segunda-feira, 17 de maio de 2021

Guiné 61/74 - P22207: Notas de leitura (1357): "Impérios ao Sol, a luta pelo domínio de África”, por Lawrence James; Edições Saída de Emergência, 2018 (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 31 de Julho de 2018:

Queridos amigos,
Uma condensação de valor apreciável sobre a constituição de impérios a partir do século XIX, as idiossincrasias, as motivações comerciais, o espírito missionário, os choques entre a França, a Grã-Bretanha e a Alemanha. Foi pena Lawrence James não ter estudado convenientemente o caso português, chega ao cúmulo, na hora da descolonização, de afirmar seraficamente que Portugal lutava em Angola e Moçambique e que o grande ideólogo da luta pela independência das colónias portuguesas era Agostinho Neto. Será lastimável se um especialista não lhe fizer chegar notícia do que significou a Guiné no fim do império.

Um abraço do
Mário


“Impérios ao Sol, A Luta pelo Domínio de África”, por Lawrence James (1)

Beja Santos

Vale a pena destacar os dois primeiros parágrafos do prefácio, para que o leitor saiba o que tem pela frente, trata-se de um autêntico e suculento prato de substância:
“Este livro expõe as transformações ocorridas em África ao longo dos séculos XIX e XX, uma época em que praticamente todo o continente passou a fazer parte dos impérios globais europeus. Trata-se de uma história sobre os conflitos de poder entre nações e entre governantes e governados. A mudança provocou conflitos, pois foi imposta a partir de cima por estrangeiros que a denominavam progresso e afiançavam que este seria uma fonte de proventos para eles e para os seus súbditos africanos. Alguns assentiram, cooperaram com os invasores e alcançaram a prosperidade, outros resistiram. As guerras de conquista e pacificação arrastaram-se por mais de um século, findando apenas com a subjugação da Abissínia pela Itália, em 1936. O conflito foi sempre um fenómeno endémico em África, mas os europeus entraram no continente levando consigo os avanços mais recentes da tecnologia militar. Na fase inicial da conquista, as metralhadoras representavam uma enorme vantagem para as suas forças e, durante as décadas de 1920 e 1930, espanhóis, franceses e italianos mobilizaram bombardeiros, carros de combate e gás mostarda contra marroquinos, líbios e abissínios.
O continente foi arrastado para as duas guerras mundiais que custaram à Alemanha, primeiro, e depois à Itália, as suas colónias. Mais de um milhão de africanos alistaram-se como voluntários ou foram recrutados para combater no Exército, muitos em longínquas frentes de combate. Durante a II Guerra Mundial, os soldados negros das colónias britânicas combateram as tropas japonesas na Birmânia, enquanto argelinos e marroquinos serviram ao lado das forças francesas contra os alemães, em Itália e na Europa Ocidental. Os veteranos regressaram a casa orgulhosos, perplexos e zangados. Fora-lhes dito que arriscavam a sua vida pela liberdade universal e em prol de um mundo melhor, mas a ordem imperial continuava enraizada em África”
.

“Impérios ao Sol, a luta pelo domínio de África”, por Lawrence James, Edições Saída de Emergência, 2018, põe em imenso ecrã as ambiguidades deste conceito de progresso e de missão civilizadora e de ocupação que se forjou a partir de 1830, aproximadamente; desvela uma luta sem quartel para tomar posse de domínios por todo o continente, entre 1882 e 1918, no Egito e no Sudão, na África Austral, no Congo, em combate religioso; assistimos à ascensão dos nacionalismos, a presença de contingentes africanos em duas guerras mundiais para medir as consequências do que se seguiu, aproveitando a boleia da Guerra Fria; e de 1945 a 1990 o continente africano foi mudando de look, todos os povos se encaminharam para a independência; e assim chegamos aos últimos dias da África branca.

Por volta de 1830, a presença europeia em África mudou de slogan, passou-se a falar sistematicamente de missão civilizadora, o que durante séculos colonizadores franceses, espanhóis, holandeses, portugueses e britânicos tinham praticado era tráfico de escravos, criação de entrepostos comerciais e uma certa presença missionária. Um novo modelo capitalista punha tudo em questão, logo em 1807 a Grã-Bretanha proibira o tráfico de escravos e o comércio negreiro declinou. Como o autor observa, a cruzada antiesclavagista empreendida pela Grã-Bretanha coincidiu com o apogeu da Revolução Industrial, entrara-se na euforia das manufaturas, era preciso fazer chegar aos consumidores africanos esses produtos manufaturados, e nada melhor do que falar em progresso, em ciência, em civilização, bons pretextos para viagens científicas e conhecer as riquezas de solo e subsolo, do vastíssimo continente. Novos e velhos impérios passaram a conflituar, não lhes faltava poder expansionista: a Grã-Bretanha queria proteger solidamente a Rota do Cabo, os russos lançavam-se num ambicioso programa expansionista, a França pós-napoleónica suspirava por pôr um pé no Norte de África, começou pela Argélia, o Império Otomano abrangia do Sudeste da Europa à Turquia, Médio Oriente e Norte de África, entrara em desagregação, o Egito, a Tunísia e a Argélia eram Estados praticamente independentes.
Mas estamos numa época em que os conhecimentos sobre a natureza das sociedades africanas situadas nas regiões para lá do Sara, da África Ocidental e da Colónia do Cabo eram pouco mais do que vagos.

As potências com apetites imperiais conheciam a violência endémica africana, o comércio negreiro praticado pelos árabes à cabeça e a própria cultura europeia tinha o que hoje se pode considerar ideias aberrantes sobre os africanos, como o próprio autor observa. Lineu, o naturalista, catalogou o negro como ignorante. O filósofo David Hume pensava que as faculdades intelectuais de um negro se assemelhavam às de um papagaio enquanto John Wesley via nas suas imperfeições a prova da capacidade do homem para a degeneração moral. Estavam espalhados os conceitos de inferioridade africana, muitos deles ligados ao tráfico negreiro: o negro seria devasso, cobarde, indolente, cruel, supersticioso, antropófago. Essas ideias passaram a ser contestadas desde o século XIX, quer pelo romantismo, quer pela religião evangélica. Os românticos defendiam com insistência que o negro tinha sentimentos como o resto da humanidade e os evangélicos acreditavam que a sua conversão ao Cristianismo completaria a sua felicidade.

O autor é detalhado sobre a problemática da escravatura e o tráfico de escravos, concluindo que “A guerra mais ou menos isolada travada pela Grã-Bretanha contra o comércio de escravos alcançou um enorme êxito. Entre 1810 e 1864, a Royal Navy libertou 150 mil escravos. Em 1864, o comércio atlântico encontrava-se em rápido declínio e as operações no Oceano Índico sofreram um duro golpe, embora não fatal. Restava o comércio no interior do continente africano, favorecido pela distância geográfica e pela solidariedade dos regimes locais”. Nesse mesmo século XIX, vão multiplicar-se as missões cristãs, acarretarão tensões de toda a ordem: cismas, caráter concorrencial entre igrejas cristãs, diabolização de comportamentos que deixavam os africanos em fúria, guerra à feitiçaria, embate entre os pregadores cristãos e os islâmicos, a chegada da medicina praticada pelos missionários pondo de parte as técnicas dos curandeiros. O quinino foi mais forte que o curandeirismo, as escolas foram ganhando simpatia, era o triunfo da missão civilizadora enquanto a França conquistava a Argélia, a Grã-Bretanha se apropriava da África do Sul, resolvendo a seu contento a questão bóer e consolidando a supremacia branca enquanto o continente africano era percorrido de lés a lés por exploradores de várias nacionalidades. Lawrence James dá-nos o perfil dos grandes exploradores e as suas idiossincrasias e o retrato de uma das figuras mais ignóbeis do colonialismo, Leopoldo II da Bélgica, exprime-se deste modo:
“O monarca Leopoldo dedicou a sua vida a fazer dinheiro nos territórios ultramarinos. Entreteve-se com alguns projetos nas Ilhas Orientais e na América do Sul, mas em meados da década de 1870 persuadiu-se de que conseguia fazer fortuna em África. Agiu com deslealdade e astúcia, apresentando-se inicialmente como filantropo e patrono da investigação científica. Sob esta máscara, e apoiando-se no seu estatuto régio para conseguir legitimidade, convocou uma conferência, em 1876, para discutir a descolonização da África Central. O resultado foi a criação da Association Internationale Africaine, uma organização de fachada, enganadoramente benévola, que depressa se transformou no Comité d’Études du Haut Congo, investida de uma missão humanitária igualmente falsa”.

Vamos agora entrar na segunda parte do trabalho, a partilha de África, nem tudo será cor-de-rosa.

(Continua)
Leopoldo II da Bélgica
Encontro de Stanley com Livingstone
____________

Nota do editor

Último poste da série de 16 DE MAIO DE 2021 > Guiné 61/74 - P22205: Notas de leitura (1356): Lembrando livros do Beja Santos sobre a Guiné (João Crisóstomo, ex-Alf Mil da CCAÇ 1439)

3 comentários:

Antº Rosinha disse...

Beja Santos ficou admirado por este autor mencionar Agostinho Neto, do MPLA evidentemente, e não dar enfase ao PAIGC, e talvez nem falar no "enorme" Amilcar Cabral.

Atenção que tanto nas assembleias da ONU como nos relatos diariamente ou bi/diariamente transmitidos desde a BBC, Voz da América, passando por mais de dez emissoras de vários países, em português principalmente, quando se comunicava ou atacava a guerra nas colónias portuguesas, era como que a guerra se resumisse a Angola, e as outras colónias fosse coisa secundária.

Penso que isso se devia entre outros motivos ao facto de ser em Angola haver maior número de militares e ser aí que a oposição antissalazarista tinha mais espaço de manobra, ou se internacionalmente tinham mais divulgação as suas "riquezas naturais", ou se por ser vizinha da África do Sul, último e grande objectivo africano a atingir pelos heróis da guerra fria, EUA/União Soviética.

Atenção que Agostinho Neto (MPLA)teve mais nomeada que Amilcar Cabral, porque chegou a estar detido pela PIDE, o que lhe deu mais estatuto do que Amílcar Cabral (PAIGC).

Mesmo hoje aqui internamente em Portugal, quando se fala nos treze anos da guerra do Ultramar, a maioria desconhece muito do que se passou na Guiné, conhece mais o caso de Angola e de Moçambique.







Antº Rosinha disse...

Beja Santos ficou admirado por este autor mencionar Agostinho Neto, do MPLA evidentemente, e não dar enfase ao PAIGC, e talvez nem falar no "enorme" Amilcar Cabral.

Atenção que tanto nas assembleias da ONU como nos relatos diariamente ou bi/diariamente transmitidos desde a BBC, Voz da América, passando por mais de dez emissoras de vários países, em português principalmente, quando se comunicava ou atacava a guerra nas colónias portuguesas, era como que a guerra se resumisse a Angola, e as outras colónias fosse coisa secundária.

Penso que isso se devia entre outros motivos ao facto de ser em Angola haver maior número de militares e ser aí que a oposição antissalazarista tinha mais espaço de manobra, ou se internacionalmente tinham mais divulgação as suas "riquezas naturais", ou se por ser vizinha da África do Sul, último e grande objectivo africano a atingir pelos heróis da guerra fria, EUA/União Soviética.

Atenção que Agostinho Neto (MPLA)teve mais nomeada que Amilcar Cabral, porque chegou a estar detido pela PIDE, o que lhe deu mais estatuto do que Amílcar Cabral (PAIGC).

Mesmo hoje aqui internamente em Portugal, quando se fala nos treze anos da guerra do Ultramar, a maioria desconhece muito do que se passou na Guiné, conhece mais o caso de Angola e de Moçambique.







antonio graça de abreu disse...

A omnipresente autoridade dos escritos e entendimentos, obtusos, meio falsificados, de Mário Beja Santos, neste blogue. Boas Festas, e felizes anos novos, em tempos de covid, Mais o nosso presidente, Marcelo Rebelo de Sousa, no peito com as insígnias de Amílcar Cabral. A maravilha, depois de tanto ultrage, de continuarmos vivos.

Abraço,

António Graça de Abreu