segunda-feira, 25 de abril de 2016

Guiné 63/74 - P16012: Manuscrito(s) (Luís Graça (82): Uma estranha maneira de dizer adeus… (ou quando os soldados partiam para a guerra)

v13  25abr2016

 Uma estranha maneira de dizer adeus…
(ou quando os soldados partiam para a guerra)

por Luís Graça



Um estranha maneira de dizer adeus,
um estranho povo este
que vem ajoelhar-se,
no cais de partida,
não em oração
para aplacar a ira dos deuses,
mas vergado,
vergado à toda poderosa razão
de Estado.

A tentacular força centrífuga
que, de há séculos,
te leva os filhos teus,
ó Pátria,
para fora,
paridos e expulsos do ventre da Mátria,
para longe,
bem para longe,
muito para lá do mar.

Ordeiros os soldados
como os cordeiros da matança da Páscoa,
anhos, dizem no norte,
alinhados
no Cais da Rocha Conde de Óbidos,
como os elétricos amarelos
que vão para a Cruz Quebrada,
empilhados,
aboletados,
requisitados
às mães para servir
a Pátria,
o pai-patrão
que lhes cobra o dízimo
em sangue, suor e lágrimas.

A mesma atitude,
admirável,
de patética resignação
perante o arbítrio dos deuses
que tudo pedem e podem,
diz o capelão,
cheio de unto e de virtude,
que este é um povo religioso
porque tem o sentido do pathos,
leia-se:
da tragédia inelutável.

Coitadas das mães que tais filhos pariram,
dizes tu, entre dentes,
para o teu camarada
que vai subindo à tua frente o portaló,
o cadafalso,
com um nó na garganta,
mal disfarçado,
no meio dos lenços brancos ao vento,
em fundo preto,
como em Fátima no 13 de maio.

Uma despedida breve
com lágrimas salgadas no rosto,
com o Niassa,
a última nau das Índias,  
a apitar três vezes,
sob a ponte de Salazar,
ainda reluzente,
o velho abutre
que alisa as suas penas
,
dirás tu, Sophia, pitonisa de Delphos,
quase morto mas não enterrado.
Os últimos golfinhos do Tejo,
a última fragata de vela erguida,
a última caravela,
a última nau do cais da Ribeira,
o último império que ficou por haver,
o último marinheiro em terra,
sinal de tempestade,
o último uísque marado que ficou por beber
no Cais do Sodré,
o Cristo Rei em terra que outrora foi de infiéis,
o Terreiro que continua do Paço, não do povo…
Ah! Lisboa, Lisboa,
e o teu casario,
branco,
sujo,
um filme a preto e branco,
riscado,
um gato preto à janela,
sinal de mau agoiro.
Lisboa,  Lisboa,
e lá longe a Guiné,
Lisboa, enfim,  as tuas ruínas,
pré-pombalinas,
o poço dos mouros,
o poço dos negros,
o lundum,
a umbigada
a procissão
da Nossa Senhora da Saúde.
mais a Santa Inquisição,
zelando pela pureza da raça e do sangue,
zurzindo corpos e almas,
o Cemitério dos Prazeres,
numa das tuas colinas,
com os seus altos ciprestes negros,
os mastros dos navios
da carreira colonial,
o império por um fio dental,
a vida, curta, que se recapitula,
de fio a pavio,
no último comboio
que veio do campo militar
de Santa Margarida,
pela calada da noite.

Lisboa revista,
revisitada,
revistada,
devassada,
despojada,
em filme de oito milímetros,
a preto e branco
ou a preto e negro,
dizes tu, corrosivo.
Uma só nação,
valente mas mortal,
ironiza alguém.
O Niassa colonial
na azáfama do seu vai-e-vem,
antes de ir parar à sucata,
inglória a sucata da história
que tu perdeste
aos dezoitos anos,
quando deste o nome para as sortes.
Estranha palavra esta,
das sortes,
que rima com desnortes
e com mortes,
e com os fracos de que não reza a história.

 Ah!, e os jacarandás que choram,
de lágrimas lilases,
em pleno mês de maio,
e as santas das nossas mães
que ficaram em casa,
a acender a vela à santa das santas,
a tecer o lenço de enxugar lágrimas,
um fado que tu ouviste no Bairro Alto
e que já não era batido
nem dançado
nem cantado,
um fado apenas gemido,
sussurrado.

 Passado o Bugio,
deixado para trás o velho do Restelo,
choradas as mães de xaile preto,
há um briefing às cinco da tarde,
anunciam a bordo,
já em velocidade de cruzeiro,
no mar alto que outrora foi português,


Não, não uso a cruz,
o crucifixo,
como colete de salvação,
senhor capelão,
não vou para a guerra santa
combater os infiéis,
alguém há de rezar por mim
para que eu volte
são e salvo.
Do regulamento é apenas
a chapa de zinco
com o número mecanográfico
13151468
e o picotado ao meio,
para mais facilmente ser cortada
em duas partes
que seguirão caminhos distintos,
tudo isto face ao risco,
bem real e concreto,
de eu morrer longe,
bem longe
da minha pátria,
para lá do mar,
em terra que não me viu nascer.


E tu, camarada, descansa,
que ninguém fica para trás,
se tu  morreres na batalha,
alguém tratará da tua mortalha,
cerrará os teus dentes,
puxará as persianas das meninas dos teus olhos,
porá um moeda na tua boca
para pagares a viagem ao barqueiro de Caronte,
fará o teu espólio
e engraxará as tuas botas.

Sim, levarei comigo a pedra-chave
que me liga ao além.
uma chapa de zinco,
picotada ao meio,
outrora era de xisto ou de grés,
entre o meu antepassado
calcolítico,
castrejo,
romanizado.

Pois, então, camaradas
se eu morrer,
que me enterrem, de vez,
numa anta do meu país megalítico
.



A bordo do T/T – Transporte de Tropas, Niassa,
a caminho da Guiné,
24-29 de maio de 1969.

Luís Graça

Revisto em 25abril2016.
Poema do livro (em preparação)
Poemas de amor(es), guerra(s) e lugar(es)


__________

6 comentários:

Tabanca Grande disse...

Versão 13, e ainda longe de ser a última... Há quase 50 anos que ando à procura das palavras, certas, concisas, precisas... mas não consigo que sejam curtas... Não sei se ainda conseguirá chegar à versão..

Há quase 50 anos: não esqueço este momento único, da minha vida, das nossas vidas, a subida do portaló, o Niassa que apita três vezes, o adeus breve mas doloroso... Não tinha ninguémm, próximo de mim, a despedir-se, nem pais, nem irmãs, nem amigos...

Escrevi esta versão 13, para a minha filha Joana dizer, numa sessão de poesia, há dias, em Alcochete... LG

Juvenal Amado disse...

A Pátria que tudo nos exige
e por amor Dela somos devedores
Nascemos para a honrar, proteger defender
por vezes sem retribuição

Somos seus servos
Só temos obrigações

Pelo o direito de cidadania
pelo cartão de cidadão
Pagamos desde que nascemos até que morremos
Tudo lhe damos até a vida

Porque nos emocionamos com o seu nome?
Pela a Pátria tudo somos capazes
deixamos pais namoradas e esposas
Nunca saberemos explicar este amor

Um abraço Luís

JD disse...

"Nunca saberemos explicar este amor" à Pátria, refere o Juvenal. Assim como o poema em apreço representa uma complexa condição de jovem embarcado para a guerra, naturalmente com dúvidas e temores, o do Juvenal parece revelar uma reconciliação do combatente com sorte, sobrevivo da grave "obrigação", conceito variável entre os diferentes indivíduos, porque somos todos diferentes. O que me dei conta, foi de outra reconciliação, a de muitos combatentes que regressaram a África para ali desenvolverem as suas actividades, famílias e sonhos de realização. Conforme já referi antes, Angola cresceu em dois terços o número de brancos no espaço de tempo de 1960 a 1970, que ali contribuíam para uma sociedade multirracial harmónica e de progresso económico-social bem acentuado.
Parabéns pelo magnífico poema.
JD

Tabanca Grande disse...

Julgo que em todas as épocas e sociedades, a Pátria (um entidade difícil de definir, de nmaneira clara, concisa e precisa), sempre soube galvanizar, motivar, mobilizar e usar os seus jovens, para a guerra, ou para as guerras, independentemente das causas, endógenas ou exógenas... Também é verdade de que os esquece depressa, indenpendentemente das vitórias ou derrotas no campo de batalha.

Quando se tem 20 anos, o conceito de Pátria não precisa de ser explicado, tim por tim...Aos 20 anos estamos dispostos a matar e a morrer por algo quue nos transcende: uma bandeira, uma Pátria, um deus, uma ideologia... Ou até por um "punhado de dólares"...

Há uma tensão dialética entre essa pulsão de morte e o apelo à vida, o amor à vida...Em 1969, com 22 anos eu sabia que se morresse, na Guiné, nºão morreria pela Patria.. Pelo menos não me revia no conceito de Pátria, o da elite dirigente do meu país, à qual não reconhecia legitimidade para me mandar para a guerra... O poema nasce desse conflito interior que eu (e se calhar muitos de nós) sentiram ao subir o portaló do navio que nos levou para longe... Também sabia que o cunoprinmento do dever militar era umn preço que eii teria de pagar para poder continuar a viver na minha terra, e não ter que alienar a minha condição de português... Masm, meus amigos, é apenas um poema, não é um tratado sobre o patriotismo e a Pátria.

Obrigado pelos vossos comentários, LG

Tabanca Grande disse...

Há poucas coisas de que me lembro da tropa (ou faço questão de me lembrar):uma é o meu número mecanográfico, 13151468 (, nunca fui bom em numeracia, mas este número nunca mais o esqueci, é mais mais esquecer o código de acesso `na porta do prédio do que o raio do nº mecanográfica tropa...); a outra é camaradagem... Esta descobri-a sobretudo na Guiné... O perigo, o risco, a morte, aproximam os homens. A camaradagem, o que é ? Já li algumas boas definições, mas continuo a preferir a mais simples, e que remete para a origem etimológica da palavra... Camarada é mais do que colega, companheiro ou até amigo...

Mais do que amigos, eram camaradas, no sentido etimológico do termo, já que na tropa não havia nem colegas nem amigos, mas apenas gente que partilhava o mesmo chão, a mesma caserna, o mesmo bivaque, o mesmo abrigo, a mesma tenda, o mesmo beliche, a mesma cama, o mesmo buraco e à vezes o mesmo leito de morte...

(...) E tu, camarada, descansa,
que ninguém fica para trás,
se tu morreres na batalha,
alguém tratará da tua mortalha,
cerrará os teus dentes,
puxará as persianas das meninas dos teus olhos,
porá um moeda na tua boca
para pagares a viagem ao barqueiro de Caronte,
fará o teu espólio
e engraxará as tuas botas. (...)

Tabanca Grande disse...

Escrevi:

(...) "nunca fui bom em numeracia, mas este número nunca mais o esqueci, é mais mais esquecer o código de acesso na porta do prédio do que o raio do nº mecanográfica tropa" (...)

Queria dizer:

(...) "nunca fui bom em numeracia, mas este número nunca mais o esqueci, é mais FÁCIL esquecer o código de acesso na porta do prédio do que o raio do nº mecanográfica tropa" (...)

As minhas desculpas pela gralha... LG