segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Guiné 61/74 - P19377: Notas de leitura (1139): “Vozes de Abril na Descolonização”, a organização é de Ana Mouta Faria e Jorge Martins e os entrevistados dos três teatros de operações foram Carlos de Matos Gomes, José Villalobos Filipe e Nuno Lousada, edição do CEHC – Centro de Estudos de História Contemporânea do Instituto Universitário de Lisboa, 2014 (1) (Mário Beja Santos)



1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Setembro de 2016:

Queridos amigos,
Desconhecia inteiramente esta edição, e li de um só fôlego o testemunho do Coronel Carlos de Matos Gomes, o escritor Carlos Vale Ferraz, considero o seu romance "Nó Cego", a maior jóia da literatura da guerra colonial. O escritor embarcou num projeto universitário que pretendia clarificar a emergência dos núcleos ultramarinos que derrubou o Estado Novo. Numa posição privilegiada, fazendo parte do núcleo fundador do MFA da Guiné, vai recebendo e passando as informações pertinentes sobre a contestação, pondo a nu a situação da Guiné onde a ausência de solução política estava em vias de comprometer a tão debilitada organização das Forças Armadas na colónia.
Conta meticulosamente e vamos depois ouvi-lo sobre a situação político militar e as primeiras negociações com o PAIGC.

Um abraço do
Mário


A descolonização da Guiné: testemunho de Carlos de Matos Gomes (1)

Beja Santos

A obra intitula-se “Vozes de Abril na Descolonização”, a organização é de Ana Mouta Faria e Jorge Martins e os entrevistados dos três teatros de operações foram Carlos de Matos Gomes, José Villalobos Filipe e Nuno Lousada, edição do CEHC – Centro de Estudos de História Contemporânea do Instituto Universitário de Lisboa, 2014. O objetivo da obra é de contribuir para o conhecimento sobre a descolonização portuguesa na sua fase final, e resulta de um projeto de investigação sobre a participação dos militares portugueses na descolonização. De forma preambular, os dois organizadores abordam a génese do MFA nas colónias portuguesas de África, pretendiam-se iluminar a emergência dos núcleos ultramarinos do MFA, conhecer-lhes as suas convicções e valores, a forma como sentiam a pressão político-militar dos movimentos de libertação. Historiam a sequência dominante de factos que incendiaram a consciencialização dos militares: o anúncio da realização do Congresso dos Combatentes, que se realizou em 1973, evento que não escondia a necessidade de continuar a legitimar a continuação da guerra; a contestação desencadeada em torno dos decretos-lei 353/73, de 13 de Julho e 409/73, de 20 de Julho, destinados a suprir a carência de oficiais profissionais, através do acesso a uma rápida carreira proporcionada a milicianos com serviço de guerra; a rede do Movimento dos Capitães estava organizada em final de 1973; e a situação particular do MFA da Guiné que tinha inclusivamente montado um esquema revolucionário, caso falhasse o golpe militar na metrópole; segue-se o processo da institucionalização do MFA, a partir de 1974, que não cabe aqui analisar.

Primeiro a estatura militar do entrevistado. Fez uma primeira comissão no Norte de Moçambique, no Niassa, era alferes e tinha 20 anos; fez o curso de Comandos como adjunto na 21.ª Companhia de Comandos, companhia que foi transferida de Angola para Moçambique, combateu na área do Cabo Delgado-Mueda; ofereceu-se como voluntário para os Comandos Africanos da Guiné; faz parte do núcleo fundador do MFA da Guiné e aí vive as primícias da descolonização. Reflete sobre o projeto político de Spínola, a preparação recebida na Academia Militar, o seu grau de preparação política, declara ter pertencido à esquerda da esquerda do COPCON, com o 25 de Novembro acabou aí a sua atividade política.


Segundo, Carlos de Matos Gomes descreve as impressões da Guiné à chegada e durante a sua comissão. Impressionou-o a manta de retalhos étnica, a ausência de coerência entre etnias, quando ali chegou a guerra tinha evoluído de tal modo que se sabia ter de encontrar com caráter de urgência uma resposta política na ausência de um dispositivo militar à altura das novas estratégias do PAIGC, designadamente as grandes operações destinadas a desarticular a quadrícula e reduzir o moral das tropas a fanicos. Fala das operações onde interveio, realça a Ametista Real e Neve Gelada, para tirar Canquelifá do sufoco. E comenta:  

“A partir dessa altura, quando o Batalhão de Comandos intervinha já era em situações de tal forma críticas, que normalmente levávamos o batalhão inteiro, e fazíamos como se faz por normal nestas situações, utilizávamos duas unidades em primeira linha, mantínhamos uma em reserva, e depois íamos manobrando estas três unidades. Isto representava, claramente, o agravamento da situação militar em dois anos, e passarmos de operações com 50 homens para operações com 400, 500”.

Terceiro, pronuncia-se sobre a génese e estruturação do MFA. A partir de um grupo de amigos como Jorge Golias, José Manuel Barroso, Jorge Alves e Duran Clemente pôde ter-se um desempenho importante na contestação ao Congresso dos Combatentes. Spínola e o seu círculo restrito criticaram profundamente a iniciativa do congresso, o Governador procurava estabelecer algum tipo de negociação com Amílcar Cabral, depois de uma iniciativa Marcello Caetano determinou o fim de quaisquer conversações com o chefe da guerrilha. É o período em que as relações entre Spínola e Marcello Caetano se azedam, impedido de negociar, Spínola pede o fim da sua comissão e regressa com praticamente todo o seu staff. Tudo isto coincide com a contestação da legislação que favorecia a chegada de milicianos ao posto de capitães, a contestação que se está a formar na Guiné já não conta com os spinolistas. O grupo expande-se, continua a reunir em lugares militares como a biblioteca do CTIG ou no Agrupamento de Transmissões. O grupo fazia uma leitura pessimista da situação militar:
“As unidades que estavam a chegar à Guiné eram cada vez piores. Havia uma degradação clara do potencial militar. Unidades pior treinadas, pior comandadas, desmoralizadas. Houve unidades que chegaram lá, foram colocadas nas suas zonas de acção e tiveram de ser retiradas para ser reinstruídas e reenquadradas, comandantes de batalhão a quem teve de ser retirado o comando. Nós sabíamos que o aparelho militar português estava a esboroar-se e não tinha capacidade de resposta”.

Nesta fase dá-se uma ligação natural entre o movimento da Guiné e o movimento de Portugal. Chegou a ser equacionado, na Guiné, a possibilidade de lançar um golpe mais cedo do que veio a acontecer, com a tomada dos aviões do aeroporto:
“Havia um dia – que era a quarta-feira – em que iam a Bissau o Boeing da TAP e o da Força Aérea e equacionámos que se um dia a situação se agravasse a tal ponto que nós não tivéssemos controlo, tínhamos aí o poder para evacuar os nossos, as mulheres e os mais frágeis, para Cabo Verde e depois a seguir iríamos negociar. Isto esteve montado numa reunião em casa do 2.º Comandante do Batalhão de Paraquedistas, o Major Mensurado”.

Dá conta da trama montada nos contactos com a metrópole, Angola e Moçambique, trocam-se informações e envolve-se cada vez mais gente. E assim se chega aos acontecimentos do 26 de Abril em Bissau, estão prontos para intervir o Batalhão de Comandos Africanos, o Batalhão de Paraquedistas, o conjunto de pilotos (havia um piloto de helicóptero que estava destinado a evacuar o Governador) e a Companhia da Polícia Militar. “Controlávamos todas as informações e todas as comunicações através do agrupamento de transmissões e controlávamos, também, uma rede muito importante de contacto através da rede de ligação da Artilharia, porque a artilharia na Guiné estava espalhada pelo território. Nós tínhamos o aparelho militar na mão”.

(Continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 6 de janeiro de 2019 > Guiné 61/74 - P19373: Notas de leitura (1138): "Voando sobre um ninho de Strelas": o autor dá-nos a dimensão do esforço dos bravos da Força Aérea, desde o piloto ao cabo mais simples, passando pelas enfermeiras paraquedistas, mostrando-nos toda a sua disponibilidade e entrega, mau grado as condições adversas em que viviam e, obviamente, o enorme risco de vida que corriam (Joaquim Mexia Alves, régulo da Tabanca do Centro)

12 comentários:

antonio graça de abreu disse...

A nossa História enviesada. A política. Carlos Matos Gomes, então, e ainda hoje, "à esquerda da esquerda do COPCON." Está tudo explicado. Curiosa a fotografia, Carlos Matos Gomes e Raúl Folques, dois excepcionais Comandos. Hoje, falam-se?

Abraço,

António Graça de Abreu

Antº Rosinha disse...

Nitidamente foi tudo "Sem Rei nem Roque", "o que sair saiu", "Pé na tábua e fé em Deus"...tudo bem à portuguesa, será isso que Beja Santos nos quer fazer entender com a sua leitura?

Anónimo disse...

querem que tomemos a "pilula à força" como se não bastasse já os termos aturado durante o prec.Não desistem camaradas com esta gente não há nada a fazer.Nem sequer teem a noção (ou não querem ter) dos desmando e experiências mal sucedidas.Pior nem têm a noção que os portugueses não queriam os mesmos caminhos que nos queriam impingir.
Abraço
Carlos Gaspar

Anónimo disse...

O copcon de má memória já era mau e à esquerda da esquerda do copcon nem vale a pena falar.Mas há sempre quem queira tirar esqueletos do armário.Ok
Carlos Gaspar
!

Luís Graça disse...

António, já não estavas lá no CTIG, em 26 de abril de 1974, mas aqui fica a Lista dos Oficiais revoltosos que renderam, no QG, na Amura, o gen Bettencourt Rodrigues...O então major 'comando' Raul Folques era um deles:


TCor Mateus da Silva Engº Tm
TCor Maia e Costa Engº
Maj Folques Cmd
Maj Mensurado Pára
Cap Simões da Silva Art
Cap Sales Golias Eng Tm
Cap Matos Gomes Cmd
Cap Batista da Silva Cmd
Cap Saiegh Cmd (Africano)
Cap Ten Pessoa Brandão Armada
Cap mil José Manuel Barroso

http://www1.ci.uc.pt/cd25a/wikka.php?wakka=th6

antonio graça de abreu disse...

Claro que era necessário acabar com aquela guerra que não iríamos ganhar, mas também que não estávamos, no terreno de operações, a perder.Era um sofrimento imenso para todos nós
em nome de uma portugalidade, do Minho a Timor, que era pura ficção, não existia.
Mas daí até essa gente que vem depois, "à esquerda da esquerda do Copcon" há que defenir distâncias e opções. Será que não entendem?

Abraço,

António Graça de Abreu

Anónimo disse...

Os heróis do Prec:

Pois é, tempos para esquecer, ainda não foi enterrado o machado de guerra.
Esta lista, não conheço nenhum, nem tenho prazer, são nomes para simplesmente esquecer, não fazem bem ao País, à Pátria, trataram da vidinha deles, e como diz o camarada Carlos Gaspar, deixem ficar a porta do armário 'bem fechada'.
Fantasmas, já há muitos, não me revejo nesta situação, e não quero criar mais polémicas, se abro a boca sai mesmo asneira acompanhada de 'agressividade', que não consigo controlar. O nosso País perdeu toda a sua independência e o Império foi-se.

Bom dia,

Virgilio Teixeira

Anónimo disse...

Sempre os tais reflexos Pavlovianos meu caro senhor G.de Abreu?
Ou será antes o tal "caldo de cultura de Freudianismos Maoístas" feito?

Ao dar-se ao trabalho de ler os louvores e observar as medalhas concedidas por feitos em combate, em dois bem diferentes teatros da guerra colonial,recebidas pelo comando Matos Gomes,compreenderá,talvez,que ideias diferentes das suas,sempre muito convenientemente atualizadas,poderiam fazer sorrir alguns dos das "esquerdas de esquerda do COPCON".

Santos Silva.

Valdemar Silva disse...

Mais umas para os 'Coletes Amarelos':
'Trataram da vidinha deles' - 'Independência já' - 'Queremos o Império de volta' - 'Queremos o ano de 1973' - 'Queremos os nossos pretinhos'.
Palavra de honra, só mesmo estando a brincar já não tendo idade pra isso.

Valdemar Queiroz

Manuel Bernardo disse...

A designação correcta em 1973 é Movimento de Capitães, a que eu pertenci em Moçambique. o rótulo MFA apenas surge depois do 16 de Março de 1974, por proposta do então General Antonio de Spínola - vide declarações de Otelo e Vasco Lourenço nos 30 anos do 25ABR, em Oeiras, publicadas em livro.

Anónimo disse...

Demarcando-me totalmente da revolução dos coletes amarelos, aqui e ali, julgo na minha modesta opinião de uma pessoa apolítica e que não quer saber nada disso, que o que está no intimo das pessoas de boa fé que vão para a rua destruir tudo, é manifestarem a sua grande revolta quanto ao ponto a que chegou a 'corrupção' a todos os níveis, e a impunidade incrível que se manifesta, e que acaba com toda a gente absolvida, e os mais pobres cada vez mais pobres.
O país, não suporta mais esta impunição que se vive.
Julgo que isto é o resultado do país que herdamos em abril de 74, após um golpe de estado contra um Governo legalmente constituído, que lançou tudo e todos nesta lama em que a maioria se vai alimentando dela.
E pela minha parte acabou a minha participação.
Virgilio Teixeira

Manuel Bernardo disse...

Pois, Marcelo Caetano teve, desde 1968, a possibilidade de negociar o fim da guerra, única maneira de acabar com ela. Como não o fez e a guerra durava havia 14 anos (eu e os oficiais de QP da minha geração fizemos quatro comissões por imposição) depois de ter falhado a última tentativa do Gen. Spínola em 1972, resolvemos avançar para o seu derrube, visto não haver outra solução. Ele continuava no "Do Minho a Timor!"