terça-feira, 26 de abril de 2016

Guiné 63/74 - P16021: (In)citações (88): Reflexão sobre o inicio da decadência nacional (José Manuel Matos Dinis, ex-Fur Mil da CCAÇ 2679)

1. Texto do nosso camarada José Manuel Matos Dinis (ex-Fur Mil da CCAÇ 2679, Bajocunda, 1970/71), enviado ao Blogue em mensagem de 8 de Abril de 2016, subordinado ao título:

Reflexão sobre o inicio da decadência nacional

O texto que segue não é da minha autoria, e o que faço é apenas juntar umas pontas. Também não sou salazarista, por várias razões, embora não possa negar-lhe algumas obras que levou a cabo, de que destaco, apesar de um reduzido quadro fiscal, a recuperação para o património público de empresas como a CRGE, os TLP, e a Carris, que a 1.ª República havia vendido aos ingleses durante o fervor revolucionário e desbaratador. Esta última frase faz lembrar-me de algo que acorre ao meu espírito, que de tão massacrado, não consegue identificar. Estabilizou as finanças, embora mantendo uma economia simplória que marcou uma "décalage" relativamente à Europa.
Quero ainda dizer que eu sou saudosista, e posso esclarecer, que ainda não se me esgotou a memória dos tempos em que Portugal registava progressos, e não tinha nem parecenças com as condições hoje aparentemente disponíveis. Assim, só por grande absurdo de gestão colectiva, é que dispondo de condições o país regride. Constato isso, mas não me atrevo a balbuciar as soluções, porque tenho a noção da minha falta de competência, todavia nunca demonstrada, ao contrário das sucessivas demonstrações de políticos cá da praça, devidamente acolitados por grandes cabeças das economias e finanças, que ao longo dos anos já disseram coisas e o seu contrário. Eles "andem" aí e, aparentemente, de boa saúde, com bons ares, e o dom da palavra fácil.

Vamos ao que interessa:
"A evolução autonómica do ultramar;
Só em desespero de causa e com total desprezo das populações nativas, dos colonos e dos superiores interesses de Portugal se poderia caminhar de imediato no sentido da descolonização outorgada, sem garantias, sabendo-se que os respectivos territórios iriam ser, como foram após a expulsão dos colonos, campos de batalha e as respectivas tribos postas umas contra as outras, avivando-se ódios ancestrais que levaram séculos a fazer esquecer e a superar. Havia antes que estar preparado para o "momento de compromisso negociador", na expressão de Salazar. Era por isso que Salazar fora bem claro ao dizer na entrevista à revista Life, de Maio de 1962; "O facto de um território se proclamar independente é fenómeno natural nas sociedades humanas e, por isso, representa hipótese sempre admissível, mas em boa verdade não se lhe pode nem deve marcar prazo". No entanto ia-se progredindo, até constitucionalmente, no sentido autonómico.
(Revista Ultramar, n.º 11, 1963 n.º 43 e 44 colaboração do autor, Álvaro da Silva Tavares).

Antecipar a descolonização seria um crime tanto maior quanto, se para os outros a expansão ultramarina não passou duma ambição de engrandecimento e de rivalidade entre eles, para Portugal ela constituiu a base da própria independência nacional, o que, por isso mesmo conduziu ao já referido relacionamento entre colonizadores e colonizados. Lembra ainda o Dr. Amorim de Carvalho "o inegável progresso social e cultural na auto-determinação da Guiné portuguesa, de Angola e de Moçambique, que se imprimiu durante o governo de Marcello Caetano, o qual levaria necessariamente ao resultado seguinte; far-se-ia um pouco mais tarde o que o General Spínola queria fazer mais cedo, o que os militares estupidamente impediram". E desenvolvendo o tema, argumenta que "uma independência antecipada pela qual a maioria negra tribal vota, é, no seu íntimo, a liberdade das suas crenças e tradições tribais". (...) Assim, da aplicação falsa do voto democrático numa determinação decidindo a independência, passa-se a uma nova fraude: a que faz prevalecer a cor da pele sobre a noção democrática e humana da terra de todos (Jacques Binet)".

E Amorim de Carvalho, depois de recordar os três caminhos possíveis (simultâneos ou sucessivos) para a auto-descolonização - a mestiçagem, o crescimento demográfico da etnia branca e a promoção da evolução das etnias pela formação de uma consciência nacional na multirracialidade, ajudando-as a realizar a síntese das suas tradições e da contribuição ocidental - demonstra que a tese de Marcello Caetano - a autonomia progressiva - se ajusta à da auto-descolonização (pouco importa que não tenha usado o termo), tendente para uma unidade nacional, tal como a via Norton de Matos. (...) Chegado que fosse esse momento, que efectivamente se verificou com o derrube do muro de Berlim e a derrota, tanto do ponto de vista político como económico da União Soviética, a negociação tornar-se-ia viável. (...) Daí decorreria o "momento negociador" - ou o resultante da guerra por tentação da União Soviética, ou o que decorreria da paz por derrube do regime comunista. Em qualquer caso, era esse o momento, se outro não surgisse antes, por que haveria que aguardar, "aguentando". Trágico foi que Portugal não tivesse sabido ou podido esperar pelo"momento de compromisso negociador"."
Extraído de "A Entrega do Ultramar Português", de Álvaro da Silva Tavares, que foi Governador da Guiné e Governador-Geral em Angola.

Aqui vos deixo estas ideias para conhecimento da Tabanca, e para eventuais reflexões sobre a matéria, condições muito diferentes das que são apresentadas para justificar a descolonização e os tumultos iniciados em Abril/74, que persistem até hoje e não se lhes vislumbra o fim.

JD
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Nota do editor

Último poste da série de 24 de abril de 2016 Guiné 63/74 - P16005: (In)citações (87): Breve interpretação sobre a entrega do Ultramar Português (José Manuel Matos Dinis, ex-Fur Mil da CCAÇ 2679)

12 comentários:

Abilio Duarte disse...

Sinceramente estive na Guiné, 22 meses, e reparei que a maioria da população, não sabia falar, quanto mais ler e escrever Português. Comiam com as mãos e no chão, ao fim de 500 anos de presença Portuguesa, naquelas paragens. Se isto é progresso?.
Mas não eram só os africanos, muitos naturais da Metrópole, vindos do interior do País, e que
bateram com os costados naquelas paragens,eram também analfabetos. Portanto a decadência Nacional, já vinha de longe. Só a grande burguesia, latifundiários e amigos do regime, chamado ESTADO NOVO, é que tinham acesso, assim como os militares de carreira , ao POTE.

antonio graça de abreu disse...

O Abílio Duarte com um inteligente e correctíssimo comentário de esquerda, o Zé Dinis
a virar um pouco à direita. Coisas certas, coisas certas, entendimentos transviados. O pesado lastro da genialidade de sermos portugueses, gente única debaixo do céu.
Abraço,

António Graça de Abreu

Antº Rosinha disse...

JD, só quem como tu esteve na Lunda algum tempo é que pode compreender de certa maneira entusiasta como as coisas estavam correndo.

Mas tu conheces-te a Lunda e Paunca e outros só buruntuma ou Cacine,ou seja to conheces-te o Céu e o inferno, e outros apenas o inferno e outros ainda, apenas o Céu, como eu.

JD, tu conheces-te de facto uma paz colonial e uma paz africana que te faz sonhar, mas que poucos portugueses, a não ser os oitocentos mil retornados de Angola e Moçambique, te compreenderão.

JD, tu (e eu) conheces-te foi um pequeno parêntese como se pode viver e deixar viver, em África.

O comentário de Abílio Duarte pode resumir o pensamento da maioria do povo portuguès e europeu, em relação a Àfrica e a nós.

Mas jamais representa o pensamento dos régulos de Angola e Guiné-Bissau daquele tempo, que ainda alguns que teriam sobrevivido à catana e a tudo, estes 40 anos de luta, talvez ainda tivessem tido a oportunidade de aprender a comer com talher e aprender as teorias do marxismo-leninismo, a bem ou a mal.

Abílio Duarte, o comer à mão, quer em África ou na Ásia, quem o faz, muitos milhões de habitantes na terra, não o faz por incultura ou atraso ou desconhecimento que haja garfos e talheres ou porque não tenha dinheiro para comprar faca e garfo.

A mim, os balantas ainda me tentaram provar que a vianda é muito mais saborosa comida à mão, mas aquilo tem um jeito próprio e um ritual.

Sei que alguns portugueses e até franceses aprenderam e confirmam que é bom, pelo menos diferente.

O próprio Amílcar Cabral, exortou dentro do PAIGC, que os que sabem comer à mão, não devem descriminar aqueles que não sabem.

Este pormenor, também deve estar no espólio da Fundação de Mário Soares, ou na guerra-de-joaquim-furtado.

JD, a única vantagem de a colonização ter sido feita à maneira de Norton de Matos, e não de Salazar, como tu costumas apoiar mais, para mim tinha uma desvantagem, é que em vez de 800 mil retornados, eramos 1 milhão e 600 mil e o resultado final era o mesmo.

Cumprimentos.

Torcato Mendonca disse...

Que Povo extraordinário este de que eu faço parte , há centos de anos, que faz uma descolonização....integra em poucas décadas os que das Colónias vieram aos milhares........ Povo este que faz uma "revolução" com uma dezena de mortos.............comete erros, aceita....e voltam os comem tudo...............................
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----- sabeis o que o melro disse ao picanço???????????????????? in nacoli descanço est...........................que lingua será esta??????????????? de ave palradora......


O Régulo do Corubal comia com as mãos por respeito para com os Homens Grandes!

Ab,T

Anónimo disse...

https://aviagemdosargonautas.net/2016/04/26/biscates-o-25-de-abril-e-a-vitoria-dos-abutres-por-carlos-de-matos-gomes/

Tabanca Grande disse...

Obrigado, Zé Manel, pela tua partilha de leituras. Não sei se estes autores ajudam a "fazer o luto da perda do império"... e sobretudo se trazem algo de novo... Mas é bom que este espaço, o nosso blogue, continue plural, aberto, tolerante, crítico...

Já agora aquim ficam as referências bibliográficas completas para quem quiser conhecer melhor o seu pensamento: um é claramente um político do Estado Novo, nascido em Santo Antão, Cabo Verde, o Silva Tavares, que foi governador de Angola; se for vivo, já deve ter 100 anos; o outro, um poeta e filósofo "errante", nascido no Porto, autoexilado em Paris, que morreu sem ter feito as pazes com a sua terra... Pelo que percebi da tua nota de leitura o Silva Tavares cita bastante o Amorim de Carvalho... Num livrinho de 61 páginas, e com largos excertos do Amorim de Carvalho não pode ser muito original. (Tenho ideia que este livrinho de 2009 é um reedição de um escrito de 1960).

A entrega do ultramar português e o 4 de fevereiro de 19161 emn Angola.
De Álvaro da Silva Tavares. Lisboa: Neos, 2009, 61 pp.

Álvaro Rodrigues da Silva Tavares [1915 - ?]

http://app.parlamento.pt/PublicacoesOnLine/OsProcuradoresdaCamaraCorporativa%5Chtml/pdf/t/tavares_alvaro_rodrigues_da_silva.pdf

Amorim de Carvalho - O fim histórico de Portugal. Porto: Prometeu, 1977, 129 pp.


Amorim de Carvalho (1904-1976)

Casa Amorim de Carvalho
http://www.amorimdecarvalho.com/

Vd. biografia escrito pelo filho, Júlio.

http://www.amorimdecarvalho.com/Achegas%20para%20uma%20biografia%20-%20Amorim%20de%20Carvalho.pdf



JD disse...

Caro Abílio Duarte,
O ultramar português era bastante mais do que a Guiné. Acho que a intervenção do Rosinha dá conta disso, assim como alguns textos anteriores que aqui publiquei, ou comentei. Também aqui Portugal despontava para a modernidade, mas para os grandes investimentos o país bastava-se a si próprio, mantinha importantes reservas em divisas e ouro, e só para Cabora-Bassa foi constituído um sindicato financeiro internacional.
Caro AGA,
Não estou em deriva para a direita, mas o pensamento não tem amarras. Sou livre, e não me coíbo de criticar a pseudo-esquerda portuguesa, sempre que ofende o bem comum e o interesse público. A coisa revela constantes e preocupantes agravamentos.
Caro Rosinha,
Nós temos afinidades e sentimentos africanos. Visitei a Guiné e Moçambique em vários períodos de 3/4 semanas cada, e os comportamentos populares são sempre idênticos: saudades dos portugueses, com quem sentiam segurança e assistência diversa; e orgulho na conservação dos cartões de identidade civis e militares. E os jovens continuam orgulhosos sportinguistas, benfiquistas e portistas. A Angola é mais dificil regressar. Quanto a Norton de Matos, na minha interpretação, ele não era apologista da descolonização, antes pela valorização do ultramar, através da dignificação do trabalho dos autóctones (salário e legislação), e teve forte oposição dos casmurros da Assembleia-Nacional e do regime.
Caro Torcato,
Não concordo com a ideia de que o Povo fez a revolução. Os militares desencadearam-na, manipularam o povo enquanto ofereciam o poder político a partidos sem tradição, sem experiência, sem provas dadas, e foi a rebaldaria, porque os partidos souberam bloquear qualquer tipo de controle e fiscalização sobre os actos praticados. Daí, que tenha sempre havido execuções orçamentais deficitárias, e que se tenham tomado várias decisões inconstitucionais sem que o Povo se pronunciasse. Tem sido uma constância de traições e de agravamentos de impostos, enquanto se constatam duas dinâmicas de sentido contrário: Cresce a riqueza concentrada, e baixam os rendimentos de quem trabalha por conta de outrem, para além das dificuldades dos pequenos empresários que passam recibos.
Por fim encontramos a indicação de uma publicação no blogue da A25A, e de um texto de Carlos Matos Gomes, um autor que aprecio, e talvez espelhe um pretenso alívio de consciência, que me causou umas linhas de repúdio, apenas pela enviesamento da oportunidade e do conteúdo.
Abraços fraternos
JD

a disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
Carlos Vinhal disse...

Pede-se ao autor do último comentário que volte a comentar e a assinar devidamente o mesmo.
O JD (José Dinis) é nosso tertuliano e reconhecido por esta duas iniciais, pois é assim que assina os seus textos. Os mesmos, quando publicados, são encabeçados pela sua foto e identificação de nome, posto e Unidade, o que não é verdade para o assinante "s".
Carlos Vinhal
Co-editor

Abilio Duarte disse...

Carlos Vinhal,
penso que o comentário que removeu, foi o meu, e nele me identifiquei se aparece lá o "s", como minha assinatura, é um erro que não reparei.
Sou Abílio Duarte, sou membro do Blog, e se não gostaram do meu comentário, não havia razão,
para uma desculpa bastante esfarrapada. O sr. tem a faca e o queijo na mão para fazer o que entender, mas como não ofendi ninguém, agradecia que o repusesse o meu comentário.
Abílio Duarte- CART.2479/ CART11.

Carlos Vinhal disse...

Reposição do comentário assinado com s, que afinal é do nosso camarada Abílio Duarte.

Olá JD,
antes de mais um abraço, por teres lido, e referido meu comentário.
"Também aqui Portugal despontava para a modernidade, mas para os grandes investimentos, o País bastava-se a si próprio (?)(remessas de imigrantes), mantinha importantes reservas de divisas e ouro, (Era obrigatório por ser também emissor de moeda) e só para Cabora-Bassa, foi constituído um Sindicato Financeiro Internacional"
Será que foi assim tão linear?
E, esta politica de acumulação, não foi contrária ao desenvolvimento do Pais? e da melhoria das condições do povo?
Quem entrava no Ensino Superior?
Quem entrava na Academia Militar?
Porque foram os milicianos, Oficiais e sargentos, obreiros em parte do reviralho?
O porquê da Policia Politica?
O porquê da Censura?
E quanto aos financiamentos? Não estou tão certo da tua narrativa. Pelas minhas mãos passaram, muitos pagamentos ao exterior, nos anos anteriores a 1974, de pagamentos dos encargos, com a modernização dos Caminhos de Ferro em Angola e Moçambique, assim como da compra de muitas Locomotivas, para aquelas paragens.
E a ponte chamada Salazar? Não foi U.S.Steel que a financiou, e que levou dezenas de anos a ser paga.
A coisa não estava fácil, mas a partir do momento em que os Estados Unidos, liderados por Kennedy, optou por apoiar a independência das colónias portuguesas, era tudo muito previsível.Só espero que reconheças, que o poder de fazer ou desfazer, na politica internacional, nunca esteve nas mãos dos nossos governantes, como não estão hoje em dia.
Só para relembrar, se não fosse a Administração Clinton, ainda hoje Timor era parte da Indonésia.
Estamos vivos, e de clareza de pensamento, isso é o que mais me agrada, tudo de bom para todos, sem estigmas.
Até sempre.

s

Carlos Vinhal
Co-editor

João José disse...

José Manuel Matos Dinis, tens toda a razão, basta referir que nunca houve a preocupação de ouvir as vontades dos africanos em relação ao seu futuro, que os que não apoiavam o MFA, o PCP, os interesses americanos e soviéticos, foram após o 25A, selvaticamente agredidos, caso do herói português, natural da Guiné, Tenente-Coronel Marcelino da Mata, e as populações assim como muitos dos ex-combatentes afirmam que estavam bem melhor e em muito mais progresso no tempo em que eram portugueses.