quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Guiné 63/74 - P7216: Notas de leitura (164): Crónica da Libertação, de Luís Cabral (1) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem de Mário Beja Santos* (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 29 de Outubro de 2010:

Queridos amigos,
Prossegue esta aventura dos livros e esta crónica de Luís Cabral é uma peça demasiado importante para a tratarmos com a ligeireza de uma curta recensão.
Já estou a sonhar com a noite de 17 de Novembro em que vou para a Guiné, levo uma mala de livros e uma série de encomendas.
Tremo de emoção só de pensar que haverá um dia em que me reúno com toda aquela malta que resistiu a 40 anos, o Fodé Dahaba está a preparar o grande encontro.
A minha homenagem mais sincera era escrever sobre eles, dar-lhes a posteridade que por aqui lhes negámos, com a nossa indiferença.

Um abraço do
Mário


“Crónica da Libertação” (1), por Luís Cabral

Beja Santos

As memórias de Luís Cabral, digo sem qualquer hesitação, estão no topo da hierarquia das leituras obrigatórias no que toca ao conhecimento da vida do PAIGC, da personalidade de Amílcar Cabral e da evolução das lutas de libertação, dos anos 50 aos anos 70 (Cónica da Libertação”, por Luís Cabral, Edições O Jornal, 1984).

É uma crónica em que quase se endeusa o líder máximo do PAIGC, tal a admiração de Luís pelo irmão. Do princípio ao fim destas memórias, Amílcar Cabral é o autor do pensamento que guia o movimento revolucionário, é o teórico indiscutível, é ele quem elabora os documentos fundamentais, quem tece a estratégia da guerra, quem representa com fulgor o PAIGC nos areópagos internacionais, está no centro da gestão dos conflitos com os países limítrofes, é o militante infatigável, a fonte de coragem que animou um movimento de libertação desde que se constituiu a partir de um simples conjunto de pequenos burgueses de Bissau até ao Exército que se confrontou e fez respeitar pelas Forças Armadas portuguesas. É um apanhado de recordações que abarca a história familiar, que passa pelo nascimento do PAIGC, por um certo olhar pela vida colonial portuguesa, uma invocação das figuras fundadoras daquele movimento, temos depois o desencadeamento da acção armada, tudo vai culminar com o assassinato do líder histórico.

É uma obra fundamental até pelo que não se diz ou aparece em tons cinzentos ou numa redacção que permite a leitura ambivalente. Porque o seu autor, uma das primeiras figuras do PAIGC, também não descura a verve crítica, mais ou menos intensa, sobre pessoas dentro e fora do partido. Uma obra assim, com centenas de páginas, e com informação de valor excepcional, merece ser tratada em longos haustos. É essa a intenção que vai acompanhar esta curta série de textos.

Tudo começa na intimidade da família Cabral, onde pontificou Juvenal Cabral, ainda hoje guardado no coração dos cabo-verdianos. Luís Cabral considera que foi neste ambiente inconfundível que nasceu a divisa do PAIGC: unidade e luta, pela vida de gente sujeita às secas inclementes e a muita pobreza. Falecido Juvenal Cabral em 1951, Luís Cabral lançou-se ao trabalho, pouco depois Amílcar vai trabalhar nos serviços agrícolas na Guiné. Em 1953, Luís Cabral transfere-se para a Guiné e assiste às primeiras movimentações do irmão em torno da criação de um clube. O trabalho profissional de Amílcar Cabral permitiu-lhe percorrer todo o território da Província. Nasce um núcleo de amigos que pretenderam militar pelas liberdades políticas, tal foi o caso de Aristides Pereira, Fernando Fortes, Abílio Duarte e os irmãos Cabral. Uma farmacêutica, Sofia Pomba Guerra, aparece como líder da oposição no processo eleitoral para a presidência da República e foi de uma grande influência sobre estes jovens. Depois, tem lugar uma reunião em 19 de Setembro de 1956, na casa onde residiam Aristides Pereira e Fernando Fortes, o n.º 9 C da Rua Guerra Junqueiro, em Bissau em que compareceram não só Aristides e Fernando Fortes como os irmãos Cabral, Júlio Almeida e Elysée Turpin (sobre este, consultar o site http://www.paigc.org/DEPOIM~1.HTM.

Luís Cabral descreve este último assim: “Elysée, natural da Guiné, trabalhava numa empresa francesa que veio a cessar as suas actividades no país. Descendente de uma antiga família cristã de Bissau, também tinha parentes bastante perto no Senegal e na então Guiné francesa, o que lhe proporcionara a oportunidade de visitar aqueles países e seguir de perto a evolução política que ali se estava operando”. O que se passou nessa reunião? Amílcar Cabral começou por falar na Guiné de Cabo Verde, sugerindo que embora a situação parecesse diferente nos dois países, o seu conteúdo era o mesmo, enumerou os fundamentos que tinham ligado os dois povos no passado. Procurou provar que a população cabo-verdiana tinha origem guineense e que para além dessa origem comum os dois povos estavam empurrados para a unidade. Luís Cabral escreve: “Ou seríamos capazes de unir os nossos dois povos ou os colonialistas acabariam por levar guineenses para se baterem contra os cabo-verdianos em Cabo Verde, e cabo-verdianos para se baterem contra os guineenses, na Guiné”. Li demoradamente este argumento cuja falsidade brada os céus. O espantoso é a convicção de Amílcar, uma inteligência superior, um intelectual conhecedor das poderosas diferenças entre os dois povos, declarar a enormidade sem uma hesitação. Continuando com a argumentação que terá sido usada por Amílcar nessa reunião histórica, ele referiu que a união destes dois povos ia reforçar a posição de gente que estava decidida a ser independente, a ter a sua própria personalidade. Amílcar vaticinou uma luta longa e difícil. Prevendo a repressão, propôs a criação, na vanguarda do movimento nacionalista, um núcleo de militantes seguros, homogéneos e bem estruturados: “A este núcleo de militantes saídos do nosso vasto trabalho de mobilização não devia pôr-se como objectivo unicamente a libertação nacional e independência. Isso seria, sim, a primeira etapa do grande combate e constituiria o meio indispensável para a grande obra que viria depois: a construção, na unidade forjada na luta, de uma nação guíneo-cabo-verdiana forte e progressiva”. Não bastava pois a criação de um movimento de libertação, impunha-se um partido com programa. Fica-se sem saber o teor das discussões, se houve réplicas ou contestações. Luís Cabral diz que tinha acabado de nascer o PAIGC, com a sigla PAI. Amílcar, Aristides Pereira e Fernando Fortes adoptaram pseudónimos: Amílcar, Abel Djassi; Aristides, Alfredo Bangura; Fortes, Seidi Camara. Quem garantia as ligações deste núcleo era Luís Cabral. Aristides e Fortes começaram a sensibilização e a mobilização nos CTT e noutros ramos do funcionalismo público. Luís Cabral procurou na Casa Gouveia recrutar militantes. Foi assim que Vitor Saúde Maria, empregado de balcão da empresa, entrou nas fileiras do PAIGC, seguiu-se Carlos Correia, mais tarde figura proeminente. Foram logo bem-sucedidos na acção sindical, no caso o Sindicato Nacional dos Empregados do Comércio e Indústria da Guiné.

Amílcar Cabral, entretanto, transfere-se para Angola e assiste à fundação do MPLA, foi um dos seus promotores mais entusiastas. Mais tarde, em Paris, com os angolanos Mário de Andrade e Viriato da Cruz e moçambicano Marcelino dos Santos contribuiu para a criação do Movimento Anti-Colonialista, que passou a ter algum impacto nos meios estudantis.

Em 1958, tudo mudou com o não da Guiné dita francesa a De Gaulle. Amílcar viu a oportunidade de se lançar na luta de libertação. Em Bissau, com discrição, os fundadores do PAIGC intensificam o trabalho de mobilização. Amílcar aparece na Guiné e toma conhecimento de um outro grupo de nacionalistas, dirigido por Rafael Barbosa. Conversam e decidem a reunificação de esforços.

E chegamos ao episódio do massacre do Pdjiquiti, estamos em 1959.

(Continua)
__________

Notas de CV:

(*) Vd. poste de 2 de Novembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7209: Agenda Cultural (89): Lançamento dos livros Estranha Noiva de Guerra, de Armor Pires Mota e Tempo Africano, de Manuel Barão da Cunha (Mário Beja Santos)

Vd. último poste da série de 31 de Outubro de 2010 > Guiné 63/74 - P7199: Notas de leitura (163): Guerra na Guiné, por Hélio Felgas (4) (Mário Beja Santos)

4 comentários:

Torcato disse...

Não li o que escreveste. Leio mais tarde.
Li o livro e o que ele diz.
Lembras-te o que as info dele diziam???
Tu sabias...e lembraste...

O nosso País, talvez devido ao clima ou aos por ele "apanhado" é albergue de vários ditadores. Ou não?????

AB T

Cherno Baldé disse...

O Luis Cabral foi o primeiro Presidente da Guiné-Bissau e nessa qualidade acho que ele tem responsabilidades sobre os acontecimentos que se verificaram no pós-independencia em toda a sua extenção.

Também não é menos verdade que ele, e isto nós sabemos hoje, não detinha o monopolio do poder absoluto na altura, logo dificilmente poderia ser um ditador. Se houve ditadura no periodo até 1980, então eu considero que seria, neste caso, a ditadura do partido unico onde, de forma aberta ou camuflada já pontilhavam alguns lideres, chefes de guerra (ou da guerrilha) que estavam a espera de uma boa ocasião para apoderar-se do poder. Foi o que veio a acontecer em 14 de Novembro de 1980.

a partir desta data sim, tivemos no poder um homem que teve tudo nas suas mãos (o partido, o povo, os governos feitos a sua imagem, a comunidade internacional, tudo)para dar um bom rumo ao país mas que se transformou pouco a pouco no mais vulgar ditador.

O relacionamento do Luis com a ala Guineense do PAIGC nunca foi facil, a prova disso pode ser encontrada, primeiro, na descrição que o próprio faz (nas suas crónicas) sobre uma visita a zona norte onde estava o comandante Osvaldo Vieira, e que era suposto ele controlar, politicamente (porque nessa altura o partido estava acima das forças armadas)e segundo, porque quando foi derrubado só uma minuscula parte de Guineenses, constituida no essencial por Fulas (Umaro Djaló, Barri e outros) e os Caboverdianos é que não foram na onda.

Luis Cabral ditador!???
Duvido muito. Até aqui sabia que era considerado um grande sonhador, que queria transformar a Guiné na Suiça d´Africa.

Cherno Baldé

antonio graça de abreu disse...

Como sabes, Mário Beja Santos, estamos desavindos há uns dois ou três anos.
Diferentes entendimentos, vaidades e não vaidades, opções de vida,sensibilidades, Diários da Guiné, enfim, o Mário é o Mário, o António, o António. Pelo meio houve uns insultos soezes, quase tudo para esquecer, porque temos sessenta e muitos anos e idade para ter juízo.
Mas ás vezes gosto de ti, com todas as distâncias.
Tanta recensão de obras literárias, tanta guineomania, produz, da tua pena, textos interessantes que às vezes enriquecem o nosso bogue.

Um exemplo-
Dizes:

Luís Cabral escreve: “Ou seríamos capazes de unir os nossos dois povos ou os colonialistas acabariam por levar guineenses para se baterem contra os cabo-verdianos em Cabo Verde, e cabo-verdianos para se baterem contra os guineenses, na Guiné”. Li demoradamente este argumento cuja falsidade brada os céus. O espantoso é a convicção de Amílcar, uma inteligência superior, um intelectual conhecedor das poderosas diferenças entre os dois povos, declarar a enormidade sem uma hesitação".

Mais nenhum comentário.

António Graça de Abreu

Anónimo disse...

Cabral pensou para alem da sua epoca!

Fazer da trincheira da emancipacao dos povos dos dois territorios ultramarinos, um autentico arco-iris de culturas,religoes, etnias e racas... e feito impar na historia de Africa!

Insofismavel legado a condenar a coabitacao historica, guineenses e caboverdianos...


Nelson Herbert
Washington DC
USA