quinta-feira, 28 de abril de 2016

Guiné 63/74 - P16028: (In)citações (89): Reflexão sobre a oportunidade (a falta dela) decorrente do MFA (José Manuel Matos Dinis, ex-Fur Mil da CCAÇ 2679)

1. Texto do nosso camarada José Manuel Matos Dinis (ex-Fur Mil da CCAÇ 2679, Bajocunda, 1970/71), enviado ao Blogue em mensagem de 23 de Abril de 2016, subordinado ao título:


Reflexão sobre a oportunidade (a falta dela) decorrente do MFA

Caros Luís e Vinhal,
Cantou-se durante antigamente que o tempo voltasse para trás. Não volta, nem há volta a dar-lhe. É passado, e pesam as consequências do que ficou por fazer, como do que foi feito. Este texto, na minha opinião, pode seguir-se ao último que enviei durante o mês passado e aguarda publicação, se tal for o vosso entendimento. Em vésperas de novo aniversário sobre o golpe volto a referir a descolonização, no pressuposto do abandono do ultramar. Em anteriores comentários já tive ocasião para mostrar alguns índices do desenvolvimento económico e social de Angola, que era o motor português para a sustentabilidade do modelo integracíonista prosseguido pela política de Salazar, que viria a passar por alterações com Caetano no reconhecimento da autonomia crescente daquela "província", dadas as diferenças entre elas de circunstâncias sócio-económicas.

"Já em pleno período terrorista, o problema do futuro do ultramar português foi posto, pelos próprios portugueses, no quadro destas quatro teses:

1.ª - O ultramar integrado no todo nacional - Portugal - com o qual ele constitui um território indivisível.

2.ª - A autonomia progressiva dos territórios ultramarinos (tese de Caetano).

3.ª - A autodeterminação, em cada território, decidindo livremente a integração no todo nacional (indivisível, ou federal, etc), ou a independência (tese de Spínola, mais apressada por ele próprio nas comunicações oficiais decorrentes da sua condição na Guiné, apesar da impreparação de algumas das províncias, designadamente a que governava).

4.ª - O abandono, puro e simples, dos territórios, aos movimentos terroristas, que se auto-intitulavam "movimentos de libertação".

A primeira tese ... ignorava as mais diversas realidades geo-étnicas ... sucedeu e opôs-se à política representada pelo Acto Colonial (1930) ... cada uma delas possuindo legislações próprias - política muito discutível, sem espírito de previsão salvo no que respeita uma eventual tentativa de redistribuição internacional dos territórios coloniais; porque ... as descolonizações começaram a realizar-se alguns anos depois, exigindo uma estratégia completamente diferente.
A tese da "integração" ... não tanto como estratégia de momento, mas sobretudo realidade histórica (foi) retomada apressadamente (1951) em substituição do Acto Colonial ... continuando a política de Paiva Couceiro ... seguida também por Norton de Matos. O engrandecimento de Portugal - diz N.M. - só se conseguirá pela Unidade da Nação - Todas as nossas leis se têm de basear na unidade nacional ... em primeiro lugar a unidade territorial ... haverá para tanto um organismo único - orientador, propulsor e fiscalizador, onde estejam representados todos os interesses nacionais. (...) a nossa dupla missão em Angola devia ser, segundo Norton de Matos, a de introduzir nesse território elementos demográficos metropolitanos, e a de civilizar a raça negra . (...) o elo essencial ou, pelo menos, indispensavelmente complementar desta "unidade", era a língua: "Enquanto os habitantes de Angola, Moçambique, Guiné, Índia e Timor não falarem todos correctamente o português, a Unidade Nacional não será perfeita e a civilização desses povos poderá fazer-se, mas conduzirá fatalmente a nacionalidades diversas. (...) tratava-se de uma "Unidade" que garantisse, em caso de independência, como no Brasil, a língua e o génio da cultura portuguesa". Mas até 1961, a política de integração ... foi mais retórica do que de realizações governamentais. A verdadeira colonização eram os colonos que a faziam; e foram os colonos que se opuseram aos terroristas em Angola, antes que as primeiras forças militares ... chegassem a África. Não se tratava de uma sublevação de populações, mas apenas de um movimento conduzido por aventureiros e ajudado por potências estrangeiras.

Foi nestas condições que Caetano tomou as funções de Presidente do Conselho (1968), já com a ideia da autonomia progressiva (2.ª tese), isto é, a autonomia administrativa e financeira. (...) as províncias ultramarinas "deviam reger-se por legislação própria, com respeito das culturas e dos usos e costumes das populações nativas". Em 1972 foram publicados a nova lei orgânica do ultramar português e os estatutos das suas diversas províncias (que consagravam a ideia de autonomia progressiva e participada). Economicamente, cada província mantinha o seu próprio sistema monetário e de câmbio, mas as saídas de divisas não podiam exceder as entradas - o que limitando as importações (equipamentos e bens de consumo), estimulou a criação de novas industrias em Angola e em Moçambique. Esta tese estava ... entre a de Norton de Matos (no que diz respeito à fixação do elemento branco português em Angola e Moçambique, e à mestiçagem) e o método de colonização do Brasil . " (...) "como não era admissível o abandono do Ultramar nem a proclamação de independências prematuras, sob o domínio de minorias brancas que teriam de assentar na força o seu governo ou entregando a aventureiros africanos a vida, os bens e o destino de fortes núcleos civilizados dotados de infra-estruturas e equipamentos técnicos modernos, tinha de se procurar uma via intermédia" (Caetano).

A colonização portuguesa foi, no seu conjunto histórico - reabilitando-se do do que ela pôde ou teve que ser cruel, para tornar-se a mais humana de todas - autodescolonizadora no próprio processo das relações humanas estabelecidas entre colonizados e colonizadores. Portanto, o neologismo "autodescolonização"... designa uma descolonização que se faria pela própria iniciativa dos colonos e da metrópole, obedecendo a essa força de relações humanas entre metropolitanos e autóctones, determinando a promoção destes à mesma cidadania daqueles, para uma mesma consciência nacional. (...) (tal autodescolonização) ... deve desenvolver-se pela mestiçagem. Se não houver mestiçagem, não se pode falar de autodescolonização, porque haverá, então, um apartheid ou separação pura e simples, em que uma das partes continua a colonizar a outra (ou então as duas comunidades tornar-se-iam independentes uma da outra)".

Para entendimento das boas intenções deste parágrafo, vou repetir a evolução demográfica registada em Luanda, no período de 1960 a 1970, que já divulguei em posts anteriores:
Em 1960 havia 55.567 brancos, que em 1970 já eram 126.817; no inicio do mesmo período, eram 13.593 mestiços, que passaram a 37.974; enquanto em 1960 os pretos que eram 155.325, passaram a ser em 1970, 312.290. Com outras origens, em 1960 eram 55 indivíduos, que em 1970 passaram a ser 247 (não se especifica onde foram integrados os indivíduos de origem asiática). Assim, constata-se que o número de brancos e pretos, de per si, quase duplicou, e os mestiços quase triplicaram, o que vem dar razão aos que afirmam o bom ambiente na cidade, e o crescente número de relações de paternidade entre brancos e pretos. Era porque a população se sentia à vontade e sem preconceitos. Depois do golpe, e antes da independência já se verificava a instilação de ódios racistas, que o MFA não se coibia de incrementar, conforme revela o General Silva Cardoso, "Angola, anatomia de uma tragédia", Oficina do Livro, que ainda pode ser encontrado em livrarias, mas mais barato e frequente em alfarrabistas.

Assim, desta breve análise a textos da autoria de Amorim de Carvalho, "O Fim Histórico de Portugal", Porto, 1977, que inclui passagens de Norton de Matos em "Memórias e Trabalhos da Minha Vida", e de Marcelo Caetano no seu livro "Depoimento", obras só disponíveis em alfarrabistas, podemos constatar que o MFA não passou de um conjunto de oficiais (depois alargado a milicianos e a sargentos e praças) de nula ou escassa formação política orientada para o bem e integridade das populações como compete a quaisquer forças armadas (revelou-se prestimoso em serviços para potências estrangeiras), não mostrou conhecimento sobre a estrutura da nação (os que, de início, eventualmente tenham acreditado nas boas intenções e justiça da atitude desencadeada), e que no espaço de um ano, através de reuniões e mensagens mais ou menos clandestinas, evoluiu de uma motivação profissional reivindicativa, para uma justificação de mudança e transformação nacional. Eram imberbes, podem agora arguir, e não se deram conta dos alcances da iniciativa.

As consequências já as conhecemos; pobreza, por falta de aparelho produtivo, destruído o anterior; perda da soberania, pela adopção obrigatória de normativos legais provenientes da Comunidade, susceptíveis de impedir ou obrigar a adopção de diferentes meios legislativos, para além de condicionarem medidas de carácter económico, financeiro, laboral, diplomático e outros; e indignidade de um povo que há 40 anos estende a mão à caridade (ainda os empréstimos que nos iludem e permitem alguma qualidade de vida), em consequência das demagógicas mentiras políticas, do que resulta o risco do banimento da independência, pela integração em nacionalidade mais forte, ou no ostracismo miserável de uma região abandonada pelos credores (tipo Albânia dos anos 70 com Enver Hoxha), que podem fartar-se de alimentar "projectos" revelados egoístas e insaciáveis a favor da plutocracia nacional estribada na subvenção dos partidos, ou na dúvida sobre a capacidade de retornos dos elevados montantes emprestados, que, neste momento, e pelo andar da carruagem - comum a todos os governos anteriores, é o que se afigura de mais viável. De facto, peço a alguém mais inteligente, que me demonstre como as sucessivas execuções orçamentais, sem expressão no aumento do produto, ou na expectativa sobre a capacidade produtiva, podem contribuir para a melhoria de vida dos portugueses, e permitir que a classe política continue a desbaratar verbas só justificadas no papel, a usufruir de rendimentos e privilégios desadequados à "democrática" condição nacional, e a cometer esse desaforo traiçoeiro de vender património público e sobrecarregar a população com os excessos de endividamento, vendas que não revelam quaisquer melhorias, quer das instituições, quer do equilíbrio económico-financeiro (amortizações e redução da dívida pública, que a privada deveria ter outras implicações.

Aqui chegados, já vimos por alto como a Descolonização foi um fracasso, sem termos recordado as infames traições aos africanos que integraram as FA; nem aos civis, brancos, pretos e mulatos que foram mortos ou desapossados dos seus bens e modos de vida; quanto ao Desenvolvimento, também é permanente a sensação de caducidade de uma sociedade que não se mostra auto-sustentável; e, por fim, sobre a Democracia, fica também demonstrado o livre arbítrio do MFA, que nunca pôs à consideração popular a avaliação dos seus procedimentos, antes, deu perseguição a muitos dos que clamavam contra a destruição das instituições e dos abusos cometidos sobre a vida normal das populações, sem nunca ter evidenciado a humildade de reflectir sobre os actos praticados ou estimulados, nem sobre as consequências registadas. Sobre o programa dos 3 dês, ficam desmascarados os benefícios do 25 de Abril, em oposição com a estrutura económica e social que garantia meios para o desenvolvimento português, apesar das previsíveis independências poderem alterar as situações de cada parcela, que deveriam contar com períodos de preparação e solidariedade, com vista à consolidação das respectivas autonomias.

Ter promovido eleições como o fez, equivaleu a dar (pseudo) escolha à população ainda "impreparada", crédula da bondade dos partidos, que não se deu conta do tabuleiro onde se disputou uma partida da guerra-fria, que influenciou as estratégias em África e na Península Ibérica; e sobre os partidos e os actos eleitorais, basta constatarmos a tradicional demagogia dos candidatos, contraditada logo que chegam ao poder e estabelecem os tradicionais esquemas e alianças, alicerçadas em despudorada impunidade. Como se diz popularmente, quem parte e reparte, e não fica com a melhor parte, ou é tolo, ou não tem arte. Pertenço ao grupo dos que não querem ser tolos, e tenho a ideia de que as boas empresas, são-no, porque fazem boas e frequentes auditorias. O que é o Estado senão uma grande empresa, a maior de cada nação, e quem deseja vê-la na falência?

Como não sou dono da verdade, chamo a atenção para a necessidade de interpretar o que deixo, daí suscitando uma de duas reacções: a adesão total ou parcial, ou a contestação. Lanço o repto aos contestatários para divulgarem os seus pontos de vista, e, daí, criarmos a possibilidade de podermos beneficiar de interessantes e construtivas trocas de impressões.

Abraços fraternos
JD

Notas:
- As frases entre comas referem-se a citações referenciadas no texto principal. As aspas abrem e fecham os períodos retirados do livro "O Fim Histórico de Portugal". Onde não há aspas nem comas, corresponde a textos da minha autoria, princípio e fim do texto.
- O presente texto destina-se a publicação no blogue www.blogueforanadaevaotres.blogspot.pt, de Luís Graça e Camaradas da Guiné.
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Nota do editor

Último poste da série de 26 de abril de 2016 Guiné 63/74 - P16021: (In)citações (88): Reflexão sobre o inicio da decadência nacional (José Manuel Matos Dinis, ex-Fur Mil da CCAÇ 2679)

21 comentários:

Anónimo disse...

Caro José Matos Diniz, eis um texto "desassombrado" e de nítida lucidez.E com a distância mais do que necessária para análise e completa decomposição do que se passou.Basta olhar para o que passa para lá do mar e também aqui neste quadrilátero
onde vivemos ou sobrevivemos.Viva o pensamento não alinhado.
Carlos Gaspar ex-combatente na FAP

Anónimo disse...



Meu caro amigo e camarada José Dinis, o texto revela muito estudo e uma reflexão aprofundada e eu deliciei-me com ele pela ginástica mental que me obrigaste a fazer.
Mas meu amigo, ontem como hoje nós portugueses já não erámos donos do nosso destino, os centros de decisão sobre o nosso Império Colonial estavam na América, na Rússia, na China e algures na Europa livre. Até a velha Inglaterra essa raposa matreira que nos apoiou sempre contra nuestros hermanos, e depois contra os francesses de Napoleão, porque Portugal muito maior que Gibraltar, representava para ela uma boa base de apoio logística militar e política e ao mesmo tempo este rectângulo da Peninsula Ibérica independente, retirava alguma força ao poderio castelhano, há muito tempo nos tinha abandonado à nossa sorte. Aliás desde o Mapa Cor-de-Rosa a Inglaterra tinha demonstrado até onde ia o seu amor por Portugal. Tudo o que dizes é muito interessante e muito académico mas está longe da realidade geopolítica que nesse tempo governava o concerto e desconcerto das nações.
Um grande abraço. Francisco Baptista

Vasco Pires disse...

Caríssimos JD e FB,
Historicamente, e desde sempre,fomos um "pigmeu",tentando hábil e heroicamente, sobreviver à voracidade dos "gigantes" continentais,e do insular.
Forte abraço.
VP

Tabanca Grande disse...

Zé: Começo por citar dois excertos do teu texto:

(...) Assim, desta breve análise a textos da autoria de Amorim de Carvalho, "O Fim Histórico de Portugal", Porto, 1977, que inclui passagens de Norton de Matos em "Memórias e Trabalhos da Minha Vida", e de Marcelo Caetano no seu livro "Depoimento", obras só disponíveis em alfarrabistas (...)

(...) Depois do golpe, e antes da independência já se verificava a instilação de ódios racistas, que o MFA não se coibia de incrementar, conforme revela o General Silva Cardoso, "Angola, anatomia de uma tragédia", Oficina do Livro, que ainda pode ser encontrado em livrarias, mas mais barato e frequente em alfarrabistas. (...)


Zé Manel: estas tuas reflexões sobre a "descolonização" podiam (e deviam) ter por base um leque de leituras mais vasto, mais diversificado, mais plural, mais crítico... Isto é como uma amostra de vinhos: se eu ficar só pelos vinhos baratos, em promoção nas grandes superfícies, a minha garrafeira é "pobrezinha", dá para os gastos do dia a dia, mas dificilmente me habilita a opiniar sobre a qualidade dos grande vinhos desta ou daquela região, deste ou daquele ano... Por isso existe a enologia, que é uma arte e uma ciência...

O mesmo se passa com o "estado da arte" sobre um problema (histórico, social, político, epidemiológico, médico, etc.). Em 50 anos já de se publicou muita literatura (mais séria, menos séria, mais académica, mais panfletária...) sobre o tem "o fim do império", a "descolonização", etc.

Se ficas só pelos livros baratos, de alfabarrabista, ou da feira da Ladra, corres o risco de "enviesamento": só vês a árvore, não vês a floresta, ou só vês a "realidade" a preto e branco, ou só a partir de uma nesga da tua janela... Há muitos mais livros nas bibliotecas públicas, sobre este tema... Não tens que os comprar... Consulta por exemplo a PORBASE: http://porbase.bnportugal.pt/


(Continua)

Tabanca Grande disse...

(Continuação):

Zé: Uma coisa são os teus "sentimentos" e "experiências de vida", que eu só tenho de respeitar, outra é a análise objetiva, crítica, fundamentada na evidência empírica e na reflexão teórico-metodológica de uma dada disciplina científica (a história, por ex.), que é fundamental a quem se quiser abalançar a estudar um período tão rico, dramático e complexo como foram os anos do fim do Estado Novo e as mudanças operadas com o 25 de abril e, mais tarde, a integração europeia, a queda do muro de Berlim, etc...

Por outro lado, tenho dificuldade, na leitura dos teus dois textos, em saber o que é teu (pensamento, ideias, opiniões... ) e o que é dos outros (Amorim de Carvalho, Norton de Matos, Tavares da Silva, Marcelo Caetano etc.). Devias fazer uma melhor gestão das citações...

Não sou "especialista" do tema, que te tem apaixonado nos últimos tempos... Mas os teus postes são oportunos e estimulantes... Como sabes, não há tabus no nosso blogue, nem qualquer orientação político-ideológica, cada um de nós pensa (ou deve pensar) pela sua cabeça e sente com o seu coração...

Mas, se permites um conselho de "metodólogo", não bebas água só da mesma fonte... Nem toda a água é potável nem tem a mesma composição química, sabor, etc.

E, já agora, porque não escreves tamb+em testemunhos sobre a tua vida (pessoal, familiar, profissional, social...) em Angola antes da descolonização ? Tens um grande talento para escrita e, felizmente, gostas de comunicar...

Foste uma testemunha privilegiada, muitos de nós só conheceram a Guiné, eu pessoalmente só comecei a ir a Angola a partir de 2003... E praticamente só conheço Luanda, ou só uma parte de Luanda ( ou nem isso). Não me sinto à vontade para "falar de cátedra" sobre uma realidade que conheço mal, ou superficialmente... Não são meia dúzia de viagens que nos permitem conhecer um país... Nem sequer uma vida inteira: quantos angolanos cohecem a sua história, antes, duarante e depois da independência ? Quantos portugueses sabem quem foi o rei "imberbe" que os lançou no desastre de Alcácer Quibir ?

Com amizade, sem paternalismo, com toda a cumnplididade e empatia que nos dá o privilégio da camaradagem... Um abraço grande. Luis

Antº Rosinha disse...

JD, tu, ainda um "rapazinho" estas a ir buscar o pensamento dos velhos e genuínos africanistas da I República que Salazar varreu do mapa.

Embora tragas alguns dos sucessos em África do Estado Novo, mas é em Norton de Matos, Henrique Galvão, Cunha Leal, Jaime Cortesão e outros que o Salazar apagou, que vais beber parte do que escreves .

E essas ideias vigentes antes de Salazar, faz muita falta a este blog para compôr o puzzle.

As ideias que trazes são exactamente as ideias que havia em Angola antes da entrada da UPA em acção terrorista e tribalista.

Mulatos , pretos e brancos mudaram todos de opinião e a maioria ficou do lado de Salazar, que era melhor devagar, devagarinho.

O que Francisco Baptista diz, até o Salazar te dizia se pudesse vir cá.

Mas sem se entender o que se passava na cabeça daqueles republicanos, em que até um ministro das colónias foi o pai de Mário Soares, não se compreende totalmente a luta imperialista de Salazar.

JD, fazes bem em trazer essa visão histórica, mas tens que a datar.

Eu continuo a devorar linha por linha, Norton de Matos, talvez o português que mais sabia de Angola, desde Diogo Cão o primeiro a chegar, até Rosa Coutinho deixar aquilo nas mãos dos Cubanos em 1975.

Quando Norton de Matos se candidatou a presidente da República já eu tinha entrado na escola e lembro-me vagamente de se dizer que a PIDE calou a malta como quando Delgado também em 1958, já eu a trabalhar com 19 anos em Angola, também perdeu.

Se datares as ideias desses anti-Salazaristas vai ajudar a compreender muitas coisas, porque foi assim que aconteceu.

Eu acho que ter sido o MPLA, o PAIGC e a FRELIMO, a ficar com o espólio, tivemos a terminação, isto é, não desaparecemos do mapa, nem nós nem eles.





Tabanca Grande disse...

Camaradas e amigos:

Ao fim de 50 anos, há hoje um amplo consenso sobre a descolonização: foi um desastre. Para todos, a começar pelos povos dos novos países independentes. Onde as opiniões se dividem é sobre o "modus faciendi". A descolonização era historicamente inevitável, e começou com o Brasil em 1822. Mais uma vez, foram as grandes potências (neste caso, o "nosso velho aliado", a Inglaterra) a mandar. Só fomos potência potencial num curto período da história.

A história não é uma folha de papel em branco onde podemos escrever ou desenhar de maneira livre. Podíamos ter feito as coisas de outra maneira. O desastre começou com a gestão da questão por Salazar (que, de resto, nunca saiu do quintal de São Bento, contrariamente a Marcelo Caetano, que conhecia a "nossa" África, de resto foi ministro das colónias, em 1944-1947, com uma perspetiva "desenvolvimentista")...

Não vale a pena tentar arranjar, à boa maneira portuguesa, "bodes expiatórios", "maus da fita", etc., para este "desastre". Precisamos de conhecer mais e melhor este período da nossa história. Os portugueses são avessos ao conhecimento do passado. Passa-se uma esponja, e pronto, parte-se para outra... Precisamos de muita e boa investigação historiográfica, que está por fazer. Não é com obras "panfletárias", à esquerda ou à direita, que a gente acrescenta conhecimento ao nosso conhecimento histórico. A história é ciência, não é panfleto...

Ab. LG

JD disse...

Meus Caros Amigos,
É muito interessante o conjunto de comentários, que reflectem o interesse que ainda podemos dispensar à questão africana. Se para a maioria a África teve como limites a prestação do serviço militar na Guiné, para uns poucos de outros que a contactaram em Angola e Moçambique, para além da dimensão territorial, também a sociedade, a economia, as infra-estruturas, o modelo de vida, o relacionamento com autóctones mostrava-se muito diferente, tudo num ciclo de desenvolvimento que entusiasmava e atraía.
Mas tenho umas notas para responder:
Ao Carlos Gaspar quero cumprimentar especialmente pelo alarde ao pensamento livre, isto é, à capacidade de cada um pensar por si, sem dependências e seguidismo, apesar de em sociedade todos tirarmos experiências comuns. A verdade, é que para além dos instrumentos de indução de ideias, o mais confrangedor será abdicarmos da nossa capacidade para observar e pensar. Ora, o que mais se nota, é que alguns dotados de retórica, servem-se dos outros pelo discurso demagógico, logo, mentiroso. O grave, é que dessa maneira comprometem-nos a todos, e com isso não pactuo.
Francisco Baptista, esticado amigo, sobre a geo-política da época, se é verdade que as delibarações da ONU eram geralmente contra Portugal, e que os EEUU deram o empurrão à UPA para iniciar o terrorismo em Angola, também é verdade que depois de constatada a resistência dos portugueses, com Nixon já se constatava uma certa tolerância, que decorria da poupança de esforços para os americanos, aliados na NATO, da nossa importância estratégica durante a guerra fria, que constituía óbvia resistência à penetração comunista, do que também beneficiavam as regiões a sul e entre as possessões ultramarinas portuguesas. Discretamente, através da África do Sul, preparava-se o reequipamento das FAA, enquanto prosseguia calmamente a vida económica e social em Angola e Moçambique. A questão da guerra perdida na Guiné já aqui foi declarada uma falsa questão. Por outro lado, a colonização portuguesa era bem diferente das outras colonizações, muito mais humana, sem esmagamento de povos e tradições, de que ainda hoje os bantustões são exemplo. Faço nova citação de "Apartheid, Poder e Falsificação Histórica", de Marianne Cornevin, Edições 70: "os sul-africanos de língua inglesa chegaram apenas no seculo XIX. A sua mentalidade vitoriana, caracterizava-se por um misto extravagante de uma paixão ardente pela abolição da escravatura e de um profundo desprezo por todas as civilizações não britânicas, em geral, e por todos os povos de cor, em particular. Foi esta mentalidade que inspirou muitas leis racistas promulgadas entre 1911 e 1926, referentesà segregação de empregos, tal como já o decreto de 1856, relativo a patrões e servos, pelo qual se regeram, até 1972, as relações entre patrões (brancos) e servos (negros)". isto era acompanhado pela expropriação das mais extensas e melhores terras, e empurrava os servos para autênticas reservas ou ghetos. Os portugueses, parece, nunca procederam assim, trabalhavam em conjunto com os empregados, e casavam com mulheres autóctones. Ás influências, as populações respondiam com serenidade (apesar do caso da Cotonang, o mais absurdo), e só os emancipalistas aproveitavam para prossecução dos seus fins, senão, alguma vez Amilcar se manifestou comunista como quem o apoiava?
(prossigo logo à tarde, bom apetit!)

Vasco Pires disse...

Bom dia Luis
Cordiais saudações.
Dizes tu:"O desastre começou com a gestão da questão por Salazar..."
"Data maxima venia", substituiria começou por terminou.
Quanto ao Professor Marcelo Caetano,apesar de vasto conhecimento teórico e prático, deixou mergulhar o país no caos.
Logo ele, um quase Delfim do dito Estado Novo,que em várias comunicações ao "Imperador",inúmeras vezes, teceu críticas às políticas vigentes,dando a entender que podia fazer melhor,quando chegou a vez dele,deu no que deu.
Sabemos que o "Último Imperador",achava que Portugal,não sobreviveria como nação independente,sem as provincias ultramarinas/colonias,olhando hoje,parece que a análise era acertada, lamentavelmente, errou na ação.
Contudo, os acertos e desacertos do dito Estado Novo, são o culminar de um processo multisecular.
É minha opinião, já expressa em comentários anteriores, nunca tivemos vocação nem tamanho para ocupar os imensos espaços que descobrimos para a civilização Ocidental.
Sempre fomos um povo de comerciantes, na África, na Ásia e na América,feitorias era o nosso modo de operar, our,escravos, especiarias..., era o nosso negócio,como disse Frei Vicente do Salvador, no século XVII:"arranhando as costas que nem caranguejos...".
Quando as grandes potências coloniais resolveram ocupar a África, no século XIX, lá fomos nós " a reboque ", corajosamente, fazendo o que dava.
Forte abraço.
VP


JD disse...

(continuação depois do almoço que começou muito tarde, e não podia acabar antes do seu inicio)
O Vasco Pires desdobrou-se em dois comentários: no primeiro refere a heroicidade do pigmeu perante a gula dos grandes. A colonização africana começou com a necessidade de encontrar matérias-primas necessárias com a revolução industrial, e Portugal sentiu necessidade de defender a posse daqueles territórios, pelo que manteve uma acção administrativo-militar, que permitiu à diplomacia a preservação das fronteiras durante a Conferência de Berlim. Logo na transição do século XIX para o XX teve que negociar com empresas estrangeiras algumas formas de cooperação na exploração de alguns produtos, de que a Diamang, a Cotonang e os Caminhos de ferro de Benguela são bons exemplos. Não havendo capacidade interna, juntaram-se interesses e fizeram-se chegar capitais e tecnologias para o inicio daquelas e outras explorações.
Foi sempre assim quando os investimentos exigiam verbas avultadas, em Angola, como em Moçambique. Até aos anos 60 Portugal não revelou capacidade autónoma para iniciar outras actividades de carácter industrial (indústrias extractivas e transformadoras) pelo que foi importador conjunto de tecnologia e apoio financeiro. Naquele limiar, porém, passou a apresentar as capacidades para essa autonomia de desenvolvimento, porém, a guerra impunha necessidade de alianças com vista à prossecução económica, tanto de um lado, como do outro. Foi o caso de Cahora-Bassa e da Condiama, respectivamente em Moçambique e Angola durante os anos 60, para além da Petrangol. Com esses negócios, também se consolidava a presença portuguesa em África.
(continua)

JD disse...

(continuação)
Respondo agora à Tabanca Grande.
Estou longe de ser um enólogo, mesmo de razoável cotação, mas gosto de beber, coisa que pratico prazenteiramente todos os dias. Só, ou com amigos, muitas vezes bebe-se tranquila e "mecanicamente", mas outras vezes, faz-se uma selecção, procede-se a "démarches" com a ideia de melhorar a pinga, arejando-a, deixando-a espevitar aromas, taninos e outras características e, em calhando, depara-mo-nos com prazeres que nos elevam à ilusória condição de reis. Não foi um banquete desses que me ocorreu reservar-vos. Nem sei, se para tal terei engenho e arte. Durante alguma parte da minha vida fiz análise e relatórios tão sóbrios quanto possível, para não atrapalharem a interpretação.
Assim, por gostar de ser directo e frontal, comunico que não aceito as normais desculpas mal amanhadas, geralmente sem conhecimento prático ou adquirido sobre as matérias opinadas, no caso vertente que pretendam justificar o abandono de África, para mais na forma vergonhosa e criminosa como o fizémos. É o que sinto da minha experiência, que inclui viagens por alguns territórios africanos com múltiplas expressões de nacionalidade. Sobre a literatura disponível, que já é bastante, nós somos mais ou menos influenciáveis, conforme a nossa pre-disposição de conceitos, isto é, se for de esquerda, terei tendência para dedicar mais atenção a autores de esquerda, e vice-versa. O problema, portanto, se existir, reside em nós próprios, que corremos o risco de parcialidade. Não posso garantir que não seja vítima desse vício, mas juro que tento evitar sê-lo.
É verdade que anualmente gasto alguns euros na aquisição de livros, alguns ainda permanecem por ler. Sou cliente de alfarrabistas, porque espero lá encontrar publicações fora do mercado, e ao contrário do que se possa pensar, algumas são bastante caras, inflacionadas pela procura. Como não tenho a capacidade do nosso P.R., não sou leitor compulsivo, vou lendo, e disso confronto ideias e informações, até chegar a conclusões. Não passo de um gajo normal.
Agora, reparem, no contexto em que vivemos, eu não quero ser enganado pelas mentiras muitas vezes apregoadas. Alguém sabe como se viva no Senegal, e sabe dar indicações precisas sobre eventuais diferenças com a vida da Guiné-Conakry? Refiro o Senegal por se tratar da pátria de um reconhecido poeta e humanista, o Shengor, que presidia àquela república. Ora, ao Shengor só faltava ser português, tantas foram as manifestações de carinho e interesse. Os nossos governantes nunca o entederam, nem aproveitaram a disponibilidade. Assim, apesar de falecidos, ficarão na História como responsáveis pela negligência mostrada. Não foram as personalidades do Antigo Regime as responsáveis pelos acontecimentos da descolonização, mas, pelo que referi, também são numa certa dose de responsabilidade.
Depois aconteceu o golpe. E do que se tratou afinal? Foi uma traição aos portugueses, porque não foi (suficientemente) pensado nas consequências para as populações e instituições de depor governo e presidência, enquanto se gerava uma incontrolável confusão. Os militares não tinham um fio ideológico, e não querem referir o que os uniu na acção, já que logo depois começaram as cisões entre eles. O mais grave, é que qualquer estado, pare existir, tem que ter forças armadas vinculadas à Constituição (não interessa agora se progressista ou reaccionária), e esses militares profissionais entraram na carreira sem coacção, foi a escolha deles.

JD disse...

(continuação) - No comentário anterior queria dizer Guiné-portuguesa em vez de Guiné-Conakry.
Para arguirem que tinham a intenção de democratizar o país, teriam que manifestar coerente e continuadamente a intenção, e os militares que integraram o MFA não o fizeram, deixaram que o poder popular na sua espontaneidade enveredasse pelos caminhos mais ínvios, como uma turba-multa de bárbaros. Onde é que os tais militares acautelaram a serenidade? Ainda declaram que entregaram o poder aos civis? Mentira, entregaram a dois partidos políticos na clandestinidade. E que capacidade revelaram os partidos? Revelaram capacidade permanente de conflito, incluindo entre eles próprios.
Se ignorarmos as ignomínias revolucionárias de África, só as que aqui aconteceram já somam uma boa quantidade de crimes contra a humanidade. Foi uma grande bebedeira, e os tais militares imberbes que mudaram o país, apenas tentaram surfar a onda que se lhes apresentava. Também os crónistas e editores tiveram comportamentos semelhantes.
O novo regime parecia saído de um romance de Gabriel Garcia Matos, era para rir, se não fosse trágico.
Portanto, para estruturar as ideias sobre o dilema África portuguesa versus descolonização, posso acrescentar aleatoriamente alguns títulos de diferentes tendências, conforme a tua sugestão no comentário:
"A Pátria em Perigo", de Cunha Leal, 1962; "Para Onde Vamos? - O problema ultramarino", de Fernando Pacheco Amorim, Coimbra, s.d.; "Livro Negro da Descolonização", Luiz Aguiar, Intervenção, 1977; "Servindo o Futuro de Angola", de Costa Oliveira, Luanda, 1972; "O Ultramar a Nação e o 25 de Abril", de Silva Cunha, Atlântida Editora, 1977; "Angola 61", de Dalila Cabrita Mateus, Texto Editora, 2011; "O 25 de Abril Visto da História", José António Saraiva e Vicente Jorge Silva, Bertrand, 1976; "Anticolonialismo e Descolonização", de Luís Filipe de Oliveira e Castro, Agência-Geral do Ultramar, 1963; Elites Militares e a Guerra de Africa", Manuel Godinho Rebocho, Roma Editora, 2009; "Ultramar: direito à independência?", Afonso Rodrigues Queiró, Atlântida,1974; "O Império Com Pés de Barro", José Freire Antunes, D. Quixote, 1980; "Como a Europa Subdesenvolveu a África", Walter Rodney, Seara Nova, 1976; "O Projecto Burguês do Partido Socialista", de Francisco Pereira de Moura, Seara Nova, 1977. Sobre a demagogia política e a manipulação das massas posso citar; "A Paixão do Poder", de José António Marina, A Esfera dos Livros, 2008; "A Manipulação dos Espíritos", Alexandre Durozynski, Assírio e Alvim, 1982.
Vou voltar a ler os teus comentários, porque notei neles uma ideia valorizativa, mas não posso prometer capacidade para fazer melhor. Para já, faço o que posso, embora corra o risco de que o melhor seja pôr a viola no saco.
Para quem tem paciência para me aturar, envio o meu agradecimento.
Abraços fraternos
JD

JD disse...

Nota: Quando insinuei comparação entre a Guiné e o Senegal, queria dizer-vos que no Senegal, um país moderado em África, não revelava diferenças especiais, e Há meia dúzia de anos, se não fosse a degradação subsequente ao abandono dos portugueses, e se não tivesse havido progresso na Guiné, a condição de vida continuaria idêntica. Posso referir que o País mais rico de Africa, era o actual Zimbabue, uma lástima, uma degradação inimaginável. Também Moçambique, e a Swasilândia estão em evidentes condições de ruína económico-social.
Quero dizer, que nenhum dos países que atingiram a independência durante o processo descolonizador, possa arrogar-se de ter alcançado uma situação satisfatória em conformidade com as promessas emancipalistas, apesar de abrigarem um ou outro paraíso nos seus territórios, paraísos destinados a turistas, alguns deles com grande actividade de devastação da natureza e do meio-ambiente.
Abraços
JD

Anónimo disse...




Meus amigos e camaradas sem pretender dar lições a quem teve mais experiência da vida africana,e mais conhecimentos da História Europeia e Mundial, acho que devemos reflectir no que há séculos acontecia na Europa quando os vários países que hoje a constituem se iam formando e ganhando a independência. Nesse tempo na Europa católica e civilizada, onde os papas, por inspiração divina deixavam formar ou não os novos reinos, não havia corrupção porque todos os bens pertenciam às classes dominantes,aos reis, ao clero e à nobreza. O povo ia vivendo numa desgraçada miséria, como animais de trabalho, piores que os cavalos e um pouco melhores do que os gatos ou cães. A Idade Média que já tem mais de mil anos, para vergonha desta Europa altiva e civilizadora, espalhou miséria até à Idade Moderna. Os grandes castelos, palácios e catedrais de que hoje se orgulha e que atraem tantos turistas de todo o mundo foram construídos à custa do sangue suor e lágrimas de milhões de miseráveis que comiam o pão mais negro que a terra produzia.
A África, libertou-se há pouco tempo dos invasores ou colonizadores estrangeiros e está a passar um mau momento, pois os seus povos que aspiravam a uma melhoria de vida, vêm a sua vida piorar, porque as classes económicas e políticas dominantes tomaram contas de todas as riquezas. A história repete-se e a África na sua evolução está muito atrasada em relação à Europa. Meu caro amigo José Dinis sabes tu dizer-me quando nós abandonamos África qual o nível de instrução e conhecimentos dos povos africanos. A corrupção e o despotismo alimentam-se com a pobreza e a ignorância das gentes.
Um abraço a todos.
Francisco Baptista

Anónimo disse...

Surpreendido pelo tom quase paternalista de alguns dos comentários nas suas referências a "alfarrabistas","feira da ladra",acabando por se proporem "outras fontes",talves com um outro "grau de envernizagem".
Senti-me envolver por uma humildade sempre muito próxima dos que durante uma vida têm procurado aprofundar algumas destas coisas.

Como resultado das viagens dos descobrimentos ao longo de mais de 3 séculos, a língua portuguesa é hoje uma das sete línguas mais faladas no mundo.
Ao mesmo tempo é a língua oficial de 8 estados membros da ONU.
A verdadeira importância dos descobrimentos portugueses é facilmente compreendida com um simples passar de olhos por um mapa mundo.
Também nas coisas simples nas vidas das gentes do mundo actual.
Independentemente de se tratar de africanos comendo milho, ou europeus fritando batatas nas suas dietas hoje tradicionais.
Géneros alimentares trazidos por nós das américas,assim como o cigarro,o café, o chocolate.

Aspectos culturais como estes,que na sua simplicidade modificam o dia a dia das nossas sociedades,permanecem no mundo muito para além das memórias de heroicidades,nomes de reis,vice reis ou bravos generais.

O resto terá o "valor" subjectivo que lhe queiramos dar ,durante um curto período de passagens geracionais.

Cumprimentos.
Nuno Ribeiro dos Santos

JD disse...

Francisco Baptista, meu bom Amigo,
A tua curiosidade é pertinente, a de saber o contexto da evolução angolana reflectida na evolução do ensino.
Foi fácil encontrar resposta na net. De facto, deparei-me com uma tese de Doutoramento, apresentada por Rebeca Helena André, na FLU do Porto, em 2014, sob o título "O Ensino da História em Angola entre 1960-1970", onde cita dados diversos:
População de Angola em 1960 - 4.840.719, e em 1970 - 5.673.042.
sobre o número de alunos e os ramos de frequência, informação que vou sintetizar em vez de apresentar por cada ano:
infantil: 1860 - 563/ 1970 - 2.484; E. Primário: 1960 - 112.326/ 1970 - 392.809; Ciclo Preparatório Secundário: 1969 - 12.903/ 1970 - 25.137; E. Liceal; 1960 - 8.417/ 1968 - 20.793/ 1969 - 12.903/ 1970 - 11.321 (não procurei justificação para o decréscimo); E. Técnico; 6.436/ 1970 - 12.339; E. Superior: 1963 - 286/ 1970 - 1570; E. Habilitação Prof. de Posto (secundário): 1960 - 188/1970 - 1.177; Magistério Primário: 1962 - 23/ 1970 225; E. Eclesiástico Sec. e Superior; 1961 - 663/ 1970 - 841.
Eis o que me parece uma boa panorâmica da evolução do ensino em Angola, mas deve ter-se em conta, que o crescimento da emigração durante os últimos anos, incorporava gente com os diferentes níveis de formação académica, o que constituíu outro enriquecimento para a Provincia/ Estado desde 1970.
Um grande abraço, e fica alerta, que deverei ir ao norte brevemente.
JD

Manuel Luís Lomba disse...

Saudações para o Zé Dinis e para todos os comentadores.
Nós, os que sofreram na alma e no corpo a guerra ultramarina, sem nunca voltar as costas aos povos cujo mister era fazermos o caminho, caminhando, de os europeizar (vulgo civilizar), em espírito e progresso social, vamos voltando a esse passado - sem lá querer ficar.
E falando da Descolonização, nesta efeméride, exprimo o meu voto: 25 de Abril, sempre! MFA nunca, jamais!
Obviamente, não me refiro aos militares genuínos que no dia 26 regressaram aos quartéis, com a missão cumprida, mas aos que, a partir desse dia, aproveitaram para montar o seu cavalo e levaram a efeito a maior derrota do seu país, desde a de Alcácer Quibir, em 1580.
E "Dos portugueses alguns traidores houve" (Luís de Camões)...
Ab.
Manuel Luís Lomba

Tabanca Grande disse...

Zé Dinis:

Já percebi que os teus livros de cabeceira, de há largos anos a esta parte, versam o tema da "descolonização", independentemente do sentido que se queira ou possa dar ao conceito... Em boa verdade, só se pode descolonizar o que se colonizou. Ora há quem pense que o "colonialismo português" nunca existiu, mas a este respeito é bom ouvir também os que se consideraram "colonizados" e vítimas do colonialismo, a começar pelas vítimas das "campanhas de pacificação" (na Guiné, em Angola, em Moçambique) entre finais do séc. XIX e as primeiras décadas do séc. XX...

Nem sempre, ou quase nunca, nos entendemos sobre os conceitos que utilizamos; e este é um terreno fortemente armadilhado, no qual eu, pessoalmente, não quero entrar (muito menos penetrar), até por falta de disponibilidade mental e temporal... Todos os ismos são "tramados" porque fracturantes... Basta só lembrar alguns: cristianismo, judaísmo, islamismo, luteranismo, calvinismo, capitalismo, fascismo, socialismo, comunismo, imperialismo, colonialismo, neocolonialismo, neoliberalismo, etc., etc.

Em nome dos "ismos", quantas asneiras e sobretudo crimes não temos cometido, nós, humanidade ? Uns contra os outros, e todos contra a natureza, pondo em risco a nossa sobrevivência enquanto espécie ?

Colonialismo e descolonização são temas "dolorosos", que ainda hoje geram sentimentos, emoções, reações, leituras, interpretações, etc. contraditórios entre nós, portugueses e africanos, portugueses que construiram uma vida em África, africanos que acreditaram numa pátria comum, portugueses e africanos que lutaram por ideais de democracia, autodeterminação, liberdade, etc....

Há muitos portugueses (nos quais provavelmente te incluis) que nunca fizeram nem nunca farão o luto pela perda de um patrimómio material e simbólico, deixado em África (mas também na Ásia) na sequência de uma "descolonização" que não conseguimos prever, planear, programar, controlar... E eu quando digo "não conseguimos", estou a falar no coletivo, nós, portugueses: povo, nação, Estado, elites dirigentes, forças armadas, igreja católica, comnunidades, gerações (a começar pela nossa, mas também as que nos antecederam)... Talvez seja abusivo falar em "coletivo": a responsabilidade coletiva não existe enquanto figura jurídica (, pelo menos aceite pelo atual direito internacional)... Podemos, em todo o caso, falar em "responsabilidade moral": não há explicações fáceis para a "aceitação" do nazismo pelo povo alemão, ou da ditadura de Salazar pelo povo português, ou do nepotismo e cleptocracia a que estão sujeitos muitos povos na atualidade (e não apenas africanos)...

Abreviando, que o espaço é curto: admiro e louvo o teu esforço por aprofundar este tema, através de múltiplas leituras que tens vindo a fazer ao longo dos anos... E, sem qualquer "paternalismo" (que não faz o meu género, por feitio e formação!), podíamos acrescentar à tua lista (, que eu agradeço!), mais esta: são pelo menos 160 referências bibliográficas (onde estão títulos da tua lista), só em português (e referentes a publicações existentes nas bibliotecas públicas portuguesas) que eu encontrei na Porbase- Base Nacional de Dados Bibliográficos, através da pesquisa pelo descritor "descolonização":

http://porbase.bnportugal.pt/

Boas leituras... e vai continuando a escrever sobre o tema!... Bom feriado. Luís

Tabanca Grande disse...

Camaradas:

O que me preocupa hoje (e nos deve preocupar a todos) é o que se passa, não apenas em Angola, no Brasil, etc., mas no mundo inteiro, com o sistema económico capitalista à beira do colapso...

Estamos sob um enorme vulcão e não vale a pena perdemos tempo com exercícios de autoflagelação, muito à nossa maneira... Portugal tem mil anos de história e mil e uma maneiras, safadas, de dar a volta às crises...

Estou preocupado, isso, sim com os meus/nossos amigos angolanos, estou preocupado com os nossos compatriotas portugueses que vivem em Angola e de que Angola precisa para construir um Estado forte, uma administração pública competente, e uma economia que não seja apenas dependente do petróleo e dos diamantes, e dos dólares para gastar no Dubai ou em Portugal... Estou preocupados com os alunos angolanos no estrangeiro, que não recebem o dinheiro das bolsas de estudo a que tinham direito, estou preocupado com os nossos empresários, técnicos e outros trabalhadores vítimas, em Angola, da chantagem, da extorsão, da ameaça...

O que Angola exporta para Portugal é quase só (ou apenas!) petróleo... Angola precisa urgentemente de virar a página da história, precisa de uma liderança estratégica, precisa do nosso apoio... Porque os regimes (e as elites que os apoiam) passam, e os povos ficam!.. Mas, por favor, não venham com saudosismos!... Infelizmente, Angola não tem grandes alterntivas, proque é um pa+is jovem... Mas os angolanos são patriotas e há bons quadros, honestos, competentes e patriotas para dar a volta à crise... Olhemos para o futuro, com sentido crítico, realismo e esperança... A água do Rio tejo ou do Rio Quanza não volta a passar pelo mesmo sítio, essa é que é a verdade... LG

Tabanca Grande disse...

Há dias o Garcez Costa, antigo locutor do PIFAS, reenviou-nos uma "anedota", veiculado pelo, que diz muito do "cinismo" e corrupção do mundo empresaruial atual... Ab. LG
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João Paulo Diniz
Data: 19 de abril de 2016 às 19:55
Assunto: joke

João vendia castanhas no recanto de um cais. Certo dia, para admiração de muitos populares, mudou-se para a entrada de um banco. Passa um amigo seu e pergunta:
- Então passaste do cais para um banco... que loucura?!

Responde o humilde vendedor de castanhas:
- Aqui estou melhor na vida, as pessoas entram dentro do banco para levantarem dinheiro, chegam aqui compram logo 3 a 4 sacos de castanhas... é só dinheiro a entrar, agora estou perto da riqueza.

O sujeito vendo a alegria do João diz-lhe:
- Já agora que estás bem empresta-me 20 €...

João responde:
- Não posso camarada.
- Porra! sou teu amigo, conheço-te, e tu não me desenrascas...
- Não posso emprestar dinheiro porque fiz um contrato com o banco. Nem eles vendem castanhas lá dentro nem eu empresto dinheiro cá fora!...

JD disse...

Boa! Boa!
No entanto, tenho outra interpretação mais apropriada aos dias correntes.
O banco tem património, mas não faz negócio, logo, tenta neutralizar uma OPA por parte do vendedor de castanhas, certamente muito mais livre de dívidas para negociar com vantagem sobre o banco. Os bancos em Portugal arrastam-se com pompa e circunstância, vergados às enormes dívidas acumuladas que estrangulam a economia.
Abraços fraternos
JD


P.S. Luís, já te deves ter dado conta de uma mensagem para publicação na continuação da conversa.