sábado, 22 de maio de 2021

Guiné 61/74 - P22217: Depois de Canchungo, Mansoa e Cufar, 1972/74: No Espelho do Mundo (António Graça de Abreu) - Parte VI: ilha da Elefanta, Bombaim ou Mumbai , Índia, 2016








Índia > Bombaim > Ilha da Elefanta > Novembro de 2016

Texto e fotos: António Graça de Abreu (2016), recebidos em 10 do corrente


Continuação da série "Depois de Canchungo, Mansoa e Cufar, 1972/74: No Espelho do Mundo" (*), da autoria de António Graca de Abreu [, ex-alf mil, CAOP1, Canchungo, Mansoa e Cufar, 1972/74.

Escritor e docente universitário, sinólogo (escialista em língua, literatura e história da China); natural do Porto, vive em Cascais; é autor de mais de 20 títulos, entre eles, "Diário da Guiné: Lama, Sangue e Água Pura" (Lisboa: Guerra & Paz Editores, 2007, 220 pp); "globetrotter", viajante compulsivo com duas voltas em mundo, em cruzeiros.

É casado com a médica chinesa Hai Yuan, natural de Xangai, e tem dois filhos dessa união, João e Pedro;  é membro da nossa Tabanca Grande desde 2007, tem 275 referências no blogue.



Ilha da Elefanta, Bombaim, Índia 

 

É de estarrecer a promiscuidade, a porcaria, a miséria em que esta gente vive mergulhada! Custa a crer. Mas que serenidade, que compostura, que dignidade generalizadas. 

 

Miguel Torga, Diário XV 

 

Novembro de 2016. 


Aí vou numa utilitária barca de Madeira para os vinte quilómetros desde o porto de Bombaim até à ilha da Elefanta. 


Chego. Cabras, vacas e macacos passeando-se nas entradas e nos socalcos da ilha, montões pestilentos de excrementos sagrados espalhados por tudo quanto é sítio. Mais acima, nas grutas suspensas em quinze séculos de obscuridade, estátuas delapidadas de Brahma, o criador, de Vishna, o preservador, de Shiva, o destruidor. Tudo Património da Humanidade, pela Unesco. Avançar pela mitologia hindu de que sei tão pouco. 


Sempre me fez confusão a mescla deliberada entre homens e deuses. Nós, pessoas inventadas pelos divinos seres, eles, os deuses, todos poderosos, criados pelo imaginário carente e necessário dos pobres povos da terra. 


Natália Correia (1923-1993), senhora de grandes poemas, que ainda tive a sorte de conhecer e de ter, ao de leve, como amiga, falava dos homens como sendo "um projecto falhado de Deus." Na Índia (ah, e também na nossa terra!) são grandes e pesadas as contas do rosário das imperfeições humanas. 


Caminho para o outro lado desta ilha da Elefanta, um monte de arvoredo e rochas rodeado pelo azul de dez mil centúrias. Aqui subsiste o recordar de pedras cinzeladas há meia dúzia de séculos na figura do paquiderme entretanto transferidas para jardins em Bombaim. Daí o nome do lugar que elefantes não tem. Em Cannon Hill, sobrevive, no entanto, uma velha bateria de canhões portugueses. Tudo o mais é passado, a limpar, a depurar no presente. 


Há quatrocentos anos atrás, à deriva por todos os oceanos, excelsas gentes da nossa "ditosa pátria", instaladas em Bombaim, por aqui disparavam para o mar e para o vazio. Hoje, no dilacerar da memória, no grito atenuado do entardecer, desaparecidos os elefantes, ouve-se ainda, esbatido nas ondas do Índico, o troar das bombardas. 


António Graça de Abreu

 

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Nota do editor:

1 comentário:

Valdemar Silva disse...

Deve ter sido fascinante conhecer Bombaim, a mais populosa cidade da Índia e das maiores do mundo.
Bombaim assim chamada pelos portugueses que por lá andaram e deixaram uma velha bateria de canhões, a religião católica e algumas palavras na comunidade de pescadores quando se fixaram na ilha.
É interessante, os patrioteiros não consideram a perda de Bombaim para os ingleses como o início do fim do Império.
'Tá bem e tal, foi um dote de casamento uma maneira de acabar as escaramuças com os ingleses e holandeses que pretendiam fixar-se na região, o Rei queria lá saber dessas terrinhas e os ingleses sempre foram nossos amigos.
Os ingleses bem podiam ter escolhido para completar o dote, em vez de Tanger, a Guiné que o Rei não se importava e, assim, a rapaziada do nosso tempo teria ficado livre de bater com os costados nas bolanhas e levar com o estigma salazarista de vitoriosos ou mortos.
Como curiosidade, quando em 1959 o irmão mais velho de um meu amigo de infância regressou da tropa em Macau, o navio parou em Bombaim ter ido a terra conhecer a cidade, e contava-nos ter andando numa avenida sem fim com milhares de barracas miseráveis. Parece que esta miséria ainda se mantém na maior favela da Ásia com mais de seis milhões de habitantes.

Abraço
Valdemar Queiroz