Décimo segundo episódio da nova série "Atlanticando-me" do nosso
camarada Tony Borié (ex-1.º Cabo Operador Cripto do CMD AGR 16, Mansoa, 1964/66).
Um mau dia
Sem te fazer um “Ultra-Som” e um “MRI” a essa perna,
não te posso curar. Pode por aí haver um qualquer tumor
ou até cancer, vais fazer esses testes, quero ver o
resultado depois falamos de novo. - E “virou-me as
costas”, saindo do consultório, com cara de amargura, tal
como quando entrou. Ficámos desolados, possivelmente
antes tinha consultado outro paciente que mostrava
todos esses sintomas.
Todos os dias nem sempre é o melhor dia, mas quando
isso acontece, temos que ter o poder de transformar tudo
ao nosso redor, é nossa responsabilidade livrar-nos do
mau humor, passando para outros horizontes, ver as
coisas de outra maneira, uma maneira mais agradável.
Tudo tinha começado uns dias antes, nas nossas
habituais “caminhadas”, tínhamos sentido uma “dorzita”,
ao fundo da perna, quase onde começa o pé, parecia
quase nada, mas chegados a casa começou a aumentar
o volume tanto nas dores corporais, como na dimensão
da perna. Porra, temos que ir ver o “fdp do doutor” e, foi o
que fizemos.
Tudo isto companheiros, acontece porque já não somos
jovens. Na nossa juventude, quantas vezes,
caminhamos, algumas descalços, por vales, pequenas
montanhas, calcando mato e “tojos”, lama, areia, terra
batida, riachos, mais tarde, savanas e bolanhas lá na
Guiné e, sempre sem qualquer dor, se nos arranhávamos,
esfregava-se com álcool, ou mesmo aguardente,
amarrava-se um qualquer “trapo”, continuando a nossa
rotina, hoje é diferente, o doutor não faz nada sem os tais
“testes”, pois não quer assumir responsabilidade de
qualquer “azar” nas suas decisões.
Continuando com o mau humor que por vezes, pelo
menos na nossa idade, nos visita e nos tortura, temos que
resistir, temos que mandar “esse dia cão”, para longe,
temos que ir buscar forças, a tal força de combatente e,
pensar em outras coisas, iniciar um fluxo de energia
positiva, cantar, ligar a música de que gostamos, às vezes
bem alto de maneira que nos entre “na pele”, dançar em
pijama, ter um romance de juventude no pensamento,
convidar o “mau humor” para que dance connosco,
perguntar-lhe se quer ter uma festa de pijama, dizer-lhe
que por mais que nos queira atormentar, só nos dará
força, até para dançar.
Passámos as duas últimas semanas com algumas dores
e algum constrangimento, não nos podendo deslocar para
outras paragens, mas também foi agradável, sentados,
ver as fotos antigas, onde aparecem familiares ou amigos
que podemos lembrar dizendo: "Oh meu Deus, não me
lembro. Quando fizemos isto?”. Depois no pensamento,
começamos histórias grandiosas, mesmo dizendo, "deixa-me
ver, este “gajo” era fodi.., fazia coisas do caral.. ".
Hoje, já andamos melhor, cremos mesmo que está a
passar, mas no futuro vamos ter cuidado, embora
pensando que as nossas pernas são o melhor meio de
transporte com que o “criador “ nos contemplou, pois
podem levar-nos a lugares que qualquer outro meio de
transporte nunca conseguirá.
Tony Borie. Abril de 2016.
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Nota do editor
Último poste da série de 20 de março de 2016 Guiné 63/74 - P15878: Atlanticando-me (Tony Borié) (11): Simplesmente, um ovo
Blogue coletivo, criado por Luís Graça. Objetivo: ajudar os antigos combatentes a reconstituir o "puzzle" da memória da guerra colonial/guerra do ultramar (e da Guiné, em particular). Iniciado em 2004, é a maior rede social na Net, em português, centrada na experiência pessoal de uma guerra. Como camaradas que são, tratam-se por tu, e gostam de dizer: "O Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande". Coeditores: C. Vinhal, E. Magalhães Ribeiro, V. Briote, J. Araújo.
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1 comentário:
Caro vizinho,
As situações menos boas nas nossas vidas não pode fazer esquecer que os melhores dias estão sempre na nossa frente.
Desejo-te rápidas melhoras.
Abraço,
José Câmara
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