agora para os auxiliar mais eficazmente? Chegou o momento de procurar fazer à África propostas verdadeiramente honestas de lhe dar um auxílio realmente desinteressado, que se preocupa em primeiro lugar, com o seu próprio desenvolvimento, e não com o prolongamento de privilégios abusivos”.

Para o melhor ou para o pior, o documento de René Dumont revelou-se certeiro. Porém, nem africanos nem brancos lhe procuraram dar razão.
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Nota do editor

Último poste da série de 11 de abril de 2016 Guiné 63/74 - P15960: Nota de leitura (828): “A Marinha em África, Angola, Guiné e Moçambique, Campanhas Fluviais, 1961-1974”, por John P. Cann, Academia da Marinha 2014 (Mário Beja Santos)

2 comentários:

Tabanca Grande disse...

Obrigado, Mário, foi um dos livros que eu levei para a Guiné, que li com inquietação e esperança e que lá deixei, já não sei aonde nem a quem...

Foi um das minhas chaves para a leitura desse continente, novo para mim, que era a África... Como foi possível que todos tivéssemos cometido os mesmos erros apontados por René Dumont, ainda a missa ia no adro, estamos a falar, por exemplo, das "lutas de libertação" em Angola, Guiné, Moçambique, Namíbia, Rodésia, África do Sul, etc. ?

Quanto aos dirigentes do PAIGC, pós-Amílcar Cabral, não me admira: não fizeram o mais elementar TPC, o trabalho de casa, que era ler e aprender as lições do eng. agrónomo Amílcar Cabral...

Antº Rosinha disse...

Mas quem queria saber da agricultura nesse tempo, em qualquer ponto de África?

Não vamos dar uma de ingénuos aqui neste blog, que o mundo da guerra fria estivesse preocupado com o arroz, a mandioca a mancarra, ou o próprio café e algodão, daquelas terras em bruto.

Quando já só se falava nos "recursos naturais" a transbordar:o ouro da África do Sul, o petróleo da Nigéria, o marfim do Kénia, o volfrâmeo, cobre, urâneo, zinco...e prata dos congos francês, belga e português, das rodézias e mais os safaris que se adivinhavam quando aquilo entrasse em passo de corrida, isso aos ouvidos dos independentistas eram sonhos mirabolantes que os deixava delirantes, qual era o "menino do Huambo" à volta da fogueira que queria saber da mandioca, quando um simples diamante dava para o milho as camisas e sapatos todos da Av. da Liberdade em Lisboa e ainda ir ver o Benfica?

Na África negra francófona, ou lusófona naqueles tempos (1960) não havia carências alimentares à maneira como havia na Europa, a maioria das populações vivia nos campos onde o básico era abundante.

É verdade aquela de alcunhar o negro como diz o autor francês: (quando não de preguiçoso, ladrão e mentiroso)

Branco que chegasse pela primeira vez a África o que estranhava mais era o chefe de tabanca ir com as suas 4 ou 5 mindjeres para a lavra e só elas é que "pegavam tesso", isto é vergavam a mola com a enxada.

No caso português talvez não estranhassemos tanto como outros povos da Europa mais dinâmicos que nós.

Até acontecia que muitos de nós até se acomodaram e adoptaram os usos e costumes.

Em Roma sê romano.

Obrigado por mais esta BS.